Stronger feelings
43 Capítulo 43
Notas iniciais
De imediato quando abri meus olhos fui tomada por um grande desespero, foi como se eu acabasse de despertar de um sonho terrível demais para ser lembrado, porém real o suficiente para que não fosse ser esquecido assim tão facilmente. O ambiente tão branco e limpo demais me foi estranho no início, sentia algo apertar meu pescoço e aquele mesmo desespero só pareceu crescer ainda mais quando me senti como se estivesse sendo enforcada outra vez por James.
Movimentei-me de supetão e assustada demais com aquilo, levei as duas mãos até meu pescoço sentindo um tipo de colar grosso o envolver. O meu desespero parece apenas aumentar quando eu tentei tirar aquilo de mim e ele não saiu, abri minha boca para gritar e minha voz sequer foi escutada por mim. Na verdade ela não saiu. Não conseguia dizer uma só palavra. Dominada pelo medo comecei a tentar tirar o entranho objeto de meu pescoço, sentia como se fossem duas mãos ali me envolvendo; enforcando-me outra vez.
— Hey pare com isso, Julia, está tudo bem! Está tudo bem! — A voz de Hotchner preencheu todo o lugar e foi quando vi — ele estava bem na minha frente — agora e segurava minhas duas mãos com um pouco de gentileza e firmeza, mantendo-as afastadas de meu próprio pescoço.
Vê-lo ali pareceu de fato me acalmar de uma forma compelta e até um pouco imediata, pisquei lentamente como se lhe dissesse que estava tudo bem e ele aos poucos foi me soltando meus braços e então de forma instintiva apenas o abracei o mais forte que conseguia e que me era permitido. A dor em meu corpo não me incomodou tanto assim, nem mesmo estava preocupada com aquilo no momento.
Queria apenas aquele toque conhecido, senti-lo novamente.
— Está tudo bem agora — Ele me garantiu com a voz mais baixa que antes. Suas mãos envolveram todo meu corpo de uma vez num andado protetor, o toque gentil e quente fazendo com que aquela mesma sensação me dominasse por completo.
Estava feliz por vê-lo ali, por estar sendo abraçada por ele outra vez. Arrumei-me em meio ao abraço, enterrei meu rosto em seus braços respirando fundo o perfume forte e tão conhecido que ele usava; dando-me conta de como senti falta daquele cheiro.
— Aaron… — Minha voz finalmente saiu, porém estava tão rouca e baixa que eu mal pude escutar a mim mesma. Foi automático, me afastei dele e logo levei minha mão até meu pescoço, onde o colar ainda estava, assustei-me ao meu ouvi falar daquela forma.
Notei que estava com meus dois punhos enfaixados, meus dedos com pequenos ferimentos e meus braços também. Deduzi de imediato que meu estado ali era péssimo. Corri meus olhos por todo o quarto limpo em que estava. Pelos vários aparelhos e pessoas de branco passando mais à frente, eu soube de imediato que estava dentro de quarto de um hospital.
Só não me lembrava de como fui parar ali.
— O que… — Toquei novamente meu pescoço ao ouvir minha voz sair tão rouca quanto antes, ele entendendo o que eu queria dizer com aquilo.
— Suas cordas vocais estão todas inchadas, por isso o colocaram e não, você não vai poder tirá-lo por um tempo; mesmo que isso esteja lhe incomodando. — Ele respondeu, ao notar que eu não parava de tocá-lo e vendo o claro desconforto que eu estava sentindo em ter aquilo preso em meu pescoço. — O médico pediu para que não forçasse muito a voz até que estivesse pronta, ele virá para fazer alguns testes, mas até lá precisa evitar falar ao máximo.
Recordei-me brevemente do que havia acontecido, ainda que fosse um pouco confuso lembrei-me do corte em meu pescoço. A lembrança viva da lâmina contra a minha pele e cortando uma parte dela, aquilo seria difícil de se esquecer. Fiquei calada por um tempo, era muito para ser assimilado assim tão rápido. Em resposta apenas assenti.
— E onde estão… — Conforme eu falava sentia toda a minha garganta ser arranhada, a forte dor que eu sentia ali agora se fez presente. — Outros?
Hotchner sentou-se na cadeira ao lado da cama onde eu estava. Fez uma careta rápida quando viu que eu estava tentando falar; não conseguiria ficar tanto tempo assim sem falar, não quando eu queria respostas.
