Stronger feelings
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Como já era de se esperar, a equipe acabou sendo dividia em dois grupos. Acabei por ficar junto com Hotchner e JJ que estavam indo para um endereço que nos levava direto para uma antiga casa de repouso abandonada que ficava fora da cidade e o outro grupo iria para um endereço residencial.
Era Aaron quem estava no volante, ele dirigia mostrando estar com pressa, parecia nervoso e não era o único que estava daquele jeito. Estava nervosa com tudo aquilo, contava os minutos para que aquele pesadelo acabasse logo para que assim eu pudesse finalmente esquecer daquele caso que tanto me causou dor de cabeça em um único dia.
Me encontrava impaciente ali dentro daquele carro e conforme nos aproximávamos do endereço, toda aquela ansiedade que eu sentia só crescia dentro de mim. Dando-me uma sensação muito estranha e bastante desconfortável.
Chegamos ao local juntamente com mais três viaturas, Hotchner nos organizou em grupos para que pudéssemos cobrir maior terreno. E não fiquei nem um pouco surpresa quando ele praticamente ordenou que eu ficasse com ele e JJ; sei que ele fez aquilo para que ele pudesse me manter na linha enquanto estivéssemos ali.
Entramos evitando fazer muito barulho, pois não queríamos que o desgraçado fugisse. O lugar estava escuro, todas as janelas existentes ali estavam cobertas por um tecido grosso e escuro que impedia que a pouca luz do lado de fora iluminasse o interior do local e como já estávamos no meio da noite, precisamos usar nossas lanternas para iluminar o caminho.
Seguia atrás de Hotchner e mais um agente, o homem fez um gesto para que ele seguisse para outra direção, nós dois continuamos, eu logo atrás dele com a arma já em minhas mãos.
Não me sentia totalmente pronta para encontrá-lo ali dentro e por mais que estivesse tentando me preparar para vê-lo novamente cara a cara — se ele realmente estivesse ali — sentia que aquilo não daria certo.
De longe conseguíamos ouvir os outros agentes gritarem “ninguém”, respirei fundo à medida que continuava com os passos. Ao mesmo tempo que eu queria que ele estivesse ali, eu também queria que ele não estivesse na casa de repouso. Hotchner parou ao chegarmos em dois corredores extensos e tomados pela mesma escuridão do local. Passei a lanterna pelo chão vendo que havia muito lixo ali jogado, o cheiro forte de mofo era algo dominante ali.
Ele me olhou de canto fazendo um aceno rápido com a cabeça permitindo que eu seguisse caminho na direção que ele me indicou. Seu olhar já dizia tudo, era como se já estivesse me repreendendo antes mesmo de eu ter feito algo, sabia que eu não podia me deixar levar pelas emoções e tentaria fazer isso. Iria mesmo tentar.
Fui em frente, ele entrou em outro corredor enquanto eu seguia pelo que ele havia me indicado. Abri a primeira porta, aquele provavelmente era o corredor onde ficava os quartos dos pacientes, no primeiro havia várias camas desmontadas.
O cômodo estava todo cheio apenas daquilo. No segundo quarto não havia muito, apenas colchões velhos e sujos. No terceiro o mesmo.
— Julia… — Ouvi alguém sussurrar meu nome, apesar da voz parecer estar distante senti como se ela estivesse bem atrás de mim. A mesma voz que falou comigo no celular alguns momentos atrás. Era ele.
Me virei de uma vez não vendo ninguém ali além de mim ali. Não podia dizer com tanta certeza se ele estava mesmo ali, talvez aquilo fosse apenas uma peça que a minha mente estava me dando. Respirei fundo dizendo a mim mesma que não havia ninguém naquele corredor além de mim.
Queria mesmo acreditar que aquilo era mesmo verdade.
Continuei seguido até que parei na quarta porta fechada, esta era bem maior que as outras. Segurei a maçaneta sentido meus dedos já levemente trêmulos ao fazer aquilo, minhas pernas pareceram amolecer, mas eu não podia enfraquecer naquele momento.
Ao abri-la precisei entrar, pois aquela sala era bem maior que as outras que havia entrado antes. O cômodo estava quase vazio, vi apenas duas mesas metálicas em um canto qualquer, dei mais um passo e então, dei um pulo ao me assustar quando ouvi a porta ser fechada de uma vez.
O cômodo foi iluminado por uma forte luz, permitindo assim que pudesse ver melhor onde estava. Virei-me lentamente até que o vi ali, poucos metros de mim. Parado na minha frente com um sorriso exageradamente branco em seu rosto, seus dentes retos e perfeitos mostravam um sorriso sombrio é preocupante.
O mesmo sorriso de quinze anos atrás. Apesar do tempo já passado ele continuava com a mesma aparência, o cabelo agora um pouco mais longo que antes. Chegando na altura de seus ombros e apesar de aparentar já ter chegado ao seus quarenta e tantos anos, ele parecia ter cuidado muito bem de sua aparência.
