Subentendido
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Ben observou a loira a sua frente, seu olhar seguiu o corpo da garota brevemente e se fixou nos olhos dela. Ele não conseguia parar de fitar seu rosto. Seus olhos, sua boca, sua expressão de surpresa. Parecia estar vivendo um deja vú, daquele primeiro encontro que tiveram no hotel em Miami e por um momento ele se esqueceu de tudo a sua volta. Não sabia explicar o porquê, mas havia algo nela que o deixava enfeitiçado. Essa era a explicação mais plausível para denominar o que ele sentia. Ela era a única que tinha a capacidade de fazer seu mundo parar e girar ao mesmo tempo, mesmo ele não querendo admitir. Ela estava linda, num vestido vermelho, que contrastava com a sua pele clara e parecia inocente e perigosa ao mesmo tempo. Não saber o que se passava na mente dela o deixava instigado, e maluco, ao mesmo tempo.
– Ei, você conhece o garçom, isso não vale! – Ben ouviu uma voz distante falar e despertou, assim que Sofia desviou seus olhos do dele e encarou o rapaz ao seu lado. Sua cabeça girou a mil assim que o mesmo falou próximo dela, com um sorriso zombeteiro no rosto – Não vai me apresentar o seu amigo?
– Eu amiga do garçom? – Sofia retrucou por impulso, evitando olhar na direção do Ben – Ele é só o filho do Ronaldo, o cara que é casado com a minha mãe agora – a loira continuou, revirando os olhos, sentindo algo queimar dentro dela, mas não dando o braço a torcer. Ver o moreno, ali, na sua frente, com aquela roupa havia mexido com ela. Ela sem querer lembrou-se do fatídico dia que havia conhecido o garçom psicopata no lobby do hotel em Miami. Se ela soubesse como essa história iria terminar nunca teria escondido as lentes da irmã.
– Ei, isso é novidade, a tia Vera casou de novo então? – Matheus perguntou e vendo a confirmação nos olhos da loira, passou a mão pelos cabelos rindo – Agora eu entendi, você e esse cara são como se fossem irmãos então, não é?
– Não somos irmãos! – Ben e Sofia responderam juntos, evitando olhar um para o outro. Um silêncio desagradável tomou o ambiente por alguns segundos.
– Eu não sou irmã do Ben – Sofia disse se explicando – Sabe, ele só é...
– O filho do cara que casou com a Vera – o moreno interrompeu, encarando a loira com uma irritação crescente em seu peito. Odiava a imaturidade da loira, sua futilidade e seu jeito mimado de ser a cada vez uma certeza crescia dentro de seu peito. Havia se enganado tanto ao seu respeito.
Matheus avaliou os “irmãos” por alguns segundos sem entender o porquê de tanta hostilidade. Sabia muito bem que Sofia tinha um gênio forte, e talvez tratasse o garoto desse jeito em represália à mãe por ter se casado novamente, mas o jeito que o tal Ben o fitava nesse momento, como se estivesse prestes a dar um soco na sua cara, o fazia pensar que tinha algo a mais nessa história. Resolveu ser amigável, quem sabe o cara não estava tendo um bom dia, pensou consigo mesmo.
– Ei, prazer cara, sou o Matheus, amigo de infância da Anita e da Sofia – o rapaz estendeu a mão, mas Ben a ignorou. Saber que o garoto ao lado da loira era amigo de infância da Anita deixou Ben mais irado ainda.
– O garçom precisa voltar ao trabalho – ele disse e saiu, esbarrando no rapaz levemente. Sofia se virou e o observou partir brevemente, o xingando mentalmente.
– Acho que ele não gostou de mim – Matheus comentou, tomando um gole da sua bebida, tentando ser amigável.
– Esse garoto é um ridículo – ela falou despejando toda sua raiva – É um fracassado igual ao pai dele. Não sei como a minha mãe teve a coragem de se juntar a essa gente.
– Deve ser difícil conviver com ele... – Matheus continuou colocando uma das mãos no bolso e avaliando a loira. Sabia que ela estava irada, conhecia muito bem aquele olhar, mas, havia algo novo ali, ele sabia.
– Você não tem ideia, ele e a Anita querem ficar dando lição de moral toda hora, sem falar que eles ficam se chamando de príncipe e princesa, quer algo mais ridículo que isso?
– Ele é o cara que te deu o fora, não é? – Matheus disse encarando a loira com os olhos castanhos intensos, parecendo estar achando algo engraçado. Ela mal pode evitar o olhar de surpresa.
– Oi? – ela perguntou disfarçando – O Ben? O garçom? – ela continuou, acreditando na própria mentira – Ele me dando fora? Isso é algum tipo de piada? – ela riu sentindo um gosto amargo da boca – Eu fico com o cara que eu quiser!
– Ei calma – ele coçou a cabeça sem jeito – Eu sei do seu poder de persuasão – ele a fitou nos olhos – Você é linda Sofia, uma magrela adorável – Sofia encarou o garoto mal humorado, o que fez o rir – O que só me faz pensar que “esse cara”, que te deu um fora e que não é o garçom, te subjugou, ou tem alguma deficiência mental.
– Vê se me erra Matheus!
– Já te disse o quanto você fica encantadora quando está irritada?
– Eu já disse o quanto você é desagradável com essas cantadas de quinta categoria?
– Sua irmã costumava gostar – ele ironizou, balançando os ombros, observando a loira de um jeito misterioso.
