Stray Heart
1 I'm not afraid of you
Notas iniciais
Tenho que confessar que essa fic foi parcialmente influenciada pela minha nova paixão a Punk Rock, mas eu vinha andando com o desejo de escrever algo num au assim! Essa fic já está bem desenvolvida, com várias páginas, então o risco de demorar para postar será menor.
O loiro pegou a bandeja do almoço cheia e passou os olhos pelo refeitório. Onde iria sentar hoje? Talvez tivesse sorte de encontrar uma mesa vazia... Ou não.
Suspirou. Já estava acostumado, mas estava ficando cansativo ter que ser aquele perdedor. Ele era extremamente excluído da "sociedade escolar", e sempre que tentava infiltrá-la, era expulso. Sofria arrogâncias dos outros sem nenhum motivo aparente.
Olhou para um canto no chão, no fundo do refeitório. Iria sentar lá: Era o jeito. Bem, era só ele e o almoço. Como todos os dias.
Observou a bandeja enquanto andava. Aquelas batatinhas estavam meio estranhas, mas aparentavam-se comestíveis por fora. Pelo menos o almoço de hoje não era tão ruim. Ficou tentando escolher o que comeria primeiro, mas não teve tempo nem de ponderar: Estava no chão.
No primeiro segundo ele ficou pasmo e atordoado, sem entender o que tinha acontecido. Ele tinha caído? Tudo bem, era desastrado, mas nem tanto. Mas onde tinham ido parar os seus óculos? Por que havia mais batatinhas do que as da sua bandeja no chão e sobre os seus cabelos? E... Por que havia um par de botas parado à sua frente? Os seus olhos azuis — que não enxergavam direito — mostraram estranheza, e levantaram-se lentamente para desvendar o dono dos sapatos.
A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o verde vivo. O verde neón de inúmeros fios de cabelo.
O garoto estava lá, em pé, o encarando. Usava uma calça xadrez vermelha, surrada e rasgada nos joelhos. Elas entravam dentro de botas militares pretas e enceradas, com tachas pontiagudas na frente. Uma camisa larga e usada com um logotipo de uma banda escondia-se sob uma jaqueta preta, de couro e coberta de zíperes e correntes. Os fios tingidos estavam jogados para trás, e a orelha mostrava inúmeros piercings e uma corrente que se ligava à boca, que estava retorcida para baixo. Tinha sobrancelhas bem grossas, que estavam apertando os olhos verdes delineados de preto numa expressão furiosa.
Alfred congelou. Ele morria de medo do punk. Aquele cara nunca falava com ninguém. Geralmente , punks têm grupinhos, mas aquele em particular sempre fora visto sozinho. Quando abria a boca, emitia apenas um palavrão, para espantar os outros. E quem já brincou com ele, tinha se dado muito, muito mal. Ele era anti-social demais, e ninguém parecia conseguir desvendá-lo. Alfred não queria nem chegar perto dele.
– Quem é que foi o maldito filho da puta — Ele rosnou, encarando Alfred com um olhar mortal. — que derrubou a porra do meu almoço?
Alfred ficou completamente pálido.
–... D- Desculpa! Foi mal! F-Foi sem querer! D-Descul... Desculpa! — Ele engasgou, os lábios tremendo de medo.
Ele ia apanhar, ah, mas ele ia levar uma surra. Aquele punk não deixava ninguém passar impune. Ele fechou os olhos, já pronto para morrer. Algo foi jogado contra a sua cabeça, e ele se encolheu, quase prestes a chorar. Percebeu logo depois que estava coberto de suco e pedaços de sanduíche, mas sabia que ia apanhar mais.
Mas não foi lhe feito mais nada. Ele abriu os olhos, sem entender, e viu o punk ainda encarando-o de cima, a mesma expressão de raiva.
– Pirralho, eu só não te dou uma surra — ele resmungou entredentes — porque tenho pena do quanto já deve ter apanhado. E também, eu não quero sujar as minhas mãos de comida. Então aproveita a sua chance e some da minha frente.
O loiro hesitou, tentando compreender, mas recebeu mais uma ameaça de morte com os olhos. Encontrou os óculos e tratou de levantar-se rápido, completamente sujo do seu próprio almoço. Ainda ficou olhando o punk por alguns segundos, incrédulo de que ele tinha lhe deixado ir. Mas ele não pareceu gostar disso, e mostrou-lhe a língua.
