Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
42 Dias de Esperança e Luta
Notas iniciais
Dias de Esperança e Luta
Nos ventos matutinos que afligiam o convés, o forte cheiro de enxofre e sangue se misturava aos gritos amortecidos de homens feridos, mulheres violadas, crianças sem mães. A costa do Penhasco da Pederneira parecia banhar-se em vermelho, não havia uma casa que não ardesse em chamas ou um templo não destruída, pedra por pedra. Mesmo a fé nos Sete, mais comum naquela região oeste do Norte, passava a salvo dos homens afogados. Lysa via a tudo de seu canto, segurando uma corda enquanto o marujo no alto do mastro dava um nó sobre a vela, permitindo que fossem a um ritmo mais lento, mesmo com o vento forte.
O capitão orientara para passar muito próximo da costa, sem fazer anúncios ou alarde, apenas passar e continuar o trajeto em direção às Terras Ocidentais. O trajeto de Essos até Westeros era cansativo, porém Essos parecia uma terra muito mais acolhedora em relação ao lar de todos aqueles piratas. O capitão era das Terras Ocidentais, porém a maioria ali pertencia às Ilhas de Ferro e ela mesma vinha de Vaufreixo. Quando aportassem em Lannisporto, a próxima incubência do capitão seria destruir o navio e espalhar-se pela terra. Cada um a própria sorte, enfim libertos da vida de acaso e destino.
Mas Lysa não queria voltar para Vaufreixo, muito menos abandonar o acaso. A Companhia ainda estaria unida, ela e seus dez irmãos, novamente nos vales e estradas de Westeros, em busca de bolsas de ouro e tavernas baratas. Não se fazia nenhuma fortuna roubando dos pobres, mas era melhor que se acomodar em um prostíbulo e vender-se ao primeiro homem que oferecer uma moeda. Só de pensar nisso, Lysa estremecia.
Puxou a capa para cima dos cabelos louros novamente, grata pelo tecido ser escuro e longo o suficiente para cobrir seu rosto. Diziam que ela era a mulher mais bela que já havia pisado naquele navio. E isso tinha, sim, as suas desvantagens. As roupas eram emprestadas dos irmãos da Companhia, roupas de homens. Se uma moça não está em um vestido apropriado, então não é bem vista em terra. Mas moças de vestido em alto-mar são um pedido ao coração frágil dos navegantes. Lysa não gostava de ser uma mulher por causa de sua altura e de sua força. Porém, pior que ser uma mulher, era ser uma bastarda. Em terras distantes, o nascimento ilegítimo era uma prova de amor verdadeiro, pois as mulheres podem abortas livremente com ervas muito seguras. Prostitutas não geram, amantes não correm este risco. Mas em Westeros, onde tudo é difícil, Lysa tem de carregar os olhares desdenhosos. Até mesmo dos irmãos.
Sentiu uma mão acariciar sua nadega sobre o calção de pano puído. Somente uma pessoa a acariciava dessa forma, embora não por consentimento. Os demais piratas obedeciam às ordens de seu capitão e estupros eram terminantemente proibidos. No entanto, os irmãos da Companhia a conheciam há mais tempo e não nutriam tanta obediência ao tal capitão.
— Você está ficando muito gostosa, Lysa – Loran sussurrou em seu ouvido, aproveitando para se escorar em suas costas. – O seu traseiro está se destacando.
Vivendo de migalhas em Westeros, ela era magra e desnutrida. Porém Essos fora um caminho mais fácil e mais satisfatório. Ganhara peso, seus braços já estavam fortes e a cintura alargara consideravelmente. Mas isso não era um convite, com certeza não era. Permaneceu imóvel, olhando para os portos incendiados e os barcos pescadores destruídos na praia.
— Devia abrir logo as pernas pro seu Loran aqui – ele beijou-a no pescoço e por instinto ela recuou, ruborizada e muito envergonhada. Mais do que odiar ele, odiava a si mesma por permitir aquele tratamento.
— E você devia tomar cuidado com o que faz, Loran. Se o capitão souber, mandará que ande sobre a prancha.
A risada de Loran era fanha e reprimida. Cheia de sarcasmo ácido.
— Aquele paspalho não fará nada. Você é da Companhia.
