Strong bond
2 Visita ao hospital
Notas iniciais
Uma luz intensa forçou caminho pela fresta dos meus olhos. Depois de certa dificuldade em abri-los parcialmente, dei de cara com uma parede tão branca como a luz que iluminava o ambiente. Olhei em volta e senti a cabeça pesar, obviamente que algo não estava direito. Logo que a dor em minha cabeça foi se acomodando aos poucos, um barulho de pessoas falando, objetos sendo remexidos e passos apressados tomaram conta de meus ouvidos. Um cheiro expressivo de éter se misturou a dor que latejava lentamente no fundo de minha cabeça.
Tentei relembrar algo que me fizesse remeter como conseqüência de estar ali hospitalizada. A imagem de todos aqueles homens e eu só naquela sala estalou dentro de mim, será que fui uma pobre e inocente gazela vitima daqueles leões famintos?! Apenas a idéia absurda já me assombrava com calafrios! Até que outra cena deu-se vez e copos cheios de cerveja brotaram em minha mente. A idéia me caiu como uma luva e muito mais plausível que a anterior, obviamente. Me senti mal por ter parado no hospital por causa de bebida, sempre bebi socialmente, contudo nunca cheguei ao ponto de um estado estremo como me encontrar no hospital. A decisão de parar com a bebida estava tomando as rédeas, quando um sentimento de que algo faltava adiante me tirou a paz. Empenhei em forçar a mente de irromper algum vislumbre a mais, todavia fui perturbada pela voz de uma mulher que ecoou sonora em meu ouvido esquerdo.
–Ele ainda não acordou? Esta quase na hora de trocar a medicação. – Comentou consigo uma moça uniformizada.
Somente com um ligeiro olhar sabia que ela era uma enfermeira, depois que reparei no paciente a quem ela se referia. Um homem com aparência de beirar a casa dos trinta, repousava imóvel no leito ao meu lado. Me surpreendi ao visualizá-lo mais atentamente, cabelos escuros como o mar profundo e a pele tão alva como a parede daquele hospital.
A medida que a sensação foi me tomando, ao vislumbrá-lo, um clique estalou em minha cabeça. E nesse momento reconheci o rapaz, era o homem acanhado da sala de karaokê! As imagens da noite fluíram velozes, meu corpo foi tomado por um arrepio indesejado. Lembrei-me então dos últimos acontecimentos bem antes de ser levada ao leito que me encontrava, apouco antes de me retirar do karaokê:
Tomada pela agitação dentro de mim, levantei-me bruscamente de maneira involuntária. “Afinal de contas, o que eu ainda estou fazendo aqui?” Em meio aos pensamentos em um turbilhão não reparei na mesa a minha frente, tropecei no objeto e minha testa foi de encontro com o chão. Suponho que nesse instante todos estavam com os olhos grudados em mim, pois logo o silêncio pairou no ar. Alguns segundos se passaram para que eu reagisse daquela posição constrangedora e um dos homens reagisse ao acontecido. “Levante calmamente Ana. Esta tudo bem, se você mostrar que não foi nada os outros também pensarão assim. É nessas horas que tenho que me mostrar jus a minha idade.” Apoiei uma das mãos no chão e me levantei lentamente.
Os sujeitos na sala saíram de seu transe, através de movimentos insertos demostravam querer de alguma forma me acudir.
–Hahahaha! – Antes que pudesse tomar controle de mim, uma risada descontrolada saiu desenfreada. – Não se preocupem, não foi nada demais...haha!
“Malditaaaa seja você Anna!! Tinha que rir que nem uma idiota na frente de completos desconhecidos, ainda mais depois do acontecido. Idiota!”
Reprimi o meu eu interior esperando ao menos se tomava alguma compostura, pelo menos até que minha expressão forçada desaparecesse da cara. Antes que desse por mim, senti uma mão cálida em meu braço.
–Vou levá-la até sua casa, melhor tratar desse ferimento. – Disse o rapaz que se punha ao meu lado.
Mirei-o com o canto dos olhos, era o cara que minutos antes estava sendo cantado pelo outro ao seu lado, o mesmo que antes me pareceu compartilhar do mesmo sentimento de introversão que senti. Antes que pudesse contestar ele me apreciou com uma mirada gentil e disse:
–Vamos. – Puxou-me delicadamente pelo braço. – Obrigado por tudo. Tchau! – Inclinou levemente a cabeça e um tímido sorriso encerrou sua despedida dos outros.
Deixei-me levar, pois foi uma ótima deixa para partir dali.
