Notas iniciais
Eu sei, demorou muito. Estive completamente sem tempo. Fiz este capítulo ontem e hoje, espero que gostem. Boa leitura.

Dias? Não saberia dizer. Se antes ela não sabia quando amanhecia ou anoitecia, agora não sabia se os minutos passavam. Os pregos sobre seus dedos, esticados na tábua de madeira, pregados com um martelo, causavam uma dor capaz de fazê-la gritar por horas, como notara. Nunca percebeu o quanto poderia ser sensível. O quanto seu corpo podia responder aos estímulos. Nua, ajoelhada com os braços atados a mesa, o carrasco de manto negro e voz rouca assobiava uma melodia que preenchia a sala silenciosa. Após cinco tentativas de fazê-la falar, raspando as solas de seus pés com uma escova de aço, recortando a pele de seu couro cabeludo em desenhos estilizados e arrancando seus seios com ferros quentes, o sossego veio.

Ou parte dele. Era calmo, muito tempo se passou desde que ela gritou pela última vez. Mas ainda havia gosto de sangue na goela, a língua ainda estava inchada e ela tremia de sede e cansaço. Não dormira por pelo menos três dias. Três? Quem saberia? O homem não lhe dizia nada, ele apenas obedecia ordens. Tinha muita experiência com vítimas.

Quando a matariam? Quando finalmente terminariam com aquilo? Cerenna começava a desejar ardentemente a morte. Nunca imaginou que um dia poderia preferir morrer a passar os dias trancada em uma câmara de tortura, ela nem mesmo havia imaginado passar por tortura antes. Seus trabalhos como assassina eram perfeitos. Mas, é claro, as vidas que ceifara eram insignificantes perto da vida de um rei. Seu pai. Os deuses deveriam condenar sua alma à angústia eterna. Nem mesmo o Estranho teria piedade dela. Fatricida. Assassina. Traidora. Poderiam chamá-la do que quisessem, ela sabia quem era. Quando visitou sua mãe, naquele dia em que descobriu tudo sobre seu passado, ela jurou vingar a vida que Ayeres Targaryen determinou a elas: vagais, pobres, sujas, doentes. Ele as renegara após destruir seus futuros. Ele as abandonara, mesmo sendo um pai, mesmo sendo um adúltero.

Ayeres Targaryen tinha sua culpa na história, e pagara o preço. Que descanse em angústia, como ela descansaria em breve. Sim, quando fechasse os olhos pela última vez, tinha certeza de que veria as chamas do inferno ardendo ao seu redor e um coral de demônios estaria lá para recebê-la com insultos e pragas.

O carrasco aproximou-se da mesa e começou a arrancar os pregos, um por um. Infelizmente, alguns haviam se entortado conforme eram pregados, e precisaram ser girados sobre a carne de Cerenna. Ela grunhiu sons initeligíveis, sentindo como se uma raiz estivesse projetava dentro de seu crânio e fosse puxada para fora de seu cerne. Ao término dos dez dedos, o velho descansou brevemente os próprios dedos da mão sobre seu pulso, avaliando os estragos, e mergulhou-a em água com uma substância corrosiva que fez sua carne latejar até que enfim a sentisse mais.

O corpo caiu, fraco e quase adormecido no chão de pedra fria. Algumas ratazanas se afastaram, assustadas, e Cerenna viu as sandálias de couro enegrecido do velho.

— Leve-a para a cela. – o comando foi dado para seu guarda pessoal. Ele a pegou, como fora o comando, e a arrastou nas ancas até o quarto que, promovido ao anterior, tinha uma cama e onde jogar os dejetos. No entanto era ainda mais empoeirado, úmido e escuro e ela tinha certeza de que os ratos dormiam aninhados a seu peito todas as noites.

O guarda a jogou sobre a cama, ignorando o resmungo de dor que ela soltou. Em breve um barbeiro apareceria para limpar seus ferimentos e fechá-los, para que não infeccionassem e ela pudesse sobreviver ao próximo dia. Não pela primeira vez teve um assombro com a ideia de mais e quase abriu a boca para falar, qualquer coisa que fosse. Mas não disse. O que ela diria? Sua vida inteira era um amontoado de vários nadas para aquela gente. Quando nasceu, talvez debaixo do castelo, talvez dentro de um bordéu, ninguém olhou para ela com nada mais que asco e desinteresse. Quando foi abandonada pela primeira vez, tinha apenas a si mesma para contar no mundo. Quando matou o primeiro homem, nem mesmo ele olhou para seu rosto. Fora paga para reaver uma vingança silenciosa que fora plantada por sua mãe dentro de seu peito.

