Suburbia

1 Capítulo 01 - Os Novos Vizinhos


O apartamento de Henry e Max estava cheio de caixas de madeira e coisas empacotadas. Dois homens de uniformes cinzas carregavam algo grande e pesado, envolto em papelão, para fora do local.

— Eu vou sentir falta daqui — disse Henry, abraçando Max.

Max, poucos centímetros mais baixo, deitou a cabeça no ombro dele.

— É, eu também — falou, ajeitando os óculos de grau no rosto. Ele era um homem atraente, com cabelos castanhos escuros levemente ondulados, barba rala, olhos claros e aqueles óculos que, de acordo com Henry, davam um ar de seriedade incrivelmente sexy.

Henry compartilhava o mesmo azul nos olhos, mas não tinha barba, nem usava óculos e seus cabelos eram mais curtos. Era tão atraente quanto o marido.

— Nem acredito que conseguimos — disse Max. — Nós estamos oficialmente casados!

— Pois é. — Henry olhou nos olhos dele e sorriu. Depois o beijou.

— Nós precisamos levar essas caixas para o carro — falou ele, em seguida, pegando uma das caixas de papelão.

Henry fez o mesmo e os dois começaram a descer as escadas até a rua.

O carro de Max estava estacionado em frente ao prédio, com um grande caminhão de mudança bem atrás, de onde os dois homens uniformizados saíam.

Max abriu o porta-malas e eles colocaram as caixas.

— Acho que cabe mais uma aqui — disse ele. — O resto nós colocamos dentro.

— Ok — concordou Henry.

***

Naquela tarde, o clima estava ameno, sem chuva e sem calor, apenas o céu azul e algumas nuvens cobrindo o sol.

Max parou o carro bem em frente a uma casa de telhado triangular, primeiro andar, jardim e garagem. Era realmente grande, e muito bonita.

Ambos abriram um sorriso ao vê-la. Se entreolharam e saíram do veículo.

O caminhão da mudança parou logo atrás.

— Então é isso — disse Max, sorridente. — Esta é a nossa nova casa.

Henry passou uma mão pela cintura dele.

— Esse é o lugar onde criaremos nossos filhos — falou.

— Eu acho que esse é o dia mais feliz da minha vida.

— Vocês são os novos vizinhos? — perguntou uma garota, simpaticamente, pegando-os de surpresa. Ela tinha cabelos loiros curtos e lisos, era magra e usava um vestido branco até as coxas. Estava com um pacote de salgadinhos nas mãos. Um sorriso fechado e angelical estava estampado em seu rosto.

— Ah, sim, somos — respondeu Max. — Eu sou Max e esse é Henry.

— Prazer — disse ela, sem olhar para eles. Tinha o olhar fixo na casa, e o sorriso continuava no rosto.

Ela finalmente olhou para eles e os encarou por alguns segundos, ainda sorrindo simpaticamente.

— Eu sou Sophia — disse ela. — Moro no fim da rua.

— Então você mora naquela casa? — perguntou Henry, apontando para a mansão onde a rua sem saída terminava, com um grande portão de negro e um muro muito alto.

— Não, eu moro um pouco antes.

Ela olhou para baixo e viu que os dois estavam de mãos dadas.

— Então... Vocês são, tipo, namorados ou algo assim? — perguntou ela, colocando um monte de salgadinhos de queijo na boca.

— Na verdade, nós somos recém-casados — respondeu Henry, orgulhosamente.

Sophia ficou surpresa.

— Uau, parabéns — disse ela. — Vocês vão gostar da nossa vizinhança, aqui é bem tranquilo.

— Eu espero que sim — falou Max, sorrindo para ela.

— Hm, eu preciso ir — disse Sophia. — Foi um prazer conhecer vocês, acho que seremos bons amigos.

— O prazer foi nosso. — Max estendeu a mão, mas ela não tocou.

Sophia os encarou mais alguns instantes, com o sorriso no rosto, e depois foi embora, quase que saltitando como uma criança, colocando seus salgadinhos na boca.

Max virou-se para Henry com um olhar de estranheza.

— Esquisito — ele comentou.

— Eu achei ela legal — falou Henry. — Acho que seremos bons amigos. — Ele imitou a voz doce e fina de Sophia, fazendo Max rir.

— É melhor levarmos as caixas para dentro.

***

Quando os homens do caminhão foram embora, deixando os móveis espalhados pelo local, alguns montados e outros não, Max se jogou no sofá, na sala de piso de madeira e paredes de cor vinho. Havia uma lareira de pedra desenhada para que parecesse parte da enorme estante de madeira escura que tomava o espaço de quase toda a parede.

— Por onde começamos? — perguntou ele.

— Não sei — respondeu Henry, sentando ao lado dele.

— Eu ainda não consigo acreditar que nós estamos realmente aqui.

— Então comece a acreditar, porque isso... — Ele ergueu a mão, mostrando a aliança dourada. — É real. Você está preso comigo até que a morte nos separe.

— Eu não poderia querer mais.

Max o beijou apaixonadamente.

