Suburbia
8 Capítulo 08 - O Garoto
Não confie em ninguém. Max pensava naquelas palavras, procurando um significado concreto, enquanto esfregava a porta do quarto com uma esponja. O sangue estava saindo, mas a porta ainda estava suja com o líquido vermelho claro formado pela combinação dele com a água.
Havia um balde no chão.
Henry virou o corredor e veio até ele.
— As pegadas terminam no sótão novamente — disse ele, confuso e preocupado.
— Você entrou no sótão?
— Tá louco? E se ela tiver uma arma, ou sabe-se lá o quê?
Max revirou os olhos e soltou a esponja dentro do balde.
— Você vai lá?
— Claro.
Ele virou o corredor e encontrou a porta aberta, com a escada montada. Subiu lentamente e, quando estava com a cabeça na altura do piso, olhou ao redor. Estava muito escuro ali dentro.
Max subiu e procurou a corda para acender a lâmpada. Quando a achou e puxou, as paredes triangulares de madeira do sótão adquiriram uma coloração amarelada por causa da luz.
Ele olhou ao redor.
— Tem alguma coisa aí? — perguntou Henry, que estava na escada.
— Não — ele respondeu, caminhando lentamente até onde as pegadas acabavam. Elas terminavam na janela, como se, depois daquilo, a pessoa tivesse pulado.
Ele olhou para fora e não viu nada na rua e nem na frente da casa. Nada de sangue, nada de sequer uma alma viva passando por ali. Era improvável que ela tivesse pulado e saído caminhando normalmente.
Um barulho o assustou e ele olhou para baixo.
Uma pequena bola colorida rolou de trás de algumas caixas e parou do outro lado. Ele olhou para as caixas, com medo.
Caminhou devagar até lá e tirou as caixas do meio. Havia uma caixa que ele nunca havia visto antes.
A palavra "preciosidades" estava grafada com lápis piloto preto.
— Henry — disse ele.
— O quê? — perguntou Henry, de fora do sótão.
— Suba aqui um minuto.
Ele subiu e caminhou sem pisar nas pegadas de sangue.
— Essa caixa é nossa? — perguntou Max.
— Eu não lembro de ter escrito isso em alguma — respondeu ele.
Max se ajoelhou e pegou a caixa. Sentou-se no chão e a abriu. A primeira coisa que havia ali dentro era um vestido de noiva. Grande e velho.
Ele nem desdobrou, apenas colocou sobre outras caixas.
— Isso definitivamente não é nosso — disse ele.
— Provavelmente é dos moradores antigos — falou Henry.
— Eu entendo que eles possam ter deixado uma caixa com porcarias dentro, mas eu acho que é meio estranho terem deixado uma com o nome "preciosidades", não acha?
— Não sei, vai ver eles esqueceram.
— E nunca voltaram para pegar?
— Talvez.
Ele começou a olhar o que mais havia dentro da caixa. Uma fita cassete com o nome "nosso casamento" escrito, dois cofres de porquinhos, um verde e um rosa, um saco plástico com o que parecia ser um pedaço de carne seca.
— O que diabos é isso? — perguntou.
— É um cordão umbilical — respondeu Henry.
— Merda! — Ele soltou o saco plástico em cima de outra caixa. — Isso é nojento.
— Isso pode ajudar no tratamento de algumas doenças no futuro.
— É, mas não desse jeito.
Ele continuou analisando a caixa. Depois de tirar coisas aparentemente sem valor, ele viu um livro. Não, não um livro. Um álbum.
Max pegou e abriu. Havia vários fotos da antiga família. Na praia, no parque ou em casa. Em todas elas eles pareciam estar se divertindo.
— É o álbum de família — disse ele. — Quem esqueceria isso?
— Vai entender...
— Espere — falou Max, assustado.
— O quê?
— Oh, merda.
— O que houve, Max?
Ele apontou para o garoto da foto, o filho mais novo do casal.
— É ele.
— Ele quem?
