Stray Heart

7 Give me one chance


Notas iniciais
Ai, meu deus, gente. Eu nem sei como me perdoar por esse tempo todo sem atualizações... Sério! Me desculpem de verdade. Eu prometi a mim mesma que ia escrever nas férias, mas... Acabei procrastinando e fugindo de inspiração e tempo. Além disso, eu perdi o arquivo quando tinha escrito metade deste capítulo, e tive que começar tuudo de novo... Fiquei tão chateada. Mas felizmente, ontem notei que não estava desenhando muito bem, então tentei escrever, e bam! Duas mil palavras surgiram! Eu não sei se foi uma espécie de milagre, porque eu tive tantas ideias e escrevi tão rápido que não achei normal! Hahaha. Tive todo o tempo do mundo, mas quando as aulas retornam, brota criatividade. Genial, Kiyuu. Enfim! Vou parar de divagar aqui e tentar justificar a demora com argumentos idiotas. Eu consegui escrever bastante, considerando os tamanhos dos capítulos anteriores, então acho que isso compensa um pouco o atraso (mas sintam-se livres para me esfaquear ou me torturar por isso, eu sei que tenho que redimir o meu erro de qualquer forma fsdfsd) Sem mais delongas, eis o capítulo sete!

A luz fraca do crepúsculo daquele fim de tarde tentava escapar de detrás das nuvens que lhe encobriam, e o clima indeciso refletia os sentimentos do jovem que caminhava pela calçada daquela rua com pouco tráfego de carros.

Arthur tinha voltado para casa a pé naquela tarde. Não porque não tinha como tomar um ônibus, como sempre toma, e chegar em casa bem mais cedo. Só pensou que andar alguns quilômetros poderia lhe ajudar a desocupar a mente que pesava em pensamentos conflituosos.

Tentava se distrair chutando uma pedra que levava consigo desde que saíra da escola, mas aquele exercício não era o bastante para que ele desopilasse um pouco.

Oficialmente, ele odiava Alfred. Odiava os seus óculos e seus aparelhos ridículos, como ele era irritante e teimoso, como ele tinha entrado na sua vida e tentado se aproximar dele, como era um completo idiota. Odiava-o.

E odiava a si mesmo porque não conseguia parar de pensar naquele idiota.

Alfred não sabia, mas vez por outra ocupava a mente do punk como se ela fosse a sua casa. Arthur costumava inconscientemente fantasiar como Alfred seria sem aqueles óculos que deixavam seus olhos enormes, ou aqueles aparelhos que atrapalhavam o seu sorriso, ou como ele seria sem uma camiseta... Logo repelia aqueles seus pensamentos imprudentes de uma vez, mas eles sempre voltavam.

Alfred podia ser até bonito por debaixo de tudo aquilo e passada a sua presunção típica. Entretanto, Arthur não entendia por que pensava em coisas assim.

Mas não por Alfred ser um garoto. Arthur estava convicto da sua sexualidade desde o começo da adolescência, época em que todos começavam a namorar, exceto pelo inglesinho, que ficava sempre para trás. Em um momento, percebeu que não era igual aos outros garotos da sua idade, mas manteve aquilo em segredo, com medo de que algo de mal fosse lhe acontecer.

Todavia, em um natal quando tinha treze anos — cerca de três anos atrás -, juntou toda a coragem que tinha e confessou para toda a sua família que gostava de garotos. As reações foram várias, e embora não ela tenha sido declarada, desencadeou uma guerra dentro de casa que resultou na separação dos seus pais. Sua mãe assegurou-lhe milhares de vezes, enquanto passava-lhe a mão na cabeça, tentando conter as lágrimas, que não era por sua causa. Mas Arthur sabia que ele tinha agravado tudo e levado o casamento dos seus pais à ruína.

Para completar, "sair do armário" só deu ainda mais motivo para que os seus irmãos mais velhos zombassem da sua cara e lhe usassem como um motivo de piada. Como se ele fosse uma pinhata na qual batiam cruelmente até que quebrasse. Só que ela não quebrou. Arthur tentou ser forte e tornar-se uma pessoa completamente impermeável, o que resultou no que ele é hoje.

Mas Arthur não tinha ficado com nenhum garoto há tanto tempo. Na verdade, até o seu primeiro beijo fora fruto de brincadeiras de mau gosto dos garotos da escola, logo depois que a notícia de que "Arthur Kirkland é um bicha" se espalhou. Eles tiraram proveito dele, e riram.