— Olá Julia, minha querida. Você não faz ideia de como senti saudades de você. — Ele saudou olhando-me no olhos. — Acho que está curiosa para saber quem eu sou, depois de tantos anos acho que lhe devo uma apresentação melhor do que essa não é mesmo? Ele sorriu rapidamente dando um único passo para frente ao mesmo tempo que recuei dois. — Como eu disse durante nossa rápida conversa em seu celular, dispenso formalidades então pode me chamar apenas de James. Ou se preferir, James Sawyer. — Ele deu outro passo para frente. — Mudou muito nesses últimos anos, lembro-me de que era apenas uma pequena garotinha e agora é uma mulher já formada.
Ele deu mais dois passos para frente e fiz questão de erguer minha arma na sua direção, eu atiraria se fosse preciso. Mataria aquele desgraçado de uma vez por todas.
— Dê mais um passo e eu juro que atiro na sua cabeça! — O ameacei, me surpreendendo pela minha voz ter saído bem mais firme do que esperava, quando na verdade, por dentro eu tremia.
Ele apenas riu pela segunda vez. Achamos graça daquilo.
— Eu sabia que estavam aqui dentro, ouvi quando chegaram, mas não esperava que você viesse junto com eles, deve possuir uma lábia forte porque conseguiu fazer com que Aaron Hotchner deixasse que viesse junto. — Ele disse ainda rindo. Notei que seu tom mudava levemente quando ele mencionou Hotchner.
— É engraçado que você acabou vindo exatamente para onde eu queria, — Seus lábios se esticaram mais. — Acho que possuímos uma ligação ainda mais forte do que imaginava, você não acha Julia? De todas as inúmeras salas daqui você entra justamente na que eu estava.
James começou a se aproximar, olhando-me como se ele me desafiasse, destravei a arma, mostrando que estava falando sério quando o ameacei, porém minhas mãos tremeram ao fazer aquilo e, percebendo isso continuou a se aproximar até ficar bem na minha frente.
O cano da arma já estava encostado em seu peito esquerdo e minhas mãos ainda estavam trêmulas.
— Ah Julia minha querida… — Ele sussurrou meu nome com lentidão, causando-me um arrepio muito desconfortável por todo o meu corpo. — Você não vai atirar em mim, consigo ver nos seus olhos que quer fazer isso, mas você não consegue. Ainda tem medo de mim.
Ergui meu rosto levemente para cima encarando-o, ele estava errado. Eu não tinha medo dele e iria provar isso a ele.
— Não, eu não tenho. — Respondi o encarando com fúria, foi rápido.
Minha mão se moveu, iria atirar em sua cabeça e no mesmo segundo que fiz isso ele segurou meu braço — o mesmo onde a cicatriz do corte recebido por Thomas Odell estava — e o torceu para que eu errasse o tiro. Ouvi quando a bala se chocou com algo metálico fazendo com que um som agudo ecoasse ali dentro. James Sawyer então me bateu, a não pesada e masculina acertou meu rosto com força, fazendo com que viesse a recuar sem perceber.
Tentei reagir, porém ele foi mais rápido e me acertou novamente com outro tapa no rosto, sua risada pareceu estar na minha mente assim como a canção que ele começou a cantar; a mesma que cantava quando fui sequestrada por ele já quinze anos. A mesma letra sombria e macabra; ele queria me assustar e infelizmente estava obtendo sucesso com aquilo.
Cai de joelhos no chão. Soltando a arma para cobrir meus ouvidos e não ter que escutar mais nada do que saia de sua boca.
— Foram quinze longos anos esperando por isso… Sempre desconfiei que seria você a mais especial de todas elas e você realmente foi não foi? — Ele segurou meus punhos tirando minhas mãos de meus ouvidos, queria que eu prestasse atenção nele. — Para alguém tão especial como você, o momento precisa ser igualmente especial não acha?
Tentei reagir e ele segurou meus punhos com mais firmeza, soltou uma gargalhada alta e mais assombrosa. Fazendo com que eu estremecesse ali mesmo.
— Você não mudou nada, continua a mesma garotinha metida a corajosa de quinze anos atrás — Sua voz saiu baixa e num tom mais assustador. — Mas eu consigo ver através de seus olhos minha querida, você ainda tem medo de mim, isso está claro em seus olhos.
Sem pensar direito o empurrei com toda a força que tinha, me afastei dele recuperando a arma e atirei, sem ver para qual direção. Só tive a noção de que errei quando o vi se levantar sem nenhum ferimento.
— Para uma agente do FBI você não tem uma mira muito boa Julia — Ele debochou, dizendo aquilo em português. — Tem alguma coisa errada com você? Parece estar um pouco tensa com algo.
Ao notar que ele estava novamente se aproximando, recuei mais dois passos, James começou a dizer algumas coisas continuando a debochar de mim e consequentemente aquilo pareceu tirar toda a minha concentração. Só de ouvir sua voz meu corpo estremecia causando-me uma sensação de puro desconforto ali naquele cômodo.
— Eu precisei ser muito paciente durante todos esses anos, não foi nada fácil porque quando a encontrei naquela casa amarela que você e o seu papai agente viviam em Atlanta eu precisei me controlar, quer dizer… Eu quis matar você naquele dia, mas não podia. — Ele confessou. — Até mesmo quando seu pai se afastou de você daquele jeito… Você estava tão vulnerável, mas eu não podia simplesmente te matar, ah não. Precisava ser algo especial para a minha garota especial!
