Notas iniciais
Boa leitura.

DIAS DE ESPERANÇA E GUERRA

Quando o último corvo deixou o sopé da montanha e voou de encontro ao primeiro cadáver, Poddrick dilacerou o seu quinto oponente. Selvagens com lanças, machados e adagas. Muitos apenas se atiravam, sem ter armas, para a luta. Com a espada de duas mãos, ele abria o caminho em direção ao primeiro Castelo Sentinela de Skagos. Seus homens aportaram já bem recebidos com flechas e gritos, mas se viraram bem ao pisar em terra. Ou melhor, em gelo. A ofensiva empurrava os selvagens de volta a seus buracos e cavernas, deixando seu senhor a alguns metros dos portões.

Poddrick viu as montanhas de Skagos e temeu que fossem uma dificuldade para seu exército, no entanto logo as geleiras se mostraram mais uma dificuldade aos próprios nativos, que tinham de fugir escalando a sua encosta, correndo muitas vezes de pés descalços. De repente ele ouviu o som de uma trombeta e todos os selvagens recuaram. Estavam indo embora, todos. O seu líder reconheceu a derrota e partiu. Assim que eles desapareceram por trás das montanhas, Poddrick ergueu o punho e gritou para os seus homens.

Eles receberam a glória da conquista de braços abertos.

— Você quer lutar? – um grito ecoou mais alto que qualquer trovoada. Poddrick acalmou seu cavalo e ergueu o rosto para o pico do castelo-vigia, de uma das torres mais altas, agachado sobre uma das gárgulas, um arqueiro encapuzado mirava-o sem sorrir. – É melhor que enfrente o líder do meu exército, ao invés dos camponeses.

— Mande-o aqui, agora, e vou decapitá-lo de uma só vez! – ele respondeu, fazendo seus homens rirem com o arqueiro audacioso. Era impossível acertar um disparo daquela distância, a flecha cairia por causa dos ventos fortes, antes mesmo de alcançar o ângulo certo.

— Isso é um desafio? – o arqueiro voltou a questionar, agora abrindo a boca num sorriso. Poddrick jurou ver um traço de feminilidade, mas não seria uma mulher.

— Sim! Eu o desafio para um duelo!

— E como as regras do Norte, o desafiado escolhe as armas. – o arqueiro se levantou, em pé na gárgula, onde não poderia se segurar em nada, nem manter o equilíbrio. Todos o encaravam, incrédulos com a coragem e a loucura. – E eu escolho o arco.

Num som tom, a corda se retesou e ele soltou a flecha. Ela assobiu pelo ar, tão rápida e furiosa que quebrou os flocos de neve e atravessou o osso que unia bochecha e têmpora. Poddrick caiu do cavalo sem reagir, seu sangue já o cegando e os homens gritando ordens para retornar aos navios.

E no alto a gárgula, com a capa balançando ao vento e os cabelos aquecendo-lhe as orelhas, a Lua sorriu.

{ . . . }

Layse caminhou para os braços de seu irmão, sentindo o tamanho da saudade esmagando seu rosto contra os cabelos castanhos dele. Ponta Tempestade inteira estava ali para recepcioná-la, ainda nas muralhas da fortaleza. Yann não era verdadeiramente a desculpa, mas estar em segurança. Soldados a rodeavam, lordes, senhores, cavaleiros. Todos juramentados aos Baratheon. Seu irmão enxugou as lágrimas de alegria e puxou-a para dentro das portas do primeiro castelo, já contando sobre tudo que havia aprendido de governo, espadas e nomes de seus vassalos. Layse não queria ouvi-lo, mas também não queria continuar perto dos negros, que aguardavam pacientemente pela sua parte do acordo.

Tinha de estar longe deles, em segurança extrema. Sentiu-se tão grata quando viu a guarda do Lorde que deixou Yann falar tudo o que queria, até chegar ao seu quarto.

— Vou fazer um baile para você, hoje!