Até hoje Arthur agradecia à sua mãe por compreender a necessidade de que ele mudasse de escola. Não sabia o que seria dele se ainda estivesse lá.

Tentou então usar a sua abstinência como desculpa para a tal fixação no nerd. Por uma parte, até tinha razão, mas não resolvia nada. Apenas piorava tudo.

E ele estava tão confuso com tudo aquilo que, naquela mesma manhã, tomou a decisão drástica de esquecer Alfred. Apagá-lo como se ele tivesse sido um fantasma na sua vida. Estava cansado de pensar nele de um jeito que ele nunca pensaria em si.

Deu uma risada sarcástica, baixinho. Nunca conseguia ser correspondido, mesmo. Alfred era imaturo demais para sequer pensar nele assim...

Perdido nos pensamentos, atravessou uma rua que já ficava perto da sua casa, e nem se preocupou em olhar para o semáforo. Foi quando um ruído alto de motor ecoou na rua e incomodou os seus tímpanos, e uma motocicleta em alta velocidade passou tão perto dele que teve que dar um salto assustado para desviar.

Olhou de relance para o semáforo. Estava vermelho.

– Ei, seu barbeiro de merda! Olha por onde anda! — Bradou com um punho erguido.

O tal motoqueiro olhou para ele com escuros e enigmáticos olhos negros. Não usava capacete ou qualquer tipo de proteção. O tal cara tinha os dois lados da cabeça raspados, com apenas o meio no topo da cabeça em um moicano laranja vibrante. Inúmeros piercings cintilavam em diversos pontos do seu rosto.

– Calma aí, verdinho. — Disse, sorrindo de modo zombeteiro. A sua voz tinha um tom de desafio.

Entretanto, Arthur não se intimidou — ou pelo menos tentou não demonstrar que sim. Mostrou-lhe o dedo do meio e atravessou a rua apressado.

Caminhou depressa pela calçada, tentando ignorar o nervosismo. Aquele cara tinha um caráter visualmente assustador. Mas o ruído de motor veio lhe seguindo. O cara do moicano laranja vinha pilotando a moto lentamente, seguindo-o pela calçada.

– Ei, ei, verdinho. Você estuda no Easton também, né? Eu acho que te conheço...

– Não te interessa. — Retrucou entredentes, sem olhar para trás e apertando o passo ainda mais.

– Ih, ele é estressadinho! — Zombou, rindo provocativamente. Arthur já estava preparando-se para soltar algo quando o punk emendou: — Ei, verdinho, se você acha que pra ser um de nós é só furar o rosto e se vestir com jaquetinhas pretas, cê tá muito errado, garoto.

– Ah, e quem é você pra dizer isso? O rei das cacatuas laranja do bairro? — Rebateu Arthur, usando um tom ainda mais sarcástico.

O punk de laranja riu por um instante, mas a sua risada não tinha humor. Arthur não reagiu, apenas continuou caminhando.

– Sabe, você até que é gatinho. — Disse o punk laranja, discretamente dando uma checada no traseiro de Arthur.

Arthur não conseguiu evitar o seu rosto de enrubescer com aquilo. Ninguém nunca tinha lhe elogiado a aparência, e mesmo que fosse com um adjetivo não muito poético, ele sentiu-se embaraçado e até lisonjeado.

Aquele cara devia ser mesmo audaz para arriscar cantar um outro garoto sem saber de sua sexualidade. Se Arthur fosse hetero, tinha lhe dado um soco certeiro no nariz. Ou será que a sua aparência ou seu jeito deixava realmente claro para as pessoas que ele era um homossexual?

Parou e olhou para trás, meio desconfiado e incerto do que fazer. O outro punk sorriu um pouco de modo persuasivo e fez um gesto com a cabeça para o lugar atrás de si na moto.

– Vem dar um rolê comigo, verdinho. Conheço uma galera bacana, eles vão te aceitar lá. Vai ser maneiro.

– Nem morto — Replicou imediatamente, como instinto. Não era certo sentar na moto de alguém que ele nem conhecia e deixar essa pessoa levá-lo para qualquer lugar que fosse.

– Ah, vai, não dá uma de difícil. Você é bom demais pra se desperdiçar.