No dia em que ela morreu, velha e doente, Cerenna Luxfero ouviu apenas uma frase de seus lábios, uma que ela guardou para aquele momento, para quando estivesse tão fraca que até mesmo a ideia de traição lhe parecesse doce: Você também é um dragão.

{ ... }

Conduziu o cavalo para longe da margem da floresta, avançando na estrada do rei, onde o sol ainda lambia a relva. Um fraco vento soprava sua capa vermelha sobre os ombros largos, e pela primeira vez na vida, Lorren imaginou que já havia conquistado a glória da Casa Lannister novamente. Seus trinta homens armados, montados em cavalos, abastecidos com quinze escudeiros, dez cavalariços e dois senhores locais com vinte cavaleiros cada. A comitiva subia Estrada do Rio como se o destino fosse uma batalha heroica, e não apenas o Dente Dourado. A frente de todos, ia Lorde Lannister, com seu garanhão branco, as rédeas e montaria adornadas de dourado e vermelho, os cabelos grisalhos protegidos por uma boina pequena e as costas ocultadas pelo manto do leão. Todos aqueles artigos eram históricos. Talvez centenários. De eras em que os Lannister tinham alguma glória e muita riqueza para ostentar tais objetos. Agora, mal se adequavam a seus descendentes. Mas um dia, ele podia sentir, um dia ainda mandaria todos os artesãos de Lannisporto costurarem as novas cortinas de Rochedo Casterly, e lá reinaria com honra.

Lorren acompanhava o ritmo de seu primo, Kilian, quando sentiu a aproximação de uma nuvem rente a seu calcanhar, e virou o rosto despreocupadamente para o lado.

— Rolland disse que podemos estar sendo seguidos. – Ellyn tinha as sobrancelhas caídas, numa expressão de leve irritação. Muito característica.

— E o que você disse a ele? – sabia que era isso o que ela queria falar.

— Eu disse “Quem vai querer seguir um bando de senhorezinhos sem dinheiro ou terras?” e dei um peteleco em sua orelha. – com um sorriso triunfante, sua irmã se moveu animada sobre a cela, o cavalo entendeu errado o comando e se adiantou no passo. – O que o pai disse sobre Lorde Lefford?

Lorren sabia que não podia sair espalhando as informações que seu pai confiava somente a ele e a seus senhores mais féis, mas Ellyn jamais seria uma ameaça a qualquer plano deles. Primeiro porque era uma Lannister, segundo porque era uma mulher. Terceiro porque era sua irmã gêmea, e ele era incapaz de lhe dizer não.

— Se ele não quiser se aliar a nós, teremos de tomar Dente Dourado à força.

— Seria estúpido se isso significasse invadir o castelo no pico daquelas montanhas, com cinquenta homens e suas filhas indefesas esperando que Lorde Lefford, o defensor do norte das Terras Ocidentais não tenha um bom número de guardas a sua disposição. E, principalmente, com muitos estoques de mantimentos, arqueiros nas ameias e corvos que mandariam mensagens a Rochedo Casterly e os rouxinóis rapidinho. – seu rosto novamente era um misto de irritação e descrença. Lorren a achava muito inteligente, mas também muito precitada.

— Realmente seria uma estupidez tentar a invasão ou o cerco. Por isso faremos um duelo. – poderia ter esperado para dar a segunda informação. Ou ocultado. Mas sabia o que isso significaria depois. E sabia que a forma como fizera era o mais fácil. Kilian remexeu-se no cavalo e pegou da bolsa o alaúde.

— Duelo?! – ela gritou, sua voz cortando todas as conversas paralelas, inclusive a atenção de Lorde Lannister no horizonte que subia a encosta das primeiras montanhas. Os homens viraram suas cabeças, alguns assustados, outros lançando a Lorren um olhar significativo. Mas o pai olhou por cima do ombro para os primogênitos e continuou a cavalgar serenamente.

— Fale baixo, Ellyn, quer que todos escutem? – ele sussurrou, mas a irmã ignorou completamente o que disse. Seus olhos ainda estavam arregalados e as sobrancelhas tão expressivas erguidas na testa brilhosa.

— Um duelo, Lorren?! Ele está louco? – ele, no caso, era o pai de ambos. Uma filha mais atenciosa, como Roselynn ou Lorenna teriam sido mais respeitosas a citá-lo. Isso não se adequava a Ellyn, assim como a maioria dos costumes femininos, não que ela não fosse feminina. Era, e muito mais que Roselynn ou Lorenna. Mas não era feminina como a conduta exigia. – O pai é velho demais para isso.

