A mudança de uma unidade para outra não era nenhum problema para mim. Claro que, eu gostaria de ter sido avisada com mais antecedência do que ter sido pega de surpresa.
Porém, apesar da inesperada mudança repentina, percebi que seria muito mais vantajoso para mim. Uma vez que estaria muito mais perto de casa agora.

As portas do elevador estavam prestes a se fecharem quando um rapaz não tão mais velho do que eu, entrou com pressa. Sua bolsa marrom de couro tiracolo bateu na porta com força e precisei sair de seu caminho para que eu também não fosse atingida.

Ele olhou-me extremamente constrangido pelo ocorrido, ofegante e com o rosto levemente corado, provavelmente porque veio correndo. Mostrei um sorriso gentil a ele, como se lhe dissesse que estava tudo bem. Sabia bem como era passar por esse tipo de situação e já estive em seu lugar algumas vezes quando ainda era apenas um filhotinho no FBI.

O elevador começou a se mover e percebi que estávamos indo para o mesmo andar. Esse pequeno e simples detalhe também não passou despercebido pelo desconhecido, noto que ele vez e outra lança em minha direção um olhar curioso e conhecido. Não me importei com isso, afinal, tinha um rosto muito conhecido no meio do FBI. Era questão de tempo até que eu fosse reconhecida.

O olhei de esgueira apenas para verificar o que estava acontecendo, vi que ele estava agora um pouco agitado, ansioso e até mesmo animado. Internamente me preparei para o próximo estágio, sabendo bem o que responder e como agir.

De fato, fui reconhecida pelo rapaz e ele estava apenas criando ou esperando o momento certo para falar alguma coisa.

Segundos demorados se passaram até que percebi seus lábios se abrirem.

— Com licença, você é Julia Barbosa não é? — Ele perguntou de uma só vez, sua voz saiu apressada e bastante animada. Apesar de possuir uma entonação gentil e agradável. — Filha de Roberto Barbosa, um dos agentes mais famosos do FBI e o mesmo que prendeu vários psicopatas como aquele dos anos noventa o homem que usava as plantas para matar suas vítimas e...

— Sim, sou eu mesma. — O interrompi gentilmente antes que ele pudesse começar a puxar todo o histórico de casos que meu pai já havia pegado em seus tempos de ação.

O olhei outra vez ao respondê-lo, seus olhos pareceram se arregalar por alguns segundos e então sua boca se abriu em surpresa conhecida. Essa reação já era esperada porque já passei pela mesma situação diversas vezes, porém ele era diferente das outras pessoas que já me abordaram.

— Ah, onde eu estava com a cabeça eu sou o Doutor Spencer Reid e é um enorme prazer conhecê-la — Spencer estendeu sua mão na minha direção e imediatamente nos cumprimentamos.

O doutor Reid ainda mostrava a mesma animação de antes e continuava a falar rapidamente. Deixando-me levemente assustada em como as palavras simplesmente saíram de seus lábios em uma velocidade que poucos conseguiam acompanhar.

— O prazer é todo meu Doutor Spencer Reid. — Respondi e inevitavelmente acabei sorrindo outra vez, acho que estava me divertindo com aquilo. — Então quer dizer que você já ouviu falar sobre o meu pai?

O questionei, mesmo que a pergunta parecesse um tanto quanto boba e óbvia demais já que, ele havia acabado de falar sobre ele. Talvez estivesse apenas puxando assunto para tentar esquecer-me que aquele seria o meu primeiro dia em uma nova unidade do FBI e que consequentemente teria de ser apresentada para novos agentes que talvez tivessem a mesma reação.

Carregar o sobrenome Barbosa e ter seguido os mesmos passos que meu pai, fizeram de mim o que chamam de estrelinha. Meu pai foi um agende do FBI por tempo demais e tornou-se um dos melhores agentes, juntamente com David Rossi e Jason Gideon. Sendo um dos melhores agentes, ele consequentemente se tornou muito popular e um nome importante, conhecido e reconhecido por todos, atraia a atenção de muitos, dos bons e dos maus.

Crescer e simplesmente decidir que também seria uma agente fez de mim conhecida também. Apesar de ter sido uma das mais jovens a entrar em uma universidade, ter se formado cedo demais e ter entrado para a agência ainda muito nova, as pessoas me abordavam apenas por ser filha de Roberto Barbosa.