Arthur não entendeu se aquilo era um elogio, mas tentou aceitá-lo como um. Mas talvez esse tal punk de moicano laranja não fosse tão terrível. Afinal, o cara tinha uma aparência perigosa, mas ninguém deveria julgar os outros só pela aparência. Certo?

Então ele poderia ser tanto um cara de boa índole quanto um sequestrador, estuprador ou traficante de drogas. Arthur podia sentar ali e ele poderia levá-lo para um porão cheio de ratos e ligar para os seus parentes pedindo uma fortuna em troca da liberdade; podia usá-lo como uma prostituta barata ou podia sacar uma arma e atirar nele sem motivo algum. Sua mãe não ficaria muito feliz se algo assim acontecesse.

Só que Arthur estava tão cansado, estressado e com raiva de si mesmo, além da abstinência. Talvez... Talvez não fosse tão mal assim. Havia a possibilidade que o cara de laranja só quisesse ser seu amigo, ou muito provavelmente algo mais do que isso. Ele podia começar a gostar de Arthur de verdade, e Arthur podia gostar dele quando lhe conhecesse melhor. Seria um bom jeito de esquecer tudo que lhe enchia a mente e só começar alguma coisa nova sem se preocupar com nada.

Talvez fosse divertido. Não custava nada arriscar.

Arthur suspirou e deu-se por vencido, aproximando-se da moto e sentando-se atrás do outro punk, que sorriu perigosamente, satisfeito.

– Segura firme em mim, verdinho. — Avisou, claramente com segundas intenções.

Mas no primeiro instante, Arthur não segurou-se na cintura do outro punk. Não se preocupou com aquilo. Só queria é que ele desse a partida e lhe levasse para um lugar que lhe fizesse esquecer-se de tudo e apenas se divertir.

A moto freou bruscamente em um canto meio escondido entre dois prédios de tijolo antigos. Aquele bairro era aquele lugar que as mães sempre aconselhavam os filhos a evitarem. Era bastante perigoso a qualquer hora do dia, mas para ser sincero, Arthur não sentiu medo. E muito menos o punk de laranja. Ele agia como se ali fosse a sua casa. Levantou-se da moto e ajudou Arthur a descer com um sorriso.

Ele estava um pouco receoso, é claro, tinha acabado de deixar que um estranho lhe levasse a um beco esquisito em um bairro arriscado. Podia ser uma armadilha.

– Vem, verdinho, ninguém vai te matar não — Garantiu o outro punk, mantendo o sorriso.

Arthur assentiu e seguiu-o, meio inseguro e olhando em volta, como se um maníaco fosse aparecer nas sombras de súbito e cravar-lhe uma faca no peito.

Estavam em um espaço entre dois prédios de tijolos vermelhos pichados e escadas externas enferrujadas, e haviam mais três silhuetas ali. Felizmente, não eram maníacos, mas se bem que suas aparências podiam se assemelhar a um.

Eram outros três punks, que estavam ali a fazer nada, apenas sendo punks. É o que punks fazem, comumente.

Um garoto franzino e meio magricela estava sentado em uma caixa e segurava uma guitarra azul, passando os dedos sobre as cordas de modo pouco animado. O seu cabelo era bagunçado e do mesmo tom que a guitarra, mas com um lado raspado. Trajava roupas escuras e xadrez, com aparência velha ou rasgada, como as próprias para qualquer punk comum. Mas ele parecia um pouco mais quieto, a julgar pelo seu semblante reservado.

Ao seu lado estava uma garota com um moicano rosa vibrante e olhos severamente contornados de preto. Ela tinha mais piercings no rosto que o outro, e fumava um cigarro de modo indiferente, com as botas pretas e pesadas oscilando levemente. Ela tinha um olhar azul frio e um tanto intimidador, e deve ter sido a primeira a avistar Arthur e o outro punk, porém não disse nada.

Havia mais uma pessoa, um cara de cabelos espetados vermelhos que estava encostado na parede suja do beco. Ele tinha traços mais rígidos e vestia uma jaqueta sem mangas, o que tornava possível ver o seu bíceps avantajado tatuado com uma espécie de dragão ou cobra — Arthur não conseguiu identificar de longe. Também tinha um olhar frio, gelado, tanto que congelou Arthur no momento em que lhe viu.