Bem, duvidava disso. Na última noite, fora convocada para uma reunião particular com o “capitão”. Ele era um homem que aparentava muita crueldade, porém sua voz era macia e ele tinha olhos calorosos. Poderia ser um cantor, se quisesse, qualquer donzela se entregaria com facilidade diante de um cavaleiro tão alto, forte e romântico. Mas Lysa não era uma donzela. Ela era uma bastarda, expulsa de sua cidade pelo próprio pai aos cinco anos de idade, mandada para viver de roubos, assassinatos e o que mais a Companhia conseguisse. Quando foram obrigados a fugir do Norte, subiram a bordo de Vingança Púrpura, até então viajando para todos os cantos do mundo.
No gabinete do capitão havia dezenas de velas, mapas e cadeiras. Provavelmente seus conselheiros estavam ali, mais cedo. Mas agora, com apenas eles e a cama ao lado da mesa de reuniões, ela começou a levar aquela convocação para o pior lado. O homem que havia salvado sua pele dos demais marujos agora a queria? Talvez a abstinência o levasse a fazer coisas assim. Ela mesma faria algo tão cruel para se sentir melhor. Não aprendeu a atirar flechas e facas por diversão.
O capitão, com a imponência de um lorde e a beleza de um serafim, encostou-se a mesa e serviu dois copos de vinho. De seu estoque particular. Lysa cruzou as pernas involuntariamente e assim que o homem percebeu, riu fraco, estendendo o copo no ar para que ela bebesse.
— Creio que não nos conhecemos apropriadamente, senhorita.
— Não, capitão.
— Pois bem, era preciso que assim fosse. – ele bebeu um longe gole e se sentou. Lysa então notou que seu gibão estava levemente aberto e mostrava os ralos pelos do peito. Seu coração batia forte no peito.
Por anos conseguiu proteger sua virgindade dos bandidos e foras-da-lei, somente para ser usada por um pirata em seu próprio navio? Mesmo que ele fosse terrivelmente atraente, ela não sentia qualquer vontade de... entregar. Na verdade desejava nunca fazer isso com ninguém, pois vira coisas que apenas crianças conseguem gravar com tanta intensidade e emoção. Cenas que ela deveria esquecer, para seu próprio bem.
Mas não havia como.
— Não vou mais enrolar com o que devo dizer. Estou abandonando a pirataria e as viagens pois tenho um dever com minha família, nas Terras Ocidentais. Agora eles precisam de mim e por isso, eu devo voltar. – o capitão dizia muito aquilo que “devia” fazer, como se o dever fosse algo muito sério e importante em seus valores. – A maioria dos meus homens tem dinheiro suficiente para comprar seu próprio navio, os seus irmãos irão aportar e continuar a vida fácil pelas trilhas e aldeias mais afastadas, porém uma menina da sua idade não teria a mesma vida fácil, assim imagino.
Ele estava falando sobre Loran e os demais meninos. A Companhia a adotou quando ainda era uma criança, mas os últimos três anos dentro do Vingança Púrpura a fizeram mudar. Agora ela os via como realmente eram: meninos bobos, em sua maioria burros e também violentos. Eles eram a sua salvação, aquilo que chamava de heróis. Agora, como uma mulher, só conseguia ter vergonha de fazer parte daquela irmandade. Mas o que deveria fazer? Eles a protegiam, a alimentavam. Ensinaram-na tudo o que sabia sobre caça e roubo. Livrar-se deles seria difícil. E se livrar de Loran, mais difícil ainda.
Os últimos três anos também a mudaram fisicamente. Pintara os cabelos castanhos com o louro escuro que apenas tintura de Essos conseguia fazer. Vestira-se com cetim, seda e outros tecidos leves que revelavam muito sobre seu corpo. Aprendera a dançar com a cintura e a massagear ferimentos internos que poderiam revitalizar e sarar até mesmo doenças emocionais. Viu muita beleza em Essos, mas também sentira a beleza em si mesma e agora se envergonhava de ter provado tal fruto. Se tivesse permanecido silenciosa e invisível, talvez agora ninguém reparasse em sua existência.
— Sou um homem de princípios e o maior de todos que meu pai me ensinou, há muitos anos, é que devemos proteger e cuidar das mulheres. Fui criado para ser um cavalheiro, não me entenda mal, senhorita.
— Pode me chamar de Lysa.
— Lysa – ele riu, de repente mais à vontade. – É um nome muito comum nas Terras Ocidentais, e na Campina e nas Terras Fluviais. Você é de onde?
