Suicida e Psicopata
1 Capítulo único
Notas iniciais
"Não existe nada mais bonito do que o amor de uma suicida e um psicopata" Eu me lembro de ouvir essa frase de uma amiga, enquanto íamos para o curso de direito. Fiquei curiosa e então perguntei a ela o porquê e ela me disse sorrindo "Por que ele mataria por ela e ela morreria por ele".
Durante minha vida talvez uma frase nunca encaixasse tanto quanto essa e essa história é sobre como não existe nada mais bonito do que o amor de uma suicida e um psicopata.
Foi numa quarta feira de agosto, me lembro de ter escolhido no meu guarda-roupas meu short branco que tinha acabado de comprar e estava maravilhada em como caiu bem no meu corpo aquele short curto. Saímos eu e uma amiga de infância para o cinema e quando estávamos lá, um rapaz veio até mim e me perguntou se eu poderia ajudá-lo a escolher um filme, pois ele realmente não conhecia nenhuma franquia da bilheteria naquele dia e eu o convidei pra ver o mesmo que a gente. Sentamos próximos e logo trocamos números de telefone, minha amiga me incentivou a chamá-lo pra sair e eu o fiz.
No outro dia bem cedo, busquei na casa de uma amiga da faculdade meu vestido que havia lhe emprestado, queria aquele, pois ia ser 'O vestido'. Nada podia dar errado.
Ele se chamava Zach, eu achei diferente e logo percebi que num geral, ele era diferente de todos que já tinha saído. Um perfeito cavalheiro e com direito a um pequeno ciúmes logo no primeiro encontro, sim, ele tá totalmente na minha!
Zach e eu saímos por mais duas semanas até eu perceber que aquilo era um namoro. Ele não tinha pedido ainda, mas o que mais poderia ser? Nesses últimos tempos não existia mais eu sem ele e nos conectavamos de forma mágica e eu decidi passar mais tempo com ele e minhas amigas derretiam todas as vezes que eu contava sobre o quanto estávamos juntos nessa paixão e quando fizemos um mês, ele me apresentou pra família e nesse momento passamos pelo primeiro obstáculo da relação.
Seus pais eram de família rica e segundo eles o futuro filho médico iria se envolver com uma estudante de direito metida a besta que havia acabado de ler sobre contratos nupciais. Eu fiquei estarrecida com tudo aquilo, mas Zach foi ali mais uma vez ao meu favor e me mostrou por que eu escolhi ele. Por mim ele arriscou tudo e enfrentou seus pais, eles diziam que eu ia acabar com a vida dele e ele disse que se eles não aceitassem iria sair de casa. E tudo isso com um mês, foi um misto de sensações dentro de mim.
Sentia medo de perder meu namorado, raiva por não ser a nora dos sonhos e tristeza por eles serem tão grossos.
Ele saiu de casa aos 24 e eu lhe jurei que estaria ao lado dele pra todos os momentos pois ele escolheu estar do meu lado, ele me amava e eu o amava de volta, iria bastar.
Fomos a uma balada pela última vez, quando um homem veio até mim enquanto Zach ia ao bar pegar bebidas e me assediou, Zach como sempre zeloso e bom namorado, não aceitou, ele interferiu no assunto e mandou o cara ir embora, da melhor forma possível naquele momento, com um soco.
Minha adrenalina subiu e desceu várias vezes aquela noite. Que sensação! Eu fui protegida pelo meu homem, mesmo que tenhamos que ter saído as pressas da boate e encontrar um contato do Zach para que não fossemos levados a delegacia. Muito drama por nada, ele apenas quebrou um copo na cara daquele nojento, que outro homem não faria isso pra defender sua namorada?
Claro que na hora eu assustei e me perguntei sobre o certo e errado, mas eu logo percebi que o lógico a se fazer é se unir aquela pessoa que quer meu bem e de novo foi um ato de defesa. Então comecei a perceber que talvez Zach fosse o outro lado da minha história, meu complemento de história mais bonita, Zach era meu psicopata e eu era sua suicida, ele me ama e isso vai ser suficiente.
Na casa desse contato, enquanto riamos e conversávamos, ele me apresentou uma droga que eu já conhecia por nome, porém eu nunca tinha visto, inicialmente eu estranhei tudo, porém eu fui ficando confortável e todos ali me tratavam como uma deles e eu naquele momento senti que fazia parte de algo, algo emocionante e não aquela vida solitária e vazia que eu tinha antes dele. Ele riu e disse que deveríamos experimentar, que se não gostassemos era só não usar da próxima. Foi desconfortável no começo, meu nariz ardia e eu realmente sentia o peso da palavra "Cocaína" sob meus ombros, socialmente não é bem aceita, mas a sociedade inveja a todos que estão se dando bem também, não é mesmo? Veja bem, pras minhas amigas, que antes adoravam meu namoro, agora é algo "intenso demais". Elas reclamam por que eu não vou com elas ao shopping todo dia mais, mas e eu? Do que adianta ir sempre a um lugar como aqueles e me sentir só. Com ele eu sou completa e sem ele eu não vou, inclusive ele mesmo não gosta, entendemos um ao outro e entramos nesse consenso. Sem Zach, sem mim e isso é tudo.