Mas assim que o punk de moicano laranja apareceu, o cara do bíceps tatuado desencostou-se da parede e sorriu.

– Fala, Drake! — Cumprimentou de modo animado, tocando os punhos com o outro.

– E aí, cara. — Respondeu o laranja, Drake.

Arthur estava escondido atrás dele, como uma criancinha assustada que procura proteção da mãe. Mas o tal cara do bíceps lhe notou e tentou olhar para ele inclinando a cabeça para que Drake saísse da frente.

– Ei, quem é o de verde aí?

Ao perceber que tinha sido notado, Arthur teve um calafrio. Drake saiu de sua frente e lhe puxou pelo braço. Agora todos ali olhavam para ele.

– Ele é um novato — Explicou Drake, e fitou Arthur, esperando alguma coisa.

Ele presumiu que tivesse que se apresentar. Não queria dar uma má impressão a pessoas tão intimidadoras; queria que gostassem dele e lhe aceitassem na rodinha.

– A-Ah, eu sou Arthur — Sorriu amarelo.

– Fala, Art — Disse o cara que estava de pé, sorrindo. — Sou o Joey.

– Joey dos Ramones? — Arthur não conseguiu se conter e deixou escapar.

Mas o outro apenas riu:

– É! Meu pai gostava muito deles.

– Tem como não gostar? — Ele sorriu.

Joey riu outra vez. Aquele cara não fazia nenhum jus à sua aparência intimidadora. Ele era bastante simpático.

– Ah, e aqueles ali são o Zeke — Drake disse, apontando para o cara de cabelo azul e depois para a garota de moicano rosa — e a Lexi.

O garoto tirou os olhos cansados da guitarra por um instante.

– Uh, hey, Arthur — Disse, parecendo nervoso. Arthur achou que fosse só o jeito dele.

– E aí, Zeke.

Arthur olhou para a garota como se esperasse que ela dissesse algo, mas ela simplesmente deu outra tragada no cigarro. Aquela ali com certeza combinava a atitude à sua aparência.

Arthur sentiu um braço ao redor do seu ombro e fitou o dono dele, que lhe olhava nos olhos com pérolas negras.

– E eu sou o Drake. — Disse, com uma voz baixa, como se sussurrasse em seu ouvido.

Arthur sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, mas não teve nenhum medo dele. Era um arrepio bom. Um arrepio de expectativa.

E pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu-se confortável e importante para alguém. Não era mais Arthur, o garotinho gay do colégio ou Arthur, o punk rabugento e solitário. Era só Arthur. Um garoto de dezesseis anos, que sabia tocar guitarra, tinha o cabelo verde e um pretendente a namorado de moicano laranja.

Sem que percebesse, as semanas foram passando. Com o tempo, ele foi se adaptando no grupo, que lhe recebeu consideravelmente bem — exceto pela tal Lexi, que fingia não notar a sua existência. Começou a frequentar festas, conhecer pessoas e abrir-se mais à diversão, sem se preocupar com a opinião dos outros. Porque ali naquele grupo todos eram iguais a ele.

Zeke era calado, mas bom na guitarra, e Arthur sentava-se e tocava junto com ele de vez em quando. Joey era simpático e sempre cumprimentava Arthur com um high-five. Ele contava piadas de humor negro e sabia tocar bateria. Lexi sempre ficava cutucando as unhas e consumindo cigarros, e às vezes conversava sobre alguma coisa com Zeke, mas na maior parte do tempo raramente abria a boca.

Arthur perguntou-se porque nunca tinha visto o grupo no colégio, e por fim descobriu que eles quase nunca iam para o refeitório. Na maioria dos dias, matavam aula durante todo o segundo período. E também estavam todos no último ano da escola — ao contrário de Arthur, ainda no segundo -, cujas salas eram separadas em um outro setor.

Arthur tentou convencê-los a irem ao refeitório, porque sabia que uma pessoa estaria lá e tinha um propósito para lhe causar ciúmes: queria mostrar a essa pessoa que nem ligava mais para ela e agora tinha outros amigos. Talvez porque Drake era o líder do grupo e o seu ficante, ele conseguiu que o grupo lhe obedecesse.