Lorren riu, pois era verdade. Seu pai nunca precisou empunhar a espada diante de uma luta de verdade, nem mesmo seu treinamento fora muito aplicado. Afinal ele não era nenhum grande lorde, não iria para nenhuma guerra, e o seu pai o criara apenas para continuar a linhagem. Lorren, no entanto, sabia que havia nascido para fazer uma guerra, e se preparou para ela por anos.

— Não posso concordar abertamente contigo – ele sorriu um sorriso cúmplice para a irmã. – Mas posso dizer que quem duelará sou eu.

— Espero que o velho Lefford não espere um filho minguado e louro de Lorde Lannister. Provavelmente ele acha que somos todos magros como nossa mãe. – ela revirou os olhos – Mas se é você quem vai duelar, acho que Dente Dourado já é nosso, de um jeito ou de outro.

Lorren sentiu-se grato pelo elogio da gêmea, em geral Ellyn não costumava ser gentil com outras pessoas além de sua família, e mais dificilmente ainda elogiava alguém. A ele mesmo nunca foram dados muitos elogios sinceros. Kilian começou a dedilhar uma canção calma.

— Acho que logo uma carta de Porto Real chegará.

— Essas coisas demoram, Ellyn.

— Você não conhece Asalan.

Ele não conhecia. Desde que fora para a Corte, servir como dama de companhia da princesa Beata, a irmã havia crescido muito como mulher e como conhecedora de armações e revoltas contra a Coroa. Mas não era isso o que incomodava Lorren, nada em relação a Corte ou como ela havia moldado o amadurecimento de Ellyn. O que o incomodava era toda a maldita vez em que ela mencionava o nome do príncipe exilado com um olhar vago e nostálgico.

Aquilo o enchia de ciúme.

Para conter o estômago que se revoltava com a menção ao príncipe, Lorren agarrou-se mais firmemente às rédeas, seu cavalo resfolegou de leve o ar e Kilian parou de tocar, incitando o animal para frente junto do dele. O primo era mesmo um bom companheiro. Ellyn socou seu ombro, agarrando o queixo em sequência, obrigando-o a olhar para seu rosto.

— Não banque a criança comigo, Lorren.

Tudo bem. Era provável que ainda fosse uma criança, mesmo. Mas era difícil acompanhar estando em Lannisporto, cercado de pessoas simples, com Kilian e Rolland para brincar e lutar, Roselynn para levá-los a todo o tipo de problema e o pai, tão flexível com a conduta dos filhos. Era mesmo muito difícil, sabendo que ela vinha de um castelo cinquenta vezes maior, com novas amizades, novas inimizades, novos conhecimentos, completamente nova para ele. Ellyn não era mais a menina incontrolável e cruel de antes. Ela era uma mulher incrontrolável e cruel, e ele detestava sentir-se um garoto perto dela, pois sua maior conexão no mundo era ela, e se ela o achasse estúpido demais, então ficaria perdido.

— Se não gosta do príncipe, não precisa deixar isso tão evidente. E você nem ao menos o conhece.

Novamente aquela história sobre conhecer. Ele conhecia o príncipe que ela contava e não se sentia mais amigo dele por isso.

— Como pode saber se uma carta chegará?

— O rei deve estar morto agora. Se tudo aconteceu com os planos de Asalan, então ele está em Porto Real agora, esperando o funeral para se proclamar rei legítimo do Trono de Ferro. E quando a carta dele chegar até nós, saberemos que é hora de nos unir aos Tyrell para declarar aguerra aos Valois.

Palavras tão fortes, planos tão pesados, em uma pessoa que ele julgaria precisar apenas de risadas e música. Como que por mágica, Kilian começou a cantar junto de seu alaúde, a voz de barítono era ainda mais calma que a melodia e trazia paz a qualquer um que o ouvisse.

— E se nada estiver como os planos de Asalan?

— Então teremos de esperar.

Lorren novamente apertou as rédeas, mas o animal não avançou.

Ela não entendia como aquelas provocações o irritavam? Sempre aceitava tudo o que Ellyn fazia, achava-se muito bom por isso, então não merecia um pouco de compreensão? Claro que ela o provocava de propósito, talvez por crueldade ou apenas para brincar com ele. Mas feria, por mais superficial que fosse.

