Stray Heart

14 Don't Look Back in Anger


Notas iniciais
Eu sei que demorei a postar, mas olhem essa proeza que consegui. Postar a fic que se passa no 4 de Julho no dia 4 de Julho. Como se fosse compensar minha demora. Se bem que o número de palavras desse monstrinho compensa, não? Olha o tamanho da criança. O título do capítulo é da música do Oasis, que também está na playlist da fic, btw. Bem, feliz 4 de Julho - ainda que não sejamos dos EUA - e espero que gostem do capítulo (e leiam até o fim...).

– Alfred, meu querido, não quer entrar com a sua namorada? – Chamou a mãe do garoto, ainda da porta. — Eu fiz biscoitos e café... Espera, aonde ela foi?

Alfred ainda estava encostado ao carro, encarando o chão com um olhar vazio. A mulher veio caminhando até perto do filho, seu sorriso derretendo ao encontra-lo com uma expressão tão decepcionada.

– O que houve...? Ela brigou com você?

Ele deu um suspiro pesado antes de olhar para a mãe, notando que era um pouco difícil admitir o que estava prestes a falar.

– Eu acho que fui eu quem a magoei.

A expressão da Sra. Jones tornou-se triste, porém ela assentiu com a cabeça. Então tocou no ombro do filho sutilmente, mas com carinho, e Alfred soube que ela estava prestes a tentar melhorar o humor do filho com um conselho. Como se fosse adiantar alguma coisa a essa altura.

– Espero que as coisas melhorem, filho. Eu adorei a Maddie, e ela gosta bastante de você.

Alfred fitou o sorriso calmo de sua mãe por um ligeiro instante, as palavras dela grudando em sua mente por um tempo. De fato, ela gostava bastante dele. Mas ele próprio não gostava tanto assim. Como explicar à sua mãe, que sempre ficou tão contente em saber do seu novo e primeiro relacionamento com uma garota legal, que ele queria acabar com o namoro? Muito provavelmente, ela ficaria decepcionada. E ele não queria decepcionar outra pessoa, ainda mais a sua mãe, que tinha lhe dado um presente tão inacreditável.

– Uh-hum... – Foi o que ele murmurou, esperando que sua mãe tomasse aquilo como algo positivo. Ela concordou, e já ia fazendo menção de voltar para dentro, mas Alfred abriu a boca subitamente: — Mãe, será que eu posso... Usar o carro pra ir ali? Eu não vou longe, eu juro.

– Alfred, e se algum guarda te parar e ver que você não tem licença? – Ela disse com amargura, seu olhar incerto avaliando o filho. – É melhor não arriscar. Além disso, você pode bater em um poste ou algo assim.

– Mas... Eu sei dirigir! Eu já dirigi sozinho, sabia? – Ele deixou escapar, mas no segundo seguinte arrependeu-se de ter revelado a última frase.

– Ah, é? – Ela cruzou os braços. — Dirigiu quando? Quem te ensinou?

– ...Quando eu... Eu fui... Eu fui à casa de um amigo, aí ele, quer dizer, o pai dele me ensinou.

– Qual amigo...? – Ela estreitou os olhos.

– O... O Arth... Quer dizer, o Matt. É, foi o pai do Matt – e emendou uma risada forçada. — Ele foi ensinar ao Matt e daí eu aproveitei também, sabe?

– Matt?

– É o irmão da Maddie. Agora me deixa usar o carro, por favor? Eu prometo que não vou bater em nada, eu nem vou longe. Poxa, eu ganhei agora, preciso testar, não acha, mãe? – Alfred fez uso de suas capacidades apelativas combinando com a quase infalível carinha de filhote de cachorro que caiu da mudança.

–... Eu só vou deixar porque é o seu aniversário. – Ela disse depois de um suspiro profundo, e Alfred deu um pulinho contente, abraçando-a em seguida. – Mas tome cuidado. Ainda vão soltar fogos de artifício até que o Dia da Independência acabe, você sabe. Dirija devagar. Cuidado com os postes. Leve o celular, também. E... Torça para não pegar uma rua com guardas.

– Eu sei, eu sei. Valeu, mãe. – Ele sorriu de orelha a orelha, abrindo a porta da pick-up e sentando-se no banco. Ele ficou ali por alguns minutos, sentindo a textura do banco, passando as mãos pelo painel, bisbilhotando cada pedacinho daquele seu novo carro. Ele soltou uma espécie de gritinho, como se fosse uma fã ao ver o seu ídolo de perto. Então girou a chave e quase não pôde conter sua ansiedade ao dar a partida.

Ele buzinou para a sua mãe, que acenou, visivelmente preocupada. Só então seguiu adiante, a uma velocidade exageradamente lenta, mas apenas até alcançar a esquina, onde a aumentou ainda mais. Queria chegar à casa de Arthur o mais depressa possível, e se fosse tão rápido quanto uma lesma, chegaria lá no dia seguinte.

–-

Alfred já sabia o caminho, então não foi difícil chegar à porta da casa de Arthur. Ao parar o carro, ele não o desligou de imediato, mas ficou um instante encarando o volante. Ele estava nervoso, não porque visitaria a casa do punk, mas... Ele não sabia bem o porquê. Mas... Era só Arthur. Ele só queria conversar com ele outra vez. Porque ele se sentia inexplicavelmente bem, ainda que o outro não fosse muito compreensivo, e ambos discordassem de muita coisa nessas conversas.

Tocou a campainha como sempre fazia, esperando encontrar o garoto dos cabelos marcantes, que lhe faria uma careta e o mandaria ir embora. Mas quem atendeu foi a sua mãe, com os bonitos cabelos loiros. Não que aquilo o surpreendesse. Arthur deveria estar no porão, tocando aquela guitarra da qual era inseparável.

– Oh? Olá, Alfred!

–... Oi, o Arthur está? – Ele perguntou quase imediatamente, mas tentando soar educado.

