Suit of Hearts
3 Aceitação
Notas iniciais
Confesso que esperei sentir algo diferente, mas não senti nada.
— O que houve?
Olhei ao redor e percebi que não estava mais sentado. Agora estava de pé, olhando para Sarah. Ela olhava para mim com certo grau de satisfação.
— Bom, a primeira parte do seu treinamento começou. – Disse ela com um olhar estranho.
Foi então que eu percebi. Olhei para trás e me vi sentado de olhos fechados no chão.
— Eu estou morto? – Não sabia se era assim que se morria, mas não andava experimentando atividades extracorpóreas também.
— Não. Eu te desconectei do seu corpo. – Disse ela com um tom tão natural que me fez quase acreditar que aquilo era normal. – Quando se trabalha com magia, é essencial que seu corpo e sua mente se mantenham perfeitamente equilibrados e estáveis entre si. O que eu fiz foi romper a fraca ligação que sua mente estabeleceu com seu corpo para que você possa criar uma mais forte e resistente. Caso contrário seria arriscado começar o treinamento levando em consideração que você poderia desestabilizar-se a qualquer momento.
— Interessante explicação e tudo mais, mas... como exatamente eu crio uma ligação mais forte e resistente?
— Bom, isso você vai ter que descobrir por conta própria. – Ao falar isso, Sarah sentou e fechou os olhos. Tenho a impressão de que não seria tão fácil assim acordá-la.
Restava-me uma opção, conseguir fazer a tal da ligação. Isso não podia ser mais difícil que uma prova de psicopatologia.
— Nenhuma ajuda? – Não custava perguntar, porém Sarah continuou parada de olhos fechados.
Olhei para o meu corpo, tentei simplesmente sentar em cima dele. Nada feito, obviamente. Se eu não consigo me fundir ao meu corpo, posso pelo menos aproveitar a oportunidade para explorar esse cativeiro. Tentei chegar perto das barras de metal que separavam a cela de dinossauro do resto do prédio, porém quanto mais perto eu chegava, mais fraco me sentia.
— Não faria isso se fosse você. – Ela abriu um dos olhos e o mirou em mim. – Como já disse, isso é uma sala de isolamento, se você sair daqui pode não ser capaz de voltar e perder completamente o contato com sua mente.
— Podia ter me explicado isso um pouco, não sei, antes? Tipo antes de arrancar minha mente do meu corpo?
— Não arranquei sua mente do seu corpo. A ligação estava tão fraca que foi mais para um empurrãozinho do que para qualquer outra coisa. – Ela abriu o outro olho e percebi que fazia um olhar um pouco frustrado. – Tá, vou te ajudar um pouco. Sente-se.
— Não é como se eu tivesse muita escolha né. – Sentei-me entre ela e o meu corpo.
— Feche os olhos e mentalize uma sala. Você está do lado de fora dela e há uma porta na sua frente. Encontre a chave em você e abra essa porta.
Foi estranhamente fácil entrar nisso, nunca tinha sido muito bom imaginando ou mentalizando coisas, mas isso foi mais natural do que eu esperava. Tateei todo meu corpo em busca de uma chave, mas meus bolsos e carteira estavam vazios. Olhei ao redor, não havia nada além da porta na minha frente. Não havia tapete, varanda, vaso de planta pendurado, nada onde eu pudesse encontrar uma chave. Isso queria dizer que eu não tinha a chave para o meu corpo?
— E se eu não encontrar a chave? – Mesmo sem sair da mentalização, percebi que ainda conseguia falar em voz alta.
— Você vai encontrar. Só não está encontrando porque não está procurando da maneira certa.
Foi então que eu percebi. Como eu posso ser tão estúpido? Eu nem ao menos tinha prestado atenção na porta. Não havia buraco nenhum para chave ali. Era algo que eu tinha comigo que me permitia entrar por aquela porta. Algo que provavelmente só eu possuía. Só eu teria como utilizar. Isso era meio óbvio, caso contrário qualquer pessoa que visse meu corpo jogado no chão poderia forjar uma chave mágica e me possuir. Estiquei a mão na maçaneta e a girei. O quarto se abriu e a luz branca que existia do lado de fora do quarto começou a adentrar a porta junto comigo. Assim que passei pela porta, ela se transformou. Não era mais uma porta, era apenas um buraco na parede. Um buraco com o diâmetro de uma bola de basquete pelo qual a luz que vinha de fora passava. Abri os olhos.
— Consegui! – Falei isso assim que percebi que tinha voltado para meu corpo. – Eu não estou morto no fim das contas!
— Eu não teria tanta certeza disso ainda. – O rosto de Sarah estava sério dessa vez. Tentei imaginar se gostaria de vê-la nervosa. Acho que não. – Você abriu a primeira porta, a porta do equilíbrio. É por ela que toda a energia que você pode utilizar para fazer magia entra.
No momento que ela falou isso eu comecei a entender o que ela queria dizer. Eu sentia meu corpo sendo inundado por uma força que nunca senti antes. Era tão revigorante que chegava a queimar. Até demais.
— E sobre a parte de eu ainda não ter certeza se estou morto ou não?
— Seu corpo acabou de virar um ima para a energia, porém você ainda está isolando a energia dentro de si mesmo. Tanta energia assim precisa circular, e no momento que ela não tiver mais espaço...