— Vaufreixo. – as respostas monossilábicas evidenciavam seu nervosismo.
— Já estive em Vaufreixo. – ele comentou, como se fosse algo muito interessante. – Você pretende voltar para lá, Lysa?
— Não. – voltar para casa? Não havia casa. Não havia família ou trabalho lá. Talvez até mesmo a reconhecessem como uma bastarda. Ao menos no mar conquistara uma reputação.
— Então ficará com os irmãos?
— Sim. – “eu acho”, mas não abriu a boca para completar.
— Ótimo – o capitão sorriu, mas não era um sorriso amigável. Parecia planejado e muito controlado. – Em Lannisporto precisarei de alguns companheiros para a missão em nome da minha família. Isso renderá lucro, é claro. Meus homens mais confiáveis já foram escolhidos, porém o último lugar não foi preenchido, ainda. Os demais não estão interessados, então estou passando a oportunidade a você, caso desejar me acompanhar, será bemvinda.
E, é claro, ela aceitou.
Loran ainda farejava seu pescoço, quando alguém o atirou longe, derrubando barris de mantimentos. Era um dos guerreiros mais habilidosos do capitão, ele tinha diversas tatuagens e seguiria missão junto dela em Lannisporto. Descobriu que seu nome, desafortunadamente, era Brandon. Todos os chamavam de Brandie e ele detestava aquilo. Certa noite, Loran confessou ter medo de Brandon.
Novamente ela estava feliz pela escolha que fizera.
— Está incomodando a moça, rapaz.
— Ela é minha irmã. – Loran resmungou, embora estivesse dolorosamente espatifado no convés. Os demais piratas riam. – Você está dizendo isso porque não gosta do que ela tem. Você prefere isso aqui – e então apalpou o próprio calção, fazendo menção à virilha. Brandon tinha o nome de um bebê camponês nortenho, mas o temperamento de um homem de ferro barbado. Agarrou Loran pela caminha e simplesmente atirou-o ao mar.
Enquanto a embarcação prosseguia com o vento fustigante, Loran se debatia, tentando subir o casco e gritando ofensas. As risadas eram ensurdecedoras e ocultaram toda a raiva do irmão da Companhia. Lysa encarou-o até que ele desistisse e começasse a nadar para a costa dos Penhascos de Pederneira. Estava exultante de felicidade e quando Brandon colocou a mão em seu ombro, ergueu o rosto para o pirata e sorriu. Ele indicou a cabeça para o timão e ela seguiu seu olhar, encontrando o capitão de braços cruzados e um sorriso contido brincando nos lábios.
Ela quase podia escutar. “Essas são as vantagens de andar comigo, senhorita”.
{ . . . }
Lucien Arryn, o Sangrento, Senhor de Ninho da Águia, Lorde Protetor do Leste de Westeros e maior comerciante de todos os reinos. Não havia dote que o homem não pudesse pagar para sua irmã ou para seu irmão, no entanto preferira entregá-la gratuitamente ao rei passarinho, ao contrário de negociar uma aliança mais vantajosa a curto prazo. Seu irmão, também, parecia prestes a noivar com uma donzela de Ninho da Águia, apenas para agradar aos senhores e clãs. Lucien parecia querer tudo sob seu controle e orquestrar muito o futuro de sua Casa. Mas de nada adiantaria se não fizesse herdeiros.
Ele dava arrepios todas as vezes que olhava para ela. Sentia-se boba e ao mesmo tempo indefesa. Embora a proteção de Rhomeo a intitulasse convidada real, ainda podia ver os guardas no corredor e os modos mais frios que todos tinham em relação a seus desejos. Seus banhos eram frios demais, quando as criadas não o arrumavam uma hora depois de ter pedido. Elas também demoravam a trocar o lençol da cama e ninguém a ajudava a vestir-se, de modo que passava a maior parte do tempo no quarto, vestida em grandes camisolas de dormir e com os olhos pesados por causa dos pesadelos. Lembrava-se das terras além mar, onde encontrara tantas coisas fantásticas e as perdera por descuido. Jurou a si mesma que, quando encontrasse novamente a beleza do mundo, agarraria com todas as forças e nunca a soltaria.