O relacionamento de Drake e Arthur evoluiu rapidamente, mas mesmo assim de modo natural. Ele começou apenas pondo o braço ao redor do seu ombro, piscando e trocando olhares e sorrisos. Mas sem que percebessem, já estavam se cumprimentando com beijos, tocando guitarra juntos e Arthur sentando em seu colo.

Arthur nem prestou atenção em quando isso começou. Drake já lhe lançava indiretas e piscadelas desde que se conheceram, e isso foi evoluindo a contato físico imperceptivelmente até agirem naturalmente, como se já tivessem se acostumado. Arthur se lembra de que o primeiro beijo que Drake lhe roubara fora em uma noite em que tinha se embebedado demais. O punk de moicano aproveitou-se da sua situação e lhe abordou furtivamente em um beco escuro. Mas Arthur nem sequer relutou. Parte porque estava bêbado, sim, mas para ser sincero, ele já esperava por aquilo.

O menor se sentia confortável com ele, mesmo ficando envergonhado em certos momentos. Arthur nunca tivera um relacionamento de verdade, então não sabia como agir às vezes.

Porém, sempre que trocavam algum ato afetivo em público, a única garota do grupo armava uma carranca. Arthur não entendeu o motivo da tal repulsa — ninguém no grupo realmente se importava em ter dois gays como amigos -, mas mais tarde presumiu que ela devia ter alguma coisa com Drake antes. Afinal, Arthur já o ouviu assumir que era bi e gostava de garotas e garotos (isso lhe causava um pouquinho de ciúmes, mas ele tentava não deixar isso transparecer). Ela podia estar com ciúmes. Aquela dedução deu a Arthur um pouco de orgulho. Porque era ele quem Drake tinha escolhido. Ele não era mais apenas uma segunda opção.

Em parte, Arthur estava contente em ter conseguido enturmar-se com o grupo, e com a diversão que ele lhe proporcionou. Mas em uma parte bem pequenininha de si, uma pontinha no fundo do baú de suas emoções, ele ainda sentia por Alfred e não tinha conseguido esquecer-se dele. Só que era difícil admitir – seria como ferir o próprio orgulho. Afinal, agora ele estava dentro de uma panelinha de punks descolados e com status, e aquilo alimentava ainda mais aquele orgulho, tão difícil de se quebrar. Porque Arthur era teimoso e desonesto em relação aos seus próprios sentimentos, e isso tornava-se um escudo impermeável para o orgulho tão grande e precioso que conseguira recuperar depois de tantas e tantas humilhações.

Só que isso lhe prejudicava, mesmo que não percebesse. Isso transpareceu brevemente em seus olhos naquele dia, de modo que só alguém verdadeiramente atento e que lhe conhecesse bem o bastante pudesse saber derrubar as paredes do orgulham que cercavam o garoto.

Arthur e o grupo dos punks tinham parado em uma lanchonete para pegar uns sanduíches. A tarde tinha sido cansativa, embora divertida. Todos foram à casa de Zeke – que tinha um pai músico e um estúdio e instrumentos dentro de casa – para tocar juntos algumas músicas que o compositor da futura banda, Arthur, tentara escrever. Ele não era tão bom em escrever músicas – como Lexi resmungava pelos cantos às vezes, recusando-se a seguir a composição no seu baixo – mas tinha um pouco de gosto por literatura e tentava, embora a maioria das suas tentativas acabassem como poemas ou músicas românticos demais.

Mais tarde, Drake apostou corrida de moto com Joey e quase atropelou um senhor que passava na rua. Todos riram muito do vacilo do punk de moicano, apesar de Arthur ter ficado com pena do pobre velhinho, enquanto Drake apenas reclamou que ele era lento demais atravessando a rua e que era fácil qualquer um passar por cima dele.

Foi prometido que quem perdesse a corrida pagaria os sanduíches mais tarde, e o escolhido foi Joey. Drake tinha um pouco mais de habilidade na moto do que o cara da tatuagem no braço, que tentou usar o fato do outro ter quase atropelado alguém como uma desculpa para revanche. Todavia, já estava ficando tarde demais e todos estavam mortos de fome.

Assim que entraram no estabelecimento, olhares assustados voltaram-se para os cinco jovens rebeldes e seus cabelos de cores berrantes. Até mesmo a atendente pareceu nervosa em dizer apenas um “Boa tarde”, mas recebeu os pedidos dos cinco sanduíches sem dizer nada.

