"Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o."

– William Shakespeare

Acordei suado e ofegante após ter um pesadelo relacionado à minha mãe. Fico triste, pois sei que ela não gostaria de me ver assim. Mas é impossível simplesmente esquecer. Decidi levantar logo de uma vez e tomar um banho pra tirar aquele cheiro de suor e pesadelo do meu corpo. Coloquei uma roupa simples, já que só iria pro colégio. Desci e encontrei meu pai deitado no chão da sala com um copo e duas garrafas de whisky vazias.

– Olha pai, você tem que parar com isso. Não dá mais. Isso está te destruindo e destruindo a mim também. – Falei, enquanto o ajudava a se levantar. O cheiro de bebida era horrível e me causava ânsia de vomito, mas mesmo assim o ajudei a subir as escadas e deitar em sua cama. A sala estava um caos, tudo jogado pelo chão e sujo de bebida. Dei um jeito em tudo que pude, comi uma maçã e peguei meu jipe. Chegando lá todos estavam apreensivos, mas não era de se esperar o contrário. Segunda-feira começava as provas de final de ano, e todos estavam com medo. Principalmente eu. Confesso que tenho deixado meus estudos de lado, mas decidi estudar bastante esse final de semana.

– Hei Stiles! – Scott, meu melhor amigo, me gritou em plenos pulmões no pátio assim que me viu chegar.

– Que saco Scott! Grita mais alto, talvez assim o governador da China te escute! – Falei meio envergonhado.

– Desencana! Está tudo bem? – Eu realmente odiava quando Scott fazia isso. Como se eu fosse chegar na escola e simplesmente desmoronar. O que eu tentava todos os dias não fazer.

– Estou bem cara. O sinal tocou, vamos pra aula. – Salvo pelo gongo.

Aulas chatas.

Professores chatos.

Recreio chato.

Mais aulas chatas.

Ate que o sinal da saída tocou e todos começaram a correr. Isso realmente parecia a libertação dos escravos. Mas quem sou eu pra julgar? Me despedi de todo o pessoal e fui para o trabalho. Era um ótimo lugar, já que eu me distraia.

– Chegou cedo Stiles. – Isaac me pegou de surpresa. Ele estava totalmente submerso embaixo de um carro, o consertando.

– Não quis passar em casa. Vim logo pra cá, já que tem um macacão meu por aqui. Precisa de alguma ajuda ai? – Perguntei, tirando minhas roupas e colocando meu macacão por cima da cueca. Graxa e roupa não combinam muito.

Passamos o dia todo trabalhando, eu com meu ótimo físico consegui tropeçar e quase quebrar todos os meus ossos duas vezes. Eu realmente não sei como eu ainda não fui parar no hospital nesse mês. Quando eu já estava quase no fim do meu expediente, um Camaro preto parou na loja e de dentro saiu um homem com cara de poucos amigos, moreno, alto e forte. Alguma coisa se remexeu dentro do meu estômago e eu resolvi ignorar. Como Isaac estava totalmente focado no quanto o motor de um R8 estava completamente fodido, eu fui atender o homem. Mesmo todos os meus extintos dizendo que não. Que porra é essa? Estou parecendo uma menininha. Espantei os pensamentos.

– Olá senhor, boa tarde. No que posso ajudar? – Falei limpando minhas mãos e meu rosto coberto de suor e sujeira, querendo parecer um pouco mais apresentável. O que era impossível trabalhando nesse ramo.

– Oi. Então, meu carro esta fazendo um barulho completamente irritante e fodido enquanto troco a marcha. Eu vim aqui para consertar. O que é obvio. – O homem disse numa voz grossa e gutural, sendo grosseiro. Tentei manter meu profissionalismo e minha língua solta bem amarrada dentro da boca. O que esse homem pensa que é?

– Certamente, senhor. Vamos verificar e eu vejo o que posso fazer, senhor... – Dei uma pausa.

– Derek Hale. Me chamo Derek Hale. Vamos lá. – Ele abriu a capota do carro e eu dei uma olhada. Mexi e remexi pra lá e pra cá, e Derek já estava ficando impaciente. Qual é? Estou fazendo meu trabalho.

– Bom, Derek, seu carro está com um pequeno vazamento de ar. Eu posso trocar, mas você só vai poder voltar e buscá-lo amanhã. – Falei olhando para a obstrução a minha frente, quando olhei para cima o homem estava me observando, como se me comesse com os olhos. Senti minha respiração falhar e a transpiração aumentar. Eu nunca me senti assim. O que isso poderia ser? Desejo? Eu mal conheço esse homem-muralha a minha frente. E por que eu sentiria desejo por um homem? Eu sou macho. Gosto de mulher. É o que pelo menos eu acho.

– Tudo bem. Tem uma ideia de que hora mais ou menos estará pronto? – Derek perguntou ainda carrancudo. Alguém dê chá de camomila pra ele se livrar dessa cara de bunda, por favor.

– Por volta de 16h30. – Me senti um pouco constrangido, era como se de algum modo essa conversa fosse intima e pessoal.

– Ok então. Aqui está a chave. Amanhã estarei aqui. Uma boa tarde pra você. – Ele disse me entregando a chave e saindo por onde entrou.

– Boa tarde. – Falei baixinho, como se de algum jeito ele pudesse ouvir.