Agora era apenas uma gata vira-lata, presa em um palácio cheio de pessoas alegres e falsas demais. Elric era mais um dessas cartas, tão galante e mesquinho que lhe dava pena em vê-lo ali. Teria sido um grande cavaleiro, não fosse as circunstâncias. Mas sem lamentações. O casamento do rei aconteceu em uma noite muito clara, todos os cantos estavam cheios de velas e pássaros presos em cordinhas brancas tentavam fugir para o ar, dando uma ótima distração aos senhores e senhoras. O Rei caminhava pelo salão com seu elegante traje de noivo e sua nova Rainha deslizava entre os olhares e apertos de mão de todos que a veneravam. Catherine saiu do quarto pois as criadas a obrigaram a vestir as roupas de festa, mas não queria continuar ali.
Elric e seu irmão assustador estavam bem ao lado do novo casal feliz de Jardim Suspenso e ambos pareciam divertir-se, sem se importar com qualquer revolta, rebelião ou possível traição. Até mesmo os guardas descansavam e bebiam. Todos ali precisavam daquela diversão, ao menos em uma noite. A tensão fora grande até a realização da cerimônia. Mas o que poderia dar errado depois dos votos?
Já no mais tardar da noite, empurraram os noivos para seu quarto de núpcias e no salão restaram os menos festivos, os menos bêbados, as viúvas e donzelas invejosas que se recusavam a desejar feliz casamento à Rainha Syerra. Catherine simplesmente não queria estar ali e continuou sentada a mesa, olhano para seu prato quase intocado desde a terceira carne do cardápio. Os cozinheiros haviam caprichado na refeição, o banquete era digno de muitos e muitos dias para as famílias pobres de Lannisporto.
Lannisporto. Sua terra. Onde os Lannister moravam e eram amados. Em apenas um lugar do mundo fora feliz, inconstantemente, mas feliz. Quando ainda fazia parte de sua família e não era detestada pelos próprios irmãos. “Manchar o nosso nome é pior que ser uma feiticeira!” gritara Ellyn quando aportou novamente em Westeros, após toda a confusão.
Sujar a reputação já decadente dos Lannister era algo inadmissível.
Agora eles estavam lá fora, conquistando a sua honra, restaurando a Casa. E a prisioneira na torre dos Valois não era importante o suficiente para valer o resgate. Provavelmente não sabiam que ela estava lá. A viagem fora silenciosa, há anos não via o pai, nem Lorren ou Kilian. Dorian! O seu primo mais amado! Ele era um doce, sempre tão atencioso e gentil. Mesmo que todos o considerassem estranho, Catherine o amava por ser tão honesto e inteligente. Ele a entendia, amava conhecer o mundo como ela. A viagem de volta para Westeros fora feito em seu navio, Vingança Púrpura, e nenhuma menção ao que havia acontecido com ela fora feita. Conversaram sobre tudo. Sobre as estrelas e as correntes no mar, sobre nós de pirata e lugares que ela ainda não tinha visto, mas o primo já.
Ele dera uma volta ao mundo. Sentia-se pequena perto dele, mas também aconchegada, confortavelmente querida. Se havia um homem no mundo capaz de superar todo o galantismo de Sor Elric, era Capitão Dorian. Onde estaria ele? Saberia do que estava acontecendo com a família?
Dorian não tinha uma boa relação com eles, embora fosse um Lannister, vivera a maior parte da vida com os Tully e assim que os abandonou, foi para o mar. Kilian era um Lannister por convívio e por paternidade. Mas Dorian era simplesmente Dorian. Nem muito leão, nem muito carpa. Não era duro como um homem de ferro, nem honrado como um nortenho. Ele não tinha a fúria de batalha dos Lannister, não era astuto como um Arryn. Dorian, assim como ela, não se encaixava em nenhum lugar de Westeros.
Sentiu o coração apertar-se e doer. Desejava se casar com Dorian. Eram primos, mas não primos próximos. Ele poderia ser um bastardo, como Kilian, ou mesmo filho adotivo. Ninguém conhecia os Tully além daquilo que se lia nas cartas. Os três filhos de Salyne pareciam um enigma. Afastou os pensamentos dos laços de sangue. Não importava se eram primos. O que sentia por Dorian era verdadeiro, puro e intenso. Não precisava vê-lo para sentir-se segura. Apenas saber que existia, que continuava vivo, vagando nos mares, enfrentando piratas e saqueando portos.
A última notícia que recebera dele fora uma carta dizendo que iria para Essos.