Arregalei meus olhos ao ouvir aquilo, ele sabia sobre meu pai?
— Está assim tão surpresa por eu saber sobre o que houve com o seu pai depois que torturei e matei a sua querida mamãe? — Sua cabeça pendeu levemente para a esquerda e seus olhos brilharam ao ver meu espanto. — Me responda uma coisa: Ele também sabe que fiz o mesmo com você? Ele sabe que você foi a única espertinha que fugiu? Sacudi a cabeça, fechando meus olhos com força.
— Cala a boca! — Gritei com fúria voltando a encará-lo. — Cala essa maldita boca!
Sua risada saiu mais alta. Continuei me afastando, porém quando o vi vir de uma só vez para cima de mim precisei agir e atirei novamente, duas vezes, uma seguida da outra. Ele me derrubou, tirou a arma da minha mão e logo me segurou pelo cabelo fazendo com que eu soltasse um grito contido.
— Você sempre deu muito mais trabalho que as outras, não é mesmo, quinze? — Ele me segurou pelo cabelo novamente, agora arrastando-me pelo chão do cômodo. — Antes você não chorava, mas será que continua assim tão durona como antes?
Ele me soltou, mas manteve-me perto dele, conseguia sentir seu corpo próximo ao meu, sua respiração batendo em seu meu rosto me deixando enjoada só de sentir seu bafo.
— Você se lembra como tudo funcionava não é? — Ele perguntou rindo. — Quanto mais você se mexer pior será e assim por diante… Basta ser a boa garota que sempre foi e eu juro que não sentirá tanta dor assim.
Ele segurou-me, senti seu braço passar por meu pescoço, ele me forçou para trás, fazendo com que eu ficasse praticamente colada nele. Senti a ponta de uma lâmina tocar a parte exposta de meu braço, ele não me feriu nem nada, apenas traçou um caminho pela minha pele com ela. Ele tirou o braço do meu pescoço e mexeu no bolso da calça, tirando algo de dentro dele e usou os dedos para abrir minha boca, por mais que eu lutasse para que aquilo não acontecesse ele conseguiu abri-la e jogou o cumprindo que eu desconhecia, forçando-me a engoli-lo a seco mesmo.
Pude senti-lo descer com lentidão pela minha garganta, tentei tossir e ele cobriu minha boca, impedindo que eu fizesse isso.
— Agora sim que tudo vai ficar interessante — Ele sussurrou perto demais de meu ouvido, tentei lutar mais uma vez, mas senti meus braços pesados para fazer aquilo.
Ele havia me drogado. Tentei recuperar a arma, porém ele conseguiu pegá-la de mim e atirou na única lâmpada dali. Deixando que o lugar fosse dominado pela escuridão novamente. Ele então me soltou fazendo com que eu caísse de costas no chão, o salão estava escuro e só pude ver um pequeno feixe de luz quando James aparentemente abriu a porta para sair dali. Sentindo que a droga já parecia estar começando a fazer efeito em mim, com muita dificuldade me levantei do chão, tombando algumas vezes até que eu consegui manter-me firme e completamente de pé.
O segui, vendo-o de longe entrar em outro corredor, precisei usar as paredes como apoio quando sentia que iria acabar caindo. Me inclinei sobre o chão, colocando dois dedos na minha garganta, forçando-me a vomitar para tentar tirar o comprimido que ele me fez engolir, passei a tossir várias vezes e nada aconteceu. Nem mesmo senti a ânsia vir. Ergui a cabeça quando ouvi um barulho de algo se chocando com algum objeto metálico, era ele.
Eu tinha total certeza daquilo. Passei então a segui-lo usando o barulho que havia escutado como meu guia, notei que conforme eu continuava todo o lugar parecia cada vez mais escuro. A lanterna que havia deixado na outra sala se mostrou necessária naquele momento. Parei por alguns segundos ao sentir que minhas pernas pareciam querer vacilar, respirei profundamente dizendo a mim mesma que eu deveria continuar.
James Sawyer precisava ser pego e eu não sairia dali enquanto aquilo não acontecesse. Aquele desgraçado não iria escapar novamente. Voltei a caminhar, sentindo que poderia correr então fiz isso, mesmo que acabei tombando na parede algumas vezes. O segui até entrar em outro corredor, este bem mais escuro que os outros, nem mesmo parecia pertencer ao mesmo lugar. Passei minhas mãos pelo rosto sentindo-o quente e molhado com um pouco de suor, eu não podia deixar que aquela droga me vencesse e mesmo que estivesse sentindo-me quase enfraquecida para continuar seguindo, eu dei mais alguns passos, avançando.
— Você está mais resistente Julia — Ele estava atrás de mim, virei-me no mesmo segundo vendo-o ali parado. Ele me segurou pelos ombros, tentei reagir, mas aquilo não passou de um mero pensamento.
— Você… — Minha visão começou a fixar um tanto confusa, conseguia ver muito bem sua silhueta, mas a imagem parecia desfocada. Fechei meus olhos com força repetindo aquilo algumas vezes, não podia desmaiar.