Não queria monopolizar sua irmã, não podia imaginar que a teria eternamente como sua gêmea, ela se casaria e tomaria outra família, talvez não fossem se ver por meses, talvez seu esposo fosse um senhor de terras muito distantes ou um inimigo futuro. Muitos caminhos poderiam ser tomados, mas nenhum deles congelaria sua família no agora. O pai morreria em vinte anos, e já demonstrava uma fragilização em sua constituição robusta. Roselynn e Rolland também sairiam de casa, cada qual com sua terra, família e preocupações. A mãe já dormia debaixo da terra. Tudo o que podia era contar com Lorenna, a irmã tão jovem que ele teria de cuidar para que tivesse um bom casamento. De todo modo, num futuro ele estaria sozinho, sem eles. E talvez infeliz.

Mas seria Lorde Lannister, de Rochedo Casterly, casado com a filha de outro importante lorde, com alianças e senhores para cuidar, camponeses para proteger, comércio a gerenciar. Sua vida seria ocupada pelas responsabilidades de um grande senhor, e ele atingiria as expectativas, pois nascera para aquilo. Ellyn nascera para estar ao seu lado, mas os deuses quiseram que fossem dois seres e não um. Se ao menos ela fosse parte dele, parte verdadeira, então poderia ser mais completo, não sentir-se perdido ou fraco.

— Você está muito quieto, Lorren. – era ela, chamando sua atenção com uma voz doce e ao mesmo tempo autoritária, testando o terreno sem perder a pose.

— Eu sou quieto. – ele queria se defender, era verdade, mas Ellyn sabia disso, e ele também sabia que ela sabia. A questão não era seu silêncio, e sim os seus pensamentos. O rosto o havia entregado.

— O que aconteceu?

Kilian perguntou sem parar de tocar o instrumento, sua habilidade era invejável e o primo parecia não perceber o quão incrível era montar um cavalo sem segurar suas rédeas, dedilhando perfeitamente e cantando em voz afinada. Tudo isso em trote ligeiro. Lorren virou o tronco inteiro para dar-lhe atenção, o que o deixou de costas para a irmã, e ela acertou um soco oportuno.

— Ellyn acha que estou estranho.

— Ele está estranho – a moça retrucou com os olhos fixos em Kilian, desafiando-o a contradizê-la. Mas o primo apenas assentiu, passivo. – Sempre que falo de Asalan, Lorren age como se quisesse mudar de placenta.

Kilian exclamou uma gargalhada gutural, destas que apenas os cantores barítonos conseguem fazer, com toda a explosão de um trovão a sacudir o ambiente. Seus dedos pararam sobre as cordas e ele jogou a cabeleira escura para trás, movendo os ombros junto da respiração. A reação fez Ellyn abrir um sorriso glorioso e novamente uma onda de ciúme invadiu-o pelo estômago. Por que ela só tratava os outros bem e nunca o tratava como antes? Ela melhorara em todos os tratos cordiais, estreitara os laços com os outros irmãos, a quem antes ela não dava muita atenção, e até mesmo o pai tinha tempo para conversar enquanto jogavam juntos. Mas Lorren via-se isolado. A irmã que conhecia tão bem estava em Porto Real, perdida para sempre no passado. Aquela Ellyn o confundia e o deixava apreensivo.

— Isso se chama medo. – o primo explicou, após conter sua risada.

— Kilian – ele resmungou, querendo repreendê-lo por aquilo, mas Ellyn ergueu uma sobrancelha, empertigando-se sobre a cela.

— Como assim, medo?

— Medo de perder a querida irmã para um príncipe bonitão e carismático.

Lorren sentiu o pescoço ardendo e provavelmente suas faces brancas estariam vermelhas agora. Vermelho até a raiz dos cabelos louros. Ser tão claro tinha muitas desvantagens, e esconder emoções era a pior delas. Seu rosto sempre era um livro aberto, e não havia nada que pudesse fazer para impedir isto. Ellyn ergueu as sobrancelhas, devorando a informação com um olhar severo sobre o irmão. Kilian prosseguiu a cantoria.

— Você não precisa ter ciúme de Asalan. – ela disse, baixo o suficiente para que apenas ele escutasse. Seu rosto estava levemente avermelhado, e Lorren se perguntou se ela estaria sendo sincera, ou apenas irônica. – Sempre será o meu irmão gêmeo. Nós dividimos um útero. Tem coisas que nem mesmo um príncipe bonitão e carismático pode quebrar.

Ela ergueu os olhos novamente para ele, desta vez com um sorriso pequeno e cheio de Ellyns que Lorren conhecia muito bem. O redemoinho atingiu novamente seu estômago, desta vez com entusiasmo e ansiedade. Os braços formigavam para abraçá-la. Mas ambos continuaram a cavalgar, lado a lado, até o fim da montanha.

