Suicide Girl
2 Detenção
Notas iniciais
Se Joseph soubesse que suas aulas de Química iriam até a hora do almoço, teria facilmente escapado das três longas e intermináveis horas com a desculpa esfarrapada de estar perdido. Para ajudar, perdeu quase a metade do horário destinado ao almoço por não conseguir encontrar o refeitório. Nada poderia melhorarr o humor de Joseph, nem mesmo se Guinevere aparecesse como um passe de mágica.
Mas as coisas sempre pioram. Joe teve certeza disso ao voltar no mural com a listagem de horários. Sua próxima aula seria de Biologia, ele simplesmente odiava Biologia. Felizmente, ao entrar no laboratório, encontrou uma cadeira vaga nos fundos da sala e dirigiu-se à ela sentando-se.
Observou os outros alunos lentamente, um a um, encherem a sala. Joe permanecia com os olhos fixos na direção do chão perto da porta de entrada, e então, reconheceu um par de botas estilo soldado.Mia.
A garota mastigava um chicletes insaciavelmente e dirigiu-se ao lugar de Joe.
― Vaza! ― rosnou ― Esse lugar é meu!
― Desde quando? ― rebateu Joe.
― Desde quando eu decidi que é meu. Aliás, meu nome está na cadeira, então, some! ― ela fazia um gesto com as mãos para que Joe se retirasse dali, mas o mesmo, continuou intacto, determinado a manter-se ali.
― Duvido. Acha mesmo que vou cair nessa?
― Se tá duvidando tanto, levanta. ― ela lançou-lhe um olhar desafiador. Joe cedeu e pôs-se de pé. E sim, o nome dela estava escrito na cadeira.
― Viu só? ― Mia sorria, vitoriosa enquanto Joe pegou sua mochila e dirigiu-se a única cadeira ainda vaga, sob gritos abobalhados de "Mandou bem, Mia!", na frente da mesa do professor.
A aula transcorreu terrivelmente chata aos olhos de Joe. Tudo que ele menos precisava agora era ficar analisando células de plantas. Apesar de não gostar da matéria, ele acertava todas as amostras que colocava no microscópio. E ficou por um tempo, assim, concentrado trabalhando nas amostras, até que eu ouviu um berro.
― Porra, Luke, quantas vezes eu preciso dizer que essa bosta é cebola? ― era Mia gritando com o garoto que tinha sido "legal" com Joe no começo da manhã.
― Caralho, Mia! Se eu tô dizendo que isso é babosa, é porque é babosa! ― rebatia Luke.
― Mia, Luke, chega! ― gritou o professor batendo um pesado livro na mesa. ― E senhorita, essabosta ― continuou ele fazendo aspas no ar ao se referir ao adjetivo que Mia deu à amostra ― faz parte da sua nota semestral, portanto, respeito. E a propósito, é babosa. Parabéns, Luke!
― Toma, babaca! ― Luke fazia uma espécie de dancinha comemorando.
― Precisa prestar atenção, Mia, até dois anos atrás suas notas eram as melhores da classe. Acho que seu problema é o Luke, vou trocar sua dupla. ― o professor disse passeando pela classe.
"Qualquer um menos eu, qualquer um menos eu..." Joe gesticulava baixinho.
― Hm, vejamos, Jonas... ― o professor pegou a ficha onde Joe anotava as respostas e começou a analisá-las. ― Muito bom... ― pousou o papel sobre a carteira de Joe e continuou dizendo ― Mia, acho que encontramos um novo parceiro para você.
― Droga. ― bufou Joe baixinho.
― Vou fazer da sua vida um inferno. ― Mia grunhiu enquanto jogava seus materiais sobre a carteira dele.
― Eu mereço, eu mereço. Primeiro dia de aula e já me colocam perto de um pé no saco. ― Mia bufava enquanto analisava as amostras. ― Tudo cebola. ― concluiu devolvendo as amostras à Joe.
― Posso conferir?
― Vá em frente.
― É, você tem razão. ― Joe cedeu por fim. ― Cebolas.
― Sabe o que isso tá parecendo? ― Mia perguntou franzindo a testa.
― O quê?
― Aquela cena de Twilight.
― Tem razão. ― Joe deixou escapar um sorriso.
― E eu odeio Twilight. ― ela resmungou rolando os olhos ― Não vá me dizer que você é um vampiro e eu vou cair de amores por você? ― ela abriu a boca em um grande "O" fazendo gestos fantasmagóricos com as mãos.
― Não, tonta.
― Me chamou de quê? ― Mia gritou baixo com os grandes olhos azuis arregalados.
― Tonta. ― Joe repetiu ― T-O-N-T-A! ― soletrou o "xingamento" para que Mia entendesse bem.
― E você é um viadinho! ― Mia gritou mais alto enquanto quebrava um frasco com líquido verde na cabeça de Joe.
