Subentendido
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Sofia sorriu, ao observar a mensagem enviada por Matheus, há algumas horas atrás, no seu celular. O garoto, havia digitado, de um jeito muito pretensioso, que havia resolvido todo o “probleminha” do castigo, mas que isso tinha um preço, e esse preço seria jantar com o cara mais cobiçado e gostoso da Barra. Ela já sabia disso, já havia falado com o pai mais cedo, e aparentemente ela estava liberada do castigo para sair com Matheus, e sabia que o pai só fazia isso pelo futuro dos negócios e que uma parceria com a família do rapaz era importante. Gostava de estar com ele, do seu jeito convencido, do seu beijo, de como ele a fazia sorrir com facilidade, e principalmente, de como ele não era um cara politicamente correto ou qualquer baboseira desse tipo. E pensar nele a fazia esquecer de um certo príncipe sapo da irmã e na sensação de que algum ruim iria acontecer, que atormentava a sua mente desde o começo da tarde.
Resolveu tomar um banho demorado na banheira com os últimos sais de banho da L’Occitane que havia trazido de Miami e duas horas e meia depois estava pronta para conhecer a família de Matheus. Observou sua imagem no espelho gostando do que via. Os cabelos estavam soltos, com ondulações nas pontas e a maquiagem preta, porém discreta destacava seus olhos verdes. Estava com um vestido longo, com a parte de cima em tecido transparente cor da pele e bordados de rosas contornando toda a frente e deixando as costas lisa. A elegância da saia plissada do vestido contrastando com um bota fechada, dando um ar mais moderno ao visual. Um cinto dourado marcava a sua cintura.
Ouviu alguém lhe chamando no Skype e foi até o tablet. Aceitou a conversa de vídeo e logo a imagem da sua melhor amiga apareceu na tela.
– Fala Flaviana – ela falou se ajeitando na cama, enquanto a amiga gritava algo que ela não prestou muita atenção.
– Tá arrumada assim pra ir pra onde? – Flaviana questiona curiosa.
– Vou jantar na casa do Matheus hoje – a loira responde e depois sorri, mexendo numa mecha de cabelo.
– Para o mundo, como assim Sofia? – Flaviana fala com a voz surpresa e exasperada e não contém um gritinho – Você e o Matheus estão namorando mesmo então?
– Ai Flaviana, a história é longa, mas resumindo, depois que você saiu atrás do Serguei, bom, eu e o Matheus, a gente deu uns beijinhos e...
– Uns beijinhos? – a morena interrompe — Fiquei sabendo que foi bem mais que isso, alguém postou algo sobre isso no 2.0.
– Acontece que esse povo do Grajaú são uns desocupados que não tem mais o que fazer além de ficar inventando historinhas dos outros, foi só um beijo, e se não fosse só isso, eu também não teria que ficar dando satisfação da minha vida pra esses ridículos, mas – ela faz uma pausa e sorri, lembrando da desenvoltura do Matheus falando com a regente Regina — Voltando ao assunto, algum idiota dedurou a gente, e o Matheus, ele me salvou, de novo, e depois me convidou para jantar na casa dos pais dele, sabe, não houve nenhum pedido de namoro ou coisa parecida, mas isso quer dizer alguma coisa, não?
– Claro que sim amiga, nenhum garoto apresenta uma peguete pros pais, óbvio que ele tá querendo algo sério, vocês fazem um casal tão lindo!
– É, eu sei – ela comenta convencida e ri.
– E parece que o Ben perdeu o posto de vez – Flaviana continua achando graça.
– Não você nem sabe da maior, na hora da saída adivinha quem veio querer cobrar explicações de mim? O próprio Ben, veio com uma desculpinha idiota de que estava preocupado comigo, que o Matheus não prestava... Ele nem conhece o Matheus, é claro que foi uma desculpa esfarrapa e eu não duvido nada que foi ele quem me dedurou, isso é tão o tipinho dele.
– Acho que o garçom psicopata quer voltar a te perseguir Sofia!
– Tá louca Flaviana, eu hein! – Sofia rebate com rapidez – Até parece, aquele idiota é doido pela minha irmã, esqueceu?
– É, mas antes de ele ser doido pela sua irmã, ele vivia correndo atrás de você, esqueceu?