Quando abri meus olhos novamente ele já não estava mais ali, procurei por ele vendo-o encostado na parede mantendo uma boa distância de mim.
— Já está desistindo, Julia? — O vi se aproximar novamente de mim. James parou bem na minha frente e me ajudou a ficar de pé novamente, na verdade ele me segurou pelos braços e com força me levantou.
Deixando-me de frente para ele, nossos rostos separados por uma distância pequena demais para ser medida.
— Está quase chegado no estágio onde não sente mais o próprio corpo não é? Se quiser, eu posso segurá-la quando cair. — Ele falou aquilo em português, passando sua mão por minha cintura enquanto a outra me segurou pela nuca. Tentei recuar, me soltar dele, mas não sentia que realmente estivesse fazendo qualquer tipo de movimento ali.
— Me solta… — Senti minha boca adormecida, ela parecia formigar, mas não tinha tanta certeza daquilo.
James abriu um sorriso mais largo que os anteriores, sua mão apertou minha cintura fazendo com que meu corpo viesse para frente e então seu rosto também se aproximou. Conseguia sentir seus lábios próximos da minha bochecha, seu hálito quente se chocando contra o meu rosto fazendo com que eu me sentisse ainda mais desconfortável ali.
Avancei na sua direção, usando o peso do meu corpo para conseguir empurrá-lo, mas aquilo sequer pareceu dar certo. O segurei pela camisa, mas logo senti meus braços formigando e fracos, não consegui mantê-los daquele jeito por tanto tempo. Acabei o soltando novamente. Minhas pernas vacilaram de novo e percebendo que eu poderia acabar caindo, ele me segurou, deixando que suas duas mãos tocassem minhas costas.
Novamente tentei reagir e como na vez anterior, não consegui. Senti completamente suja ao ser novamente tocada por ele, não suportava nem mesmo sentir suas mãos em mim, mesmo que elas estivessem por cima da minha blusa e colete. Meus olhos pesaram novamente, sentia meu corpo ficar mais leve e então a imagem que tinha passou a ficar turva e confusa.
Eu estava apagando. Pisquei diversas vezes, sentia que iria acabar desmaiando a qualquer momento e se isso acontecesse duas coisas poderiam acabar acontecendo: ou ele fugiria novamente ou ele usaria a minha inconsciência para me matar. Meu corpo estava começando a vacilar, de longe pude ouvir passos acelerados; talvez fossem os outros.
— Tenha bons sonhos, Julia. — Ele sussurrou em meu ouvido e então tudo começou a escurecer lentamente.
•••
Apesar de estar no limiar entre a inconsciência, mas ainda sim despertada o bastante para conseguir ouvir as vozes e passos que passavam por mim, pude sentir quando a sombra desconhecida se projetou bem na minha frente de repete e percebi que alguém havia me tocado, uma mão firme e forte.
O toque que senti não pertencia a James, não me senti suja ao receber aquele toque, pensei em procurar por algo que pudesse me ajudar a me defender, mas aquilo continuou apenas colônia mero pensamento. Ainda de olhos fechados, não conseguia encontrar força para abri-los e numa ação automática para me defender do desconhecido fechei minha mão fazendo um punho com ela e sem pensar duas vezes reagi. Foi muito rápido.
De repente minha mão já voava em direção ao suposto agressor e este a deteve com uma mão em meu braço e a outra em meu corpo; impedindo-me que eu me movesse novamente. Em um primeiro reflexo, ao sentir-me imobilizada, e ainda não totalmente desperta, relaxei o corpo e avancei em sua direção, encontrando certa forma em mim que não havia há alguns minutos atrás. Ele me segurou novamente, dessa vez com mais gentileza e me sacudindo para que eu despertasse.
Já estava com os olhos abertos quando tudo aquilo aconteceu, mas pelo lugar estar tão escuro foi difícil de reconhecer o homem ali parado na minha frente n Ofegando, pisquei com força, ainda sentindo meus olhos pesados e cansados. Quando uma luz se acendeu ali, a imagem de Hotchner foi se formando na minha frente. Preenchendo todo o meu campo de visão em questão de poucos segundos.
Na parca iluminação de uma outra lanterna colocada no chão numa distância que pudesse iluminar a nós dois, pude vê-lo claramente ajoelhado muito perto de mim. Pisquei para ter certeza de aquilo não era apenas uma ilusão, queria ter cem por cento de certeza de que ele estava mesmo ali.
— Julia? Está me ouvindo? Sou eu, Hotchner! — Ele perguntou tocando a lateral do meu rosto, seus olhos demonstravam preocupação, assim como o seu tom de voz.
Mesmo que eu ainda estivesse um tanto desnorteada por causa da droga que James Sawyer me forçou a engolir, conseguia escutá-lo com bastante clareza.
— Ele… — Olhei ao meu redor. — Ele está aqui. Vai fugir se não formos atrás dele… Foi naquela direção.
Ao mesmo passo que tentei me levantar do chão, Aaron Hotchner me segurou pelos ombros, fazendo-me voltar a ficar sentada. O fitei forçando meus olhos para que eles continuassem abertos e sacudi minha cabeça em negação.