Era sempre assim e Arthur já tinha se acostumado. Eles eram diferentes, mas aquilo não importava. Esse era o propósito do punk. Opor-se aos limites e disciplinas determinados pela sociedade criando uma inteira nova cultura. Defendendo o que acham correto. Dizendo que não precisam de que façam nada para eles. Independência. Aversão. E principalmente, atitude.

Arthur estava feliz em ser um deles. Só se sentia às vezes como se não tivesse transformado até o seu eu mais profundo em um. Como se ainda sobrasse um pouco do Arthur antigo.

– Mas cara, foi zoado quando o pai do Zeke entrou e tipo, pegou o Drake e o Art lá – Comentava Joey, dando uma última mordida colossal no seu sanduíche duas vezes maior do que o de cabelos verdes.

Drake e Arthur riram, o último nervoso e com o rosto enrubescendo. Zeke sorriu daquele jeito calmo e Lexi apenas tomou um gole de coca.

– É bom que ele saiba das paradas, porque eu e o Art somos tipo almas gêmeas, tá ligado? – Disse Drake, pondo um braço ao redor dos ombros do outro ao seu lado, que riu embaraçado.

– Vocês deviam casar logo – Disse Zeke, sorrindo sem mostrar os dentes, mas ao receber um olhar de canto de Lexi, abaixou a cabeça.

– É verdade. Vou pedir agora. Art, você casa comigo? Não diz não, por favor.

E encarou Arthur. Todos encararam Arthur. E ele sentiu o rosto queimando como se tivesse se esquecido de passar protetor solar numa tarde de verão. Hesitou um segundo, e então sorriu amarelo.

– Tá. Eu caso com você, Drake. – Disse, expirando uma lufada de ar e sorrindo abertamente.

As pessoas da mesa reagiu como se estivesse aliviada – ou, no caso de uma pessoa, furiosa -, sorrindo e soltando piadinhas e comentários sobre o futuro casório. Por incrível que parecesse, Zeke e Joey não tinham nenhum problema com o relacionamento dos dois pombinhos.

– Ah, meu Deus, ainda bem! Pensei que você fosse dizer não! – Exclamou Drake, dando-lhe de surpresa um selinho meio demorado, ainda que Arthur se sentisse desconfortável em fazer aquilo em um lugar tão público.

Mas quando abriu os olhos do beijo rápido, suas íris esverdeadas encontraram duas azuis. E só pelos olhos, Arthur pode reconhecê-lo.

Era Alfred.

Ele estava parado no meio da lanchonete, encarando o casal na mesa no canto – assim como quase todos do lugar — que se beijavam como se fosse algo que se fizesse em público sabendo das reações que isso causaria.

Mas Alfred não tinha nenhuma espécie de repulsa por Arthur ser gay ou algo do tipo. Ele olhava arregalado o beijo como se aquilo fosse uma traição enorme. Naquele momento, ele sentiu-se realmente traído. Mas por quê? Por que, se ele e Arthur nunca foram nada mais do que – se bem que talvez seria incerto classificar como – amigos que ocasionalmente odiavam-se?

E Arthur já tinha o traído uma vez. Traído a sua amizade, quando ele mais esperava que o punk cooperasse e entendesse que Alfred só queria ser uma pessoa legal para ele. Mas agora, ah, agora o sentimento parecia tão diferente. Parecia mais forte, mais consistente. Uma mistura de raiva com uma pitada de decepção dissimulada. Era o mesmo que ele sentiu quando o viu na parada de ônibus naquele dia, um mês atrás...

Foi aí que Alfred se deu conta de que Arthur tinha se tornado alguém realmente importante para ele mesmo que isso não fosse correspondido. E essa era a pior parte.

I can't keep your voice out of my head

All I hear are the many echoes of

The darkest words you've said

And it's driving me crazy

– Ei, Art, você vai tomar isso? – Perguntou um cara de cabelos vermelhos e espetados, apontando para a lata de refrigerante cheia de Arthur.

Arthur não encarou aquelas orbes azuis por muito tempo, e ao ouvir a voz do amigo, desviou o olhar e sorriu sutilmente, entregando-lhe a latinha.

E não voltou a olhar para Alfred. Não ousaria. Não queria nem que ele lhe notasse. Preferia que Alfred olhasse para si admirado, mas só como se visse um punk gay estranho beijando outro punk gay estranho em uma lanchonete. Como se não lhe conhecesse e não estivesse interessado.