— Impossível não ter ouvido falar dele, li tudo sobre seu pai e inclusive o livro que ele escreveu sobre o último caso que ele pegou antes de se aposentar — Spencer começou a falar de uma só vez, assustando-me de novo devido a velocidade de suas palavras.

Ele falava bem mais rápido que antes e estava literalmente dizendo exatamente todas as informações contidas no livro sobre Roberto — meu pai — e as informações extensas que foram colocadas no livro.

E quando ele parou finalmente de falar, eu estava sem ter o que dizer, impressionada seria a palavra correta para aquele momento? Ou seria melhor usar a palavra assustada? O que Reid havia dito sobre o livro era como se ele tivesse acabado de lê-lo para mim dentro daquele elevador.

— Eu tenho memória fotográfica — Ele justificou de forma calma seu amplo conhecimento quando pareceu compreender a expressão em meu rosto.

— Faz sentido — respondi com meio sorriso. Um tanto espantada com a habilidade do rapaz.

Nossa curta conversa foi interrompida quando o elevador abriu as portas, exibindo nosso destino.

— Foi um prazer conhecê-la. — Spencer Reid diz antes de acenar brevemente e deixar o elevador aos passos acelerados.

Demorei poucos segundos para sair também, endireitei-me e segui caminho. A informação era que assim que eu chegasse me dirigisse a sala do agente Aaron Hotchner.

Andei pelo lugar já sabendo muito bem para qual sala me direcionar, eu já estive naquela unidade antes — e obviamente o motivo não era por causa de uma transferência e sim por causa de um caso antigo que trabalhamos juntos —, não seria um problema encontrar a sala dele. Não possuía memória fotográfica como Spencer Reid, mas recordava-me perfeitamente onde ela estava localizada.

Assim que cheguei até ela, parei e verifiquei o nome escrito, era ali mesmo.

Respirei profundamente me vendo novamente um pouco ansiosa com aquilo, o que não havia nenhuma necessidade, pois eu não era bem uma novata ali. Conhecia o agente Hotchner, Rossi e Gideon, já estava familiarizada com eles e com parte do novo ambiente.

Bati duas vezes na porta e esperei pela resposta.

Levou quase dois minutos inteiros para que a porta fosse aberta e o agente aparecesse bem na minha frente, ele me olhou durante alguns segundos como se estivesse me analisando — o que quase todo perfilador faz sem perceber — então finalmente quebrou o silêncio.

— Agente Barbosa, entre e, por favor, sente-se. — Seu tom era profissional demais e eu dispensava aquilo, afinal ele já me conhecia, mas como estávamos em um ambiente de trabalho era claro que aquele seria o modo como ele iria me tratar. — Seja bem vinda a essa unidade e admito que é um enorme prazer recebê-la em nossa equipe, agente.

Puxei uma cadeira sentando-me de frente para a mesa dele, o observei enquanto ele fazia o mesmo ficando também de frente para mim.

Seu tom já era um pouco mais gentil.

— O prazer é todo meu, senhor. — Respondi usando a mesma formalidade da qual não gostava muito. — Fico feliz por entrar para a sua equipe.

Ele não precisou se apresentar e nem mesmo eu precisei, pois já nos conhecíamos. Nossas equipes se uniram durante um caso em Chicago, porém fui apresentada somente aos agentes Hotchner, Gideon e Rossi.

— Não me espante que estavam de olho em você, desde que unimos as duas equipes imagino que seria questão de tempo até que tentassem trazê-la para cá.

— Só espero que isso não tenha relação alguma por ser o mesmo lugar onde meu pai trabalhou…

— Posso garantir que não tem. — Ele foi rápido em interromper. — Por mais que seja conhecida pelo FBI, garanto que Strauss a trouxe por causa de seu cérebro e das ótimas recomendações que tem.

Esboço um leve sorriso aliviado. Era exatamente o que eu queria, que a razão para minha transferência fosse meu profissional e não por causa do meu nome.

Fez-se silêncio entre nós e enquanto ele pegava um arquivo cujo nome que estava escrito era o meu, continuei quase que totalmente imóvel na cadeira estofada em que estava sentada.

Ele olhou algumas folhas, parecia analisar todas com muito cuidado e calma, algo que me incomodou um pouco porque sei que estava sendo analisada profissionalmente, até que o fechou e o colocou dentro de uma pasta bege também com meu nome escrito.

— Não tenho muito o que instruí-la, já conhece todos os protocolos e a rotina que temos — seus olhos se ergueram em minha direção. O agente me encarava fixamente. — Não sei se sabe, mas a equipe está diferente desde a última vez que nos encontramos.