{ ... }

Chutou-o na barriga, afundando a bota até fazê-lo vomitar a cerveja que havia bebido minutos antes. O gordo sangrava sobre o supercílio e tinha ao menos dois dentes quebrados. As calças estavam mijadas e a cabeça pendia inconsciente sobre o ombro. Alezabeth Greyjoy cuspiu em seu rosto, erguendo o punho sobre a cabeça e gritando em euforia para a tripulação. Todos os marinheiros ao seu redor gritaram em resposta, entoando seu nome como capitã da Maré Mansa. Enquanto isso, Pyke desaparecia por entre os picos de pedra e a neblina. Ela viu e se despediu silenciosamente do castelo e da cidade.

— Capitã, mije nele! – pediu Taz, agarrando a cabeça do bêbado e abrindo sua boca. Alezabeth não iria arriar as calças para mijar dentro da boca do gordo, mas abriu um sorriso e mostrou interesse, o que bastava aos homens.

O homem fora pego bebendo a reserva de sua tripulação. Ele não pertencia ao Maré Mansa, muito menos a Pyke. Era um dos soldados voluntários das Terras Fluviais que desejavam lutar por um Norte livre, onde pudessem recomeçar a vida como novos homens. Pena para ele, que havia entrado no navio errado. Alezabeth o espancou até que implorasse misericórdia. E deu a misericórdia com um certeiro soco no nariz. Ele morreria, logo os marinheiros se cansariam dele e o atirariam ao mar. Até lá, deixaria que eles se entretessem.

Abandonou o palco do crime e desfilou até o timão, onde seu navegador guiava o navio em direção ao norte. Atrás da embarcação vinham mais trinta navios de guerra, fortemente armados com homens, armas e canhões. Atacariam toda a costa simultaneamente em suas fortalezas com os canhões e tomariam o Norte desde a Mata dos Lobos até Winterfell. A vitória seria rápida e certeira. Sua tripulação encontraria as forças de Ornstein dali dois dias e Dustran invadiria pelas Terras Fluviais, sem pedir passagem pelas gêmeas. Eles eram Greyjoy. Sabiam atravessar rios. Seus homens não tinham medo da água.

— Capitã, as ondas estão mais resistentes do que o esperado, o vento sugere que as nuvens do oeste chegarão para as tempestades mais cedo. – informou o homem, sabendo que Alezabeth não se importava com os fatos que ele arrumasse. Iria até o final. – Que o deus afogado queira a nossa vitória, ou ela será mais sangrenta do que o necessário.

— Mas será uma vitória. – ela repetiu, pousando a mão sobre o timão. – Navegue com astúcia, siga as correntes e não deixe que o céu escuro assuste os homens. Eles precisam pensar que é apenas uma chuva passageira, um presságio do deus afogado de que está nos abençoando com suas lágrimas.

— Sim, capitã.

Ela continuou o percurso até seu gabinete particular. A porta entreaberta revelava as velas acesas no interior do aposento. A mesa com os mapas e papeis de assuntos oficiais espalhados e na cadeira uma garrafa vazia de rum. O menino lavava os cotovelos sobre uma bacia no chão próximo a cama. Seu rosto concentrado era muito formoso e seus traços delicados lembravam a uma donzela não florescida. Era louro, como as flores do sul, mas tinha um físico frágil e franzido. Alezabeth o tomou para si assim que o viu, pois o queria para aquele tipo de trabalho. Era mais fácil lidar assim. O menino a viu e se levantou, em silêncio, encarava o chão.

Passou por ele até a cama, sentou-se no colchão e deixou que o corpo caísse nos travesseiros. O menino correu até a porta e a fechou, colocando enfim privacidade para a sua capitã. Alezabeth o achou muito mais prestativo do que imaginara. Além de passivo, fraco e indefeso, Misha também era esperto e adivinhava tudo o que ela queria, sem que precisasse ao menos olhar para ele.

Fora uma ótima aquisição comprá-lo de Ornstein.

— Misha, preciso de uma massagem. – pediu, atirando as botas para o lado. Seus pés doíam muito após vinte e quatro horas em pé, diante do convés, encarando o horizonte para passar aos homens a certeza de que iam a um destino glorioso sem que sua capitã estivesse insegura ou amedrontada. Ela nunca estivera insegura ou amedrontada, em nenhuma das missões que o pai a enviava. Mesmo quando isso significava uma guerra com o Norte.