– Ah, não, ele não apareceu aqui desde manhã. Eu fiquei preocupada, e ele não atendia ao telefone...

– Ele estava lá em casa – Alfred naturalmente sorriu ao ouvir si mesmo afirmando aquilo. Então a expressão da Sra. Kirkland se suavizou, ainda que não por completo. – Mas daí ele saiu há uma hora, mais ou menos, eu não sei aonde ele foi...

– Ele não te disse nada?

– Não. Mas acho capaz dele estar com aqueles punks amigos dele.

– Como assim...? – As sobrancelhas (que eram diferentes das de Arthur, talvez porque ela tivesse uma pinça) da mulher se juntaram. – Ele nunca me disse que tinha mais amigos.

–... Oh – Foi o som que o garoto emitiu ao perceber o que havia feito. Então Arthur nunca contara à sua mãe dos caras. Então, ela não devia saber que seu filho estava namorando um desses caras. Mas agora, Alfred tinha cometido esse deslize, e ela provavelmente iria querer saber quem eram essas pessoas. Arthur ia ficar com tanta raiva dele.

– Você sabe quem são essas pessoas? Ah, Deus, não me diga que ele está andando com traficantes...

–... Eu honestamente não sei, Sra. Kirkland – Ele disse com a voz fraca. – Ele não me fala deles...

– Deve ser por isso que ele passava o dia todo fora, e nunca me contava... Ah, quando ele chegar em casa, vai ter que me contar. – Ela cruzou os braços, visivelmente preocupada e ao mesmo tempo irritada.

“Incrível, Alfred, parabéns. Você adicionou outra merda à lista de merdas que você já fez hoje.”, ele jurou ouvir ecoando em sua mente, na voz tipicamente sarcástica de Arthur, como se existisse uma versão pequenina dele dentro de sua consciência – devia ser por isso que ele vivia à deriva pensando em Arthur.

– Er... Desculpa, Sra. Kirkland. Eu vou... Eu vou o procurar. – Decidiu Alfred, sem pensar muito.

– Tudo bem, mas tem alguma ideia de onde ele esteja? – Ela fez uma expressão confusa.

– Não muita, mas eu vou tentar – Ele deu um breve sorriso, terminando a frase já a caminho do carro, em passos saltados e apressados.

– Boa sorte, e obrigada – Disse Elizabeth quando Alfred já estava dentro do carro, dando a partida novamente.

– Eu vou precisar – Ele murmurou para si mesmo, segurando mais firmemente o volante.

Onde Arthur Kirkland, o imprevisível punk de cabelos verdes poderia estar? Bem, Alfred não sabia os lugares que ele visitava quando com os seus outros “amigos” – amigos entre aspas com propósito irônico – e muito menos os que ele visitava quando sozinho. Por uns minutos, ficou dirigindo sem rumo, pensando em como ainda conhecia apenas uma pequena porcentagem de Arthur.

Alfred ainda divagou bastante, dirigindo lentamente até se recordar de que décadas atrás haviam inventado o telefone celular. Ele então encostou o carro nem tão cuidadosamente– de fato, quase acertando uma árvore – e alcançou o próprio aparelho no bolso, o smartphone com a capinha da bandeira dos Estados Unidos. O número de Arthur tinha sido um dos últimos para o qual ele ligara, então facilmente discou para ele outra vez.

Contudo, Arthur não atendeu à chamada. O garoto estalou a língua e tentou outra vez. Desta vez ele foi atendido com um berro:

– Alfred, eu não posso falar, tá?! Para de me ligar!

– Ei, calma! – Ele defendeu-se, um tanto assustado. – Onde você tá?

– ...Eu tô ocupado, porra!

– Arthur! – A voz de Alfred também subiu um tom, e ele até parecia demonstrar mais seriedade. – Você saiu tremendo lá de casa, sem dar explicações, eu... Tô preocupado! – Ele disse aquilo rápido, como se fosse algo que estivesse preso nele e só agora tinha percebido. — Me diz onde você tá!

Arthur hesitou, mas até a respiração de Alfred ouvida no telefone parecia exigir uma justificativa. Ele não sabia muito bem como se sentir ao saber que Alfred estava tão preocupado consigo, então achou melhor pensar nisso mais tarde.

– Eu só tenho que resolver umas coisas... Naquela praça a umas quadras da minha casa – Ele falou, meio para dentro.

– Que coisas? Arthur, cê não tá se envolvendo em encrenca com aqueles caras de novo, né...? – Ao não obter resposta no prazo de dois segundos, ele exasperou-se: — Eu estou indo aí.

– Não, se você vir, só vai piorar as coisas. Vai ver a queima de fogos com a sua namorada, ou sei lá, não importa.

Na voz havia um misto de indiferença, e se ele se ousasse a afirmar, ciúmes. Mas como Alfred conhecia muito bem o dono dela, sabia que ele não sentia o mesmo que falava.

– Mas você é meu a... – Ele começou, porém empacando no meio da frase por não saber completá-la. – Quer dizer, eu só não quero que você seja jogado na piscina de novo...

– Não tem por que se preocupar comigo, idiota.

A voz de Arthur não podia ser mais ouvida, porque ele desligara a chamada. Mas a última frase dele continuara na cabeça de Alfred, como se ela fosse tão constante como o barulho dos fogos lá fora.

“Não tem por que se preocupar comigo, idiota.”

Aquilo era estúpido. Será que Arthur sequer tenha percebido o quão estúpido fora aquilo que ele mesmo dissera? E se Alfred nunca se preocupasse? Como Arthur teria acabado naquela última sexta-feira? Um saco de pancadas, provavelmente. Se Alfred não se importasse; se ele nunca tivesse decidido provocá-lo após a aula naquele dia, ele e Arthur nunca teriam se aproximado, e nada de tardes de guitarras e guerras de travesseiro existiria. Quando Alfred não se importou, Arthur seguiu um caminho que não devia. Era como se... Um dependesse do outro.

