Suburbia
3 Capítulo 03 - Janela Indiscreta
No dia seguinte, pela manhã, Henry e Max estavam se arrumando. Henry estava com seu habitual terno, enquanto Max vestiu apenas uma camisa social branca com uma calça cinza e um cinto, muito formal.
Como sempre, Henry se aproximou com sua gravata desarrumada e Max deu um nó. Ele nunca aprendera a fazer aquilo.
— Eu estou um pouco nervoso — comentou. — Não sei o que esperar de hoje.
— Pois eu sei exatamente o que esperar hoje — disse Henry. — Você é lindo, inteligente, tem um currículo invejável e já publicou um livro, por que eles não te escolheriam?
— Não sei, não gosto de criar expectativas.
— Mesmo assim, acho que você deveria estar mais confiante, isso ajuda muito.
— Eu vou tentar.
A campainha tocou.
— Eu atendo — disse Henry, saindo do quarto.
Ele cruzou o corredor e desceu as escadas, caminhando até a porta e olhando pelo olho mágico. Virginia, agora usando um vestido verde e branco com os cabelos curtos soltos. Ainda parecia uma dona de casa dos anos 50.
Henry abriu a porta e viu-se obrigado a pôr um sorriso no rosto.
— Virginia! — disse ele, forçando uma animação que não existia. O que diabos aquela mulher queria tão cedo?
— Ah, bom dia, sr...
— Pode me chamar de Henry.
— Tudo bem, Henry, hm... Eu gostaria de falar com vocês dois um minutinho, estão muito ocupados?
— Na verdade...
— Não deve demorar mais de três minutos.
— Tudo bem, eu vou chamá-lo... Por favor, entre.
Ela entrou educadamente, segurando sua bolsa verde com as duas mãos.
— Só um segundo.
Henry fechou a porta e subiu as escadas. Cruzou o corredor e entrou no quarto. Max estava no banheiro, em frente ao espelho.
— É a mulher das tortas de novo — disse ele. — Ela disse que quer falar conosco.
— Sobre o quê?
— Eu não sei, ela está lá embaixo.
Quando os dois desceram as escadas, ela estava em frente à estante de madeira, observando os retratos com curiosidade. Quase se espantou quando Max disse "oi".
— Ah, espero não estar atrapalhando — disse ela, vendo que os dois vestiam roupas formais. — Eu não vou demorar.
— Não se preocupe, ainda temos tempo — falou Max.
— Eu só queria avisar que amanhã acontecerá a nossa feira mensal... É uma bela oportunidade para se livrar das coisas velhas. Bem, eu acho que vocês ainda não têm, mas seria legal dar uma passada lá, vai ser aqui na rua mesmo.
— Bem, isso parece divertido — disse Max. — Nós vamos aparecer por lá sim.
— Hm, era só isso... Eu falei que não ia demorar, não foi? — Virginia riu e eles também. — Enfim, eu tenho muitas coisas a fazer e, aparentemente, vocês também, então eu vou deixá-los em paz.
Ela olhou ao redor, para a casa, depois encarou a estante com os retratos e troféus. Olhava tudo com uma curiosidade interessante. O que ela queria?
— Então até mais, senhores — disse ela, virando-se para ir embora.
Henry foi na sua frente para abrir a porta.
— Ah, Virginia, só uma coisa — disse ele.
Ela se virou, sorridente.
— Você conhece alguma mulher ruiva? Cabelos longos, pele pálida, provavelmente anda sempre com vestidos longos...
Virginia tirou o sorriso do rosto na mesma hora.
— O que tem ela? — ela perguntou, com uma curiosidade que não parecia natural.
— Nada, ela estava aqui ontem, eu só queria saber quem ela é.
— Hm... O nome dela é Evelyn, mora na casa em frente à minha, é uma mulher bem reservada, nós quase nunca a vemos sair de casa.
— Sei.
— Ela não fez nada com você, né?
— Não, por quê?
— Nada... Nada — Virginia respondeu um pouco nervosa. — Enfim, eu preciso ir agora... Vocês estão convidados para a feira, apareçam por lá.
— Ok, nós vamos.
Ela saiu apressada sem se despedir. Desta vez não olhou para trás, nem para os lados quando foi atravessar a rua.