O menino tocou seu pé com cuidado, temendo que ela fosse chutá-lo. Mas Alezabeth não era assim, ela sabia apreciar os momentos de prazer. Como capitã, tinha de liderar um bando de homens parrudos e carrancudos, que tinham necessidades de bebida, comida e prostitutas de três em três meses. E quando se diz comida, bebida e prostitutas, são bebidas, comidas e prostitutas de boa qualidade. Às vezes uma “invasora” era pega dentro da cozinha, escondida entre caixas. Todos alegavam que ela teria vindo escondida por toda a viagem, mas Alezabeth sabia que eles a sequestravam para se saciar no mar. Ela mesma já chamara os mais toleráveis deles para se saciar. Mas agora que tinha Misha, não precisava se contentar com algun bruto fedorento e babão.

Exigiu que o rapaz tomasse banhos frequentes, que sua água fosse trocada e que não se esforçasse demais nas atividades de limpeza e arrumação de seu gabinete. Também exigiu que a mesa dos relatórios fosse o único lugar que não tocasse, e ele havia cumprido com excelência. Talvez por medo, talvez por dever. Ela nunca saberia julgar alguém que vinha do outro lado do mundo, onde Ornstein o havia recrutado.

— O que meu irmão viu em você? – perguntou, interrompendo a massagem que estava muito boa.

— Milady?

— Por que ele o tirou de... Braavos?

— Eu vim da Muralha, senhora.

Alezabeth colocou-se nos cotovelos, encarando-o com espanto. Poucas vezes se permitia demonstrar a emoção, mas estava realmente atordoada com a verdade. Misha abriu um sorriso torto e continuou a apertar de leve os seus dedos.

— O que um menino como você pode ter feito para ir a Muralha?

Misha ficou em silêncio, não querendo responder. Mas ela não era de aceitar facilmente as exigências dos outros e recolheu a perna, ajoelhando-se diante dele. Havia um punhal em seu cinto, uma espada na cabeceira da, e se Misha fosse esperto, teria encontrado correntes de espinhos debaixo da cama. Ela estava preparada para não ser pega desprevenida, e, afinal, era a capitã daquele navio. Seus homens morreriam por ela mesmo que ela já estivesse morta.

— Diga-me.

O louro encarava seus dedos, unhas roídas e enegrecidas. Por fim, respirou fundo e disse:

— Má conduta masculina.

— Como é que é? – Alezabeth ergueu uma sobrancelha, outra expressão que raramente fazia: indignação.

— Má conduta. – ele repetiu, agora os olhos marejados. Ela não sentiu compaixão, queria apenas ouvir a verdade. Misha mordeu o lábio. – Eu e meu primo... nós...

Ah. Alezabeth queria rir, mas pensou que seria indelicado demais. Até mesmo para uma Greyjoy. Suspirou, pois aquele motivo era muito ridículo. Mandar um jovem em pleno florescimento para a Muralha apenas por se divertir um pouco com o primo? Teria sido pior se houvesse estuprado alguma criança ou menina. Em alto mar, os homens não se sentiam intimidados se precisassem uns dos outros, afinal eram quase vinte marmanjos e uma capitã, que era muito seleta em seus relacionamentos íntimos.

— Venha. – ela afrouxou a calça e subiu a camisa, expondo os seios. – Vou fazê-lo um homem.

{ ... }

A Casa Tully estava arruinada. Completamente arruinada. Emmeline sabia disso apenas por olhar os guardas do castelo, encarando-a sem censura. Há dois dias sentia-se perdida, sem entender ao certo porque ia ao septo, porque colhia flores no bosque. E porque voltava a porta de Beata de uma em uma hora, na esperança de que ela fosse abri-la. Na esperança de que tudo fosse uma mentira. A assassina ainda estava lá, em Porto Real. Seria decapitada em praça pública quando o corpo do rei e do príncipe fossem finalmente para o funeral. Mas aquilo já havia levado dois dias inteiros e agora todos começavam a sentir o fedor da podridão junto dos incesensos que queimavam no salão do trono.

Emmeline daria tudo para matar a assassina com as próprias mãos.

Sua coroa havia escapado, e agora só podia contar com a ascenção de Beata e da amizade que as duas tinham. Ou a amizade que ela achava ter. Não saberia mais, se mesmo a Rainha não olhava em sua direção, porque todos os outros ministros olhariam? Ninguém se importava com uma Tully, todos achavam que a família já havia passado tempo demais na Corte e que deveria retornar à suas terras. Ou às terras que o rei os havia entregado antes de morrer. Garrarreal, ao sul de Porto Real, dividindo a Mata do Rei. Como Namond havia aceitado aquilo em troca de Correrrio? Agora o irmão estava arruinado, sem seu rei e seu príncipe para defendê-lo e apoiá-lo. Asalan o destruiria.