— Estão cuidando de um caso que recebemos em Chicago, talvez eles retornem ainda hoje de lá — Ele me olhou ao responder a minha pergunta. — Todos estavam preocupados demais com você, foi difícil conseguir convencê-los a ir. Foi necessário prometer que iria mantê-los atualizados caso acordasse ou algo do tipo.
Esperei um pouco para fazer outra pergunta, senti algo me incomodar na garganta só da simples tentativa de tentar formar um som.
— Por que… Você não… — Eu não consegui falar direito e fiquei impaciente, apontei na sua direção. — Não… Foi?
Aaron demorou um tempo para me responder, continuou me encarando daquele jeito calado de sempre. Abaixou sua cabeça por um breve momento, como se estivesse se constrangendo antes mesmo de me responder.
— Não a deixaria sozinha depois do que aconteceu e também, alguém precisava ficar com você até que seu pai chegue. — Ele pareceu dar de ombros, mas o tom que usou denunciou ma mesma hora a real intenção pela qual ele ficou ali.
Ele respondeu ainda me fitando.
— Ligamos para ele assim que a trouxemos para o hospital, — Continuou, não dando-me uma brecha para respondê-lo. — Teríamos feito isso antes, mas não queríamos preocupá-lo sem que a tivermos encontrado antes… Ele chega daqui a algumas horas.
Passei a mão por meu rosto o sentindo pouco inchado e muito dolorido, fechei meus olhos por um momento lembrando-me de tudo o que me aconteceu. Do quão ferida eu estava ali.
— Quanto tempo… — Comecei a falar mas parei assim que senti algo incomodar em minha garganta. Gesticulei com a mão para o quarto onde estava e Aaron pareceu compreender o que eu queria dizer com aquilo.
— Desde o dia em que a encontramos? Se não tivesse acordado hoje já seriam seis dias. — Sua resposta não me surpreendeu tanto assim, sentia como se tivesse ficado apagada por quase um ano.
Forcei um pouco para que minha voz saísse, mesmo sabendo de que não podia fazer aquilo.
— Pensei que iria morrer lá… Eu não conseguia mais suportar tudo aquilo.— Confessei apenas para mim mesma, porém ele havia me escutado dizer aquilo. Lembrei muito bem de que havia desejado que isso viesse a acontecer enquanto ainda estava com James e por muito aquilo quase aconteceu mesmo.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse com você — Ele disse aquilo de uma vez, nem mesmo pareceu perceber nas próprias palavras que acabaram de sair de boca.
Nós encaramos quando ele disse aquilo, prendi a respiração por exatos dois segundos antes de soltar a mão direita, deixando-a ao lado do meu corpo na cama. Ele a tocou, de forma pouco discreta enquanto ainda estava com seus olhos negros fixos em mim. As lembranças dos incontáveis dias que passei com James vieram à tona como um banque forte em minha cabeça, pisquei um pouco rápido demais para afastar tudo aquilo de mim.
— E o que houve com Taylor?… Ele estava— Comecei a falar com certa urgência, minha garganta arranhou ainda mais ao me forçar a falar, a voz quase inexistente em mim saiu mais baixa e mais rouca. Falha demais. O mais velho pediu para que eu parasse de falar, provavelmente por causa da ordem médica. Mas continuei insistindo até que ele pareceu finalmente entender sobre o que eu queria falar.
— Não precisa se preocupar com ele, o acertou em cheio perto do coração, mais um pouco e ele teria morrido… O que realmente importa é que ele está preso. — Ele contou, desse tiro no qual ele mencionou eu me lembrava, porém do resto… Tudo parecia confuso demais. — Descobrimos isso e várias outras coisas quando ligou do celular dele, mas o importante é que Taylor Walter não é mais uma preocupação. Para ninguém mais.
Fechei meus olhos respirando fundo. Ouvir o nome daquele degraçado me causou um grande desconforto.
— Está tudo bem agora. — Ele disse novamente; me garantindo isso com muita certeza em sua voz. Assenti bem devagar, sentindo um pouco de dor de cabeça ao fazer aquilo.
— O que houve com… — Antes mesmo que eu pudesse completar a frase, Aaron me interrompeu não permitido que eu falasse. Ele agora havia segurado minha mão e a apertou levemente, num gesto gentil.
