Sua Alma
1 Supernova
Notas iniciais
Dessa vez é só uma one, curtinha, com a qual eu espero passar qualquer sentimento, qualquer reflexão. É diferente do que normalmente escrevo, mas vamos lá.
A tradução dos poemas foi feita por mim, pois não achei a do primeiro de modo que permanecesse fiel ao original e nenhuma versão do segundo. Por isso as métricas são diferentes, e eu peço perdão desde já se traduzi algo errado (não sou especialista, afinal haha).
Sem mais delongas, fiquem com a história e tenham uma boa leitura!
Pois o verão e seus prazeres esperam por ti
E contigo longe, os próprios pássaros emudecem;
Ou se cantam, é com tão tedioso gorjeio
Que as folhas parecem pálidas, temendo a chegada do inverno
Abraçá-la foi como respirar fundo pela primeira vez depois de meses se afogando.
Foi como pegar os pedaços dispersos de seu coração e juntá-los de novo, até que não houvesse indícios de que ele fora quebrado antes.
Sentir os braços dela ao redor de seu pescoço após tanto tempo, e o corpo dela tão perto, lhe deu a sensação de que nada poderia ser mais certo do que aquilo. De que nada seria tão completo quanto aquele sentimento, e de que nada poderia apagá-lo.
Nenhuma palavra ruim. Nenhum preconceito. Nenhum ódio. Nenhuma rejeição. Nenhuma ameaça. Ninguém.
Era o tipo de sentimento capaz de mover montanhas — mas estava tão escondido dentro de si que tudo o que movia era o seu próprio corpo, que correspondeu o abraço em reflexo, como se não responder fosse impossível. Enterrou o rosto em seu pescoço e respirou.
Só respirou.
Era noite de domingo, e o céu estava sem estrelas e as ruas, vazias, exceto pelo pequeno grupo de pessoas que se reunia na frente da casa para se cumprimentar. No entanto, quando fechou os olhos e sentiu o cheiro de limão dos cabelos dela, sentiu como se o sol nunca tivesse brilhado mais forte. Poderia haver mil pessoas ao redor, e ela não ligaria, não quando, finalmente, tinha a sensação de ter voltado para casa.
E ela sabia que, uma hora, teria de ir embora novamente. Teria de voltar a fingir que nada havia acontecido, que não passara de uma visita. Assim como na primeira vez que fora embora, teria de fingir que não sentia nada.
Mas jamais se esquecera daquele primeiro beijo, que não teve nada de elegante e tudo de paixão. Não havia esquecido como voltara para casa no colo dela, e caminharam de mãos dadas e dedos entrelaçados o restante do caminho, rindo em alto e bom som apesar da hora tardia.
Ela nunca entenderia como podia ser errado. Como podiam dizer que o modo como seu coração acelerava e se enchia de calor ao vê-la, e o sorriso mais sincero pintava seu rosto numa conversa, era errado. Era digno de condenação.
Abraçá-la naquele momento foi como sentir o abraço de um anjo, que retirou um peso de seus ombros e lhe deu paz. Sentir o toque dela foi como se alguém lhe desse um caminho após muito tempo vagando. Não pôde evitar como o sussurro do nome dela em seus lábios foi como uma prece, direcionada a qualquer um dos deuses em que acreditavam — o católico ou a deusa wicca.
E tentara evitar. Ah, como tentara. Todas as vezes em que seu olhar se demorava mais do que o apropriado no sorriso dela, todas as vezes em que deixava escapar uma frase com significado demais, todas as vezes em que queria segurar sua mão com mais propósito do que deveria. Tentava olhar para o lado, pensar em outra coisa, desviar o assunto.
Não adiantava, nem nunca adiantaria.
Havia pensado que seria difícil entregar seu coração a outra pessoa daquela forma: completamente, e sem exigências. Pelo contrário, fora a coisa mais fácil do mundo. Tão fácil que não percebera que estava se apaixonando, e, quando deu por si, já era tarde demais. Sabia que ela não sentia o mesmo e que era um caminho sem volta, mas o fez mesmo assim, e sem nenhum arrependimento.
Começara com as longas conversas de madrugada, quando ambas já deveriam estar dormindo. Começara com as competições quando jogavam um jogo, com os interesses em comum, com as festas e com as refeições compartilhadas na companhia uma da outra. Começara com o modo como falavam sobre tudo e sobre nada, e se desafiavam a questionar o que conheciam inconscientemente.
Ela dissera eu te amo com um toque antes de dizer com palavras. E a amava porque ela era real. Era imperfeita. Era uma confusão e uma mistura e uma harmonia de defeitos e qualidades. Jogava-se de cabeça em qualquer coisa que fazia, colocava paixão na ação mais simples, e odiava e amava na mesma intensidade.
Havia registrado em sua mente o modo como sua voz afinava quando estava com vergonha ou animada. As linhas de expressão que surgiam no canto de seus olhos quando ela dava risada. Os olhos castanhos que davam total atenção a você como se fosse a coisa mais importante no momento. A animação com que dançava e cantava qualquer música. As mãos que não paravam quietas ao contar uma história. A forma como se isolava quando não estava bem, porque não queria incomodar os outros. O fato de sempre estar lá para quem precisasse.
Também havia registrado sua expressão ao dizer que partiria.
“Você estava certa. Eu não vou ficar.”
Ela empalideceu e parou de comer imediatamente. Olhou-a como se não a reconhecesse, e buscou apoio com o olhar para ver se alguém a convencia a ficar. Ninguém o fez.
No dia de sua partida, elas haviam se abraçado pela última vez.
Ela era forte, e audaciosa, e sem receios, de maneiras que a outra nunca poderia ser. Talvez a amasse porque, no fundo, eram parecidas. Eram quebradas e estavam se reerguendo…
Ou talvez ela já fosse quebrada demais para adicionar qualquer coisa boa à supernova que era a alma dela. Seria apenas colocar mais um peso, o peso de se esconder, a alguém que merecia muito melhor, e muito mais. Merecia o mundo e todas as partes maravilhosas que ele tem a oferecer — partes que ela mesma não podia.
O melhor a fazer era fingir, mais uma vez. Fingir que não havia uma barragem de sentimentos prestes a romper dentro de si, e fingir que o motivo por ter voltado até ali não foi unicamente para vê-la.
Então, fingiu.
Tinha cinco dias para viver o sentimento de preenchimento, e o relógio já estava batendo. Não queria soltar nunca aquele abraço.
Mas soltou.
Ai! Será o amor fraco demais
Para destrancar o coração, e deixá-lo falar?
Serão os amantes impotentes para revelar
Um ao outro o que de fato sentem?
Eu sabia que a massa de homens escondia
Seus pensamentos, por medo de se revelados
Seriam por outros homens tratados
Com indiferença inexpressiva, ou reprovados com culpa
Notas finais
Obrigada por ter lido até aqui, e eu espero do fundo do coração que tenha gostado dessas poucas palavras. A maior parte da interpretação deixei a cargo do leitor, mas não tenham medo de me avisar se ficou confuso ou não. De certa forma, essa one-shot é muito especial para mim.
Se quiser me deixar um comentário dizendo o que achou e conversar, eu ficarei imensamente feliz!
??” O primeiro poema é o soneto 97, de Shakespeare
??” O segundo é The Buried Life, de Matthew Arnold (inclusive amo). Não achei tradução online, mas se alguém tiver interesse, esse é o link com o poema inteiro, em inglês: https://www.poetryfoundation.org/poems/43585/the-buried-life
Beijos a todos!
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