– Não, claro que não – ela olha brevemente para a cama da Anita e encontra sua echarpe, a que um dia havia ficado com Ben, a que ele havia devolvido nos primeiros dias que havia chegado no casarão. No dia que ela havia o convidado para conversar no quarto. No dia que ele havia falado em tom de brincadeira, em pedir a sua mão em casamento para seu pai. No dia que eles haviam quase se beijado, e depois da chegada do Ronaldo, ela havia partido, mas não antes de ouvir que a conversa deles não havia terminado – É só que, no final, você já sabe bem quem ele escolheu.
– Isso não quer dizer nada... Acorda Sofia, ele te beijou naquela festa, e foi atrás de você no dia da briga do casarão porque eu vi e agora essa história ridícula de que está preocupado com você, quando é bem óbvio que ele tá com ciúmes.
– Mas o coração dele ainda continua sendo da princesa.
– Só que eu ainda acho que ele ainda fica mexido com você.
– Vem cá Flaviana, você tá lado de quem?
– Do Matheus, é claro, só to falando isso porque não quero que você faça a burrada de se envolver com o Ben novamente.
– Óbvio que não né Fla, o Ben é correto demais para admitir que sente algo pela “irmã má”e eu realmente acredito que ele deve amar a Anita, um dia eles vão superar tudo isso e voltar e eu não quero estar mais no meio disso. Eu realmente quero esquecer o Ben, e eu sei quem é a pessoa que vai tornar esse difícil momento em algo mais prazeroso.
A loira ouviu a porta do quarto sendo aberta com estrepito e encarou a figura da Bernadete a sua frente, seguida de Soraia.
– Vem cá Bernadete, na sua antiga casa no subúrbio não tinha porta não ou você não bate antes de entrar porque é mal educada mesmo?
– Mal educada aqui só se for você garota... Mas eu não estou aqui para discutir com você, eu preciso dar um recado, um recado muito importante.
– Sabe o que é Bernadete, não vai dar, eu to falando com a Flaviana e depois vou sair – ela diz, rindo para a amiga que ainda aparecia na tela, ignorando a madrasta.
– Você ouviu a palavra importante?
– E você entendeu o "Eu não quero falar com você, para de encher meu saco"?.
– É melhor você ouvir o que eu tenho a dizer Sofia – ela continua com a expressão séria e algo na voz dela faz Sofia gelar.
– Eu preciso desligar, a Bernadete quer falar comigo! – ela se volta para a amiga, que meneia a cabeça e avisa que depois quer que ela ligue contando as novidades.
– O que de tão importante você tem para falar comigo Bernadete? – Sofia pergunta impaciente, colocando o tablet em cima do bidê
– É alguma coisa com alguém do casarão?
– É e você vai ter que ser forte nesse momento – Bernadete fala, fitando de um jeito estranho Soraia. Sua lerdeza em expor os fatos estava deixando Sofia angustiada – O Vitor ligou para dar uma notícia e... – ela faz mais uma pausa e respira fundo.
– Oh Bernadete, vai falar ou eu vou ter que ligar para minha mãe para perguntar o que tá acontecendo? – a garota cruza os braços, tentando não prestar a atenção no aperto que sentia no peito.
– O Pedro, ele passou mal e precisou ir para o hospital, eu não sei direito o que aconteceu, mas parece que o estado dele é grave.
Sofia sente o choque e o topor tomarem conta de si. Ela coloca a mão na boca, incrédula, sentindo uma dor imensa ao tentar respirar normalmente. As lágrimas começam a cair silenciosamente e ela queria desabar nesse momento, mas sabia que não podia, seu irmão precisa dela.
– Ele está estável nesse momento, mas parece que vai precisar ficar internado, para ser avaliado, mas o Ronaldo, a Vera e o Ben estão lá com ele.
– Em que hospital que ele está? – a loira pergunta não prestando mais muita atenção no que a perua falava. Ela só precisava ver ele, nesse momento, ter certeza de que ele estava respirando, para que ela pudesse respirar também.
– Aquele que o Ben ficou internado, como é que é mesmo o nome Soraia? – a perua perguntou franzindo a testa para lembrar, enquanto Sofia pega a sua bolsa e o celular e anda até a sala. Bernadete segue a enteada, confusa – Ei, onde você vai Sofia?