— Precisamos ir atrás dele, droga! — Rebati com um pouco de raiva. — Ele vai fugir de novo!
Hotchner continuou me segurando, me impedindo que eu fizesse qualquer movimento.
— Ele a drogou e só sairá daqui para ser levada a um hospital e só. — Ele me fitou de volta, não estava bravo e nem mesmo sério. — E também, já temos JJ e o restante equipe atrás dele, todo o lugar está cercado.
Apesar da situação na qual eu me encontrava no momento, ouvir aquilo me deixou mais aliviada e até mesmo feliz. Eu só queria que aquele desgraçado fosse pego.
— Você está bem? — Perguntou usando um tom de voz diferente para me questionar. Assenti de forma lenta, sentindo uma leve dor de cabeça e em volta dos meus olhos.
— Estou, eu só… Só quero sair logo desse lugar. — Respondi tentando novamente me levantar e fazendo diferente de antes, Hotchner não me impediu, ele me ajudou a ficar de pé. Segurando-me com o braço passado por minha cintura e o outro em meu braço esquerdo, me auxiliando a me levantar.
O toque quente de sua mão na minha cintura — mesmo que por cima do colete e minhas roupas — me causou certa estranheza. Apesar de não me sentir da mesma forma como quando James me segurou, estremeci levemente quando minhas pernas vacilaram novamente anunciando que eu iria cair e ele me segurou com mais firmeza. Impedindo que aquilo viesse a acontecer.
O olhei de esgueira, de uma forma bastante sutil para que ele não percebesse que estava fazendo aquilo. Pisquei rapidamente quando percebi que ele pareceu tenso ao me segurar daquele jeito, claro que não havia nada demais naquilo, ele estava apenas me ajudando, mas foi inevitável de sentir algo de diferente naquele gesto. Mesmo que parecesse algo tão simples como um auxílio para caminhar em direção à saída daquele lugar.
— Meus olhos estão ardendo — Falei os coçando, ainda me sentia meio enfraquecida e mole. — Acho que estão irritados.
— Deixe-me ver. — Ele pediu ao mesmo passo que parou de andar, ficou na minha frente e levou à luz de sua lanterna para meu rosto, de imediato meus olhos reagiram à iluminação, os fechei, mas aos poucos fui abrindo-os.
Até que eles estivessem já um pouco acostumados com a luz. Apesar de não ver muito claramente seu rosto, sabia que Aaron estava me encarando o olhar sério de sempre. Sentia com facilidade o enorme peso de seu olhar sobre mim, mas não me constrangi com aquilo.
— Eles estão avermelhados — Ele respondeu, voltando a ficar do meu lado e então voltamos a andar. — É melhor não coçá-los, ou irá ficar pior.
Sim senhor. Pensei enquanto saíamos da casa de repouso, ainda recebendo o auxílio dele para poder caminhar.
Hotchner me levou até uma ambulância, deixando-me com um paramédico assim que foi chamado por um agente. Acompanhei tudo de longe, pude ver quando JJ levava James algemado para o carro da polícia. Ver aquela cena fez-me sentir mais leve, aliviada por ele estar finalmente recebendo aquilo que merecia. Não pude deixar de ficar feliz com aquilo, em vê-lo sendo finalmente preso.
Estaria finalmente livre dele.
•••
Acabei sendo levada quase às pressas para o hospital por ainda ter vestígios da droga dada por James. Durante o trajeto até o hospital fui medicada com um tipo de remédio que faria com que eu vomitasse; de acordo com eles isso faria com que qualquer vestígio da droga fosse tirada de mim.
JJ ficou comigo e me acompanhou não só durante o caminho até o hospital, mas também até eu ser atendida. Não saiu de perto de mim por um único segundo e só fez isso quando precisou atender seu celular, pois estava recebendo uma ligação de casa.
Já não estava mais vomitando como antes, porém por ter tirado exatamente tudo o que havia em meu estômago precisei tomar uma grande quantidade soro na veia para me reidratar. Não iria passar o restante da noite ali, pelo menos eu esperava que não. Mas se eu quisesse sair dali precisava tomar todas as medicações que estavam sendo receitadas a mim.
— Seus exames estão todos ok e quanto ao remédio que tomou, se tratava de um calmante que foi adulterado com diversos outros tipos de remédios. A maioria tarja preta. Teve muita sorte de ainda estar viva, agente. — Sua voz saiu levemente animadora. Aquilo não era sorte, James não iria me matar com o remédio, só queria me deixar dopada o bastante. — É normal que você ainda se sinta um pouco mole, mas logo pela manhã estará totalmente recuperada.
Passei a mão pelo rosto, meus olhos ardiam e em volta deles sentia uma dor forte. Uma dor de cabeça que comecei a série dava-me a sensação de que a minha cabeça iria explodir a qualquer momento, a informei sobre isso e ela tratou de me examinar no mesmo minuto. Acendeu a lanterninha deixando a luz no meu olho esquerdo e fez o mesmo com o direito, examinando-os com muita calma.
— É efeito da droga, mas não tem com o que se preocupar isso vai passar. Seus olhos estão irritados com a luz, é normal que eles fiquem assim durante algumas horas, — Ela respondeu se afastando. — De qualquer forma vou te receitar um remédio para a dor caso ela continue.
