Stronger feelings
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Suspirei um pouco ansiosa demais com Hotchner ainda me encarando daquele mesmo jeito desde que comecei a falar. Talvez ele estivesse me vendo como uma louca naquele momento e, eu não me espantaria nem um pouco se isso se mostrasse mesmo uma verdade.
— O que as mensagens diziam? — Ele finalmente quebrou o silêncio de sua sala depois de longos minutos.
— O mesmo que recebi durante a semana passada — Respondi. — Ele apenas faz os mesmos tipos de comentários sobre como estou me vestindo e também fala sobre uma “data importante” que está chegando.
Ele imediatamente franziu o cenho.
— Uma data? — Ele questionou pela segunda vez. — Isso faz algum sentido para você?
Pensei um pouco, procurei em minha mente qualquer data que poderia ter algum tipo de significado tanto para mim quanto para Sawyer e não consegui pensar em nada.
— Não. — Respondi ainda um pouco pensativa, se talvez eu me esforçasse mais conseguiria algo. — Ele pode estar se referindo ao aniversário de morte da minha mãe, mas isso é só em novembro. Não consigo pensar em nada que possa ter algum significado para ele, não ao ponto de ele querer fazer questão de me lembrar disso.
Hotchner ficou em silêncio mais uma vez, mas agora ele parecia pensar em algo. Seus dedos batiam com leveza sobre sua mesa enquanto sua mente se mostrava trabalhar em algum pensamento. Cruzei meus braços jogando minhas costas mais para trás, quase empurrado a cadeia onde estava sentada.
Fiquei um pouco nervosa com aquilo.
— Ele está apenas brincando com você Julia, sei que falei o mesmo na semana passada durante o caso em NY, mas não vejo outra razão para ele continuar lhe atormentando. — Ele disse, seus olhos se voltaram para a minha direção. — E eu sei que só passou a me contar sobre isso porque ficou sabendo que David reparou que você anda preocupada.
Torci meus lábios fazendo um som baixo com eles, isso era mesmo verdade.
— Não se consegue esconder nada desse homem — Soltei o comentário no tom mais baixo que consegui.
— Ele está preocupado com você, Julia. E eu também — Confessou. — Parece que cansada, como se não dormisse por algumas noites.
Concordei.
— Se considerar apenas três horas e meia de sono — Admiti abaixado meu rosto levemente, olhando para meus pés. — Mas isso não tem nada a ver com o que anda acontecendo, é mesmo verdade que ando com um pequeno probleminha no assunto “uma noite completa de sono”, mas estou bem. Estou resolvendo isso aos poucos.
Menti. Esforçando-me para que eu conseguisse parecer o mais convincente possível, ainda não havia de fato conseguido resolver aquilo, mas ele não precisava saber disso. Não quando já tinha muito com o que se preocupar.
— E antes que você tente começar a me perfilar, não tem nada a ver com pesadelos ou algo desse tipo. É só insônia mesmo. — Ergui finalmente meu rosto ao dizer aquilo, Hotchner esboçou um sorriso curto.
— Acredito em você. — Ele respondeu ainda com o sorriso em seus lábios.
Ele franziu a testa e pareceu se intrigar com algo, mudou sua postura de repente, tornando-a mais ereta na cadeira e agora me olhando com um ar mais sério que antes.
— Vou lhe perguntar algo e quero que seja cem por cento honesta comigo — Suas mãos se juntaram sobre a mesa, seu jeito agora era de total profissionalismo. — Acha que está totalmente bem, Julia?
Franzi minha testa também, por não compreender de imediato aquela pergunta que ele me fez.
— Eu acho que não entendi muito bem a pergunta, senhor. — Acabei respondendo de forma profissional também, meu olhar ainda fixo no seu.
— Eu quero saber se você acha que está mesmo bem, com essa quase volta de James na sua vida e suas provocações, imagino como sua mente deve estar agitada. — Sua resposta veio devagar, cada palavra sendo dita com cuidado e calma. Como se ele quisesse mesmo que eu o entendesse perfeitamente bem. — Sei o que alguém como James pode fazer com uma pessoa e...
Desviei meus olhos, voltando-os para as minhas duas mãos repousadas sobre minhas pernas. Pensei em minha resposta, era estranho pensar que aquela era a primeira vez que realmente parava por um momento apenas para pensar em tudo o que vinha acontecendo.
— Eu sei aonde quer chegar — O interrompi. — Você não é a primeira pessoa que mostra esse tipo de preocupação comigo, mas eu estou bem. Respondi com convicção, para não só convencê-lo disso, como também convencer a mim mesma das minhas próprias palavras.