– A Anita é uma tonta, se encanta com qualquer bobagem que ouve por aí – o garoto sorriu e abaixou a cabeça. Sofia observou desconfiada, se acalmando, lembrando por um momento que ele quando criança gostava da irmã. Quem não se encantaria pela doce Anita, ela pensou, sentindo sua raiva pela irmã aumentar mais ainda — Falei algo errado? – ela indagou levantando uma das sobrancelhas e cruzando os braços.
– Não – Matheus falou parecendo se divertir com algo – É só o garçom, ele bem que tenta disfarçar, mas, não consegue tirar os olhos de você.
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Sofia encarou seu reflexo no espelho do banheiro, enquanto as palavras ditas por Matheus ecoavam ainda em sua cabeça. Imaginou Ben com ciúmes dela e uma intensa onda de prazer percorreu o seu corpo. Sorriu para si mesma, mordendo o lábio inferior, mas segundos depois achou a ideia absurda. Ele namorava a sua irmã, era ela que ele amava, já havia provado isso tantas vezes, mas o jeito que ele havia olhado para ela, não, ela não podia estar imaginando coisas, ele sentia ainda algo por ela, tinha certeza disso, ou estaria enlouquecendo de vez. A relação deles sempre foi tão confusa, ela nunca, desde o princípio conseguiu entender o que se passava na cabeça do Ben. Houve um tempo que ela julgou ser a dona do coração do garoto, mas haviam acontecido tantas coisas até então. Ela nunca se sentiu segura com o Ben, essa era a verdade, ele a deixava vulnerável, indefesa e ela odiava se sentir assim. Resolveu ligar para a amiga, precisava falar com alguém ou enlouqueceria.
– Flaviana, cadê você que não atende esse celular? – ela falou consigo mesma sentindo uma angustia crescendo dentro de si quando viu que a amiga não atenderia o celular. Mandou uma mensagem rápida e ajeitou brevemente o vestido. Saiu do banheiro encarando tudo a sua volta. Viu o pai tendo uma conversa animada com Matheus. Suspirou para si mesma, não estava com vontade de ouvir o pai falando sobre como estava feliz com o retorno de um jovem de uma família tão importante e com um futuro promissor. Observou todos a sua volta, sentindo um misto de alívio e agonia por não encontrar Bem, não que ela estivesse procurando ele, de qualquer forma, mas, se sentia culpada pelo modo que tratou o garoto, e o arrependimento a consumia, ao mesmo que achava que tinha razão por tratar ele de maneira tão rude. Ele próprio não havia falado com ela assim milhares de vezes?
– Sofia, eu te encontrei! – Sofia ouviu uma voz estridente falar seu nome, a despertando, de si mesma. Bernadete abraçou a garota de um jeito espalhafatoso, que fez a loira querer enfiar a cabeça dentro da terra – O que houve você tá bem? – a madrasta perguntou observando o rosto da garota – Tá pálida... Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu – Sofia retrucou mal humorada – Você... Fazendo eu passar vergonha na frente de todas essas pessoas!
– Quanta azedume para uma noite só – a perua respondeu magoada – Não sei por que eu ainda perco meu tempo com você Sofia!
– Porque você adora me azucrinar, assim como toda a família... Sem falar que – a loira fez uma pausa dando um risinho malicioso – Não deve ter mais nada para fazer.
– Eu só vim aqui porque seu pai está te procurando!
– Sério? – a garota observou o pai novamente conversando despreocupado – Não parece!
– Você devia agradecer por alguém ainda se preocupar com você garota, já que nem sua família do Grajaú te suporta mais – Bernadete falou se arrependendo instantaneamente no mesmo momento assim que viu os olhos lacrimejados da loira a fitando. Tentou tocar na garota, mas a mesma se afastou – Esquece o que eu falei Sofia, eu estava nervosa, sua família ama você!
– Tanto quanto amam a perfeita Anita? – a loira explodiu atraindo a atenção de alguns convidados mais próximos – Ninguém gosta de mim naquela casa, essa é a verdade, e quer saber, eu não me importo!
A garota se virou e viu Ben a fitando, parecendo preocupado, o que a deixou mais irada, já que agora não conseguia conter as lágrimas. Ben observou a garota sentindo um enorme impasse dentro de si. Havia visto a loira chorar poucas vezes e na maior parte delas achava que era algo falso ou por motivos fúteis, mas agora, vendo ela tão vulnerável, sabia que Sofia, com o jeito todo errado dela estava sofrendo. A loira pareceu decidir por ele, passando ao seu lado, dando um leve esbarrão. Bernadete a chamou e deu alguns passos a frente, porém Ben a deteve.
– É melhor eu ir falar com ela – ele disse e viu a mulher a sua frente concordar, incerta. Deixou a bandeja com taças de champanhe na mão na perua e saiu por entre o aglomerado de pessoas. Ouviu Bernadete resmungar algo como “Que foi nunca viram uma discussão de família não?”, viu a loira a sua frente e acelerou os passos. Sua mão tocou no braço da garota com firmeza, fazendo-a estancar e encarar o garoto com altivez e irritação. A garota abriu para protestar algo, mas Ben foi mais rápido, e as palavras delas se calaram assim que ele falou.
– Sei que não sou a melhor opção de pessoas com quem você quer conversar agora, mas... Vem comigo?
Continua [...]
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