Strada Per L'inferno
5 Mamãe, ela é uma princesa?
Notas iniciais
Uma vez noiva, tudo correu rapidamente. Tem pessoas que noivam por anos, até chegar então o dia do casamento. Mas na minha família não era assim: se isso acontecesse, logo diriam que o noivo estava enrolando a noiva. Não, na minha família o casamento era para ontem. Mal passou o dia de meu noivado, e mamma começou a correr com os preparativos da cerimonia. Seria aqui mesmo, em Vernazza, na capela local. Seria para poucas pessoas. Somente minha família, não todos já que eram muitos, e a família de Henry. E é claro Don Mantovani. Seria o mais breve possível. E com o curto período, a busca era muito mais intensa. Era tarde de quarta feira, aproximadamente um mês depois de meu noivado. Eu, minha mãe e minha irmã estávamos em Roma, a procura de um vestido. Como Vernazza era muito pequena, as opções de vestido eram muito limitadas. Em uma cidade maior, tal como Roma, as opções eram maiores. Eu estava sem animo algum, mas mamma estava animadíssima. Era só ela ver uma loja de noivas que pronto: experimentar novecentos vestidos. Já havia adentrado umas dez lojas, no mínimo, e experimentado uns cem vestidos, pelo menos. Estava cansada, não aguentava mais. Grace também não. Andávamos calmamente pelas ruas, quando minha mãe avistou mais uma loja. Pronto! Logo eu e Grace fomos enxotadas para dentro da loja. Assim que entramos, uma moça veio nos atender.
–Come posso aiutarli?– Ela perguntou toda sorridente.
–Mia figlia, Lane, si sposerà e hanno bisogno di un vestito – Mamma respondeu, botando as mãos em meus ombros.
A moça sorriu a mim, dando-me os parabéns. Eu sorri minimamente, tentando ser simpática e “agradecer”. Ela apontou o interior da loja, especificamente as araras, perguntando se nós procurávamos algo especifico. Minha mãe respondeu que sim; nada muito decotado, que valorizasse minha cintura, e que de preferencia que não fosse tomara que caia e não tivesse cauda. Tudo o que ela queria para o meu vestido de noiva. A moça pediu para nós nos sentirmos à vontade enquanto ela procurava uns modelos com a descrição de minha mãe. Eu olhei para Grace e ela revirou os olhos. Sorri e ela também. Fomos nos sentar em um sofá que ali tinha enquanto nossa mamma olhava alguns modelos de vestidos nas araras. A moça que nos atendeu voltou com um carrinho, como aqueles de hotel para bagagens, com alguns modelos de vestidos pendurados. Mamma logo começou a dar “pulinhos” de felicidade, enquanto eu revirava meus olhos. Experimentei todos os vestidos que ela trouxe, mas minha mãe sempre achava algo que não lhe agradava; o primeiro tinha cauda muito longa, o segundo não valorizava minha cintura, o terceiro tinha muito tule por baixo da saia, o quarto tinha muito bordado no busto e o quinto era tomara que caia e “espremia” meus seios. Toda vez que minha mãe falava algo que não gostou no vestido, Grace revirava os olhos ou a imitava. Isso me fazia rir. A moça, depois de levar todos os vestidos de volta, retornou para perguntar especificamente o que mamma queria. Ela voltou a listar os itens que não queria, e também listou alguns que lhe agradavam. A moça concordou com a cabeça e se virou a mim, me perguntando o que me agradava.
–Quello che ha detto mia madre – Respondi indiferente.
A moça assentiu com a cabeça e disse que tinha um vestido em mente que talvez nos agradasse. Nós esperamos mais um tempo, até que a vendedora retornou com um vestido em mão. Não pude vê-lo bem, mais assim que ela o estendeu á nós, eu gostei. Era branco mais puxado para o off white, tinha alças grossas e decote comportado, a saia não era armada e sim caída abrindo para os lados. Era todo rendado no busto e tinha um laço na cintura, de onde abria uma camada de tule que continuava com os detalhes do busto, enquanto a saia de baixo era totalmente lisa. Era lindo. Minha mãe também pareceu gostar, mesmo eu ainda não tendo o provado. A vendedora estendeu-o a mim e eu peguei-o, entrando no provador. Vesti-o sem nenhuma dificuldade. Olhei-me no espelho, com o vestido no corpo, e soube que era aquele vestido. Ficara perfeito. Não era muito espalhafatoso, mas também não era simples demais. Era tradicional e perfeito para uma menina de dezessete do interior da Itália. Fiquei admirando-me no espelho, até que minha mãe me chamou no lado de fora do provador. Saí para o lado de fora, segurando em minha saia.
–E poi, mamma?– Perguntei a minha mãe.
Mamma não teve fala. Ela simplesmente me admirou e botou as mãos na boca, acenando positivamente com a cabeça. Grace também não sabia o que dizer. Ela sorria e olhava-me deslumbrada. A vendedora também pareceu gostar.
– Magnifica! – Mamma exclamou emocionada.
Havia um enorme espelho ali na loja, e eu pus-me a admirar-me nele. Uma moça, que deveria ter uns trinta anos e, provavelmente, também viera comprar um vestido, viu-me e elogiou-me.
–Está linda! — Ela disse admirando-me e sorrindo.
–Grazie! — Respondi sem tirar os olhos de mim mesma.
Uma menininha, de uns cinco anos, se aproximou da moça que me elogiara e pegou no braço dela, olhando-me fixamente. Ela então apontou para mim e disse:
–Mamma, ela é uma princesa?
A mãe sorriu para a menina e respondeu que não. Eu olhei para a menina e sorri também. Abaixei-me até ela e cochichei para ela, apertando seu narizinho:
–Você que é uma princesa.
Ela riu envergonhada e escondeu o rosto no ombro dela. Eu ri do ato da menina.
–Quando crescer serei igual á você? — A menina perguntou, tendo passado a timidez. Eu sorri a ela e neguei com a cabeça.
–Não. Quando você crescer você será igual á você, que é mais legal ainda! — Respondi a ela.
A menina riu de novo. Eu sorri novamente e me levantei. Olhei para minha mãe e ela sorria.
–É esse figlia? — Perguntou mamma a mim.
–Sim, é este mamma – Confirmei certa, sorrindo.
A vendedora sorriu feliz pela venda. Minha irmã também pareceu contente. Olhei uma ultima vez para a menininha, que sorria também, e entrei no provador para tirar o vestido. Admirei-me sorrindo. Não estive empolgada com nenhum outro vestido que provara, mas este... Este era perfeito, ideal. Meu sorriso, porém, foi se apagando quando lembrei quem era meu noivo. Na certa, pensei, ele só irá sorrir frio no altar assim que me visse. Na certa, este vestido seria a única coisa feliz que eu teria com esse casamento.
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