E Alfred teve muita raiva naquele instante em que Arthur desligou subitamente. Porque era muito idiota da parte dele não perceber o quanto ele se preocupava. Ferir o seu orgulho desse jeito. Alfred costumava subestimar o punk, mas agora ele quem estava o subestimando. E ele não podia simplesmente pensar que estava sozinho naquela. Não, era egoísta demais.

–-

Aquela praça se parecia com um cenário de um filme criminal, onde grupinhos se reuniam para fazer troca-troca de drogas e armas. Portanto, o nervosismo do garoto na pick-up só aumentou quando ele parou ali – até com medo de deixar o carro vulnerável – , mas não viu nada nem ninguém no local.

Ele resolveu deixar o carro em uma rua paralela e desceu, incerto se devia ou não. Caminhou até o lugar, olhando em volta, mas não havia ninguém de cabelos verdes à vista. Ele continuou procurando, e acabou saindo da praça, ousando vagar por um beco mal iluminado daquela área.

– Ué... Que é que um pirralho desse tá fazendo por aqui, hein? – Disse uma voz carregada de escárnio, do nada, e Alfred sentiu um arrepio na espinha. “Meu Deus, meu Deus, tem um fantasma aqui, eu não devia ter entrado aqui, meu Deus”, foi o que sua cabeça começou a repetir. Um dos maiores medos de Alfred eram fantasmas. Por isso ele nunca via filmes de terror – ao menos sozinho.

Após pensar três vezes, ele se virou na direção da voz. Para seu temporário alívio, não era nenhum fantasma, e sim um cara, em carne e osso, encostado no muro de tijolos.

não tem cara de quem anda por essas bandas, moleque quatro-olhos. – O cara disse, expirando uma nuvem de fumaça. Só quando ela se dissipou no ar foi que Alfred pôde ver parcialmente o rosto dele.

Tinha um olhar intimidador, lhe julgando inteiramente, e cabelo bem curto, quase como um corte militar. O cara estava usando uma jaqueta cujas mangas pareciam ter sido literalmente rasgadas fora e um par de alargadores desnecessariamente grandes.

Ele encarou Alfred por um tempo, esperando uma resposta, e o garoto o encarou de volta, sentindo suor começar a escorrer por suas costas.

– E-Eu só tô procurando uma pessoa – As palavras saíram apressadas e nervosas, assim como o loiro. – Ela não deve... Não deve estar por aqui.

– Depende da pessoa – O cara dos alargadores bizarros deu outra tragada no cigarro. Alfred tossiu quando ele expirou a fumaça novamente.

O garoto pensou que o cara fosse falar algo, porque ele abriu a boca, mas seu queixo permaneceu imóvel por um instante. Até que ele estreitou os olhos e se espreitou na direção de Alfred.

– Eu já vi essa tua cara em algum lugar.

–... T-Tenho certeza que não – Balbuciou Alfred, seu coração passando a bater mais rápido.

O que Alfred não tinha percebido era que haviam mais pessoas naquele beco além daquele cara. Ele quase pulou de susto – como se já não estivesse apavorado – quando uma garota de cabelos rosa e espetados apareceu, saindo da penumbra.

– Tom. – Ela disse. Tinha uma voz baixa, quase um ronronar, que chegava a soar ameaçador. Ela caminhou sobre suas botas militares assustadoras e sussurrou algo no ouvido do tal Tom. Quando a informação foi captada por ele, um sorriso se esticou em seus lábios.

– Ah. É tu mesmo, pirralho. – Ele deu uma nova tragada no cigarro, e Alfred teve medo de que realmente fosse a última. – O tal da foto.

– Foto? Q-Que foto... E-Espera, você tá cometendo algum engano, amigo... – O garoto foi dando discretos passos para trás. As suas mãos já estavam tremendo.

– Aw. Olha só, Lexi, ele nem sabe, tadinho... – Tom fez um biquinho e olhou de lado para a garota, que imitou a careta triste. – Aposto que o viadinho dele nem contou que já tinha namorado.

–... – Alfred arregalou os olhos, já verdadeiramente assustado e confuso. O que estava acontecendo? – E-Escuta, cara, eu... Não te conheço, você me confundiu com outra pessoa...

– Não, não, não. Tu é o moleque da foto, dos boatos. Tu e o namorado do Drake. Na festa do Craig. Não tem como confundir essa tua cara estúpida.

Alfred congelou. Ele sabia que estavam falando de Arthur. Ele e Arthur. Mas como aquelas pessoas sabiam? O que... O que estava havendo?

– O Drake iria gostar de estar aqui... – O cara disse, e jogou o cigarro no chão, pisando-o com as grosseiras botas. – Só que ele não tá. Será que eu devo avisar pra ele, Lexi? Vai perder a graça.

Ela meneou a cabeça em um “não”, com um sorriso matreiro na direção de Alfred.

– Eu tenho nojo. – Cuspiu o cara. Ele foi dando três passos à frente, ao que Alfred deu para trás. — Desses viadinhos.

Não houve escapatória, porque Alfred não esperava que fosse levar um soco certeiro no lado do rosto. Ele perdeu o equilíbrio, mas não caiu de cara no chão, pois aparou a queda com as mãos. Havia um gosto metálico em sua boca, e seus óculos haviam desaparecido.

Entretanto, ao se reerguer inconformado, foi empurrado contra uma grade detrás dele e levou outro soco no estômago, o que fez com que seu ar escapasse de seus pulmões. Ele escorregou na grade e caiu sentado no chão, tentando inspirar algum ar da atmosfera.

Outras vozes masculinas foram ouvidas por Alfred, quase que completamente tonto, repetindo a palavra “Briga!” como se fosse um grito de guerra. Alguém deu um chute em seu estômago, interrompendo sua tentativa anterior de respirar. Ele nem sabia mais como reagir, e ficou ali, levando chutes e encarando o chão – um borrão coberto de pontos escuros. Tudo que ele queria saber naquele instante era o porquê daqueles punks estarem lhe dando uma surra no dia do seu aniversário.