— Guarde esse fogo para mais tarde, agora precisamos transformar essa bagunça em uma casa apresentável, para que possamos tomar chá e comer biscoitos com nossas vizinhas da terceira idade.

Ele riu.

— Ok, então vamos começar pela cozinha.

***

Algumas horas depois, quando a noite já havia caído, Max colocou o último porta-retratos sobre a estante, bem abaixo da prateleira com os troféus de Henry.

Ele deu dois passos para trás e abriu um sorriso de satisfação. Olhou ao redor. A sala estava organizada e aconchegante como ele queria. A luz estava apagada, deixando que as paredes vinho e o piso de madeira fosse iluminado apenas pelo fogo da lareira, dando um ar de sofisticação.

Henry desceu as escadas e parou na metade, maravilhado.

— Uau — disse ele. — Ficou incrível.

— Ficou, não é? — falou Max, sorrindo.

— Nossa mudança oficialmente acabou. — Henry o abraçou por trás. — Então... Comida indiana ou sushi?

— Eu estava pensando em fazermos nosso próprio jantar hoje... Podemos abrir um vinho, acender algumas velas, relaxar com uma música.

— Isso é realmente romântico, mas não sei se a ideia de fazermos nosso próprio jantar pode dar certo, somos péssimos em cozinhar.

— O quê? Ao contrário do que provam as batatas moles e o bife queimado da semana passada, eu sou um ótimo cozinheiro.

— Não está mais aqui quem falou.

— Então tá, eu preciso de um banho quente agora. — Ele caminhou até a escada. — Depois você será meu ajudante de cozinha, se nada der certo, pedimos sushi.

— Eu adoraria um banho quente com você agora.

— Citando sir Henry Bell: Guarde esse fogo para mais tarde.

Henry sorriu e ele também.

— Ok, então, eu estarei te esperando aqui para nossa nova aventura culinária.

— Eu já volto.

Max subiu as escadas.

***

Quando o jantar havia ficado pronto, os dois sentaram-se à mesa, Max na ponta e Henry ao seu lado. Havia uma garrafa de vinho no centro e duas taças cheias ao lado dos pratos de porcelana.

— O que achou? — perguntou Max.

Henry pensou um pouco, enquanto mastigava, depois sorriu.

— Até que ficou bom — ele respondeu. — Muito bom.

— Eu te falei.

Neste momento, a campainha tocou e os dois se entreolharam, estranhando.

Eles se levantaram e foram até a porta. Max olhou pelo olho mágico e viu uma mulher parada na porta. Ela tinha cabelos castanhos claros curtos, olhos de um azul acinzentado e usava um vestido rosa, como uma dona de casa dos anos 50, com golas e uma faixa vermelha na cintura. Além disso, ela segurava em suas mãos uma pequena bandeja coberta com um pano de prato.

Max abriu e pôs um sorriso no rosto.

— Oh — disse ele. — Eu soube que vocês se mudaram hoje e não pude vir mais cedo... Eu sou Virginia, moro a duas casas. — Ela equilibrou a bandeja em uma mão e estendeu a outra. Max apertou primeiro e Henry depois.

— Muito prazer, eu sou Max e esse é meu esposo, Henry.

Ela fez um olhar de surpresa, como quase todo mundo.

— Hm, meus parabéns. — Ela voltou a abrir um sorriso simpático. — Enfim, eu trouxe essa torta de maçã como uma forma de dar boas vindas.

Henry pegou a bandeja, que ainda estava um pouco quente.

— Oh, muito obrigado — disse ele.

— Sejam bem-vindos a nossa vizinhança — falou ela.

— Nós agradecemos, estamos gostando muito daqui.

Houve um pequeno silêncio, o assunto havia acabado.

— Hm, nós estamos jantando, você gostaria de se juntar? — perguntou Max.

— Ah, não, não, eu não quero incomodá-los — ela responde, sorridente. — Além disso, acabei de jantar, mas obrigado pelo convite.

Max sorriu.

— Bom, eu vou deixá-los jantar — disse ela.

— Obrigado pela torta — falou Henry.

— Não há de quê... Ah, tudo bem, boa noite, vizinhos. — Virginia se virou e foi embora, apressada. Ela saiu coçando a cabeça.

Ao chegar na calçada, virou-se e olhou os dois, tirando o sorriso do rosto, como se estivesse confusa. Depois partiu.

Henry e Max fecharam a porta.

— Viu o jeito que ela nos olhou? — perguntou Henry.

— Será que ninguém nessa vizinhança é normal? — disse Max.

— E você ainda a convidou para jantar.

— Sei lá, eu fiquei sem saber o que falar.

— Enfim, agora temos nossa sobremesa.

— As pessoas realmente oferecem tortas de boas vindas? Eu achava que isso era coisa de filmes.

— Eu também. — Henry riu.

— Ela pareceu preocupada com alguma coisa, você também percebeu?

— Sei lá, ela me pareceu um pouco esquisita, mas não sei porquê.

— Eu hein.

Eles voltaram para o que estavam fazendo.