Talvez o casamento não fosse do agrado do primo. Tanto faz! Desde que possa navegar dentro do Vingança Púrpura, viver das aventuras e da beleza do mundo, isso já basta. O amor pode ser encontrado em qualquer lugar e não precisa ser materializado em um homem fadado a defeitos. Catherine esqueceu de onde estava e não percebeu a aproximação de Lucien, até que ele já estivesse sentado ao seu lado.
— Lady Catherine. – era estranho vê-lo tão sério após entregar a irmã à cama de núpcias. – Gostaria de conversar com a senhorita.
— Sim? – a voz saiu distante e inofensiva.
— Não tivemos chance antes, por isso não vejo razão para não aproveitarmos a oportunidade. É uma noite linda e muito feliz para mim. Não posso dizer o mesmo de meu irmão, Elric, ele está se corroendo sobre a porta do quarto dos noivos. – uma risada fraca e forçada escapou de seus lábios. Nem mesmo isso fez Catherine despertar de seu torpor em devaneios. – Está bem, milady?
— Estou – piscou algumas vezes e então sorriu gentilmente. – Perdão, milorde. Pensava na família.
— Ah, sim, a família. Todos nós amamos muito a família.
Ela desconfiava disso.
— Catherine, preciso dizer antes que seja tarde: há algum cavalheiro neste palácio que interesse a senhorita?
Catherine foi tomada de surpresa, nunca esperaria ouvir a pergunta de Lucien e ele estava sério quanto a isso. Deveria dizer que seu coração palpitava por Elric? Ou que não, o único homem perfeito estava a quilômetros de distância, no mar? Os olhos do Arryn eram igualmente espertos e traiçoeiros, como os do irmão. Ela se perguntava por quê Lucien era chamado de “o Sangrento”. Nunca o vira erguer a espada ou dar indício de gostar da matança.
“Um Lorde pode comandar exércitos sentado em uma cadeira almofadada na maior tenda do acampamento”, pensou.
— Não, milorde.
— Isso é um milagre! Com tantas formas de romance, uma donzela que permanece intacta e pronta para ser cativada. – ele sorriu mais amplamente. Não tinha o sorriso ensolarado de Elric, mas era tão galante quanto. De um modo mais frio e maduro. Talvez arrepiasse as mulheres maduras da forma errada. “Ou certa”, lembrou-se. Mas se forçou a esquecer isso. Donzelas em Westeros não sabiam o que era erotismo e sedução. Ela não deveria saber. Não podia ser uma feiticeira ali, uma prostituta, ou que quer que conhecimento significasse.
Não conseguiu responder, por fim.
— Eu a convido para um passeio, no Ninho da Águia.
— O quê? – o espanto era genuíno e o divertiu.
— As montanhas são belíssimas nesta época do ano. Não estão totalmente congeladas e é possível ver um incrível pôr-do-Sol do Ninho.
E ela podia recusar? O que os olhos de Lucien diziam sobre o convite? O Rei não a estava mantendo presa ali? Outra ideia passou por sua mente, de repente desesperada e ousada: e se Dorian estivesse vindo salvá-la? Como ele a encontraria? Estava cada vez mais distante do mar, ele nunca poderia vir e levá-la...
Tinha certeza. Dorian estava vindo e ela precisava continuar em Jardim Suspenso.
— Agradeço o convite, milorde. Porém adoro os jardins do palácio e prefiro ficar mais tempo aqui, até que meu pai sinta minha falta e me pessa para voltar.
Lucien assentiu e se levantou.
— O convite continua em pé, senhorita. Sei que meu irmão adorará mostrar o Portão da Lua para uma donzela tão encantadora. – ele se curvou e então a deixou.
Não sem antes provocar outro arrepio, ainda mais aterrorizante.
{ . . . }
O dia amanheceu quente e primaveril no alto da montanha dourada. A fortaleza parecia ter vida própria, com a invasão de esquilos e pássaros no pátio, soldados rindo e espreguiçando, criadas lavando roupas na nascente próxima aos estábulos inferiores. Giselle nunca vira um lugar tão calmo e ao mesmo tempo eufórico. Isso não a agradava exatamente, mas também não a incomodava. O que a incomodava era estar no mesmo quarto que Rosemary. A irmã tinha costumes muito infantis e falava pelos cotovelos. Para dormir fora fácil, ambas estavam cansadas, mas acordar foi um tormento. Rose conversava com as criadas e fazia piadas ocasionalmente, levando todos ao riso. Giselle acordou com uma forte dor de cabeça.