Enquanto seus passos ecoavam pelo pátio interno, a ruiva apertava os dedos convulsivamente, numa eterna angústia. Estava perdida. Todos estavam perdidos. A carta que enviaram a Anezka em Correrrio não obtivera resposta e ao Sul, o rei Rhomeo não enviara lamentações pela morte de Ayeres, o que subentendia satisfação pelo ocorrido.

— Emmeline Tully – a voz a arrancou de seus infortúnios, como uma mão que a retirasse de dentro de um rio de águas turvas. – Endireite estes ombros. Agora.

Coryna juntou-se a ela, seu belíssimo vestido negro combinando a cor vermelho fogo dos cabelos e a pele branca como leite. Ela era a própria figura da lamentação. Seus olhos estavam inchados, suas mãos seguravam um lenço. Ela passara toda a madrugada ao lado da Rainha Viúva, no septo, chorando e rezando.

— Todos têm comentado que está muito abalada com a morte do príncipe. – a cunhada disse, calmamente. As mulheres tinham maneiras características de lidar com as emoções na Corte.

— Acho que sim.

— É normal. Quando um príncipe morre. – a mulher suspirou – Um príncipe muito jovem. Que os deuses estejam conosco.

— Que os deuses estejam conosco. – repetiu a moça.

Continuaram a caminhada até o quarto onde Jennara e as meninas menores brincavam com papel e tinta. Um bobo tentava diverti-las, sem sucesso. Até mesmo as almas inocentes sentiam o peso pairando em Porto Real. O que aconteceria quando o rei fosse velado e o herdeiro nomeado? O mais óbvio era que a rainha governasse como regente até que Beata estivesse casada com o próximo rei. Isso significava que a dinastia Targaryen teria um fim. Com certeza não era o que os dragões queriam, e Beata não era tão desleixada a ponto de não se importar com a própria Casa. Ela apoiava Asalan e sua traição. Era provável que se casasse com ele apenas para dar continuidade à linhagem. E isso não seria um escândalo vindo dos Targaryen.

— Devemos fugir enquanto há tempo – sussurrou Coryna, fingindo arrumar os cachos de seu cabelo. – Um navio estará no porto para nos levar à Correrrio esta noite.

Emmeline continuou olhando as meninas brincando no chão. O bobo aparentemente havia perdido o interesse por diverti-las e se coçava em um canto.

— Namond? – perguntou, apenas uma respiração.

Coryna mordeu os lábios e Emmeline pôde ouvir o choro em sua respiração descompassada. Ela estava sendo forte, como uma mulher de sua idade deveria ser, com cinco filhos e um esposo Mão do Rei.

— Ele ficará. Para ajudar a regência da Rainha Polya.

Emmeline assentiu de leve e então abriu um sorriso torto, ajoelhando-se ao lado das sobrinhas. Deveriam torcer para que Anezka tivesse recebido suas cartas.

{ ... }

O mar sempre a enjoava, mas o deserto era ainda pior. Chegar a Dorne fora rápido, mas atravessar as dunas debaixo do sol escaldante e de uma noite fria eram quase a morte. Layse Baratheon perguntava-se se a prima passava por tantos infortúnios quanto ela. Não se hospedaria em um dos palácios dos dorneses, preferia morrer a prorrogar a viagem. Ponta Tempestade a aguardava. Os homens que contrarara para levarem-na até as Terras da Tempestade eram todos dorneses e falavam em um sotaque muito difícil de compreender. Suas armas também eram muito estranhas e eles viajavam numa velocidade impressionante, levando em consideração o ambiente. Seus pés pareciam não afundar na areia.

Mas Layse não se permitiu envolver com tais tipos, ela não queria se tornar amiga dos dorneses, nem mesmo conhecida. Eles não deveriam saber quem ela era, nem porquê queria chegar à Ponta Tempestade em menos de uma semana. Seria improvável, é claro, mas estabelecer objetivos impossíveis fazia os homens se surperarem.

Eles pararam para urinar ao menos cinco vezes desde que amanhecera. E ela havia permanecido imóvel em todas as ocasiões. Recusava-se a fazer aquilo na frente de selvagens. Poderia despertar alguma crueldade comum a eles e isso significava estar sozinha no deserto contra todos aqueles brutos primitivos. Layse não era burra.

Quando a liteira sobre o animal parou novamente, ela gemeu em frustração, observando o horizonte por trás das cortinas. Céu azul, Sol alto, areia. Dorne era detestável.