–Melhoras! Foi um prazer... – Gritou o homem que tinha me feito companhia na cantoria, tentou se despedir de forma amigável, porém pareceu não saber como me dirigir ao final da frase e um sorriso simpático despertou em seu rosto.
Sorri em resposta e acenei. Andamos poucos minutos em silêncio e logo paramos em um estacionamento próximo ao karaokê. O sujeito pagava ao responsável pelo estacionamento, eu ainda me sentia atordoada com o desenrolar dos fatos que sucederam a pouco.
O homem abriu a porta que dava acesso ao banco ao lado do motorista, sentei-me e fechei o cinto em volta de mim. Ele iniciou a partida do carro e deslizou as mãos no volante , então lembrei-me que não sabia seu nome ou nada sobre. Abri a boca em menção de questioná-lo, no entanto algo despertou dentro de mim e a fechei imediatamente, raciocinando comigo:
“Aonde estava com a cabeça aceitando carona de um completo estranho?! Eu nunca fui do tipo de pessoa ingênua para aceitar esse tipo de situações, como é que acatei algo tão evidentemente perigoso? É obvio que todos aqueles eventos me haviam tirado de minha órbita. Mas a questão era, o que fazer agora? Espero não ter de usar meu spray de pimenta. O importante é prestar atenção no caminho que ele faz e acompanhar em meu GPS, ficarei pronta para acionar a policia caso necessite. Também me questiono se serei capaz de deferir os golpes de auto defesa que aprendi de um amigo, ou espero ter aprendido...”
Avistei de relance meu vizinho de banco, em meio o caos em meu raciocínio. Ele deve ter notado meu olhar nada discreto, já que um sorriso espontâneo brotou em seu rosto. O que me pegou desprevenida, não posso negar que um pequenino lado meu sabia que sentiria uma certa culpa se ele for apenas alguém inocente. Entretanto, nos dias de hoje é muito difícil acreditar abertamente nas pessoas.
–Devo desculpas a você. – A voz branda do rapaz preencheu o ambiente.
–Por que?
–Bem...eu te forcei a sair comigo e nem sequer nos conhecemos, ou fomos apresentados um ao outro. – Apesar de seu olhar estar focado adiante, notei sua expressão tomada por um suave remorso.
“Na verdade me fez um favor.” Comentei comigo antes de responde-lo.
–Eu me sentia cansada e com sono, estava já pensando em partir. – Tentei exibir uma cara com uma pitada de consolo. Afinal de contas, não podia despir meu ar de desconfiança que estava borbulhando em meu interior.
Seus olhos se encontraram com os meus e ainda com o olhar fixo ele se pronunciou:
–Acho que começamos mau, vamos começar de novo, ok? Afinal, como mencionei, não fomos apresentados ainda.
Lembrei-me de uma ocasião de minha infância. Sempre era interessada pela leitura, casualmente uma das maneiras que se descrevia a expressão de um personagem era utilizando a linguagem do olhar. Aquilo sempre me pôs curiosa, pois nunca havia reparado, antes desse fato, aquele variação de expressão nas pessoas ao meu redor. Daí em diante busquei decifrar o que o olhar das pessoas transmitia a cada expressão. Entretanto, todo o esforço foi em vão, acabei por descobrir que aquele tipo de linguagem para mim era mais enigmática que qualquer charada. Todavia, naquela noite do karaoke, não sei dizer exatamente o motivo, porém algo no brilho do olhar daquele homem me fez entender que demonstrava firmeza.
Uma luz branca de um brilho intenso surgiu inesperadamente sobre nós, seu clarão ofuscante se mostrou crescente em questão de segundos. Ambos fisgados pelo lampejo repentino, viramos o rosto para onde provinha. Aconteceu tudo tão rápido que não tivemos tempo para reagir. Essa foi a ultima lembrança que me veio antes de abrir meus olhos naquele hospital. “Então foi assim que vim parar aqui e...”
–AAAAH! – Estava prestes a mover de posição minha perna direita, até que o mais leve movimento encadeou uma corrente elétrica, ou é o que presumi sentir, percorreu desde o meu pé para depois invadir todo o meu corpo.
–Não se preocupe, você logo ficará melhor com a medicação. – Respondeu uma voz pacifica de uma enfermeira que surgiu em segundos ao meu lado, ela segurava a sonda presa ao meu corpo e parecia injetar algum tipo de remédio.
Após alguns segundos, uma sensação embriagante me acometeu, sentia meu corpo pesado e minhas pupilas forçando a se fecharem.
Assim como percebi que minhas pálpebras tiveram o controle sobre mim quando cerraram de vez como uma pesada porta, elas ainda mostraram possuir o mesmo controle quando se abriram lentamente como se fossem um baú lacrado a séculos.