— Isso não é importante, Julia. Acabou, ele não é mais uma preocupação para você. — Ele me interrompeu.
Eu sabia que não valeria a pena saber o que houve, mas eu sentia essa necessidade de saber. Eu precisava. Com muita dificuldade pedi para que Hotchner me contasse o que havia aconhecido depois que perdi a consciência e claro que ele se recusou a fazer aquilo. Dizendo novamente que não era importante, mas para mim aquilo era. Continuei insistindo até que ele pareceu finalmente ceder e me contou tudo. Mesmo que parecesse que ele havia omitido alguma coisas.
— James Sawyer está morto e sim, dessa vez eu tenho total certeza sobde isso. Eu mesmo o matei. — Falou, soltando um breve suspiro antes de continuar. — Ele nunca mais irá fazer nada com você e nem com ninguém.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, dessa vez, ao receber a notícia de sua morte eu havia de fato acreditado. Me senti enfim livre dele. Finalmente liberta daquele pesadelo. O agradeci por isso, me sentia até mesmo um pouco melhor em saber daquilo, apesar de parecer errado.
Chega de James Sawyer na minha vida.
Tentei me mover na cama, ficar sentada, mas não consegui fazer aquilo e mesmo que tivesse conseguido, Hotchner me barrou no mesmo segundo. Segurando meus braços e me olhando como se pedisse para que eu parasse de me mover.
— Você não pode fazer isso, está ferida demais e levou muitos pontos. — Ele me avisou com seu tom pouco autoritário, ainda me segurando, porém com gentileza. Estava me sentindo como uma criança por estar em uma situação como aquela. — Ele fez muitos cortes em você, a machucou demais… A torturou de novo.
O encarei nos olhos por um longo momento, notei que seu tom mudou quando disse que eu estava ferida. Como se estivesse lamentando por aquilo e ele realmente estava, afinal, ele havia me visto ser ferida através de um vídeo. Porém eu não achava que aquela preocupação toda fosse mesmo necessário.
— Não queria ter mentido — Falei. Ele me olhou, um pouco confuso por um tempo, mas então compreendeu sobre o que eu me referia ao dizer aquilo. Seu olhar então mudou também.
Havia mentindo quando ele me perguntou se James na primeira vez que me sequestrou me torturou, de fato não queria que ele soubesse sobre aquilo. Ele só soube na noite em que nos entregamos ao outro e se não fosse por isso, era muito provável que teria descoberto sobre elas muito mais tarde. Suspirei antes de voltar a tentar falar, aquela situação estava me deixando irritada. Queria poder falar mais do que palavras curtas e incompletas.
— Está tudo bem, Julia. — Ele disse-me, sua voz soando um pouco mais baixa que antes. Balancei minha cabeça bem devagar positivamente, era sim necessário.
A vergonha que eu sentia sempre que as olhava ou até mesmo as tocava era… Eu sequer sabia como expressar. Ainda estávamos daquele mesmo jeito. Nossos rostos próximos ali, mas nem tanto assim. Apenas o suficiente para que os nossos olhares estivessem fixos no outro de modo a nos encarar de forma intensa.
— Obrigada — Foi tudo o que consegui lhe dizer antes de sentir que minha voz falhou mais uma vez.
Fui sincera em dizer aquilo, não apenas o agradecendo por ter matado James, mas por tudo o que estava fizera. Desde ficar ali comigo e por ter me encontrado; claro que isso era um crédito de toda a equipe, mas no momento o agradeci primeiro.
Falhei ao tentar desviar meu olhar do dele, nem mesmo queria fazer aquilo no momento, mas sabendo que meu pai ou qualquer outra pessoa pudesse chegar a qualquer instante me deixou consciente de que talvez não passaríamos da longa troca de olhar.
— Você não precisa me agradecer por nada disso. — Seus lábios se moveram de forma discreta demais, ele pareceu sorrir, mas era quase impossível de ter essa certeza. — Fiz o que precisava ser feito. Não é necessário que me agradeça por isso.
— Preciso sim… — Respondi com a voz ainda muito falha.
Ele pareceu se aproximar, seu movimento tão curto que nem mesmo pareceu que ele o fizera, mas quando ele fez isso pela segunda vez notei que a distância entre nós pareceu bem menor que antes. Ergui a mão tocando seu rosto como já fizera antes, lembrando-me de cada traço que ali existia. Aaron fechou os olhos por alguns segundos, sua mão também vindo de encontro ao meu rosto, o toque sempre tão quente e intenso causou-me uma sensação de que todo meu corpo estava queimando.