— A Irmandade Negra! – ouviu alguém gritar, longe. – Irmandade Negra!

Os dorneses exclamaram assustados. Layse não compreendeu o que aquilo significava, mas pôde ver mais de um deles desembanhar a espada e orar a seu deus. Por trás de uma duna de areia, pontos negros surgiram, cada vez mais próximos e mais notáveis. Homens, de pele tão escura que poderiam ser parte do céu noturno. Estavam encoouraçados com negro, brandiam armas negras e até mesmo suas línguas eram negras. A Irmandade Negra fazia juz a seu nome, e parecia sedenta por sangue.

As flechas abateram o animal e ela caiu, presa dentro da liteira. A carnificina acontecia, corpos, gritos, sangue. Tudo espirrava por cima dos tecidos e dos arames, fazendo Layse se contorcer a gritar, assustada. A confusão jogou areia em seus olhos e riu de sua aflição. Uma espada voou por cima de seu ouvido e mais sangue espirrou por seu cabelo.

Em minutos todos os gritos cessaram, restando apenas o animal, agonizando sobre sua perna. Ele foi morto com um rápido ataque, e ela novamente sentiu mais sangue banhar sua panturrilha. Alguém a tocou, apertando sua pele.

Não segurou o grito de pavor.

— Tirem da liteira.

Era uma ordem de liderança, que carregava toda a autoridade de um rei. O estômago de Layse se revoltou ainda mais, e quando o tecido se rasgou em frente a seu rosto, ela viu. Viu os negros que estraçalharam seus mercenários.

— É uma mulher. – o sorriso que ele abriu foi sádico, e ela soube que estava perdida para sempre. Todos ao redor gritaram, aplaudindo e rindo. Teriam diversão, não é mesmo? Uma recompensa a mais além do assassinato.

O líder agarrou-lhe os cabelos até a nuca e a ergueu, encarando seu rosto com análise crítica. Ele era negro como todos os outros, tinha olhos tão escuros que era impossível diferenciar a pupila de todo o resto, seu nariz era largo na ponta e enquanto respirava ofegante, Layse lembrou-se do focinho de um cão raivoso. Seus lábios grossos estavam cheios de cortes, alguns tão recentes que era possível ver a carne vermelha contrastando com a negridão da pele.

Um demônio. Eram demônios.

— Seu nome, mulher.

Ela não conseguiria responder, gaguejando talvez. Quem diria que ela iria perder o controle um dia. Layse Baratheon, a tal.

— Diga seu nome! Ou te darei a eles. – e apontou o resto do grupo.

— Baratheon. – conseguiu dizer, com a língua amortecida pelo medo.

— É nobre?

— Sim. De Ponta Tempestade, no leste.

— O que faz aqui? – e indicou o deserto com o queixo. Layse notou que conforme dava uma resposta, ele amolecia um pouco mais os dedos em sua nuca, então agarrou as rédeas de suas emoções e disse:

— Minha prima é Betyne Martell, e vim visitá-la. Se me levarem até ela, tenho certeza de que os recompensarão.

O negro riu.

— E o que ganharemos se não a levarmos?

— Então Dorne inteira correrá atrás de vocês para matá-los.

Novamente uma risada, agora de todo o grupo.

— Mulher. Nós somos Dorne inteira. Somos esse deserto, e você é a intrusa.

Layse continuou segurando as rédeas, mas sentia que logo as perderia.

— Mas o ouro pode valer a pena.

— O ouro pode. – concordou ele, erguendo os olhos para seus companheiros. Alguns deram sinais positivos com a cabeça, outros apenas bateram os ombros e viraram as costas. – Não somos maus. Somos a Irmandade Negra, escravos fugidos do outro mar. Se a menina é quem diz, então pode ajudar nossos irmãos a fugir também.

— Posso – ela concordou, mais ávida do que racional. – Posso sim.

— Jure, ou a mataremos agora mesmo. E foderemos seu cadáver.

— E-eu juro – enfim, enfim. Layse caiu no seu lago profundo, humilhada. – Eu juro pela Casa Baratheon. Por favor, eu juro.

— Ela jura – ele entoou, e seus companheiros gritaram em resposta. Uma resposta tribal. O negro a soltou, deixando que caísse de joelhos. – Jura pelo deus de todos os infernos. Se não cumprir o que jura, que sua alma seja condenada dez vezes ao fogo eterno.

E os trinta homens cuspiram sobre ela.

Notas finais
Sei que ficou meio parado, mas é porque um jogo de xadrez nunca tem muita emoção, até que você o vença ;) Beijos, meus queridos ♥