Ele apenas suspirou, assentindo muito lentamente, enquanto o seu olhar continuava ainda bem certeiro no meu. Fixo demais, como se de alguma forma Hotchner tentasse ler-me.
— Você está mesmo bem, Julia? — Ele me questionou com a mesma pergunta outra vez, sua voz bem mais calma que antes. Eu ia responder, mas ele então continuou. — E dessa vez não é o agente Aaron Hotchner quem está lhe fazendo essa pergunta.
Disfarcei um curto sorriso, não havia ficado tão sem graça com aquilo, só me pareceu um pouco estranho ouvir aquilo dele.
— Se for apenas a Julia Barbosa quem estiver respondendo diria que apenas sessenta por cento dela está bem, e o restante está querendo ter uma noite completa de sono. — Mordi meu lábio assim que o respondi, abaixando a cabeça por poucos segundos e então voltei a fitá-lo. Agora sim eu estava sendo totalmente honesta com ele. — Mas quanto ao meu lado agente, ela está perfeitamente bem. Até melhor do que eu pensei que estaria.
Aaron não disse uma resposta de imediato, seu olhar continuou em mim assim como o meu permaneceu no dele. Eu tinha quase certeza de que ele estava me perfilando naquele momento. A forma como ele me olhava já denunciava isso, mas não me importei; não tanto assim.
— Você sabe que uma hora ou outra terá de falar sobre isso para alguém, não é? — Apenas balancei minha cabeça o mais devagar possível, ouvindo suas palavras com bastante atenção. — E eu estarei sempre por perto, caso precise conversar, é muito óbvio que está guardando muito dentro de si e chegará um momento em que poderá não suportar mais isso. Vou estar por perto caso este dia chegue.
Suas palavras me surpreenderam, seu tom parecia diferente de antes, até mesmo seu olhar pareceu mudar ao dizer aquilo. Ao notar que meus lábios se esticaram bem mais do que eu imaginava, meus olhos agora se voltaram totalmente para Hotchner e ele também sorria; algo raro de se acontecer. Acho que ficamos daquele jeito por mais tempo do que pareceu, encarando um ao outro como nas tantas outras vezes em que já fizemos isso.
Foi ele a quebrar aquele contato é apenas para verificar o que havia feito seu celular tocar, ele então me olhou outra vez.
— Temos um caso novo. — Ele me avisou, guardando o celular no bolso do terno. Em resposta apenas anui com a cabeça enquanto o via se levantar e fiz o mesmo, ficando um pouco mais afastada dele e de sua mesa, mas aquilo não adiantou muito.
Ele mesmo se aproximou de mim, tocando meu braço de forma discreta, porém perceptível o suficiente para que eu pudesse sentir seu toque.
— Sei que pode não gostar disso, mas já vou avisá-la antes para não haver surpresas, não vou colocá-la em campo durante este caso. Só neste, tudo bem? — Apesar de querer tentar fazê-lo mudar de ideia eu sabia que aquilo não adiantaria de nada e também sabia o motivo dele estar fazendo aquilo.
— Tudo bem, mas somente neste caso. — Respondi num tom pouco divertido para que ele não levasse aquilo tão a sério assim. Ao mesmo passo que precisei erguer um pouco o meu rosto, ele também inclinou o seu um pouco e então nossos olhares se encontraram mais uma vez.
Ele assentiu devagar e então gesticulou para que eu fosse à frente, saímos de sua sala em silêncio e caminhando próximos demais um do outro — mas sem sair do nosso profissionalismo — nos dirigimos até a sala de reuniões. A porta estava aberta pela metade e mostrando educação, Hotchner a abriu e deu espaço para que eu entrasse primeiro. Apenas JJ e Rossi já estavam presentes e conforme nos arrumávamos ali, o restante da equipe também chegou.
— O que temos hoje, Garcia? — JJ perguntou sentando-se na primeira cadeira, ela ficando assim próxima demais dela.
— Algo estranho que beira ao bizarro e ao assustador também — Ela ficou de frente para nós e apontou o controle na direção do telão. — Em Eden Praire ou sendo um pouco mais específica, em Minnesota, a polícia local recebeu uma ligação bem estranha e sinistra nesta manhã e por isso nos chamou com tanta urgência. Garcia suspirou e deu play na gravação.