Alfred saiu em passos rápidos, desejando tampar os ouvidos para não escutar as risadas que provinham das mesas. Ele não tinha apanhado, mas tinha sido ainda mais humilhado. Queria morrer, sumir, desaparecer.
Saiu do refeitório e escondeu-se no banheiro, ainda temeroso do punk. Quando entrou, viu o seu reflexo no espelho e ficou se perguntando o que tinha de errado com si mesmo. Ele tinha cabelos loiros e lisos, e uma mecha rebelde o tornava original. Gostava deles. Gostava dos seus olhos azuis, mesmo que estivessem escondidos detrás dos óculos fundo de garrafa. Gostava do seu rosto, mesmo que estivesse coberto de espinhas. Sorriu para o seu reflexo. Gostava do seu sorriso, mesmo que o aparelho o encobrisse. O que tinha de errado nele? E por que as pessoas lhe faziam descrer na sua autoestima?
Ele não fazia a mínima ideia. Talvez ele tivesse nascido para ser um perdedor que apenas sonha em vencer. Talvez fosse escolhido para isso. Era o único motivo plausível.
Ficou ali, perdido nos devaneios, até que o sinal tocou e ele foi forçado a voltar para a sala.
-
As provas estavam chegando, e ele já estava cansado de estudar. Tinha completa garantia que ia se dar bem. Quando estava prestes a tirar um A, seu orgulho inflava, então ele estava convicto disso.
O punk não tinha falado mais nada com ele desde a semana passada. Nem com ninguém: havia voltado ao normal. Era mesmo verdade que ele só falava quando lhe pisavam no calo. O medo de Alfred tinha desaparecido quase por completo, mesmo que pensasse que ele podia estar apenas esperando para dar o bote de vingança.
Ah, é claro que não ia acontecer mais nada. Apesar da fachada durona, o carinha de cabelos verdes era um fraco. Ele poderia ter lançado um soco no nariz de Alfred, poderia ter jogado-o na lata de lixo — como já lhe haviam feito tantas outras vezes -, mas ele apenas o perdoou. De um modo rude, mas perdoou. Ele só ameaçava, e não agia. Por isso, Alfred logo baixou a guarda e esqueceu o medo. Era orgulhoso demais para temer algo.
"Eu poderia ir à sorveteria mais tarde.", o loirinho planejava, debruçado na carteira e alheio à aula. "Eu não tenho muito dinheiro, mas dá pra pegar uma casquinha grande de três bolas!" A sua boca encheu-se d'água ao visualizar o sorvete. Mal podia esperar para ser liberado.
A imagem do sorvete se desmanchou quando ele se encontrou com a imagem real de um par de olhos verdes. O punk não estava olhando para ele, mas mesmo assim prendeu a atenção do loiro. O sol forte estava batendo exatamente sobre a sua carteira, fazendo os piercings cintilarem e a cor do cabelo brilhar ainda mais. Ele estava sem nenhuma jaqueta — apenas com uma blusa sem manga branca — por causa do calor, mas parecia mais desconfortável com a falta de vestes do que com o suor que lhe cobria o corpo e o rosto. Alfred ficou se perguntando como ele aguentava aquele calor extremo.
Ele tirou uma presilha do bolso e prendeu a franja. O cabelo dele era bem liso e repicado, e embora tivesse levado muita química, parecia bem-cuidado.
Olhou para a janela, como se quisesse fazer uma telepatia para que ela fechasse, e acabou flagrando o olhar azul de Alfred. Ele juntou as sobrancelhas grossas com uma expressão que mostrava nojo, e mostrou o dedo do meio para o loiro.
Alfred tomou um breve susto com a reação, mas continuou fixando o olhar inexpressivo nele. Eles começaram um jogo do sério que se estendeu por um minuto inteiro. O punk não aguentou e desviou primeiro, fazendo o outro dar um breve sorriso, porém logo depois voltou-se para ele e mandou-o ir para o inferno sem emitir o som pela boca. O americano já estava prestes a gesticular com os lábios alguma gracinha de volta, mas quando os partiu para falar, o som do sinal o cortou.