Eu queria pode conseguir me mover, acabar de vez com aquela curta distância entre nós e nossos lábios para poder beijá-lo.
Não posso dizer isso com tanta certeza assim, talvez eu estivesse apenas imaginando, mas pude perceber que Hotchner pareceu se aproximar bem mais de mim; como se tivesse lido a minha mente naquele mesmo instante. Seus dedos agora tocaram a lateral do meu rosto, o cuidado excessivo para que eu não sentisse dor ao receber aquele toque.
Apesar de não esperar por aquilo, me surpreendi quando vi que nossos lábios estavam mesmo mais próximos um do outro até que finalmente se tocaram. Como se ele tivesse lido a minha mente. O mesmo que sentia sempre que ele me tocava, fez-se presente em meu corpo. Hotchner parecia conter-se, seus lábios se moviam com lentidão e um cuidado que poderia beirar ao completo exagero, mesmo que houvesse um lado quase sensual naquilo, eu sabia que ele estava apenas fazendo aquilo por minha causa.
Não queria que ele de contivesse, porém aquilo era necessário, pelo menos por hora. Nem mesmo liguei para a dor que senti quando tentei erguer meu rosto para ele, só queria continuar sentindo o toque suave de seus lábios por mais tempo. Com um pouco de dificuldade levei meus braços até seu pescoço e o envolvi com eles, tocando seu cabelo curto e o puxando para mais perto de mim; querendo que ele estivesse mais perto. Me deliciava a cada segundo usando aquele beijo continuava.
Lentamente ele foi cessando o beijo, seus lábios se afastaram dos meus, porém ele continuou próximo demais de mim. Seus olhos ainda fechados, o polegar passeou por minha bochecha e lábios.
Só havia reparado no quanto havia sentido falta daquele tipo de contato quando o recebi novamente. Me senti aquecida, envolvida por uma grande onda de calor que se alastrou por meu corpo. Ainda nos mantínhamos próximos um do outro, nem mesmo queria que ele se afastasse.
Tinha medo de que aquilo não passasse de apenas um delírio da minha mente e quando acordasse ainda estaria com James Sawyer. Ergui meu queixo olhando-o um pouco melhor, levei uma mão para seu rosto. Tocando-o como se me certificasse de que ele realmente estava ali, queria ter essa certeza de que se fechasse meus olhos e os abrissem, ele continuaria ali comigo.
Daquele mesmo jeito, perto de mim. Enquanto tocava seu rosto ele cobriu minha mão com a sua, aquele toque foi simples, mas foi o suficiente para que eu tivesse a certeza de que não estava delirando nem nada.
Aaron de fato estava ali comigo e todo aquele pesadelo com Sawyer havia enfim acabado. E eu estava livre dele, realmente livre.
•••
AAron continuou me fazendo companhia no quarto, vez e outra eu tentava falar algo, mas era sempre barrada por ele. Que insistia em me dizer que eu não podia fazer aquilo. Em certos momentos — quando sentia que poderia acordar daquele sonho — segurava sua mão com o máximo de força que ainda existia em mim.
Apenas para me certificar de que ele continuava ali comigo e isso se mostrou ainda uma verdade. Seu celular então tocou e com calma ele se levantou da cadeira posta ao lado da minha cama, o retirando de seu bolso e rapidamente atendendo a ligação que recebia.
— Hotchner. — Ele disse da mesma forma profissional de sempre. — Sim, ela acordou já tem quase quarenta minutos.
Não prestei atenção direito na conversa breve, apenas ouvi quando ele disse o número do quarto e então desligou e voltou a sentar-se na cadeira ao lado da minha cama. Olhamo-nos outra vez, eu já entendendo que havia alguém chegando e que precisávamos nos tratar com o costumeiro profissionalismo de sempre; algo que já estávamos acostumados e muito.
— Seu pai já chegou, está apenas procurando pelo quarto em que está. — Contou. Assenti bem devagar.
— O que ele sabe sobre o que aconteceu? — Perguntei forçando minha voz mais uma vez, mesmo sabendo que eu não podia fazer isso.