Só que claro, aquele não era Alfred. O garoto sentou-se à mesa ao lado da do grupo com um sanduíche, que engoliu sem nem olhar para a comida. Porque apenas fitava a mesa à sua direita, observando cada movimento que o cara de moicano laranja fazia com o rapaz que abraçava de lado pelos ombros.

Ele começou a sugar o refrigerante com um barulho desnecessário e batucar na mesa com força, numa tentativa nada discreta de chamar a atenção. Os outros punks olharam esquisito para o garoto com óculos grandes e aparelho nos dentes, mas Arthur agiu como se aquela pessoa fosse completamente invisível.

Mas o garoto só tomou uma verdadeira atitude quando Drake pediu:

– Art, você pode ir lá pagar os lanches?

– Ahn, por que eu? Vocês ainda não pagaram? – Ele fez um biquinho.

– Vai, Artiezinho bebezinho, deixa de ser preguiçoso – Drake zombou, apertando as bochechas de Arthur por causa da careta de criança que este tinha feito.

Ele acabou cedendo e pegou o dinheiro de Joey, o encarregado de bancar os lanches. Mas quando se levantou, o garoto loiro da mesa ao lado também ergueu-se com um salto.

Arthur percebeu, mas não olhou para trás e foi caminhando até o balcão. E uma figura veio lhe seguindo. Parou atrás dele, como se ali existisse uma fila, e como se Alfred ainda não tivesse pagado seu lanche. E jogou-se para frente como se tivesse escorregado no nada, apoiando-se nas costas de Arthur rapidamente para voltar ao lugar.

– Desculpa.

Arthur parou e respirou fundo, tanto que os seus ombros ergueram-se e abaixaram-se bruscamente. E devagar, ele virou a cabeça para trás.

– O que você quer? – Disse, pausadamente e como se estivesse tentando controlar a raiva. Arthur realmente tinha um pavio muito curto.

– Oh, eu? Nada, só pedi desculpas. Eu não te conheço... – Disse Alfred, mais sarcástico impossível.

– Isso... Isso é ridículo, garoto. Já disse pra me deixar em paz.

– Tá bom, foi mal, Art! – Rendeu-se Alfred, suspirando. – Eu só... Só acho que você não devia andar com essas... Essas pessoas...

– Eu já disse pra não se meter na minha vida, Alfred – Arthur resmungou entredentes, com o maxilar cerrado com força, como se se controlasse para não gritar com o outro.

– Só me deixa conversar uma coisa com você!

– Não.

– Por favor! É rápido, Arthur!

– Art, você já pagou aí? – Gritou o cara do moicano laranja, ao que os dois olharam na mesma direção.

Alfred olhou direto nos olhos verdes vivos do outro, como se implorasse por alguma chance.

–... Espera, Drake, eu vou ao banheiro. – Arthur soltou um suspiro vencido, e um brilhinho de esperança cintilou nos olhos azuis do outro garoto.

O punk mais velho deu de ombros, ao que Arthur simplesmente virou-se e foi caminhando em direção aos toaletes. Não muito discreto, Alfred lhe seguiu em passos animadinhos.

– Então aquele lá é o tal Drake. Ele... É seu namorado mesmo? – Alfred proferiu a primeira palavra assim que os dois entraram no banheiro masculino vazio.

Arthur olhou para o nerd sarcasticamente.

– É, Alfred. Você tem algum problema com isso?

O nerd fez uma careta despreocupada como se não desse a mínima para o assunto.

– Não, nenhum problema. – E enfiou as mãos nos bolsos.

Arthur não respondeu por um instante, e apenas cruzou os braços, fitando Alfred nos olhos. Era um pouco intimidador, mas Alfred não caía mais naquela faceta falsa do punk.

– Er... Então, Art...

– Arthur. – Corrigiu, sério.

– Deixa de frescura, Art. – Alfred revirou os olhos, e respirou fundo, tentando parecer sério na fala seguinte. – Eu... Eu acho que você devia parar com isso. De me ignorar... E ficar andando por aí com esses caras bizarros.

– Ah, tá, e por que você se importa?

– Sei lá, Arthur! – Exclamou. – Sei lá, eu só me importo... Eu só me importo com você.