– Ver o meu irmão – ela fala convicta, tentando não chorar – Eu sei que hospital que ele está.
– Eu vou com você, eu só preciso trocar de roupa, são só 5 minutinhos – a madrasta discursa fazendo sinal com a mão para que a adolescente a espere. Sofia vê a perua sumir da sua visão e encara o visor do celular impaciente, os segundos martelando na sua mente inquieta e a imagem do Pedro em alguma cama de hospital, frágil, aparece sem que ela precise fechar os olhos.
– Ah, mas eu não vou esperar mesmo! – ela diz e depois caminha a passos largos em direção a porta. Não iria suportar esperar a madrasta se arrumar para ver o irmão. Precisava ver e saber como ele estava agora.
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– Oi? Eu ouvi direito Anita? – Serguei indagou franzindo o rosto, achando que provavelmente havia ouvido errado – Que papo é esse de eu realmente torço para que sim?
– Eu não posso torcer pela felicidade da minha irmã agora? – Anita retrucou, sem pensar direito, sentindo-se dividida e confusa.
– Não pareceu muito bem que você estava torcendo pela felicidade da Sofia
– Gente, por favor, olha o escândalo né? – Júlia intervêm olhando de relance para a cliente. Serguei termina de ajeitar o cabelo da mulher, encarando o reflexo de Anita pelo espelho, irritado. A mulher sorri e paga o cabelereiro, que a leva até a porta.
– Agora você pode me explicar o que está acontecendo com você? – Serguei pergunta se aproximando da amiga, a fitando nos olhos, preocupado. Odiava ver a melhor amiga assim. Anita dá um longo suspiro e encara os olhos do ruivo.
– Não está acontecendo nada, é só que é muito estranho a Sofia primeiro investir no meu príncipe e depois no meu melhor amigo de infância, que por sinal foi a minha primeira paixão – ela confessa mal humorada.
– Calma, deixa eu ver se entendi – Serguei aponta o dedo para a amiga e depois para os lábios, pensativo – Você já foi apaixonada por esse cara?
– Era uma coisa infantil, eu nem sei se era paixão, eu era tão nova... Mas ele realmente foi importante para mim durante muito tempo, depois ele se mudou e perdemos o contato... E agora ele voltou e eu descubro que ele tá com a Sofia – ela arregala os olhos – Eu não sei o que eu fiz pra essa garota, porque tudo que eu dei até hoje pra ela foi amor, apoio, mas aparentemente, ela me odeia.
– Ai amiga, não fica assim – Júlia se solidariza – Você sabe muito bem como é a Sofia, ela tem inveja de você, óbvio que ela faz isso para te provocar, pra você ficar assim, mas você não pode entrar no jogo dela.
– A Julinha tem razão Anita – ele toca na mão da amiga – Eu sei que a Sofia é uma cobra criada, que já aprontou várias com você, mas realmente não vale a pena, se rebaixar e atacar ela.
– Mas acontece que eu cansei de ser “boazinha” – ela desabafa com os olhos lacrimejados – Eu sempre penso nos outros primeiro, estou sempre disposta a ajudar... E o que eu ganhei com isso até agora?
– O que você ganhou? – Serguei indaga incrédulo passando a mão na nuca – Caráter, honestidade, amigos. Não é entrando nesse joguinho da Sofia que você vai conseguir curar a sua dor de ter sido traída, ainda mais usando um cara que foi seu amigo de infância.
– É amiga, pensa bem, isso não combina com você – Júlia se aproxima, tocando no rosto da amiga.
Um barulho estridente de batida na porta de vidro chama a atenção do trio. Serguei se aproxima e vê a imagem da Giovana, impaciente, pedindo pra ele abrir a porta.
– É a Giovana – ele fala estranhando, indo até a porta. Anita fita a entrada do salão com expectativa. Giovana entra e corre até a irmã e a abraça, parecendo sem folego. Anita se preocupa ao encarar os olhos azuis marejados da irmã e o seu rosto pálido.
– Gio, o que foi? – ela indaga sentindo um aperto na garganta e a primeira pessoa que veio na sua mente foi Ben – Aconteceu alguma coisa?