— Hoje? Não é muito tarde para convidar todo mundo?

— Ah... – o menino franziu as sobrancelhas, decepcionado.

— Não quero um baile. Quero ir para a Campina. E também quero que o Lorde meu irmão esteja presente em meu casamento com Lorde Tyrell.

— Otto? – ele fez uma careta – Eu realmente não entendo você.

Mas, sem mais perguntas, ele virou as costas e deu-lhe adeus.

Há meses Layse não via seu quarto, mas assim que entrou sentiu-se em casa. A cama estava no mesmo lugar, seus vestidos já dispostos sobre o baú, uma banheira preparada com água quente e a criada que a vestia desde bebê. Elas se acomodaram e em poucos minutos já sentia as tensões da viagem desaparecendo. Ponta Tempestade era o local mais perturbador de Westeros, com suas tempestades e furacões, mas para ela era o lugar mais acolhedor. Nem mesmo a Campina seria um lar tão aconchegante quando ali.

Assim que se vestiu com as cores de sua Casa e escovou os cabelos pela primeira vez em uma semana, Layse Baratheon saiu de seu quarto e percorreu todos os corredores até o gabinete do Chefe da Guarda do Lorde, Sor Yllien Tarth lia cartas e as respondia. O homem estava na chefia da guarda desde que Layse era uma garota e viu-a crescer como se fosse um pai. Tinha já os cabelos grisalhos e não era tão habilidoso com a espada. Mas os outros o respeitavam e Sor Yllien nunca falhou quando era preciso. Layse teve de suprimir outra euforia em seu peito, a sensação de segurança transbordava em todo o seu ser.

— Sor Yllien. – ela entrou, sorrindo ao velho. Ele ergueu seus cansados olhos e sorriu de volta. – É bondade dos deuses me permitirem rever o senhor. Tive tanto medo de não conseguir...

— Esses ossos ainda demorarão muito para se deitar, Lady Layse. Não se preocupe.

— Preciso de sua ajuda para resolver um problema.

— Tudo o que for necessário, milady.

Layse uniu as mãos na frente do corpo e fingiu estar amendrontada com o que iria pedir. O velho se levantou e caminhou até ela, colocando as mãos em seus cotovelos.

— Não tema, filha, peça o que for preciso.

— Os homens que me raptaram trouxeram-me aqui pois jurei que os ajudaria, mas... O que eles pedem é impossível. Não quero quebrar meu juramento, seria desonroso...

— Compreendo – Sor Yllien assentiu. – Cuidarei deles para ti. Não te preocupa mais, criança.

— Estou tão agradecida, Sor! – ela beijou-o duas vezes na bochecha e então se afastou em direção a porta, como se estivesse constrangida por estar ali.

— Tudo por minha lady preferida – ele acenou antes que fechasse a porta.

Layse agradeceu aos deuses por não precisar dizer mais que aquilo ao velho. Desde que ele fizesse o que era preciso, tudo acabaria bem. E ninguém nunca saberia o que realmente aconteceu.

{ . . . }

O cavaleiro retornou à tenda de Lorde Lannister em meia hora. Seu estandarte estava voltado para o oeste, o que significava que o Nightingale não havia aceitado as condições de duelo de Lorren. A batalha estava declarada. Arqueiros já se posicionavam nas ameias da muralha da fortaleza e o Rochedo ganhava os brasões roxos das parreiras do Nightingale. Lorren estendeu o punho para que seu escudeiro apertasse as manoplas e afivelou o cinto da espada na cintura. Seu pai o observava com o canto dos olhos, antes que o cavaleiro anunciasse as más notícias. Lorde Lefford se levantou e abraçou o filho.

— Heigh Nightingale recusou o duelo.