Ele ouviu um barulho de soco, e presumiu que tivesse levado outro punho na cara. Mas a dor não veio. Foi um dos punks que tinha lhe chutado quem caiu no chão. E então o dono do punho que derrubara o cara revelou a sua voz com um grito:

– ALFRED!!

No mesmo milésimo de segundo que ouviu a primeira sílaba do seu nome, Alfred ergueu a cabeça. Ainda que estivesse sem os óculos, ele pôde ver as duas orbes verdes olhando para si com uma preocupação desesperada. E queria que pudesse ter fitado aqueles olhos por mais tempo do que outro milésimo de segundo. Arthur caiu de cara no chão de concreto antes que Alfred abrisse a boca para balbuciar alguma coisa.

–... Arthur?! – O nome saiu de sua boca com surpresa, e ele franziu as sobrancelhas. – Merda, Arthur!!

Alfred nem sequer soube como, mas ele foi capaz de se levantar bruscamente logo depois que alguém socara Arthur. Os outros não perderam tempo e avançaram na “criatura indefesa” no chão. Arthur tentou dar uma rasteira em um deles, mas o cara era bem mais forte que ele, e ele acabou levando mais socos e cuspindo sangue. O chute que veio em seguida nocauteou-o, e ele foi parar com a cara no chão novamente. O garoto de cabelos verdes tentou se reerguer, mas Tom pisou nas suas costas, forçando-o contra o chão.

– Olha só quem chegou... Nossa vadiazinha – Anunciou o cara dos alargadores, e os outros punks em volta (os que haviam surgido de algum lugar ao ouvir a briga) riram escandalosamente.

– C-Cala a boca, filho da puta – Arthur rosnou do chão. Havia líquido escuro escorrendo do seu nariz e pingando no chão.

Tom pisou na cabeça dele, fazendo-o dar de cara com o próprio sangue, e esfregou o seu rosto contra o concreto com o pé.

– Qual é, viadinho? Da última vez que eu te vi, tu tava mais corajoso. Ah, é, tu tava bêbado. Tem que beber muito mesmo pra poder sair pegando outros viados por aí.

– Foi... Foi você quem espalhou isso, seu merda...? – Grunhiu o garoto no chão, sua voz já bastante fraca.

– E se tiver sido eu, pô? O que tu vai fazer? – Tom zombou, rindo com sarcasmo. – Tu é que não devia ter bebido, em primeiro lugar.

– Eu... Eu vou te matar... – Agora Arthur quase esbravejou, cerrando os punhos na tentativa de se libertar da bota pesada sobre sua cabeça.

– Huh, até parece, é tu quem vai apanh...

Tom não pôde completar a sua frase devido ao súbito soco que levara no rosto. Ele quase se desequilibrou, mas se apoiou no muro de tijolos. Sua glória e orgulho, no entanto, foram quem mais sofreram as sequelas.

Arthur então olhou espantado para Alfred, que olhava incrédulo para o seu próprio punho e para o cara que acabara de acertar. A expressão boquiaberta de Arthur se tornou um sorriso surpreso. Nenhum dos dois parecia acreditar que o loiro fizera aquilo.

Entretanto, o tal cara dos alargadores não demorou a se recobrar do soco. Foi o tempo que Arthur tomou para se levantar e passar as costas mão no rosto na tentativa de limpar o sangue – conseguindo apenas sujar-se mais.

– Seu... Maldito... Quatro-olhos... – Rosnou Tom à medida que erguia o rosto. Ele havia cuspido sangue no chão, e a ferida no rosto, perto da boca, era visível. – Quem mandou tu entrar nessa porra, caralho?!

Alfred não teve muita certeza do que faria, mas sabia que o cara estava avançando nele. Precisava pensar rápido, pensar rápido, pensar ráp...

– Não se atreva a tocar nele! – Disse Arthur, voando para cima do cara dos alargadores antes que este pudesse chegar a Alfred.

Porém, o soco que Arthur planejara não deu certo, acertando o outro com pouca força. Mal teve tempo de resmungar um “Merda!” e já teve o ataque revidado.

Ao ouvir o garoto de cabelos verdes dar um grito de dor com o soco que levara no nariz já quebrado, Alfred sentiu o sangue borbulhar de ódio. Ele parou diante do cara que segurava Arthur pela gola da camisa, tentando estabilizar seu corpo e respiração, e inalou ar e sangue antes de falar.

– Solta o Arthur – Alfred disse entredentes, na tentativa de manter a voz o mais firme possível.

– Olha só, vai defender a namoradinha? – Ele zombou com uma voz fina e um sorriso com escárnio.

– Não... Alfr... – Tentou Arthur, mas ele mal conseguia falar. Seu nariz e boca pingavam ainda mais sangue, e as marcas roxas dos socos que maculavam sua pele branca começavam a aparecer.

Ao ver Arthur machucado e vulnerável daquele jeito, um ódio indomável nasceu em algum lugar dentro de Alfred. Era quase como um instinto natural. Aquele cara não podia fazer isso. Ninguém podia fazer isso. Ele nunca iria perdoar aquele maldito. E Alfred... Precisava proteger Arthur dele.

– Eu disse pra soltar ele, porra!! – Rugiu ele, dessa vez descontando todo o seu ódio na voz.

Alfred ergueu o punho, mas não sabia o que ia fazer. Só sabia que ia acabar com a raça daquele desgraçado e tirar Arthur daquelas mãos nojentas...

Todos os punks e Alfred congelaram quando um som de uma sirene passou a se aproximar do local onde estavam.

– Puta merda, é a polícia!! – Alertou algum dos caras.

– Tom, fodeu! Deixa esse moleque, ele já apanhou pra caralho!

O tal cara dos alargadores fitou Arthur com o olhar mais congelante que pôde por um instante, e literalmente atirou-o no chão com brutalidade.