Dessa vez, nenhuma luz branca ofuscaste surgiu inesperadamente, apenas a claridade natural da manhã. Preenchendo o ambiente pincelado em tom verde-chá, o que transmitia a impressão do frescor do campo. “Será que me transferiram para uma outra sala do hospital?” Estava confusa com aquele deja vu, alem da sensação do teletransporte.
Der repente o odor suave de suco de laranja, seguido do aroma de salmão e ovo frito reinou o lugar, assim como se apossou de meu nariz. O reconhecimento me levou instantaneamente a um sobressalto, afinal de contas que tipo de hospital servia esse tipo de comida!? O movimento brusco, resultou em uma tensão súbita nas minhas pernas e me arrancou um grito provindo do meu intimo.
Quase que no mesmo instante um barulho estalou próximo da cama, onde eu me deparava. Escutei um som familiar de louça estilhaçando, logo em seguida proveio uma voz detrás da parede, que separava os cômodos.
–Você esta bem?? – Indagou um rosto familiar que surgiu por detrás da parede divisória, seu tom de voz pareceu alarmado.
Me senti mergulhada nos desenhos animados da minha infância, onde tudo era possível. Senti como se meus olhos fossem saltar estupefatos como naqueles desenhos. O homem que estava presente no acidente de carro junto comigo se encontrava agora de pé a poucos centímetros da cama de solteiro, na qual estava sentada. O efeito do remédio hospitalar ainda demonstrava fazer algum efeito sobre mim, pois além de sentir meus membros do corpo débeis, uma forte enxaqueca pressionava meu crânio. Um único pensamento me possuiu: “Mas que diabos estou fazendo aqui?!”
–Desculpe se a deixei confusa...-Ele iniciou a fala na procura de mais palavras- Irei te explicar todo o ocorrido, assim como deixe-me clarificar que quem trocou suas roupas foi a enfermeira do hospital, prometo não ter a tocado, apenas as comprei. –Esse detalhe me havia escapado, no mesmo instante que ele disse aquilo confirmei com o olhar que a roupa que vestia era diferente da que vestia na noite do karaokê. Então recordei que nem se quer havia reparado que usava roupa de hospital quando estava na coma. Ele prosseguiu com a declaração.
–Antes, contudo, deseja tomar alguma medicação? Parece pálida e transparece estar ainda enferma. – A preocupação ainda parecia não ter escapado de suas feições.
–Não...agora só quero ouvir o acontecido e nada mais. – Com a dor me espreitando, não tinha tempo de vigiar minhas ações. No entanto, sabia que aquelas palavras grosseiras definitivamente tinham saído de minha boca.
–Tentarei ser breve então...No momento em que o motorista surgiu em alta velocidade, em direção ao meu carro, não tive tempo de me desviar, o que resultou em nossa estadia ao hospital. Pelo que me foi relatado pelo médico, responsável por ambos, eu permaneci algum tempo desacordado, apos minha chegada ao hospital. Você deu sinal de vida antes de mim, porém demonstrou sentir dores e a enfermeira te dopou injetando remédio. E logo você ficou adormecida, nesse período de tempo em que ficou nesse estado, eu acordei e me explicaram o acontecido. Parece que tivemos sorte, segundo eles, e saímos apenas com arranhões e você quebrou uma das pernas. Como me senti responsável pelo acontecido a você, tomei a liberdade de te trazer a minha casa para que repousasse até sua perna recobrar. Desculpe se agi sem permissão e fui egoísta, mas achei o mais justo a se fazer e não me arrependo de minha decisão. – Ao finalizar tentou manter-se confiante, apesar de morder discretamente seu lábio inferior e sua boca entortar para o lado, revelando seu olhar apreensivo fixado em mim. Entretanto, a única frase que verdadeiramente se fincou em mim, se repetindo como uma vitrola quebrada era: “tomei a liberdade de te trazer a minha casa para que repousasse até sua perna recobrar.”
Lentamente o sentido de cada palavra adentrou em meus neurônios em mal funcionamento e se juntaram em uníssemos formando seu real sentido, reagi desacreditada.
–Eu vou morar aqui até que minha perna recupere?? – As palavras saíram tão facialmente, quase ilegíveis até para mim.
–Suponho que sim. – Um sorriso sincero, todavia retraído, foi tudo o que ele conseguiu esboçar.
Nem mesmo aquela afirmação foi o bastante para eu acreditar no que ouvira a pouco. Não era real, eu só podia ter ouvido coisas ou o remédio ainda ter grande efeito sobre mim, não é?
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