– Ainda bem que eu te achei – Giovana fita a “irmã” e faz uma pausa antes de prosseguir – É melhor você ir para a casa agora, é o Pedro, a Vera, o meu pai e o Ben estão com eles no hospital... Parece que ele não tá nada bem!
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Matheus parou na frente da porta do apartamento de Sofia e tocou a campainha. Uma mulher acima do peso e com um penteado brega atendeu a porta. Ele sorriu sendo amigável.
– Eu vim pegar a Sofia!
– Detinha! – a empregada gritou de maneira estridente fazendo Matheus abaixar a cabeça e sorrir para si mesmo.
– A Sofia voltou? – Bernadete fala indo em direção a amiga curiosa.
– Não, é o menino que ia sair com a Sofia, o porteiro interfonou lá de baixo e eu falei pra deixar ele subir.
– Então convida logo o menino para entrar logo – Soraia sorri e abre a porta. Matheus entra e fita Bernadete por alguns segundos, antes de falar.
– Oi Bernadete – ele cumprimenta a mulher, sem jeito – Aconteceu algo com a Sofia?
– Então, sobre isso, ela saiu agora a pouco, é que o irmãozinho dela, o Pedro, ele passou mal e precisou ficar internado, e eu falei pra ela me esperar que eu ia com ela, mas você sabe bem como ela é – ela discursa rapidamente, gesticulando as mãos – E o pior é que era pra gente ir lá para o Grajaú, ficar com as crianças, porque a Vera, que é a mãe da Sofia, o Ronaldo e o Bem, já estão lá no hospital, mas agora eu vou ter que ir atrás dela.
– Eu vou pro hospital – ele fala solicito – Eu sei como o Pedro é importante para a Sofia, ela fala muito dele... É só me passar o endereço!
– Ah claro – a perua responde explicando para o garoto o endereço. Ele confirma com a cabeça, ansioso para ir logo. Não era bem o tipo de noite que ele havia programado para si, mas se Sofia precisava dele, ele estaria lá para apoiá-la.
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Sofia correu até o balcão de informações, enquanto um casal de turistas argentinos tentava se comunicar com a atendente. Ela tentou chamar a atenção da atendente, que fechou a cara e a ignorou. Cruzou os braços impaciente, tentando respirar fundo e se acalmar ela viu Ben. Ele andava inquieto pela sala de espera.
– Ben – ela chamou sentindo toda sua força desabar assim que encontrou os olhos verdes do garoto no seu. O aperto no peito aumentou quando viu que havia tristeza no seu olhar e ela não conseguiu conter as lágrimas – Cadê o Pedro? Diz que ele tá bem?
Ben se aproximou odiando ver a loira tão frágil e querendo desesperadamente fazer alguma coisa que pudesse reverter o quadro do irmão mais novo, algo que fizesse Sofia não chorar mais, mas ele sabia que não podia. Não sabia direito o que havia acontecido com o irmão, mas sabia que era grave e a única coisa que podia fazer era torcer e rezar pela melhora do irmão, e oferecer apoio para Sofia.
– Ei – ele a chamou, tocando o seu rosto e secando uma lágrima que caia – Ele vai ficar bem – ele sorriu, incerto e a abraçou. Ela sem ressalvas, o abraçou também, encostando a cabeça no peito do Ben, se sentindo acolhida pelo seu calor e pelas batidas do coração do garoto – A Vera e o meu pai estão conversando com o médico agora, e o Pedro tá fazendo alguns exames, eles não sabem direito ainda o que ele tem.
– Se acontecer alguma coisa com o Pedro, eu morro Ben – ela disse com a voz abafada pelas lágrimas – Eu morro!
– Não vai acontecer nada com o Pedro – Ben a apertou mais junto ao seu corpo – Nem com você, eu prometo – ele fala baixinho sentindo as lágrimas dela molharem a sua camisa, mas sem se importar muito com isso. O perfume dela o acalmava, e nesse momento ele agradecia por ela não estar sendo irônica ou agressiva com ele. Talvez ele estivesse precisando mais dela do que ela dele.
– Sofia? – alguém chama fazendo os dois se soltarem rapidamente. O elo sendo rompido. Sofia encara a pessoa a sua frente se sentindo envergonhada.
[...] Continua
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