– Tu mereceu tudo que levou, viadinho. – Rosnou Tom, e cuspiu no chão diante de Arthur, que encarava o concreto sujo de sangue, de cabeça baixa. O garoto de cabelos verdes e agora bagunçados não tinha nem mais forças para revidar com um palavrão. Era como se toda a réstia de seu orgulho tivesse se dissipado. E agora ele apenas se sentia um garoto patético e fraco.

Então o grupo dos punks desapareceu do beco, incluindo a garota. Arthur permaneceu sentado no chão frio e duro, com o sangue escorrendo pelo rosto e a respiração entrecortada. Ele não pronunciou nenhuma palavra.

– Arthur!! – Exclamou Alfred, com uma expressão genuinamente preocupada. Ele encontrou os próprios óculos jogados no chão (com as lentes rachadas, no entanto) e correu para se ajoelhar ali à frente do garoto. Como estava de cabeça baixa, o seu cabelo esverdeado estava escondendo o seu rosto. Alfred queria olhá-lo nos olhos, mas sabia que ia sentir dor em si mesmo quando enxergasse seus machucados. Ele nem sequer sabia o que dizer. -... Art, eu podia ter me virado sozinho...

–... Não – Ele conseguiu responder com um monossílabo após engolir alguma coisa (provavelmente sangue dentro da boca). – É culpa minha.

– Art, não... Não é culpa sua – Alfred pôs uma mão no ombro do outro sutilmente. Foi aí que ele finalmente ergueu o rosto. E realmente estava deplorável. Seu olhar estava distante, como se estivesse vendo tudo embaçado. Alfred engoliu em seco. Não conseguia imaginar a dor que ele devia estar sentindo. – Você... Você tá muito...

– Alfred.

– O que foi...?

– Eu acho que eu vou desmaiar.

O corpo de Arthur vacilou um pouco para frente, mas ele ainda estava acordado, ainda que bastante tonto. Ele teria caído de cara no chão de novo se Alfred não tivesse o segurado pelos ombros.

– Não, não vai – Alfred assegurou, ainda que sem nenhuma certeza. – Vem. Segura nos meus ombros.

–... Eu consigo... Levantar sozinho.

– Não, não consegue. E eu já fiz isso com você. – O loiro deixou escapar, recordando-se da noite em que ajudara um Arthur completamente bêbado a voltar para casa. Sinceramente, por que era sempre ele quem tinha que salvá-lo? — Vai, se apoia aqui.

Arthur nem sequer perguntou sobre o outro já ter feito aquilo com ele, porque estava fraco demais. Alfred então passou o braço dele sobre os seus próprios ombros e segurou-o pela cintura para ajudá-lo a se apoiar – sentindo um breve arrepio ao tomar consciência do que estava fazendo. Arthur... Estava perto outra vez. E Alfred se sentia bem quando ele estava perto...

– Tem uma farmácia perto de onde eu estacionei. Dá pra ir até lá ou... Q-Quer que eu te carregue...?

Alfred estava falando sério na última frase, embora não parecesse. Arthur nem sequer sabia que ele mesmo já subira nos ombros do loiro para escalar um telhado...

– Desde quando você tem carro...? – Felizmente, Arthur também não respondeu nada sobre a a frase de Alfred, parecendo extremamente surpreso com a primeira para se importar com a segunda, por mais direta que esta fosse.

– Há mais ou menos uma hora. – Alfred sorriu de canto, ainda que o clima ali não tivesse nada de bom humor. Ele só não esperou que Arthur risse (ou ao menos tentasse).

– Você nem sabe dirigir – O punk fez questão de zombar, mesmo que não estivesse em condições, e isso transpareceu quando ele cuspiu sangue no meio da frase.

Alfred tomou todo o cuidado para conduzir Arthur até a praça, e então até a rua paralela onde tinha estacionado anteriormente a sua nova (velha) pick-up. De fato, na esquina havia uma farmácia que não tinha fechado no feriado, mas parecia prestes a fazer isso. Um funcionário estava fechando as portas da loja quando viu os dois moleques sangrentos se aproximarem. O senhor olhou assustado para eles, e Alfred podia dizer que tinha até um pouco de medo na expressão dele.

– Ah... O meu amigo precisa de um curativo – Pediu o loiro, como se aquilo não fosse perceptível pelo cadáver sangrento que ele carregava.

– ...Nós já estamos fechando, hoje é feriado.

– Você já viu o estado dele? – Perguntou Alfred, um tantinho alterado. O funcionário abriu a boca, sem saber o que responder para o garoto. – Pelo menos me arruma umas coisas de primeiros socorros, moço.

–... Alfred, eu já disse que tô bem – Resmungou Arthur, o orgulhosíssimo Arthur.

– Tá bem um caramba, Arthur! – Rebateu o loiro e voltou-se para o funcionário, que agora estava realmente assustado. – Moço, eu vou pagar.

O senhor soltou um suspiro e largou as portas, entrando na loja. Ele demorou uns dois minutos, mas voltou com um pacote de algodão, gaze, band-aids e um frasco de remédio antisséptico dentro de uma sacolinha. Alfred pagou e deu as costas para a farmácia, nem se lembrando do troco.

O loiro voltou com Arthur para a praça e ambos sentaram-se em um dos bancos. Arthur atirou a cabeça para trás e soltou um ruído de dor. Alfred suspirou, alcançando na sacolinha o pacote de algodão, rasgando-o rapidamente e tirando um pouco do conteúdo. Então sentou-se com uma perna de cada lado do banco e se aproximou do rosto de Arthur.

– Ah, não, Alfred, me dá isso, eu faço sozinho.

– Deixa de ser rebelde – Insistiu o garoto. Arthur não protestou muito; pelo menos até Alfred tocar no seu nariz quebrado.

– Oooouch, Alfred! Isso dói!

– O quê? Eu mal encostei em você! Deixa de ser exagerado.