Toda a sala foi se levantando e saindo depressa, sem dar atenção ao professor que tentava avisar sobre a lição de casa na última hora. Quando Alfred piscou, o punk já estava na porta, andando rápido. Mas ele não queria perder aquela chance de vencê-lo pela primeira vez, e tratou de alcançá-lo imediatamente.
– Eu já disse para ir pro inferno, seu nerdzinho de merda. — Murmurou o punk, mesmo que Alfred ainda estivesse a dois metros atrás dele. Ele sempre sabia quando alguém estava o perseguindo.
– E você não me deixou responder — Disse, com um sorriso provocativo, e não deu tempo para que o outro retrucasse. — Eu vou pra lá se você for comigo.
O punk parou e olhou-o sobre o próprio ombro com a expressão mais incrédula e mortal que Alfred já havia recebido dele. Contanto, o loiro apenas sorriu de volta, e o outro rosnou como uma pantera antes de virar-se e continuar a caminhar mais rápido. Porém, o garoto continuou o perseguindo despreocupadamente.
– Você não tem noção de perigo, viado?
Ele deu de ombros. — Acho que não.
– Escuta aqui, garoto. — Recitou entredentes, respirando fundo para manter a calma. — Eu só vou te dar mais uma chance de cair fora antes que eu...
– Vai bater em mim? Duvido!
O punk ficou ainda mais incrédulo. Ele estava o testando! Aquele sem-vergonha estava medindo os seus limites! Ele virou-se de repente, com o punho levantado na direção dele, mas isso não pareceu assustá-lo.
– Vai apostar? Hein?
– Aposto. Vai, bate em mim! Acerta o meu nariz, aqui, ó! Quer que eu marque com um X pra você acertar bem na mira?
– Cala a boca! — Ele começou com um rosnado e em seguida quase gritou. — Cala a boca, seu viadinho de merda!
Dessa vez, o nerd recuou e fechou os olhos, as mãos na frente do corpo como um escudo. O punk estava com o punho cerrado tão forte que sua mão estava tremendo. Ele poderia ter lançado-o e acertado o nariz de Alfred em cheio naquele segundo, mas algo naquele nerd desprotegido na sua frente o impediu. Ele vacilou, e deixou a mão cair ao lado do seu corpo. Quando percebeu que estava seguro, o americano abriu os olhos e desarmou-se lentamente. Ele abriu um sorriso presunçoso na mesma hora em que viu o outro vencido, e começou a zombar:
– Eu não falei? Você não tem coragem de bater em mim, não é? Covarde.
– Cala essa boca, porra. — Ele repetiu. Embora tentasse mostrar amargura na voz, ele estava olhando para o chão de modo vacilante, e quase parecia que estava tímido.
Ele tinha perdido de novo. Odiava ser desafiado ou subestimado, e odiava ainda mais perder quando tentava recuperar o orgulho. Estava com raiva de si mesmo. Tudo por culpa daquele idiota. Ele bateu o pé no chão com força e emitiu um grunhido incompreensível. O outro pareceu ficar mais sério com aquela reação e, para a surpresa do punk, soltou:
– Tudo bem, foi mal.
Ele franziu as sobrancelhas, confuso. — Foi mal pelo quê?
– Por subestimar você.
O punk ficou estupefato e mal acreditou no que ele tinha dito. Ficou tentando pensar no que responder a ele, mas precisava ser algo que mostrasse que ele ainda não merecia simpatia.
– ...Quê? — Foi o que soltou junto com uma lufada de ar, na falta de ideias. — Mas fui eu quem ia te bater e você tá pedindo desculpas...?
–... É. — Ele deu de ombros indiferentemente e olhou para o chão de modo embaraçado. Ele não sabia exatamente o porquê de estar se desculpando, mas foi o seu instinto. Desde sempre, ele se desculpava por tudo, mesmo quando era a vítima sem um pingo de culpa.
Aquele cara à sua frente era o seu maior medo, mas ele havia o desafiado e vencido. Só que agora estava pedindo desculpas por isso. Ele devia estar o achando o maior covarde.
Mas não foi exatamente isso que ele viu nos olhos verdes incrédulos do punk. A sua expressão — sobrancelhas levantadas e um sorriso (extremamente) sutil e discreto — estava mostrando uma surpresa, mas positiva. Ele deu de ombros e abriu e fechou a boca várias vezes, procurando o que falar, mas depois inspirou e disse:
–... Qual é seu nome mesmo?