— O suficiente. — Ele respondeu, seu olhar fixo em mim. — Mas não mencionei o vídeo e as ligações e mensagens. Ele apenas sabe que James a pegou e nada mais do que isso.
O vídeo. Pensei e meu corpo se tensionou. Lembrei-me do vídeo que James fez e enviou para Hotchner enquanto me torturava.
Não demorou muito para que a porta se abrisse depois de duas rápidas batidas e, então logo revelasse a figura bem conhecida por mim do outro lado. Meu pai estava com uma aparência cansada, seus olhos com olheiras fundas e visíveis deixavam claro que ele provavelmente passou noites sem dormir.
— Aaron. — O aposentado com os poucos fios castanhos em seu cabelo já grisalho fez um aceno rápido e breve com a cabeça olhando para Hotchner e vindo em direção a ele — Já faz muito tempo mesmo, hein.
Meu chefe concordou enquanto também se aproximava de meu pai, abaixando sua cabeça por um tempo e então voltou a encarar o homem mais velho que vinha em sua direção.
— Olá Roberto. Não queria revê-lo em uma situação como essa, mas é muito bom vê-lo novamente. — Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão, algo profissional demais, apesar de ambos se tratarem pelo primeiro nome. — Deixarei os dois a sós.
Aaron Hotchner lançou um olhar rápido para mim e depois para meu pai, logo em seguida deixando quarto e fechando a porta ao sair. Assim que ficamos sozinhos no quarto, meu pai me abraçou rapidamente. Machucando-me por causa da força usada, mas eu nem liguei para aquilo. Tê-lo tão perto de mim naquele momento foi como me sentir protegida de novo. A criança escondida em mim sorrindo de felicidade por tê-lo ali comigo.
— Aaron Hotchner me contou o que houve e vim o mais rápido que pude. Nem dormi de tanta preocupação com você! — Ele se afastou, passando a mão com gentileza e cuidado em meu rosto inchado e machucado. — Não acredito que aquele desgraçado voltou a mexer com você! Sacudi minha cabeça bem devagar.
— Ele… — Respondi com a voz ainda mais baixa e falha. — Ele está morto.
Minha garganta coçou e doeu ainda mais quando terminei de falar. Meu pai pareceu se aliviar com a notícia, apesar de ainda mostrar a clara preocupação em me ver no estado em que eu sabia que era deplorável.
— É eu sei disso também. — Ele sentou-se ao meu lado na cama, ficando de frente para mim. — O que importa é que está viva e bem.
Bem eu não estava tanto assim, sentia como se houvesse um caminhão me atropelando várias e várias vezes. Mas não iria dizer isso a ele, nem mesmo conseguiria.
— Quando ele disse o que havia acontecido com você eu… — Ele fez uma pausa longa, fechando os olhos. — E o estado em que ele a deixou… Eu também o teria matado se estivesse no lugar de Hotchner.
Conversamos por um tempo, ou pelo menos eu tentei. Apesar de não conseguir falar muito me esforcei para dar algumas respostas, mesmo que curtas e breves demais. Ele ajudo-me a ficar sentada na cama, a dor que senti no local onde havia levado os pontos foi quase como se estivesse sendo rasgada ao meio.
— Vou ficar com você enquanto não receber alta do hospital, quero ter certeza de que estará bem quando eu voltar para o Brasil — Ele fez uma pausa, olhando-me por um tempo. Seu olhar já me dizendo tudo. — Eu quase a perdi pela segunda vez, Julia, não posso permitir que isso venha a acontecer uma terceira vez.
Ele se lamentou.
— Não… — Eu ia continuar com a resposta, mas ele mesmo me fez parar de falar. Vendo que ele passou a insistir para que eu não forçasse mais a voz apenas obedeci, segurando em sua mão como resposta.
Ele sorriu, as rugas de sua idade já avançada se fizeram mais visíveis com o gesto.
— Ficarei com você até que receba alta do hospital, — Me contou, sua decisão já sendo tomada. — As palestras na faculdade poderão esperar, mas a minha filha não.
Dei apenas um curto sorriso como resposta, queria poder respondê-lo, mas aquilo não foi assim tão necessário. Ele sabia o que se passava na minha cabeça ali. Meu pai beijou o topo da minha cabeça de um jeito pouco protetor, acho que a última vez que o vi daquele jeito foi quando a situação era semelhante, porém com um desfecho completamente diferente daquele onde a vítima no meu lugar era a minha mãe.