Novamente passei minha mão por todo o meu rosto, soltando um longo suspiro de meus lábios. Tirei o celular de cima da cama para olhar as horas e me assustei quando vi que já se passavam de duas horas da madrugada.
— Vou buscar o remédio para a sua dor. Volto em poucos minutos. — Ouvi o salto alto dela chocar-se contra o piso do hospital até que o som se tornou distante para ser escutado.
Olhei para o cateter em meu braço de onde estava recebendo o soro, faltava pouco para que ele finalmente acabasse e assim poderia finalmente ir embora. Sorri novamente quando lembrei de que James Sawyer estava naquele exato momento indo para a prisão. Não haveria mais nenhuma vítima e ele também não iria mais me perseguir.
Minha vida voltaria a ser como antes sem que eu precisasse me preocupar com ele.
— Julia? — Assustei-me ao ouvir a voz de Hotchner ali dentro, virei meu rosto na sua direção vendo-o parado na porta do quarto.
— Senhor. — Respondi com um aceno breve com a cabeça. — O que faz aqui?
A resposta demorou alguns segundos para ser dita por ele.
— JJ precisou sair às pressas, parece que Henry ficou doente e ela precisou voltar para casa. E também precisei passar com um enfermeiro por causa disso — Ele respondeu de forma simples ao mostrar o ferimento que fiz nele quando o ataquei na casa de repouso.
— Desculpe-me por isso. — Abaixei minimamente minha cabeça soltando uma risada curta e discreta.
— Está tudo bem. — Sua voz ficou mais próxima, à medida que ele adentrou mais no quarto. — Como se sente?
— Em qual sentido? — Perguntei de volta soltando uma risada sem graça, abaixando mais a minha cabeça e soltando um suspiro longo dessa vez.
— Naquele em que você conseguir descrever melhor. — Ele respondeu num tom baixo. Torci meus lábios de forma pouco pensativa, havia um misto de sentimentos dentro de mim que naquele momento se encontravam bagunçados.
— Parte de mim está feliz por tudo isso ter finalmente acabado, — Suspirei. — Mas a outra está muito incomodada… Eu queria atirar nele, mas não consegui fazer isso. Errei em todas as vezes que tentei atirar nele, mas logo na primeira chance que eu tive eu simplesmente travei ali.
Ele assentiu enquanto eu continuava falando.
— Eu tive a chance de fazer isso, tive muitas chances e mesmo assim não fiz. — Continuei. — Mesmo querendo muito ter feito aquilo, não o fiz. Aaron concordou novamente.
— Talvez você soubesse que se fizesse isso, não adiantaria de nada — Respondeu. — Matá-lo não iria lhe trazer paz Julia, e você viu isso antes que cometesse um erro do qual poderia lhe atormentar para o resto da vida.
— Não. — Neguei levemente com a cabeça. — No momento que levantei minha arma eu não me importei com nada, só queria vê-lo caído morto no chão. Não me importei se isso fosse me trazer paz ou só me deixaria perturbada, eu só queria matá-lo, fazê-lo pagar por tudo o que ele me fez.
Suspirei outra vez parando de falar no mesmo segundo, toquei meu braço de forma sutil mexendo no bracelete que tinha em punho. Ficamos então os dois em silêncio. A enfermeira havia retornado, queria dizer que ele tinha razão ao dizer aquilo. Se eu matasse James Sawyer talvez aquilo não adiantaria de nada, era possível que isso viesse a me atormentar, mas parte de mim queria que ele estivesse morto.
Aaron se apresentou para ela brevemente dizendo ser meu chefe, a mulher me entregou a caixa com o remédio para a dor, passou mais algumas instruções do que eu deveria fazer caso ainda estivesse com dor e então saiu do quarto nos deixando sozinhos novamente.
Tirei o cateter quando o soro finalmente acabou e tentei me levantar, meu corpo ainda parecia pesado, apesar de não haver mais nada da droga em meu corpo, na segunda tentativa de sair da cama acabei recebendo a ajuda — que eu dispensava — de Horchner, ele continuou me segurando até que eu estivesse totalmente firme no chão. Como ele fez quando iríamos sair da casa de repouso.
Notei que a forma como ele me segurava era diferente de antes, seu toque era estranho, parecia até que estava com medo de que eu saísse dali correndo e não entendi muito bem o motivo daquilo. Se eu estivesse com forças o suficiente para tal acho que iria mesmo sair correndo daquele lugar. Com a mão livre fui pegar meus pertences como minha bolsa e meu colete, porém ele os pegou antes mesmo que eu pudesse perceber isso.
— JJ pediu que eu a acompanhasse até sua casa caso ainda estivesse impossibilitada — Ele me avisou um pouco constrangido. — E vendo o estado no qual você está, acho que não tem muita escolha.
Impossibilitada. Repeti a palavra na minha mente, não era bem assim que eu estava e tenho quase certeza de que não foi aquela palavra que JJ usou.
— Você não precisa fazer isso. — Recusei a ajuda, não por orgulho, mas por não a querer mesmo. Afinal, eu não estava assim tão impossibilitada, só um pouco amolecida por causa dos remédios e nada mais que isso. — Eu posso muito bem pegar um táxi, não precisa se preocupar com nada disso e nem comigo.