Agora foi a vez do nerd se surpreender. — A-Alfred...? — Ele gaguejou, juntando as sobrancelhas e sacudindo a cabeça de jeito confuso.
– Aah... Tá. Alfred. — O punk confirmou com a cabeça e hesitou um segundo. — Hm... Acho que... Acho que você pode me chamar de... Arthur.
– Hmm, Arthur? Ah. Ok...? — Ele mordeu a bochecha interior e os dois hesitaram, tentando entender o que tinha sido aquilo e pensando no que falar. Até que Alfred teve uma ideia que resolveu arriscar. — Uh... Eu tava indo passar na sorveteria, será que você não...
– Não pense que eu vou ser um anjinho com você, não, cara. — Arthur resmungou entredentes, mas quando Alfred o olhou, encontrou aquele mesmo sorriso sutil escondido por detrás da arrogância. — Mas não, não posso. Tenho que ir.
– Uh, tá...? — Ele replicou, mas o punk já tinha se virado e estava rumo ao portão de saída. Entretanto, ele ainda tentou: — Então... Na próxima?
O garoto de cabelos verdes não se virou, mas mostrou-lhe a mão com o dedo do meio estendido, apenas respondendo:
– Vai se foder.
-
Era uma típica terça-feira, no intervalo entre as aulas. Alfred estava a caminho do seu armário, estalando os dedos e olhando ao redor do corredor. Não tinha visto o punk desde sexta, mas sinceramente não estava dando muita importância a ele. Bem, estava tentando não dar.
Abriu a porta do armário. Subitamente, algo caiu de lá de dentro, e ele olhou para baixo e recolheu algo que parecia ser uma carta. Não entendeu o porquê de terem jogado algo assim ali dentro. Ponderou sobre quem poderia ter feito aquilo, mas ninguém veio à sua mente. Só poderia ser alguma advertência do diretor ou de um professor... Mas ele sempre foi um aluno extremamente aplicado! E se fosse alguma ameaça dos valentões? Mas... Que valentão iria mandar uma carta ao invés de falar pessoalmente? A sua cabeça deu reviravoltas com aquelas suposições, e ele resolveu abrir a carta antes que se matasse de curiosidade.
Dentro dela havia um papel de carta rosa e com uma borda de corações, e assim que ele o tirou do envelope, sentiu um cheiro forte e doce de perfume feminino e tossiu. Relutante, desdobrou o papel perfumado e tentou ler aquela caligrafia pomposa de garota. Logo que começou a ler, notou que era um poema.
"Você é tão lindo,
Que só me deixa sorrindo.
Fico a me perguntar,
Que dia você vai me notar.
Com amor, sua admiradora secreta."
Alfred engasgou e teve que tossir de novo. Era uma carta de... Uma admiradora secreta? Ele não tinha certeza de como reagir àquilo, e ficou na dúvida se ria daquele poema bobo ou se chorava por descobrir ter uma admiradora.
Quem poderia ser a garota? Jennifer, Helena, Mary, Louise... Ele conhecia várias, mas apenas de olhar. Nunca havia trocado uma palavra sequer com nenhuma delas, e tinha quase certeza de que elas mal notavam a sua existência. Para as garotas da sua classe, só importavam os jogadores de futebol bonitões ou os valentões. Ele era somente um nerd recluso e nada atraente para elas. Mas alguém tinha lhe mandado uma carta de amor e lhe chamado de lindo. Ele encarou aquele verso mais atentamente e corou. Lindo? Ele era lindo?
O sinal tocou, e ele tinha que voltar à sala. Incrédulo, mas com um sorriso tolo pregado no rosto, dobrou o papel de carta e enfiou no bolso — iria levá-lo para casa e reler mais um milhão de vezes o versinho que dizia "lindo".
Notas finais
Sei que está uma bosta, perdão, mas eu escrevi sem dividir os capítulos, então tudo ficou meio desinteressante no fim deles. Espero que esse fim chato não desestimule vocês a mandarem algum review, porque eu realmente espero que façam isso.
Quem acham que é a garota? E como acham que Al e Artie vão se aproximar? Podem criticar, apontar os erros, mas quero saber suas opiniões! :3
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