I can't find the best in all of this

But I'm always looking out for you

'cause you're the one I miss

And it's driving me crazy

Arthur parou por um instante. Desde quando Alfred se importava com ele? Arthur não dava a mínima para o nerd – só havia se aproximado dele e criando um laço sem querer, partindo-o quando notou que não conseguiria -, e tudo que tinham feito um para o outro foi meramente uma questão de troca justa e mútua. Mas será que era só isso mesmo? Será que... Outra coisa não tinha aflorado ali sem querer, como se fosse uma planta teimosa que brota da noite para o dia?

Arthur não queria saber. Ele não queria nem pensar naquilo.

– Não deveria. – Rebateu, sério. – E então, já terminou? Eu tenho compromissos...

– Argh, Arthur, por que você é tão teimoso? – Grunhiu Alfred, passando as mãos pelo cabelo, frustrado.

– Tô indo, Alfred. – Avisou apenas, seguindo para a porta do banheiro.

–... Ei! Espera! – Alfred correu até ele, que parou com a mão na maçaneta e olhou para o nerd de modo irritado. – Er... Eu só queria que você me desse uma chance. De voltar a ser seu amigo...

– Uma chance? – Arthur repetiu vagamente, como se não prestasse atenção nem no que falava.

– Sim. Tipo, eu ainda quero que você me ensine a guitarra... E... A gente pode sei lá, ir ao fliperama depois, e...

– E você não tem nenhum amigo pra convidar? Por que logo eu? – Arthur revirou os olhos, cruzando novamente os braços. Alfred aliviou-se que ele mostrara pelo menos uma breve compreensão, mesmo que fosse com seu jeito rabugento.

– Não. – Alfred deu de ombros. – E aí, posso ir à sua casa na sexta?

– Não.

– Não?

– Eu vou sair na sexta. – Arthur suspirou. – Tá, sexta à noite você liga pra mim e eu posso fazer algo no sábado, talvez.

– Sério? – Alfred sorriu com todos os dentes, animado. Tinha conseguido fazer Arthur render-se mais rápido desta vez! Era uma vitória e tanto, considerando-se a espessura das paredes que ele construía em volta de si mesmo. – Então tá! Mas os seus amigos de moicano não vão ficar chateados...?

A última frase tinha sido desnecessária. Arthur apenas respondeu com um “Até mais” e abriu a porta, saindo.

Alfred ficou parado ali, sentindo-se tão vitorioso que não conseguia tirar o sorriso do rosto. Um instante depois, voltou para a lanchonete, mas não havia mais ninguém na mesa.

Entretanto, olhando pela vidraça, ele pôde enxergar o corpo de Arthur sendo envolvido pelos braços daquela outra pessoa. E ele só sabia que realmente detestava-o.

Mas Alfred ia tentar começar de novo. Porque acreditava que aquelas pessoas não eram boas o bastante para ele. Porque ainda havia algo em Arthur que lhe deixava... Diferente. Algo que o motivava a derrubar as barreiras do punk e conseguir enxergar quem ele realmente era. E mesmo que fosse apenas uma tentativa vaga como um tiro no escuro, o nerd ia tentar recuperar sua amizade.

It's the longest start, but the end's not too far away

Did you know, I'm here to stay

Notas finais
Er... Oi quem ainda não desistiu dessa história e leu até aqui! Espero que tenham entendido mais ou menos como o Art conheceu os punks. Eu acho que isso ainda ficou meio vago, e não fiquei lá muito satisfeita, né, mas. E também achei meio melodramático demais... Me digam se eu estiver exagerando demais nos feelings, tá? ;u; Mas acho que isso é meio bom, já que nos capítulos anteriores tudo o que nossos Art e Al fizeram foi brigar, né. Agora estão noticiando seus senpais. A partir de agora é que as coisas realmente começam... ehehehe A música do capítulo é After Midnight, do Blink-182 (eu adoro essa banda, meu Deus). Eu já tenho várias músicas desse gênero para colocar nos capítulos, que têm a ver com eles uwu Mas se não combinar muito, me falem também, please. Resumindo!! Me avisem de qualquer erro ortográfico, de concordância ou qualquer coisa chata na fic, tá? Enfim, me contem o que acharam dessa merdinha! Quais são seus palpites pro futuro "encontrinho" (dissimulado) dos nossos lindos e gays protagonistas adolescentes?