— Já entendi. Como eu faço para criar espaço? – Comecei a sentir toda aquela energia querer transbordar de mim. Era demais. A sensação de queimação que começou como uma azia, agora já era como uma fogueira em brasas dentro do meu corpo. – De preferência responda rápido. Tem alguém morrendo aqui.
— Volte para aquela sala. – No exato instante que ela falou fechei meus olhos. Não é tão fácil se concentrar com a sensação de estarem fazendo espetinho mágico dos seus órgãos, mas por fim consegui.
— Ok, estou dentro. – Senti a mão dela tocando meu ombro. O que aliviou levemente a sensação do churrasco canibal.
— Vou tentar diminuir o máximo que conseguir. Agora, rápido, existem três portas em algum lugar do quarto. Uma delas é a porta da mente, outra é a porta dos sentimentos e a terceira é a porta do destino. Não espero que você consiga abrir as três de primeira. Mas no mínimo uma e idealmente duas delas precisam estar abertas para que a energia passe livremente pelo seu corpo como se você fosse um condutor.
Eu achei as três portas no exato instante em que ela falou. Não existiam etiquetas ou placas, mas eu sabia exatamente qual porta era qual por algum motivo. Andei diretamente para porta da mente. Era uma réplica da primeira porta que eu tinha aberto, sem buraco de chave, apenas a maçaneta. Girei-a facilmente. Ela abriu.
— Ok, um terço do trabalho feito. – Não sabia mais se estava falando ou se estava apenas pensando, mas decidi não refletir muito sobre aquilo ali.
Por mais que eu tivesse aberto uma das portas, a energia ainda parecia muito intensa ali dentro. Eu precisava abrir outra. Sarah disse que eu não precisaria abrir todas as três de uma vez, imagino que se conseguir abrir mais uma, será o suficiente.
— Ei! – Sarah gritou. – Sei que não deve estar sendo um trabalho muito fácil, mas você poderia se apressar um pouco mais? Não é como se fosse a coisa mais fácil segurar toda essa energia daqui também. – Tenho certeza que o tom que ela tentou passar foi irônico, mas só o que eu ouvi foi uma mescla de desespero e pressa.
Dirigi-me para segunda porta. A porta do destino não era diferente das outras. Maçaneta. Sem fechadura. O procedimento deveria ser o mesmo, certo? Tentei abri-la assim como fiz com as outras.
— Por quê? – Não sei porque fiz essa pergunta em voz alta, mas não era como se eu pudesse evitar. Não era como se eu ainda estivesse no controle de nada que estava acontecendo ali.
— Por que o quê? – A voz de Sarah transparecia impaciência. Ou seria medo? Resolvi não tentar distinguir.
— Por que isso tudo? Por que estou aqui? Por que aqui? Por que eu? Por que você? Por que agora? Não vejo sentido nisso tudo.
— A porta do destino né? – Ela arqueou as sobrancelhas. – Bom, não é como se a culpa fosse sua de duvidar de tudo. Eu também duvidaria se eu fosse você. Mas sabe, no momento o seu destino é, aliás, estamos tentando impedi-lo de ser algo não tão melhor do que não saber disso tudo.
— Mesmo assim. Não consigo abrir a porta assim. Sinto que deveria entender mais para abrir isso. Eu não consigo abrir sem saber absolutamente de nada que me espera.
— Seu pensamento está errado. – A voz de Sarah estava ofegante, o suor pingava do rosto dela. Não entendi o porquê imediatamente, mas acredito que ela estivesse transformando a energia que estava absorvendo de mim em calor. Ela ia derreter. – Eu sei que provavelmente você está acostumado a ter perfeito controle da direção da sua vida, mas existem coisas que nós simplesmente aceitamos. E talvez, só talvez, mais tarde descobrimos o motivo de terem acontecido.
— Aceitação?
— É, Aceitação.
A maçaneta girou. Empurrei a porta. Ela não abriu mais do que uma fresta de cerca de 20 centímetros, mas foi o suficiente. Senti aquele fluxo de energia acumulado começar a transpassar por mim. Entrar, passar e sair. Como uma descarga de eletricidade em um corpo d’agua. A sensação era no mínimo aterrorizante. Abri meus olhos.
— Aceitação é um ótimo remédio.
— A porta não abriu por completo. – Eu expliquei. – Apenas um pouco. Como se estivesse encostada e uma brisa passasse e a deixasse entreaberta.
— Eu falei. Não é como se fosse conseguir fazer tudo em um dia só. – O rosto dela mudou. – Mas porque só tentou essas duas portas?
— Como assim?
— A porta dos sentimentos. Por que não tentou abri-la também? Costuma ser mais fácil do que a do destino.
— Ah, isso. – Na pressa eu tinha esquecido porque pulei essa porta. – Não tinha como abri-la.
— Você não conseguiu?
— Não havia maçaneta.
Os olhos dela se assustaram e então voltaram ao normal. Foi tão rápido, que eu não vi. Preferi não ver. Parecia complicado demais para ver.
— Algo de errado? – Perguntei.
— Tecnicamente. – Respondeu ela se esforçando para ser vaga. – Mas uma coisa de cada vez. Eu estou ensopada, vou tomar um banho. Agora que você já abriu as portas pode sair daqui. Vou apresenta-lo para o resto do naipe!
— Naipe?
— Você não aguenta ficar sem perguntar nada por mais de três segundos?
— Acredito que não.
Apenas falei e a segui. Precisava começar a aceitar algumas coisas.
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