Enquanto Alfred limpava o sangue do punk – sem muita destreza, na verdade -, ele mordia o lábio, como se estivesse se controlando para não resmungar da dor. Ele emitia alguns sons esquisitos, ao que Alfred repetia “Shhh” em ordem para que ficasse quieto e imóvel. Enquanto fazia seu trabalho, exigindo o máximo possível de cautela, ele ponderou sobre como nunca pensara que faria algo assim para Arthur, como se ele fosse uma criança descuidada que chegasse em casa depois de uma briga boba, e Alfred fosse a pessoa que cuidaria dele naquele momento.

Assim que Alfred terminou de limpar, passou para a fase do remédio. Arthur rugia sempre que o medicamento tocava suas feridas, mas aos poucos os rugidos foram se tornando apenas resmungos. O loiro então seguiu para a parte dos band-aids, e o punk pareceu bem mais quieto naquela fase. Por outro lado, Alfred passou a tremer quando teve que realmente tocar no rosto dele. Ele nunca tocara o rosto de Arthur antes, e a pele dele era tão... Macia, branca, mas agora maculada por aqueles horríveis machucados. O nariz sangrento, o hematoma do soco no rosto e o olho roxo eram bastante notáveis, já que a pele de Arthur marcava fácil... Espera, onde isso estava chegando?

– Pronto – Alfred disse ao expirar, como se estivesse prendendo o ar e incapaz de respirar durante todo aquele tempo que esteve tocando no rosto de Arthur.

O punk ficou fitando-o por um tempo. Tanto tempo que Alfred pensou que houvesse algo na sua cara. Para falar a verdade, ele não se importava, já que estava sendo observado atentamente pelos olhos de esmeralda dele.

– Você – Ele disse, apontando com a cabeça para o rosto de Alfred.

– Eu...?

– Também tá machucado, Al. – Arthur tinha uma expressão indiferente, mas ele mesmo sabia que aquilo era só uma máscara. Não era como se estivesse incrivelmente preocupado c om Alfred. Era só bom senso, afinal ele tinha tomado uns socos também. O hematoma começava a transparecer em sua pele, e por um segundo o punk se esqueceu de que ele mesmo estava com machucados piores para acidentalmente viajar de volta para a cena onde viu Alfred tomar aquele soco. Ele repeliu aquilo no mesmo instante.

Arthur não disse mais nada. Só pegou um pouco de algodão do pacote, tirou os óculos de Alfred e começou a limpar o sangue já quase seco do seu rosto.

–... Você me chamou de Al de novo. – Alfred apontou. Ele havia fechado os olhos, e não sabia muito bem por que. Além disso, ele estava se sentindo consideravelmente quente para alguém exposto ao vento frio da praça. – Ouch...!

– Shhh – Repreendeu Arthur, mas o loiro riu. Alfred continuou com um sorriso sutil e os olhos fechados até que o punk terminasse. – Pronto.

– Obrigado, Art – Disse Alfred, sorrindo um tanto embaraçado. A sua voz teve um soar tão gentil e, por incrível que pareça, honesto.

Arthur não conseguiu sustentar o olhar do garoto por muito tempo, e desviou o rosto. Talvez fossem os socos no rosto, mas ele parecia um pouco vermelho.

Já estava completamente escuro, e nenhum dos dois sabia bem a hora. Entretanto, não havia nenhum traço de pressa. Arthur ficou encarando o nada, como se tivesse congelado – ou talvez não conseguisse olhar para a pessoa ao lado. Alfred suspirou ligeiramente e olhou para o lado oposto a Arthur. Ficaram assim, evitando cruzar olhares, por um curto tempo.

– Então... Art – Alfred fez uma pausa, mas o punk não moveu um músculo. – Quem exatamente eram aqueles caras...? Você os conhecia?

Ele estalou a língua e hesitou um pouco antes de falar, as sobrancelhas franzidas como se tivesse desgosto das palavras.

– Eu sabia que tinham espalhado... Mentiras sobre mim – Admitiu, com a mesma expressão amarga. – Mas não sabia que tinha sido aquele maldito cara do alargador. E... A Lexi. Tenho certeza que ela o ajudou.

– Aquela garota do cabelo bizarro?

– Ela nunca foi com a minha cara. Só não sei por que... Por que ela diria tantas porcarias a meu respeito. Ela é traiçoeira. – Ele resolveu apoiar a bochecha na mão num ato chateado, mas reprimiu-se ao tocar um lugar lesionado.

– Ah. Mas o que exatamente disseram de você?

Alfred jurou ter ouvido o outro garoto murmurar um “merda” para si mesmo. Ele parecia estar muito interessado num poste com defeito da calçada do outro lado da rua.

– Aquele cara... O cara dos alargadores, ele disse que eu estava em uma foto. – O loiro disse cautelosamente, mas o corpo de Arthur enrijeceu como pedra. — Você sabe que foto é essa? E por que eu estou lá? Eu não tenho nada a ver com isso...

– Err... Como eu posso dizer isso, um... – Arthur começou, e Alfred percebeu que suas mãos estavam inquietas quando ele coçou a nuca. Arthur estava gaguejando? – Naquele dia da festa...

Aquele dia da festa. Alfred se lembrava lucidamente, não pelo acontecido ter sido há menos de uma semana, mas por ter registrado meticulosamente tudo em sua memória, porque era incapaz de se esquecer dos momentos. Mas por outro lado, sentia como se fosse uma memória distante, como um filme com cenas planejadas que repassava em sua cabeça sempre que se recordava, e que ele sempre sabia como se seguia.

–... Sim – Ele conseguiu concordar, ainda que quase para si mesmo, depois de mentalmente repassar a cena do clímax do filme. Aquela em que Arthur... Tentava lhe beijar.

– Então... Devem... Devem ter tirado alguma foto minha quando eu saí de lá, e você estava nela... E daí pensaram que a gente, quer dizer, eu estivesse traindo...

– A-Ah, entendi – Ele interrompeu, compreendendo o porquê de Arthur preferir não continuar.