Ele suspirou perto de mim, do tipo que se mostra indignado com algo.
— Julia estou tentando ajudar, você mal consegue ficar de pé sem ajuda, não pode sair e simplesmente pegar um táxi até sua casa nesse estado. — Ele me respondeu e pelo seu tom de voz, acho que ele estava preocupado. — Pare de tentar complicar tudo e me deixe te ajudar.
Revirei meus olhos mentalmente aceitando a ajuda, mesmo que eu não a quisesse. Respirei profundamente ao me dar conta de que ficaria sozinha novamente com ele, da primeira vez havia sido um pouco estranho, pois o apagão que aconteceu nos deixou presos dentro de um elevador e mesmo que a conversa que tivemos tenha sido boa, eu desejava que nada daquilo voltasse a acontecer. Pelo menos a parte de ficar sozinha com ele.
Porém lá estava eu, sendo guiada por ele até seu carro, dessa vez seria apenas nós dois, como na noite em que ficamos presos dentro do elevador na UAC.
Hotchner com muita paciência me ajudou até mesmo para entrar em seu veículo, me sentia como uma criança pequena que precisava de ajuda em tudo o que iria fazer e não pude negar que aquilo me deixou um pouco irritada. Foi ele quem passou o cinto de segurança por mim e, ao fazer aquilo nossos rostos ficaram a uma distância quase que mínima um do outro. Naquele momento não pude deixar de reparar no arrepio longo que senti em meu corpo ao sentir seu olhar fixo e sério sobre meu rosto. Aquilo nunca havia acontecido antes.
O interior do carro pareceu diminuir quando ele entrou também, o ambiente se tornou outro, pude sentir essa mudança com muita facilidade. Não virei meu rosto para o lado em que ele estava, apesar de saber que ele estava ali do meu lado, sendo separados por uma distância pequena. Eu sabia que ele não sairia dali de dentro mesmo que eu desejasse com todas as forças que aquilo viesse a acontecer.
Arrumei-no banco do carona percebendo que eu havia ficado um um pouco nervosa ali por causa do que aconteceu segundos atrás, sacudi minha cabeça rapidamente afastando qualquer pensamento estranho que pudesse estar na minha mente naquele momento e me concentrei no que estava acontecendo a minha volta. Ele deu partida no carro e segundos mais tarde estávamos nos movendo, eu tinha algumas preocupações, mas por mais que eu tentasse pensar nelas, minha mente se voltava apenas para o homem ao meu lado.
Aquilo era muito estranho.
— Rossi me ligou antes, já tiraram a câmera e todo o sistema de segurança que foi instalado na sua casa. Vão mandar outro técnico para a sua casa daqui uns dias e fazer o serviço certo dessa vez. — Ele cortou o silêncio, sua voz sempre tão marcante soou mais baixa que o normal.
Apenas anui com a cabeça, não sabia ao certo o que responder. Não queria mais pensar em nada que possuísse qualquer tipo de relação com aquele caso ou até mesmo com James Sawyer. Afinal, ele estava preso e isso, isso sim já bastava.
Cocei meus olhos novamente ao senti-los irritados e ao fazer aquilo as luzes que via fora do carro se tornaram borrões durante alguns poucos segundos.
— O que foi? — Ele perguntou ao meu lado. — Meus olhos ficaram irritados, mas está tudo bem. — Respondi sem dar muita importância para aquilo.
Dentro do carro o ambiente era bastante silencioso e calmo, não trocamos mais nenhuma palavra até chegar em um semáforo que fez o carro parar por um tempo. Sentia-me cansada, não fisicamente, só a minha mente.
Aquele caso e ter parte do meu passado revirado daquela forma fora desgastante demais. Não queria que algo daquele tipo viesse a acontecer novamente tão cedo. O carro voltou a se mover, Hotchner continuou silencioso durante parte do trajeto até paramos em mais semáforos.
Todo aquele silêncio só foi quebrado quando ele precisou atendentes o celular, a conversa foi breve, meu nome foi citado no meio dela e ele explicou que estava levando-me para casa. E então, estávamos novamente calados e ficamos assim durante todo o percurso.
Trocamos poucas palavras apenas para que ele encontrasse melhor o meu endereço e nada mais que isso. Era estranho, pois quando estávamos na UAC o assunto simplesmente surgia, até mesmo o assunto mais simples.
E ali dentro parecia que ambos estavam evitando começar uma conversa.
•••
— Chegamos. — Ele anunciou assim que o carro parou outra vez. — Quer ajuda?
— Não, não precisa. — Neguei começando a tatear o cinto para encontrar seu fecho, sentido meus braços ainda mais amolecidos. — Eu consigo daqui em diante.
Eu estava quase encontrando quando senti os dedos de Hotchner tocarem rapidamente a minha mão, ele acabou por desprender o cinto de mim afastando com rapidez sua mão da minha. Fiz o mesmo tirando o cinto do meu corpo tentando não pensar muito naquilo. Não pude deixar de notar que ao sentir seu toque na minha mão foi como se um choque corresse pelo meu corpo, algo diferente do que estava acostumada.