― Mia, Joe. Detenção. AGORA! ― o professor disse apontando à porta.
― Professor, foi ela... ― Joe tentou explicar-se, mas por fim, deu-se por vencido e seguiu Mia porta afora. Não tinha noção alguma de onde estava indo, e, por um momento, sentiu-se um idiota por ir atrás daquela maluca, afinal, a mesma havia quase partido a cabeça dele ao meio minutos antes. Após uns cinco minutos andando pelo campus do St. Peter, chegaram ao prédio administrativo, onde, Mia facilmente encontrou a sala de detenção e abriu a porta. Era uma velha conhecida do lugar.
― Oi senhora Johnson.
― Mia! ― a senhora gorducha de óculos parecia feliz em vê-la ― A que devo a honra da sua visita à minha humilde sala de detenção?
― Quebrei um frasco de vidro na cabeça desse aí. ― Mia deu de ombros indicando Joe com a cabeça.
― Ah sim. Novato? ― a senhora perguntou e Joe confirmou com um aceno de cabeça ― Bem vindo ao St. Peter, vejo que já conheceu nossa menina prodígio, Mia Lockwood.
― Minha cabeça conheceu melhor que eu. ― Joe bufou indicando o corte que Mia havia feito.
― Que seja. ― a senhora fez pouco caso do machucado de Joe, e, dirigindo-se à Mia, continuou ― O que tem hoje para mim, Mia?
― Vejamos... ― Mia abriu sua gigante mochila de couro em cima de uma das carteiras da sala ― Batatas, energético, balas, e ah, claro, frango frito. ― ela retirou um a um da mochila, exibindo um sorriso orgulhoso para a senhora gorducha.
― Traz frango frito para a escola? ― Joe perguntou com um ar um tanto impressionado.
― Trago o que quiser, é só pedir. E é claro, pagar.
― Vou ficar com as batatas e o frango frito. ― a senhora Johnson parecia satisfeita com o cardápio.
― São sete dólares.
― Aqui está. ― a senhora Johnson passou um punhado de notas à Mia, que guardou no bolso do velho jeans ― Não esqueça Mia, é segredo.
― Shiu. ― Mia pôs o dedo indicador sobre a boca.
― Podemos confiar nele? ― a senhora Johnson indicou na direção de Joe, que ainda estava abismado com a situação que acabara de presenciar.
― Acho que podemos. E se ele ameaçar contar, eu corto a cabeça dele. ― Mia zombou.
― Bem, crianças, meu delicioso frango frito me espera. Vou deixá-los sozinhos por alguns minutos, Mia, conhece as regras.
― Sim senhora Johnson, nada de cigarros, nada de bebidas, nada de falar, nada de levantar, etecétera e tal. ― Mia declamou as regras rolando os olhos.
Assim que a senhora gorducha saiu da sala de detenção, Mia abriu novamente sua bolsa e retirou de lá um maço de cigarros. Acendeu um, deu uma forte tragada e soltou toda a fumaça no rosto de Joe, que tossiu desacostumado com o forte odor.
― E as regras, Mia? ― Joe indagou ainda tossindo.
― Esse é o legal das regras, foram feitas para serem quebradas, querido.
― É o meu primeiro dia no St. Peter, Mia. Tudo que eu menos quero agora, é encrenca. ― Joe pegou sua mochila e dirigiu-se à porta, sendo barrado pela senhora Johnson, que voltava com a boca engordurada após comer seu frango frito.
― Senhor Jonas, já fugindo da detenção? Diretoria, agora!
― Senhora Johnson, a Mia estava fumando. ― Joe soltou, raivoso.
A esta altura do campeonato, Mia já havia se desfeito do cigarro que tragava, e lançou seu grande par de olhos azuis com inocência para a senhora Johnson.
― Eu? Imagina senhora Johnson! Pode me revistar se quiser. ― Mia dizia descaradamente enquanto a mulher olhava sua bolsa.
― Limpa. ― concluiu a mulher por fim ― Não tolero mentiras no St. Peter High School, Jonas.
― Por que não dá uma olhada na bolsa dele? ― Mia sugeriu malandra.
A senhora Johnson então pôs-se a revistar a mochila de Joe, e finalmente, no último bolso, encontrou o maço de cigarros que Mia escondera lá.
― Cigarros vão contra as regras St. Peter, Jonas. ― a mulher ralhou ― Mas creio que pode continuar sustentando seu vício em casa durante os dias em que ficará suspenso.
― Suspenso? ― Joe estava incrédulo.
― Isso mesmo, já pode ir para casa, mostre a saída mais próxima à ele, Mia.
― Com prazer, senhora Johnson. ― Mia respondeu prontamente puxando Joe pela mão para fora da sala.
― Sua maluca, você me paga. ― Joe resmungou entredentes enquanto cerrava os punhos.
― Eu disse que ia fazer da sua vida um inferno. ― Mia sorria angelicalmente.
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