— Venha você também, conte até três e então poderá flutuar também… Venha flutuar, um, dois, três… Venha flutuar! — Era já voz masculina, ou pelo menos parecia, porque ela parecia alterada. Ao dizer pela última vez a frase o homem na gravação pareceu gritar, foi possível ouvir algo como uma batida forte em alguma superfície de madeira. Na gravação da ligação que fora recebida fez-se silêncio logo após aquele verso ser cantado, porém não durou por muito tempo.
— Infelizmente eu acabei fazendo muito estrago dessa vez aqui e é melhor vocês virem conferir o que fiz… Todos eles flutuaram comigo! — Antes de a ligação ser encerrada uma risada alta e assombrosa foi ouvida, algo quase perturbador.
Ou como Penélope havia dito: Sinistro demais. Ninguém parecia saber o que dizer naquele momento, o silêncio que se fazia ali já exemplificava tudo.
— A polícia conseguiu identificar de qual casa a ligação foi feita e a pessoa claramente perturbada que ligou foi Benjamin Rogan de quarenta e dois anos. — A foto do homem apareceu na tela de nossos tablets enquanto Garcia continuava a falar. — Ele passou quase vinte e cinco anos trabalhando numa loja de doces juntamente com a prima da falecida esposa e, agora ele ganha a vida sendo — literalmente — o palhaço da cidade. É chamado como atração para as festas infantis que acontecem.
Continuei lendo um pouco mais sobre os detalhes que haviam sido passados sobre o caso até que li algo que me deixou intrigada.
— Aqui diz que por hora pelo menos cinco corpos de crianças foram encontrados enterrados no quintal da casa dele — Ergui o rosto olhando diretamente para Garcia. — Tem mais corpos na casa dele?
Ela pareceu se entristecer com aquilo.
— Ainda não se sabe ao certo, a perícia está lá neste exato momento e tudo o que sabemos por enquanto é que além dos corpos encontrados, também havia muito sangue pela casa — Ela fez uma careta. — Tipo, muito sangue mesmo, Benjamin também foi encontrado todo sujo de sangue e por isso o levaram para a delegacia.
— Não tem sentido ele ter matado as crianças e depois ligado para a polícia — JJ comentou pensativa, seu tom de voz estava um pouco aflito por causa das fotos que estávamos vendo. Cenas brutais demais.
— O curioso aqui é que ele diz que não se lembra de ter feito isso e muito menos de ter ligado para a polícia depois disso. — Morgan respondeu, olhando oara todos nós. — Ele alega não se lembrar de nada disso.
— Como alguém que faz algo desse tipo pode ter a cara de pau de dizer que não se lembra de ter feito isso? — Taylor comentou com um pouco de indignação e desconfiança.
— Vamos sair imediatamente e continuar discutindo sobre o caso durante a viagem, — Hotchner foi o primeiro a se colocar de pé. — Se a polícia de Eden Praire fez questão de nos chamar com tanta urgência assim, então pode significar que esse caso é ainda pior do que pensamos.
Foi rápido, não demorou muito para que todos nós já estivéssemos de pé também para podermos partir o mais rápido possível até Minnesota e resolver de vez esse caso tão horrendo.
•••
Quando finalmente chegamos a Eden Praire já tínhamos todas as tarefas separadas e definidas para cada um. E como Hotchner já havia me avisado o que ele faria antes de sairmos, ele não me colocou em campo com quem iria para a casa de Benjamin. Fomos separamos em dois grupos, eu, Reid e ele ficariam na delegacia, cuidando do caso diretamente enquanto o restante iria ficar no local onde aquele crime tão horrendo havia acontecido.
Tínhamos muito trabalho para fazer e com uma cidade como aquele, onde o principal suspeito era alguém que todos conheciam; o pânico já havia sido espalhado rapidamente. Toda a cidade já estava ciente do que aconteceu e chegar até a entrada da delegacia foi difícil. Tivemos de lidar com um bom número de moradores nervosos e assustados com aquilo que assim como nós queriam respostas. Bom, pelo menos era isso em que eu queria acreditar.
Fomos recebidos por um homem que parecia estar — provavelmente — na mesma faixa etária que Hotchner, ele olhou para mim e Spencer com certa dúvida e então voltou o olhar para Aaron.
— Xerife Michael Millar. — Ele se apresentou para o mais velho apertando sua mão num cumprimento rápido.
— Sou o agente Aaron Hotchner e estes sãos os agentes Julia Barbosa e Doutor Spencer Reid. — O mais velho nos apresentou, gesticulando com sua mão na nossa direção. Spencer e eu fizemos apenas um aceno rápido com nossas cabeças o cumprimentando brevemente.