Ouvi quando ele abriu a porta, não olhei, pois já me sentia sem graça o bastante com tudo o que estava acontecendo ali. O vi quando ele passou na frente do carro, vindo para a porta do carona e a abriu. Aaron segurou meu braço novamente, um toque gentil demais para ser deixado passar despercebido.
— Não preciso de ajuda. — Retruquei erguendo meu rosto, encarando-o. Ele suspirou outra vez.
— Você mal conseguiu encontrar o fecho do cinto, Julia. Está mole, sei que não quer ajuda — Ele rebateu num tom sério. — Mas pelo menos por hora a aceite, como eu disse no hospital: eu só quero ajudar.
Assenti aceitando logo a sua ajuda, ele me auxiliou a sair do carro fazendo o mesmo que fez quando estávamos no hospital. Não andamos enquanto ele não teve certeza de que eu estava completamente firme no chão.
— Suas chaves estão na bolsa? — A pergunta soou como se ele estivesse sem jeito ao me fazer aquele tipo de questionamento.
— Sim, estão. — Respondi olhando de esgueira para ele, observando a cena de Aaron Hotchner vasculhando a minha bolsa, mostrando um pouco de vergonha com isso.
Ele anunciou que havia as encontrado e então começamos a andar, Hotchner não soltou meu braço até pedir que eu parasse ao chegarmos na porta. Do lado de dentro pude ouvir os latidos de Doug. Ele abriu a porta devagar, ouvi o leve rangido da porta e então o cachorro praticamente saltou em mim, eufórico como nunca esteve antes, porém estava como sempre controlado. Aaron me levou para dentro, notei quando ele mesmo acendeu a luz da sala e todo o lugar foi iluminado.
— Vai ficar bem sozinha? — Ele perguntou, sua voz saindo num tom claro de preocupação.
— Já sou grandinha Horchner — Respondi em tom brincalhão apenas para amenizar todo aquele clima que estava se formando entre nós. — Sou uma agente do FBI se esqueceu? Eu sei como me cuidar muito bem.
Doug passou por nós correndo para a cozinha.
— Se precisar de qualquer coisa é só ligar — Falou ainda parado perto do batente da porta, eu estava parada a quase três passos à frente dele.
— Eu vou ficar bem. — Falei outra vez, acho que queria convencer a mim mesma daquilo. Hotchner andou, estava pronto para sair e me dirigi até ele, meu corpo ainda um pouco amolecido, mas já mais firme que antes ao ponto de eu conseguir manter-me de pé sem ajuda.
Quando tombei brevemente para o lado ele segurou-me pelos ombros, soltando uma das mãos e deixando apenas uma ali. Sem perceber também me segurei nele, apenas para que eu não caísse. Ele então me fitou, como se perguntasse se eu estava mesmo bem e percebendo aquele olhar assenti lentamente, dando-lhe uma resposta silenciosa. Ele pareceu me olhar com um pouco de desconfiança, talvez percebendo que eu conseguia ser bem teimosa quando queria.
Sua mão apertou levemente meu ombro, como se ele se certificasse que ao me soltar eu continuaria de pé no chão. Pousei minha mão sobre a sua dando leves batidinhas nela, dizendo com aquele gesto que ele não precisava se preocupar tanto assim. Naquele momento, o contato acabou sendo muito espontâneo da minha parte, algo próximo a como se quisesse mostrar a ele que iria mesmo ficar bem sozinha na minha própria casa.
E realmente iria ficar.
Mas o seu toque em meu ombro foi diferente dos demais, o mesmo calor que senti antes quando ele tocou minha mão sem querer para soltar-me do cinto de segurança havia voltado quando ele tocou em meu ombro. Nossos olhos se encontraram, tentei pensar em qualquer desculpa para dar naquele momento, porém meus pensamentos eram confusos. Não soube dizer muito bem o que estava acontecendo, aquilo me fez esquecer por alguns segundos da dor de cabeça.
— Boa noite Hotchner — Falei, não para expulsá-lo dali, mas sim só para que ele percebesse que ainda estava ali parado. Senti que minha voz acabou saindo levemente alterada com aquela situação. Senti também minhas bochechas quentes e agradeci mentalmente pela luz dali não ser tão forte quanto as dos outros cômodos.
— Boa noite, aguente Barbosa. — Ele respondeu usando um tom formal até na forma como disse meu sobrenome, porém não se moveu. Nem mesmo sua mão saiu do meu ombro, nossos olhares ainda fixos um no outro como se cada um estivesse esperando que o outro tomasse alguma atitude ali; quer dizer, que atitude?
Aquela troca longa e silenciosa de olhares continuou por mais alguns longos segundos até que ele finalmente quebrou aquele tipo de contato que estávamos tendo. E, dando as costas para mim ele começou a caminhar até seu carro.
Fechei a porta logo em seguida, evitando batê-la para que aquilo não parecesse grosseria da minha parte, ao fechá-la continuei parada ali no mesmo lugar, ficando agora com minhas costas encostadas nela e me perguntando mentalmente o que raios havia sido tudo aquilo que acabou de acontecer.
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