— O garoto, Henry, o que entrou na nossa casa!
— Mas essa não é a mãe dele.
Max pensou um pouco, mas a resposta estava clara.
— Então aquela não é a mãe dele — ele falou.
— Você está dizendo que aquela mulher sequestrou o garoto?
— Não sei, ela me pareceu bem louca de pedra... Aliás, todo mundo aqui parece guardar um segredo.
Henry olhou mais de perto o garoto de sunga vermelha na piscina. Definitivamente, era ele.
— Vai ver nem é o mesmo garoto.
— É claro que é, você não está vendo?
— É uma ideia muito louca, Max.
— Por que você sempre quer procurar as respostas mais fáceis pra tudo?
— Eu não estou dizendo que não é, estou dizendo que pode não ser.
— Sophia parece saber de alguma coisa.
— Você ainda acredita no que ela disse?
— E você não? Essa merda está cada vez mais estranha.
***
No dia seguinte, Max saiu de casa apressado. Ainda era bem cedo.
Ele caminhou pela calçada em direção ao fim da rua. Olhou para o lado e viu Virginia o observando com curiosidade enquanto aparava as folhas dos arbustos ao redor da sua casa com uma enorme tesoura.
Max não acenou e nem falou nada, apenas a ignorou e continuou caminhando.
Ao chegar em frente à casa de Sophia, dirigiu o dedo até o botão vermelho, mas parou ao ver que a porta estava entreaberta. Pela fresta, ele podia ver uma cadeira de rodas vazia na sala. E na sua frente, uma mulher caída.
Ele entrou na casa com urgência para ajudar a tal mulher, que ele associou à mãe da garota.
— Sophia! — exclamou ele, quando chegou até a mulher.
Tocou o braço dela, mas suas mãos afundaram em um tecido macio. Ele se aproximou mais e tocou os cabelos loiros dela. A peruca saiu com sua mão, revelando um couro cabeludo de pano.
Max virou o rosto da mãe de Sophia e viu que era uma boneca de pano, com um rosto mal feito, como se tivesse sido desenhado por uma criança.
Confuso, ele se levantou. Virou-se para ir embora, mas deparou-se com Virginia, aparentemente furiosa. A aparência de mulher inocente e curiosa tinha desaparecido e agora ela parecia uma mãe irritada com um filho que desobedeceu alguma ordem.
— O que você faz aqui, sr. Walker? — ela perguntou, segurando a grande tesoura de jardim.
Ele se assustou.
— Eu... Eu estou procurando a Sophia — ele respondeu, olhando para a tesoura e temendo que o próximo local em que ela estivesse fosse seu pescoço.
Ela olhou para o boneco no chão.
— O que você fez com ela?
— Eu não fiz nada, ela nem sequer é uma pessoa, é um boneco!
Virginia soltou a tesoura no chão e correu até a boneca, segurando-a e colocando na cadeira.
— Calma, Justine, eu vou te ajudar — dizia ela, em um tom confortante. Ela estava falando com um boneco como se fosse uma pessoa normal. Ele não tinha mais dúvidas de que aquela mulher era louca. De repente, pareceu certo interrogá-la.
— Por que você estava me seguindo no supermercado?
Ela parou e não disse nada.
— Não sei do que você está falando.
— Não seja sonsa, Virginia.
Ela olhou para a tesoura, como se ansiasse por usá-la. Max percebeu e ficou apreensivo.
Virginia se levantou e sorriu para ele.
— Eu não sei do que você está falando, sr. Walker.
Ele a olhou com fúria, mas ela não tirou seu sorriso irônico do rosto.
— Ah, eu não gastaria meu tempo procurando Sophia — disse ela, dirigindo-se até a porta. — Ela foi embora.
— Como assim ela foi embora?
— Ela foi embora, simplesmente foi.
Quando Virginia saiu normalmente, atravessando a rua, ele saiu e olhou ao redor. Aquelas pessoas escondiam um grande segredo.
E ele descobriria.
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