Eu comecei a me arrepender da vida que levava nesses últimos três anos e eu não sabia o que fazer, e se ele me achar careta? E se ele me trocar? Essa noite eu irei dizer a ele que tudo bem nos encontramos com aqueles amigos, mas eu não iria mais usar cocaína.
Ele chegou em casa, praticamente nossa casa desde que larguei a faculdade, eu fico mais aqui do que na minha casa e meus pais estão acostumando com a ideia ainda de eu me mudar. Zach diz que talvez a melhor parte dele estudar medicina e ter seus estágios e bicos remunerados é poder me dar tudo que eu quero e aí eu não precisarei passar tanto tempo longe dele.
Mas nessa noite ele chegou nervoso, resmungou algo sobre seu patrão não lhe dar devido valor e que ele deveria botar fogo em todos eles.
É até bonitinho a forma como ele expressa essa raiva e então ele perguntou se eu queria ficar com ele naquele horário mesmo e deixava a janta pra depois, poderíamos pedir e eu disse que talvez fosse melhor não, mas como sempre meu amado me surpreende, ele me convenceu com sua pegada que aquele era o momento que precisávamos daquilo. Digo, inicialmente foi tudo muito chato, pois eu não sentia vontade, mas depois eu fiquei feliz dele poder esfriar a cabeça e passei a curtir o momento.
Pedimos a comida e eu dormi. As três da manhã eu acordei com uma ligação da minha mãe aos prantos, dizendo que sentia saudade e que eu voltasse pra casa. Zach não gostou do que ouviu enquanto dormia, minha mãe era dramática demais, não iria morrer só por que eu saí de casa pra morar com meu namorado.
Decidi rever minha amiga de infância, ela casou e está grávida, então fui ao chá de bebê e lá rimos, bebemos e comentamos sobre as coisas, mesmo com a criança quase vindo ao mundo, ela finalmente se formou e me encorajou retomar os estudos, só pra ter algo realmente no currículo. Zach não gostou da ideia na nossa pequena discussão e ele me deu um tapa aquele dia. Eu lembro de fazer as malas e enquanto descia as escadas do prédio, ele se ajoelhou e disse que aquilo nunca mais iria acontecer de novo, e que dessa vez não ia ser como a última, ele realmente iria mudar.
Bem, estamos juntos a tanto tempo e somos tanto um pro outro que eu sei que posso acreditar nele.
Comecei a ler uma história na internet sobre a garota suicida, no qual me identifiquei, ama um psicopata que é capaz de amar somente ela. E eu me apaixonei pela obra, eu identifico no homem da história o Zach, e bem a melhor parte é que psicopata o meu namorado não é.
Eu perdi meu pai numa quarta feira e ele se foi sem se despedir, ele brigou comigo após brigar com meu namorado, disse que eu não poderia ser a filha que ele criou e isso me abalou um pouco, o que as pessoas pensam? Só elas têm direito de amar? Só elas escolhem bem? Zach e eu somos o par perfeito e ele nunca vai me largar.
Zach me largou, ele simplesmente disse que não dava mais, eu não estava o respeitando, mesmo tendo deixado de usar os shorts curtos e as roupas de puta, eu ainda mantinha o batom e perfume que lhe irritava e ali eu me estabaquei, minhas amigas de tempos atrás me apoiaram e disseram que eu poderia ser mais e ter mais que aquilo, mas eu sabia que não. Ele era bom demais pra mim e graças a Deus ele voltou atrás nessa decisão e eu prometi ser mais dedicada.
Zach e eu nos casamos no domingo, e eu estou aqui as 00:00 de segunda esperando a moça que fará minha maquiagem pra entrega de uma menção honrosa do meu marido em sua profissão, eu até iria mais natural, mas eu no mínimo quero esconder o roxo do olho.
( ... )
Bem, essa história se passou toda em anos, porém aqui em questão de minutos, aqui estou eu, desesperada por ajuda dos vizinhos que não vão mais me ajudar como das outras vezes, Zach se descontrolou de novo e me ameaçou de morte, inclusive toda essa vida que acabo de recordar, passou diante meus olhos ainda agora, pois ele ainda bate desesperado atrás da porta que nos separa.
E posso afirmar olhando de agora, que de todas as minhas escolhas até hoje, essa, é a mais sábia.
Eu aceitei meu destino, no meu conto de fadas. O trinco da porta está pra estourar e daqui do quinto andar, eu venho aceitar meu papel.
Por que não existe nada mais lindo, que o amor de uma suicida e de um psicopata. Mas hoje eu iria dizer pra minha amiga a resposta mais exata. Essa resposta que eu só cheguei a conclusão sentindo o vento no meu rosto batendo muito rápido do quinto ao, quarto e logo ao terceiro, segundo, primeiro...
Não existe nada mais lindo que o amor de uma suicida e um psicopata, por que ele mataria e ela é o aviso de perigo pras outras suicidas que ele poderia amar.
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