O punk limpou a garganta e bagunçou os cabelos da nuca – como se os fios já não fossem nada comportados -, e Alfred ficou observando quietamente os piercings que adornavam a orelha dele. Pelo jeito, estava tão concentrado nas pecinhas de prata que não percebeu que Arthur fazia o mesmo em relação a ele.

–... Que corrente é essa? – Perguntou Arthur.

Ele estava olhando curiosamente para o colar que Maddie lhe dera mais cedo. Ele nem percebera que estivera usando aquilo até agora. Pensou em mentir para Arthur, mas não havia porquê.

– Madeleine me deu. De aniversário.

Arthur apenas assentiu, sem olhar nenhuma vez para o rosto do outro. Alfred engoliu em seco. Não seria muito confortável falar para Arthur naquele momento que ele tinha terminado o namoro. Estava pensando em alguma outra coisa para falar, mas foi interrompido por uma série de estouros no céu. Fogos de artifício azuis, vermelhos e brancos iluminaram o céu negro e sem nuvens, e ambos Arthur e Alfred ergueram o olhar na direção das faíscas.

Entretanto, o loiro não manteve os olhos azuis refletindo as luzes no céu por muito tempo, e as desviou na direção do garoto sentado ao seu lado, que deixou escapar um breve suspiro. O rosto dele – ainda que coberto parcialmente pelos curativos e com algodão no nariz – era onde as luzes coloridas se refletiam, seus olhos brilhando a cada estouro.

– Você ainda não disse parabéns.

O punk notou que tinha sido flagrado encarando o céu como uma garota sonhadora, mas não voltou a olhar diretamente para o seu lado.

– Eu não me importo com os Estados Unidos, até parece que eu ia parabenizar.

– Não – Alfred cortou – Você não me deu parabéns.

Arthur fez uso do típico rolar de olhos que tentava passar a imagem de que ele não ligava. Por outro lado, um sorriso dava sinais de se revelar, traindo sua expressão anterior.

E a coisa mais clara que se passava na mente de Alfred era que ele adorava aquela expressão e sabia exatamente o que ela significava. E que apesar de ambos estarem ridiculamente machucados, numa praça esquisita à noite depois de perder uma briga para um bando de punks num beco, estar com Arthur ali compensava até os seus óculos rachados e a parcial incapacidade de enxergar – o que o incomodava, considerando que não podia enxergar completamente os detalhes do rosto do garoto de cabelos verdes. E ele não precisava ouvir parabéns saindo da boca de Arthur.

– Er... Art, não é melhor você ir pra casa e cuidar melhor disso? – Alfred apontou o nariz do punk, de onde recomeçava a derramar um filete de sangue. – Eu posso te levar.

Ele não tinha percebido que estava sangrando novamente, e olhou para Alfred com as sobrancelhas franzidas, com a expressão fazia em noventa e nove por cento das vezes. Para tentar parecer intimidador, provavelmente. Aquele sangue e os machucados também colaboraram um pouco.

– Eu tenho cara de bebê que não sabe voltar pra casa só porque levei um soco?

– Meu Deus, Arthur, deixa de ser trouxa. Eu só tô querendo ser legal, cara. – Suspirou Alfred. – E você levou uns quinze socos.

–... Se eu dissesse algo assim há dois meses você ficaria branco de medo. – Constatou Arthur, fazendo um grunhido ao perceber-se vencido. – Eu tô decaindo.

– É porque eu já sei o quanto você é um idiota. – Ele disse e levantou-se do banco enquanto ria tolamente.

Arthur não se deu ao trabalho de rebater, porque nenhum dos dois queria incender uma discussão ali. Entretanto, enquanto se erguia, mostrou casualmente o dedo do meio para Alfred, que tornou a gargalhar.

– Só não sei o que... A minha mãe vai dizer se eu entrar assim em casa – Confessou Arthur, num tom baixo, ao mesmo instante em que caminhava (já um pouco menos tonto) ao lado de Alfred, em direção a onde ele tinha estacionado o carro. – Argh, que merda. Ela vai me fazer umas mil perguntas...

Alfred começou a tossir forçadamente. O punk estreitou os olhos na direção dele, se perguntando se ele realmente achava que alguém acreditaria naquela interpretação terrível. O garoto não olhou de volta para ele, porém.

–... Alfred.

– Hm...?

Alfred conseguia sentir o olhar de Arthur o congelando. Ele respirou fundo.

– Ok, eu... Contei pra ela que você tinha sumido com os punks.

A carranca que distorceu a expressão de Arthur fez com que o loiro continuasse rápido:

– O-Olha, eu não tive escolha, ok? Ela perguntou onde você estava, e eu acabei... Dizendo, mas eu não tinha certeza... Ainda que eu estivesse meio certo, mas... – Ele começou a se atrapalhar com as palavras.

Arthur estalou a língua e bufou, a irritação claramente notável.

– Merda, Arthur, eu só fiquei preocupado...! E... Ela também, mais do que qualquer um, tenho certeza. – Ele virou a esquina da rua quase vazia e um pouco sombria, um tanto mais chateado do que arrependido. – Eu só acho que você devia ao menos ter contado a ela sobre os punks...

–... Se eu contasse, ela não ia me deixar sair.

– E por que você insiste tanto? – O tom de voz de Alfred subiu moderadamente, mas foi o bastante para surpreender o punk.

Alfred mesmo percebeu que havia se exaltado demais, e fez um estalo frustrado com a língua enquanto destrancava o carro. Entretanto, Arthur sabia que ele ia continuar, e o assunto só ficou pairando no ar por alguns segundos enquanto ambos entravam na pick-up. O loiro colocou a chave, mas não a girou.

–... Escuta, Art – Ele chamou, mais calmo desta vez. – Eu quis dizer que... Não acho que você devia ter se envolvido com essas... Cacatuas, primeiramente.

O punk estava o fitando com olhar de suposto descaso, embora estivesse prestando atenção às palavras.