Ele estava quase saindo do quarto para pegar um pouco de água quando alguém bateu na porta, ao mesmo tempo olhamos para uma mesma direção e então quando ela começou a ser aberta aos poucos foi revelando quem estava ali.
Garcia foi a primeira a entrar e parar de imediato ao me ver ali com meu pai, o amplo sorriso que ela mostrou se fechou e agora sua expressão era de puro constrangimento. Ri internamente de como ela olhou assustada e ao mesmo tempo surpresa para meu pai, Reid foi o segundo a entrar e este nem mesmo fez questão de disfarçar.
— Oh céus você é aquele agente super famoso… Roberto Barbosa, o paizão da Julia! — Penélope apontou ainda espantada para meu pai, ele lançou um olhar para mim, rindo da situação e então se levantou caminhando até os dois agentes. — E eu estou interrompendo o momento pai e filha não é mesmo?
Ele apenas riu e gesticulou como se permitisse que ela continuasse ali.
— Não, você não está interrompendo nada. E você deve ser a gênio em computadores, Penélope Garcia. — Nós duas parecemos surpresas ao ver que ele sabia seu nome, não fazia ideia de que ele a conhecia. — O FBI fez uma ótima escolha em te acrescentar no time.
Garcia abriu a boca.
— Já ouviu falar de mim? — Ela perguntou, ainda incrédula ao mesmo tempo que mostrava sua surpresa com aquilo. — Ai céus que honra isso… Muito prazer em conhecê-lo senhor!
— Uma hacker como você… Difícil não ter ouvido falar sobre você. — Ambos apertaram suas mãos num cumprimento longo, ela tentando se manter o mais séria possível. Roberto então se dirigiu na direção de Spencer.
— E você é o outro gênio do time no qual ouvi alguém falar, Spencer… Desculpe-me, é Doutor Spencer Reid. — Ele estendeu sua mão para o rapaz que fez questão de apertá-la sorrindo amplamente ao fazer aquilo.
— É um enorme prazer finalmente conhecê-lo, senhor Barbosa! Ouvi e li tanto sobre o senhor, principalmente sobre os inúmeros casos que já resolveu e — Reid parou de falar por conta própria ao perceber que estava falando rápido demais.
O restante da equipe entrou logo em seguida e todos foram cumprimentados e devidamente apresentados a meu pai. Depois de um tempo com apresentações ele nos deixou, saiu do quarto com Hotchner e assim me deixou sozinha com a equipe.
— Oh meu Deus Julia! Como eu fiquei preocupada com você! — Garcia praticamente correu até a cama para poder me abraçar, novamente senti dor, mas a deixei de lado. Estava feliz demais em vê-la, não apenas ela, mas a todos. A dor era um fator minúsculo e insignificante ali.
— Eu sei que não pode falar por enquanto, mas nossa! Como é bom te ver garota! — Ela me abraçou novamente, agora tomando um pouco mais de cuidado ao fazer aquilo. — Ah, e antes que eu me esqueça, o Doug está bem. Avisei para o garoto que você paga para alimentá-lo — eu acho que é Billy o nome dele — quando está fora e ele continuou cuidando dele. Doug está firme e forte como um labrador deve ser!
Sorri em resposta. Queria ver logo meu cachorro também. O restante da equipe me abraçou também, cada um à sua maneira e jeito. Era difícil controlar a vontade conversar com todos ali, mas eu sabia que se forçasse mais a voz ela não iria melhorar tão cedo. E a dor também só ficaria pior.
— Nos deu um grande susto garota. — Morgan falou com seu jeitão pouco brincalhão, porém demonstrando que ele ficara de fato preocupado.
— É, não nos assuste dessa maneira de novo, Julia. — Pediu JJ com gentileza. Em resposta pude apenas erguer o polegar num sinal positivo, já que não podia forçar mais minha voz.
Eles ficaram durante um bom tempo, foi bom tê-los ali pelo pouco tempo que durou até que o doutor que responsável pediu para que todos eles se retirassem pois eu deveria descansar. Toda a equipe — inclusive Hotchner, que pareceu ficar constrangido ao fazer aquilo na frente dos outros e também por estar na frente do meu pai — se despediram de mim, deixando apenas meu pai ali comigo, já que seria ele quem passaria a estadia no hospital até que eu estivesse cem por cento recuperada.
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