— Agentes? — Ele se mostrou um pouco surpreso ao nos olhar. — São um pouco jovens demais não acha?
Spencer e eu nos olhamos, não gostando tanto assim da forma como o xerife fez aquele comentário.
— E então, o que pode nos dizer sobre o caso? — Perguntei voltando para o assunto principal e mais importante, olhando diretamente para o xerife. Em resposta ele torceu os lábios e nos conduziu pela delegacia, nos levando até a sala de interrogatório, onde Benjamin Rogar já se encontrava.
— Cidadão modelo da cidade, todos gostam dele e é quase impossível acreditar que alguém como ele tenha de fato feito tal brutalidade com todas aquelas crianças. — Michael começou a falar, olhava diretamente para o interior da sala. — Benjamin não pediu advogado e está quieto desde que o trouxemos para cá.
— Ele não disse nada desde que chegou? — Perguntei um pouco surpresa, olhei rapidamente para o xerife mais uma vez, ele apenas assentiu.
— Disse apenas que era inocente e depois disso… Está assim desde então. — O homem apontou para o suspeito com o indicador. — Querem falar com ele?
— Não agora, — Respondeu Aaron de imediato. Virando-se para o xerife. — Precisamos saber tudo sobre Benjamin Rogar, tudo o que tiverem sobre ele e também sobre as crianças mortas e este caso. Qualquer detalhe, por mais simples que possa parecer será útil, precisamos saber com que tipo de homem que nós estamos lidando aqui.
— Como quiserem. — Michael Millar concordou e então pediu licença e nos deixou ali.
Hotchner se aproximou mais um pouco do vidro, olhava com muita atenção para o homem detido. Spencer ainda estava com o arquivo que recebemos sobre o caso em mãos e o estava lendo mais uma vez.
— O que vocês acham dele? — O homem perguntou, virando o rosto minimamente para a nossa direção, esperando que fizéssemos alguma observação sobre Benjamin.
— Ele assim, estando desse mesmo jeito — apontei o dedo na sua direção. — É impossível olhar para a cara dele e imaginar que é o mesmo homem matou aquelas crianças e que fez aquela ligação mais cedo. Falei olhando fixamente para o homem sentado na sala. — Para alguém que está numa situação como essa, olha só como ele está calmo, até demais para o meu gosto. — Desconfiei um pouco daquele homem, apesar dele não se mostrar uma pessoa que poderia fazer o que ele aparentemente havia feito.
— Ele não bebeu nada alcoólico e também não se drogou… Isso poderia vir a explicar o “apagão” que ele disse ter sofrido — Reid logo começou a falar, tinha um arquivo com várias páginas em mãos. — As cinco crianças foram mortas durante a noite, lá pelas nove e meia e dez horas, ele fez a ligação para a polícia às seis da manhã… Durante as oito horas livres que teve depois dos assassinatos, ele apenas as enterrou, mas por que ligar para a polícia depois do que fez?
Dei de ombros.
— Se ele as enterrou pode ter sentido remorso pelo que fez a elas. — Comentou Hotchner, completando um pouco o pensamento de Spencer.
— Mas na ligação ele não parecia nem um pouco ressentido pelo que fez, nem mesmo o seu tom de voz demonstrava isso. — Respondi um tanto incerta daquilo, olhando para o rapaz parado ao meu lado, Hotchner que estava ao lado de Reid me olhou e depois olhou para ele. — Ele praticamente se exibiu pelo que fez e se entregou para a polícia quando ligou, os chamou para ver o que ele havia feito com as crianças.
— Ele pode estar procurado por reconhecimento — Sugeriu Reid me olhando brevemente. — Benjamin é o palhaço da cidade, sempre foi acostumado a receber atenção. Pode ser por isso que fez a ligação, para que eles vissem.
Continuamos daquele mesmo jeito durante um tempo, apenas o observando. Nada naquele homem parecia ser de alguém que cometeria aquele tipo de crime, ele nem mesmo parecia ser um assassino. Mas isso não significava que não deveríamos suspeitar dele.
— Agentes? — Um policial entrou na sala nos chamando, parando bem na porta. — Temos alguns vídeos dele trabalhando como o palhaço em algumas festas de aniversários que ele foi chamado e um dos aniversariantes era uma das cinco crianças mortas.
Respirei fundo ao ouvir aquilo, de fato aquele caso parecia que só iria piorar se não fossemos rápidos para resolvê-lo. E ainda estávamos apenas no começo dele.
Fale com o autor