– E que argumentos você tem pra me convencer? – Fez Arthur, mas a voz dele não soou tão desafiadora quanto deveria para fazer jus à sua postura. O que era estranho, porque ele sempre usava aquele tom de voz nas discussões.

– Não sei, eu só acho... Que você... Você é uma pessoa boa demais pra andar com eles, Art. – Alfred confessou, soltando uma lufada de ar pela boca. — E eu não queria ver você... Ser influenciado por eles e acabar se arrependendo.

O olhar esverdeado vacilou, desviando para baixo, e Arthur hesitou diante das palavras de Alfred, ambos ouvindo apenas o som dos fogos de artifício.

Please don't put your life in the hands

Of a Rock n Roll band

Who'll throw it all away

– Eu não vou... Ser influenciado. – Arthur disse, meio vagamente.

O loiro fitou o punk com um olhar crítico.

– Você diz isso, mas no final vai acabar indo na deles. Você já arrumou briga com uns caras, e o que acontece depois? Vai sair por esses becos cheios de cacatuas, pra fumar—

– Caralho, Alfred, você é minha mãe ou o quê?! – Bradou Arthur subitamente. – Eu já disse que você não precisa ficar se preocupando com qualquer merda, tá? Eu sei o que eu tô fazendo!

“Não tem por que se preocupar comigo, idiota.”

Alfred emitiu um som inumano, mais como um rugido, e bateu a cabeça contra o volante. Ele não queria começar uma briga estúpida outra vez. Na verdade, estava cansado daquilo. Arthur não ouvia nada que ele dizia, e se achava o dono de toda a verdade. Era quase como no sangue dele só corresse o seu orgulho egoísta. Por que ele não simplesmente entendia que Alfred gostava dele e não conseguia parar de se preocupar...?

Puta merda, Alfred.

Arthur ainda estava reclamando quando aquilo veio e cravou em Alfred como uma faca afiada. Ele congelou até que Arthur fosse gradativamente se calando e estranhasse o silêncio.

–... E-Eu não quero mais discutir, ok? – Alfred girou a chave e o carro acordou, com aquele motor barulhento – Você decide o que contar pra sua mãe. Mas vou te levar pra casa.

A expressão de Arthur suavizou um pouco, mas ele encarou Alfred por um minuto antes de se recostar no banco. Ele apenas dirigiu, desistindo de tentar compreender o que estava se passando em sua própria mente. Contudo, mal conseguia respirar normalmente, com Arthur e aquele pensamento ali ao seu lado.

Ficaram presos em um congestionamento por um tempo, e enquanto Alfred rezava para que nenhum guarda pedisse sua licença, o punk apontou calmamente:

– Você não tem rádio?

–... Não, eu ganhei o carro hoje.

Ele suspirou e fez um comentário sarcástico qualquer a respeito de como o motorista não sabia dirigir direito e do constante hino nacional que tocava lá fora, mas Alfred não prestou muita atenção.

No momento em que pararam na calçada da casa de Arthur, eram cerca de nove da noite. Alfred imediatamente sentiu um dejà vu, ainda que desta vez, Arthur estivesse sóbrio.

O loiro esperou que o outro olhasse para ele e lhe dissesse um sincero “obrigado”, porque ele merecia. Mas é claro que o Arthur fora de sua imaginação não faria isso. Alfred pensou em fazer alguma piadinha sobre escalar o telhado outra vez, mas por incrível que pareça, pensou melhor antes de abrir a boca.

– O que vai dizer pra sua mãe?

Arthur fechou a porta do carro, já do lado de fora, e virou-se para o garoto com um esboço de um sorriso.

– Você me dedurou, me irritei e brigamos. Você deu o primeiro soco.

– Considerando o seu estado, isso faz de mim o vencedor – E sorriu como ele sempre fazia depois de rebater o que Arthur dizia.

O punk acabou rindo, e pareceu não perceber aquilo.

Alfred também não percebeu que o seu coração ainda estava batendo muito rápido quando chegou em casa. Ainda estava quando sua mãe abordou-o assim que entrou, perguntando se não havia tomado nenhuma multa e o porquê de estar todo machucado. Ainda estava enquanto jogou seus videogames novos até tarde. E quando se deitou, repensando sobre todas as palavras e ações daquele dia, outra vez. Sobre a tarde do seu aniversário com Arthur, sobre Maddie, sobre a pick-up. Sobre a expressão de Arthur quando ele saiu de sua casa desesperado, sobre a preocupação que ele sentiu. Sobre aquela briga e as revelações, a foto, o cara dos alargadores, o sangue dos machucados de Arthur que ele cuidou.

E pensou sobre aquele instante no carro com Arthur, que foi quando ele percebeu que havia algo ali. Algo que já estava mudando há um tempo, mas que ele mesmo não notara. Talvez porque nunca tivesse parado para pensar. Mas agora, olhando para o teto do quarto, aquilo estava tão concreto que ele quase podia tocar. Entretanto, ele não sabia como nomear aquilo. Sentimentos nunca vêm com definição de dicionário.

Desde então, Alfred vêm se sentindo muito “Arthur” constantemente.

Notas finais
Será que alguém chegou até aqui? Se chegou, aqui um bolo pra você! Espero que tenha ficado bom! Dá para perceber que os sentimentos do Alfred começaram a florescer... Já estava na hora, né, Kiyuu? Heh. Pode ter algum errinho nesse também, ainda que eu tenha revisado, então me avisem! Ah, a parte da citação é da mesma música do Oasis. Uma amiga minha (Mother Russia aqui) me mostrou um dia e eu achei que combinava com este capítulo. Eu estou de férias, portanto tenho mais tempo para escrever, mas isso não garante que eu poste rápido (porque eu sou uma procrastinadora de qualidade). Mas eu vou tentar o meu máximo por vocês, ok? Bem, estou distribuindo outro bolinho pra cada um que mandar um review! Obrigada por acompanharem essa fic.