O Leão pediu a todos que se acalmassem e, da forma que nunca fora capaz de fazer, incentivou cada cavaleiro e cada capitão de guarda a guiar seus homens sabiamente. Sem grandes perdas ou grandes riscos. Sendo cautelosos antes que o primeiro sinal fosse dado e ainda mais cautelosos após o início da batalha. Os portões da fortaleza se abriram para permitir que o exército de Lorde Nightingale saísse e formasse colunas de três grupos, todos bem armados e com os brasões da Casa. Seus cavaleiros vinham atrás, ao menos trezentos. Em comparação ao seu lado, que possuía trezendos homens de Lannisporto, duzentos da Campina e cem cavaleiros dispostos a lutar.

Os arqueiros das ameias matariam a primeira onda de soldados e os cavaleiros limpariam aqueles que se perdessem do grupo, mas a principalm investia viria da vanguarda, com ele, Rolland, Kilian e mais um punhado de ótimos combatentes, como o filho de Lorde Lefford. Esse grupo menor entraria no Rochedo pelas muralhas e abriria os portões novamente, para que seus homens pudessem empurrar os Nightingale para dentro da fortaleza e encurralá-los, até que seu Lorde assumisse a derrota ou não restasse mais nenhum estandarte erguido.

A estratégia era dele, mas não deixava de ter alguns dedos de Ellyn e Otto Tyrell. A manhã fora uma viagem ansiosa onde nenhum dos três conseguia parar de pensar naquilo que fariam. A tenda se esvaziava conforme os cavaleiros iam em direção a seus escudeiros e seus próprios acampamentos. Os brasões Clifton, Westerling, Prester e tantos outros das Terras Ocidentais que apoiavam o retorno dos Lannister e a desanexação com o Reino Valois, oscilando ao vento e revelando a sua traição. Eram homens e famílias inteiras corajosas, honrados em seus princípios e dispostos a morrer pela causa. Lorren não permitiria que nenhuma morte passasse despercebida e que nenhum sacrifício fosse inferiorizado.

— Prepare os grupos para começar o ataque quando o primeiro corvo voar. – instruía seu pai, um homem que nunca ergueu a espada ou fora obedecido, em frente a uma mesa com mapas e peças de madeira pintadas de vermelho e roxo, simbolizando ambos os exércitos. Eles viram o resto dos comandantes saírem e então, sozinhos, abraçaram-se como somente um pai que envia seu filho à batalha pode abraçar. – Um verdadeiro líder inspira seus homens no campo. Deixe que o veja ser ferido, mas também deixe que o vejam levantar. Os melhores são aqueles que caem e se erguem.

— Pai, eu vou dar o Rochedo para você – Lorren jurou diante dos deuses que faria de seu sangue uma ponte para aquela fortaleza. – Irão ouvir-nos rugir hoje.

— Eu sei que irão.

Lorren assentiu e, antes que começasse a dar espaço a seus sentimentos mais sombrios, deixou a tenda e caminhou adiante dos soldados. Eles paravam para olhá-lo, andando como o herdeiro de um lorde, com uma capa vermelha presa entre os ombros e o elmo de leão debaixo do braço. Lorren subiu em sua sela, seu alasão era ouro-palha, pintado para parecer-se com o leão dos brasões Lannister. A armadura esquentava debaixo do sol e do céu limpo, mas nada ofuscaria a sua empolgação com aquele momento. As colunas de homens eram montadas conforme a sua destreza com as armas e haviam treinado muito para aquele momento. Nenhuma das espadas era empunhada por um camponês, mesmo o primeiro das fileiras sabia com o que lidava.

Ele passou por entre a segunda e a terceira coluna, parando em frente aos grupos. Do outro lado do campo, logo abaixo ao Rochedo, o exército inimigo se avolumava. Voltou-se para as fileiras e passou em frente a cada uma delas, olhando os soldados nos olhos, encarando o seu medo e a sua excitação, acompanhando-os naquela dança inflamada de seus sentimentos. Poucos sabem o que se passa no peito de um soldado raso diante de uma frente inimiga, mas aqueles que sabem também sabem incentivá-los a dar tudo de si, ignorando o medo e a dor.