Henry olhou para Max e fez uma cara de estranheza. Ele fez a mesma coisa.
***
Algumas horas mais tarde, Max saiu de um enorme prédio para uma calçada movimentada, cheia de pessoas para lá e para cá. A avenida era cheia de outros prédios enormes e estava cheia de carros.
Ele pegou o celular do bolso e ligou pata Henry, enquanto caminhava até o carro com sua maleta pendurada na outra mão.
— E aí, como foi? — perguntou Henry, ao atender.
— Foi incrível — ele respondeu. — Eu procurei ficar o mais calmo possível e acho que me saí muito bem... Acho que ele deve me ligar em alguns dias.
— Parabéns!
— Não é como se eu tivesse conseguido, mas tá valendo.
— O que vai fazer agora?
— Voltar para casa e tentar escrever alguma coisa... Falo com você depois?
— Ok.
— Te amo.
— Também te amo, tchau tchau.
Eles desligaram os telefones. Max entrou no carro e foi embora.
***
Ao chegar em casa, Max subiu diretamente para o quarto e colocou sua maleta em cima de uma poltrona. Em seguida, caminhou até a janela e abriu, deixando a luz do sol entrar.
Tirou toda a roupa, ficando de cueca, e colocou outra mais leve.
Depois de organizar tudo, preparou-se para descer e fazer um sanduíche, mas parou quando viu algo do lado de fora.
A janela do seu quarto tinha uma boa vista para a casa do vizinho, mais precisamente para a janela do que parecia ser o quarto dele.
Tinha um homem naquele quarto, deveria ter quase 1,90 de altura, tinha cabelos escuros, barba muito rala uma aparência muito máscula. Ele estava com roupa, mas era possível perceber que seu corpo era extremamente definido.
Max começou a fechar a janela, se sentindo culpado, mas parou quando viu o homem tirar a camiseta, exibindo um peitoral musculoso e com alguns pelos. Ele não sabia que estava sendo visto, por isso Max achou melhor fechar a cortina. Mas não o fez.
Estava se achando um canalha por fazer aquilo, mas não conseguia parar de olhá-lo. Era como um deus grego.
O homem tirou a calça e ficou apenas de cueca branca. Max começava a sentir seu pênis latejando dentro da calça.
O vizinho deu a entender que ia tirar a cueca, mas antes de fazer isso, lançou um olhar malicioso a Max, seguido de um sorrisinho. Ele sabia muito bem que estava sendo visto.
— Droga! — ele exclamou, fechando a cortina de uma vez. Pensou no que acabara de fazer. — Isso foi errado — disse ele, para si mesmo. — Muito errado.
Estava prestes a descer para fazer um sanduíche, mas parou quando ouviu barulhos esquisitos vindo de cima.
Max olhou para o teto, os barulhos pareciam vir de lá. Eram como pegadas. Pegadas no sótão.
Ele sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Caminhou pelo corredor até virar à esquerda e encontrar a porta para o sótão aberta, com a escada montada. Tinha alguém lá.
— Henry? — ele perguntou, caminhando lentamente. — Se quiser me assustar, pode parar, porque já conseguiu.
Ele continuou caminhando e subiu as escadas. Sem entrar no sótão, com a cabeça na altura do piso, ele observou o cômodo. Estava quase vazio, sem tralhas. Não havia ninguém ali.
Max subiu e acendeu a luz, movendo algumas caixas de lugar à procura de ratos. Não poderiam ser ratos, afinal, a porta estava aberta.
Alguém entrou.
Ele gelou de vez quando ouviu uma risada doce e infantil vinda de longe. Olhou para trás e não viu nada, então desceu as escadas rapidamente. Havia uma cabeça virando o corredor, era pequena e pálida, com cabelos castanhos. Era a mesma criança da noite passada, observando discretamente, com aquele sorriso misterioso no rosto.
— Ei! — disse Max, furioso, mas a criança correu quando ele tentou alcançá-la. Tão rápido que quando ele virou o corredor, viu ela sumindo pela escada.
Max correu e desceu as escadas, encontrando a porta da frente aberta. Ele saiu da casa e olhou ao redor na rua. A criança definitivamente havia sumido. Como podia?
Ele voltou para dentro e desta vez trancou a porta. Quem diabos era aquele garoto?
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