— Estou ciente sobre Gideon, senhor. — respondi. — Inevitavelmente a notícia de sua aposentadoria repercutiu não somente aqui, mas onde estava também.

Mencionar Gideon pareceu trazer uma sombra de tristeza ao rosto de Hotchner, uma nuance de emoção que ele tentou, em vão, disfarçar. Percebi a rápida mudança em sua expressão ao ouvir o nome do outro agente.

Era evidente para todos que a amizade entre eles era profunda, e a saída inesperada de Gideon deixou uma marca indelével não apenas em Hotchner, mas em toda a instituição do FBI.

Seu pedido repentino de aposentadoria — ou demissão — e seu subsequente desaparecimento deixaram um vazio palpável, uma lacuna na equipe que nunca seria completamente preenchida.

E eu, pessoalmente, perdi um mentor excepcional.

— Sei o que Jason significava para você. — Hotchner diz de forma simpática. — Ele mencionou quando a conhecemos que foi um de seus professores.

— Foram aulas incríveis — confessei, lembrando-me com facilidade de todas as aulas ministradas por Gideon. — Aprendi muito com ele.

Ele se limitou em apenas esboçar um sorriso simples.

— Muita coisa mudou em três anos, foi apresentada somente a três membros da equipe, será apresentada a cinco novos rostos.

Três anos e meio se passaram desde que fui apresentada a eles, mas desde então não percebi muitas mudanças no homem na minha frente. Continuava o mesmo homem sério e de poucas palavras de antes.

O que para aqueles que não o conheciam muito bem poderia parecer intimidador.

— Sei que sim. — respondi. — Lidava com uma equipe menor na outra unidade, mas isso não será um problema.

— Bom, de qualquer forma fico feliz em ter alguém com recomendações excelentes como as suas e tão bem qualificada também. Formada em psicologia criminal e análise comportamental. — Elogiou com honestidade, me deixando levemente constrangida. — Será uma ótima adição para a equipe, Julia.

Eu estava prestes a responder quando a porta foi aberta de uma vez, uma mulher loira com roupas coloridas e bem chamativas parou de repetente ao ver que Hotchner estava ocupado e recuou meio passo. O rosto maquiado mostrou feições de choque e seus olhos através das lentes de seu óculos rosa brilharam quando ela me reconheceu.

Seus lábios tremelicaram um sorriso discreto antes de dirigir-se ao homem.

— Oh, desculpe-me senhor, não sabia que estava ocupado — Ela começou a se desculpar e então foi interrompida.

— Está tudo bem, Garcia. — Ele respondeu. — Essa é a nova agente Julia Barbosa, irá entrar para a equipe.

Garcia imediatamente arregalou os olhos ao me olhar e ouvir as palavras entrar para a equipe — quase do mesmo jeito que Spencer Reid havia feito quando me reconheceu dentro do elevador — e agora um amplo sorriso se formou em seus lábios.

— Então é mesmo verdade sobre a sua transferência, — Ela piscou surpresa. — Seja bem vinda!

Ela disse, também animada. Seu olhar voltou-se para o agente sentado na minha frente e então seu semblante sofreu uma alteração.

— Temos um caso novo, senhor. Um dos ruins. — Alertou com os lábios franzidos. — A equipe está se reunindo na sala.

Dizendo isso ela saiu com pressa, fechando a porta novamente ao deixar a sala.

— Espero que tenha trazido uma mala — O agente disse, começando a se levantar de sua cadeira. — Começará agora mesmo. Espero que esteja preparada.

Coloquei-me de pé ao mesmo passo que ele.

— Sempre estou pronta. — respondi com confiança, mantendo meu tom firme e assertivo.

Dizendo isso, ele seguiu na minha frente, segurando a porta de sua sala aberta para que eu passasse primeiro. Conforme saí, ele saiu logo em seguida, e eu me vi pronta para embarcar no meu primeiro caso nesta nova unidade, cercada por alguns rostos que eram desconhecidos.

No entanto, mesmo com toda a experiência que fui acumulando ao longo dos anos como agente, não me sentia nada preparada para ser o centro das atenções, como Reid e Garcia me trataram ao me receberem. Ser filha de um agente tão renomado como meu pai tinha seus desafios, e lidar com a atenção excessiva era um deles.

Apesar de já saber como lidar com isso.
Respirei fundo e me preparei para o começo do meu dia.