— Hoje, homens, hoje! Rochedo Casterly será nossa hoje! — gritou com a espada erguida e eles o seguiram no ato, uivando e assobiando. – Que os deuses estejam com vocês. – ele murmurou enfim e voltou para seu grupo, na vanguarda.

Ao seu lado estava Lan Lefford, o menino já vestia o elmo e encarava fixamente seus inimigos. Lorren gostaria de acalma-lo, mas nada que dissesse tornaria aquela espera menos esmagadora, então colocou seu elmo e se posicionou com o cavalo. O pai soltaria o corvo para o comando de ataque, mas quantos minutos ou horas levaria até que ele decisse ser o momento ideal? As guerras muitas vezes são vencidas nesses pontos importantes.

No Rochedo, uma ordem foi gritada, mas pouco entendia daquela distância. Os arqueiros ergueram seus arcos e soltaram as flechas. Elas assobiaram e caíram no meio do campo. Lorren venceu a sua batalha naquele instante.

— Dividam as colunas na horizontal! Separem os homens em ondas!

Seus capitães e guardas não compreenderam os primeiros gritos, mas logo Rolland e Kilian o ajudaram, cavalgando por entre as fileiras e reorganizando-os em seções retangulares. Lorde Nightingale não desceria de sua fortaleza para lutar na frente de seu exército e provavelmente não estava dando as ordens das ameias da muralha. Seria estupidez ou apenas sorte? Ele nunca saberia. Mas assim que o corvo voou por cima dos homens, eles ergueram seus punhos e saíram para correr em uma faixa extensa. Os arqueiros retesaram os arcos novamente e soltaram as flechas, porém elas caíram a frente do grupo. A segunda saraivada caiu após o grupo.

Os intervalos eram contados conforme Lorren via os comandos do mestre arqueiro. A segunda coluna correu de encontro a batalha sem sofrer danos, novamente. Seus homens já empurravam os inimigos para mais perto das muralhas, isso dificultaria os arqueiros de mirarem, mas facilitaria seu trabalho de acertar aleatoriamente. Lorren ordenou a terceira coluna e a quarta. Restando apenas a vanguarda, programada.

Os arqueiros se dedicaram a atirar em quem estivesse no solo, logo abaixo das muralhas. A chance de que acertassem um aliado era alta e Lorren contava com isso para o sucesso da investida. Os cavaleiros moveram-se com o primeiro passo de seu alasão. Estavam em uma nuvem de patas e espadas, gritando e impondo medo. O inimigo não esperava tantas ondas diferentes de soldados e agora imaginavam ser mais de mil, com certeza. Ele podia ver em seus olhos o medo de ser sufocado. A vanguarda atravessou o campo e atracou-se com os primeiros cavaleiros. Rolland derrubou um homem velho, Kilian mirava os cavalos e defendia-lhe a lateral, enquanto seguiam cada vez mais próximos dos portões.

Lorde Nightingale nunca imaginou que sua fortaleza seria atacada um dia após o casamento de seu rei. Como grande amigo de vossa majestade, estava festejando nos salões de Jardim Suspenso. Seu filho mais velho cuidava da fortaleza, mais dedicado a brincar com escudeiros que a protegê-la. Quando Lorren viu aquele descaso, sentiu raiva. Seus ancestrais nunca foram derrotados dentro daquelas muralhas. Nenhum Rei do Rochedo caiu por invasões ou batalhas. Rochedo Casterly era impenetrável, era a maior fortaleza de todo Westeros.

Desferiu golpes em cavaleiros que se colocavam a frente, nenhum deles parecia pronto para uma batalha. Eram gordos, lentos e velhos demais. Enquanto seu grupo de jovens rapazes galantes invadia o pátio de Rochedo Casterly, do lado de fora seus capitães reajuntavam as colunas e partiam em ofensivas em conjunto sobre as laterais, flanqueando-os e obrigando-os a recuar cada vez mais. Lorren saltou de seu cavalo e correu para as escadas do pátio.

Não conhecia aquele lugar. Nunca sonhou em ver como Rochedo Casterly era por dentro. Mas o pátio com certeza não fora construído para uma batalha, possuía escadas demais, desníveis demais e nenhum local seguro para arqueiros. Era uma fortaleza feita para nunca, nunca ser invadida. Ele matou ao menos cinco guardas antes de alcançar as escadas da muralha, e matou mais três junto de seu grupo. Na frente de todos, ele mostrava sua habilidade de leão, ceifando a vida dos pobres homens que se aventurassem no caminho. As ameias estavam cheias de arqueiros e nenhum deles esperava por ter de enfrentar trinta cavaleiros armados e revestidos de armadura pesada.

Lorren enfretou-se junto do meste arqueiro, era o único que carregava uma espada já em mãos. Ele aparou o primeiro golpe e forçou-o a recuar no segundo. A força do mestre era excepcional aos braços de um arqueiro, mas a destreza que tinha com a espada não era páreo para Lorren. Eles dançavam no espaço da muralha, oscilando entre uma ameia e outra. A espada de Lorren sibilava no ar e nenhum de seus golpes era desperdiçado, mesmo quando não atingia o alvo. Seu braço conseguia contornar o ar ao seu redor como se fosse uma extensão do meio e a lâmina atingia o mestre arqueiro com intervalos cada vez menores. Até que ele não pudesse mais se defender e o fio da espada ferisse-o no peito. Ele perdeu o equilíbrio e caiu para fora da muralha.

Kilian empurrava os arqueiros que ainda miravam nos soldados do chão. Ele os agarrava pelas roupas e o atirava de cima da muralha, sem dar-lhes tempo de uma última prece. Rolland e o resto do grupo limpavam as almas vivas do mundo e encheram a muralha de corpos. No solo, o exército do lorde estava quase todo para dentro dos portões, agora os quinhentos homens reduzidos a trezentos e os trezentos cavaleiros reduzidos a cinquenta.

Do lado de fora, seus homens empurraram o último inimigo e então puxaram os portões para baixo e os trancaram lá dentro. Sem compreender o que se passava, soldados e cavaleiros entreolhavam-se e chamavam por seu Lorde, escondido no coração da fortaleza. Lorren abaixou-se e pegou um dos arcos no chão, enxarcado de sangue e pegajoso. Seus trinta cavaleiros fizeram o mesmo e, seguindo o código de honra de um beija-flor, soltaram as flechas.

Não havia como fugir, as escadas e o pátio dificultavam a corrida e grande parte dos soldados já estava ferido. Eles abaixaram-se e começaram a se proteger com os braços. A cena era doentia, mas Lorren não podia parar a batalha agora. Eles só parariam quando alguém assumisse a derrota ou o último homem do exército inimigo fosse morto.

Os portões foram abertos novamente e seus homens entraram cuidadosamente. Não se importavam em matar aqueles que agonizavam no pátio, procuravam por sinais de que o Rochedo fosse deles. Lentamente as fileiras invadiram cada corredor, Lorren esperava no alto das muralhas. Seu rosto estava indecifrável e seus olhos fitos nos corpos ensanguentados do chão. Após cinco minutos, um dos grupos retornou segurando o jovem lorde Nightingale, a quem Lorren enfrentara muitas vezes e deixara vencer, apenas para agradá-lo. Ele olhava para todos os lados, surpreso com a carnificina e com todos aqueles soldados dentro de sua fortaleza. Colocaram-no em pé no meio do pátio, de frente para a muralha que Lorren estava.

O silêncio se fez fúnebre.

— Marvin da Casa Nightingale, você assume a derrota para mim, Lorren da Casa Lannister?

O garoto ergueu seus olhos chorosos e assustados, então o assombro o acometeu quando reconheceu o rosto de Lorren e seu corpo se contorceu inteiro. Estava lutando para se livrar dos guardas.

— Nunca! – ele gritou – Nunca, eu sou o lorde desta fortaleza! Eu sou o seu suserano e você é um gato de Lannisporto, volte para a sua laia! – Marvin tentou se soltar com tanta força que Lorren deu a ordem para que o fizessem. Nunca fora o melhor arqueiro, mas para isso ele tinha Kilian.

— Pois então eu reinvindico a vitória.

Kilian tensionou o arco e mirou cuidadosamente a flecha entre os olhos do rapaz. Com o sinal de Lorren, a flecha assobiou no ar e se cravou no local desejado. Haviam conquistado Rochedo Casterly.

{ . . . }

Nayra enrolou os ombros com sua capa de pele de lobo gigante e olhou para a Muralha, medindo-a com toda a força da imaginação. Era uma construção impressionante, inquebrável, intranspassável. Ela arranjaria alguma forma de levar seus selvagens ao ouro lado, junto dos gigantes e dos trocapeles. Mas, no momento, o navio apenas deslizava pelas fronteiras, a grossura da Muralha era tão majestoda quanto seu comprimento. O navio não possuía brasões. As Casas de Skagos não precisavam anunciar a sua chegada, nem avisar os seus inimigos de que estavam ali. Os dez homens escondidos por trás dos barris e debaixo dos panos estavam silenciosos como fantasmas. O corpo do Stark, envolto em uma mortalha comum, já cheirava a podridão.

O navio deslizou até o porto de Baía das Focas. O vilarejo continuavam calmamente a sua vida, muitos dos pescadores recolhiam as redes e garotos brincavam no caís, entre as tábuas quebradas da ponte. Nayra Stane desceu de sua embarcação calmamente, ela levava apenas uma mochila presa a seu cinto debaixo da capa de pele e uma faca para o caso de ser reconhecida. Uma probabilidade mínima. Aproximou-se de um dos pescadores, já puxando a mochila da cintura.

— Bom dia, senhores – falou com o sotaque de Skagos e eles se entreolharam curiosos. – Estou com o barco do meu capitão, ele vem de Vilavelha com algumas coisas para a Patrulha da Noite. Sabem de algum porto próximo?

— Além deste? – o pescador mais alto respondeu, sem jeito. – Pegue as coisas e leve pela Estrada. É a única forma de alcançar a Muralha.

— Qual castelo devemos encontrar primeiro? – escorregou um pouco nas palavras, mas ele acabou por entender.

— Atalaialeste, acho. Tem um homem que recebe os mercadores, não te preocupa.

Agradeceu e retornou ao navio, já pesando como chegaria até a Muralha sem levantar tanta curiosidade. Talvez fosse melhor aportar no mar, usar os botes para remar até a costa e percorrer a floresta até o primeiro castelo-vigia. Seriam essas as ordens dadas ao navegador, adiantou-se já na gabine e deu suas orientações.

A Patrulha da Noite tinha mil homens, desde a última vez que receberam notícias deles. Os selvagens juravam que este número ia diminuindo a cada dia. Nayra não se importava em lutar contra os mil de uma vez, mas a Muralha tinha defesas próprias. Mesmo em menor número, os homens da patrulha teriam uma vantagem gigantesca contra eles. As únicas formas de conseguir chegar até a Muralha e atacar diretamente os corvos, era escalando ou forçando a passagem pelas entradas inteiras, que, mesmo assim, ainda poderiam ser entulhadas de gelo. Uma vez dentro daquelas passagens, ninguém saberia o que encontrar no final do corredor. E a entrada era limitada, tinham quase dez mil homens, somente na grande ilha de Skagos, sem contar os homens das demais ilhas e os selvagens Além-da-Muralha.

No mínimo quinze mil.

Nayra tocou sua marca de nascença no pulso esquerdo. Ela se tornaria Rainha da Muralha, era a sua profecia, dada há muitos anos pela Lua. Nada e ninguém tiraria aquilo de seu destino.

Notas finais
Logo vou tratar dos Tully! Beijos da Mell.