— Milady, a senhorita gostaria de um banho pela manhã? – a criada muito servil perguntou a ela, mas a Tyrell recusou. Os banhos eram mais comuns ao sul, mesmo ela não havia se adaptado a entrar em água fria pela manhã. Vestiu-se com a ajuda da mesma moça e pediu que a levasse até o desjejum.
Normalmente os homens mais importantes tomavam o desjejum em seus quartos, longe de olhares de servos e crianças. Mas Giselle gostava de comer sem perder tempo, estudando aqueles com que tinha de lidar. Os Lannister estavam no salão há horas, provavelmente acordavam cedo para poder tomar o seu banho. Ela se surpreendeu com o número de pessoas assentada às duas mesas. Era raro que a primeira mesa fosse preenchida, quanto mais duas. Lorde Lefford e seus filhos também estavam ali e Otto conversava calmamente com Sor Lannister.
Havia duas cadeiras disponíveis apenas na segunda mesa, onde as moças estavam sentadas. Os lugares eram óbvios. Rosemary ao lado das donzelas mais joviais e risonhas, ela ao lado de uma mulher aparentemente ranzinza e silenciosa. Assim que apareceu, a loura a olhou de cima a baixo e serviu-se orgulhosamente de mais um pedaço de pão fresco.
Otto não ergueu os olhos de seu diálogo e tudo o que recebeu foi o bom dia uníssono das jovens bobas. Se todas ali fossem filhas do Lannister, ela teria de começar a tomar o desjejum no quarto.
Mas a comida ao menos estava boa e o número de pessoas favorecia o seu estudo sobre cada um.
Sentada a sua frente estava Roselynn Lannister, que era irmã do prometido de Rosemary. Ela conversava sobre tudo e contou alegremente sobre os preparativos para o casamento, quando chegassem em Rochedo Casterly e seu irmão invencível derrotasse Lorde Querubim.
— Ele parece um querubim, mas é um demônio – alertou-a, entre risos.
Ao seu lado direito, a moça quieta conquistava cada vez mais o seu respeito. Simplesmente por estar calada. Ela se apresentou educadamente e continuou devorando o seu pão. Ela não gostava de comer a mesa e também não parecia à vontade com as risadas guturais da irmã. Ellyn Lannister era a diplomata da família, isso Giselle sabia e a reconheceria em qualquer lugar. Elas já estiveram juntas na Corte de Porto Real, embora Ellyn fosse uma dama de companhia e Giselle apenas uma visitante.
À mesa também havia a filha de Lorde Lefford, Alayne, que conversava com Roselynn constantemente, mantendo a jovem entretida. Distante e mais reservadas, filhas de senhores menores e primas de Alayne debatiam qual dos jovens Lannister era mais habilidoso. O debate estava sendo vencido por Lorren Lannister, embora o romântico Kilian não perdesse por muito.
Percebeu que todas ali tinham certeza da vitória em Rochedo Casterly, embora não estivessem nem mesmo a caminho de lá. O otimismo crescia conforme o tempo e já no momento de irem ao pátio, todas riam e falavam sobre os vestidos que usariam na coroação do Rei Leão, mesmo que Rochedo Casterly não fosse um reino. Ellyn Lannister desviou-se do grupo e continuou com os homens, ela estava mais interessada nos assuntos políticos, o que era de se esperar. Giselle sempre gostou dessa questão mais diplomática, mas Otto nunca permitiu que soubesse exatamente tudo o que acontecia ao redor. Talvez por medo dela o trair, talvez porque não confiava em seu julgamento. Isso a machucara por um tempo, mas logo se acostumou. Estava prometida ao príncipe exilado e em breve poderia ser a Rainha de Westeros.
Como sempre um enfeite.
Por outro lado, Rosemary estava adorando os seus novos “irmãos”. Roselynn lhe contava tudo sobre Lannisporto, Rolland e passatempos divertidos que os gêmeos inventavam. As duas Roses dividiam uma empatia quase celestial, a Lannister não nutria ressentimento pelo casamento da Tyrell, mas a adotava plenamente na família. Rosemary também estava adorando a fortaleza do Dente Dourado. As árvores crescima pela encosta íngrime e causavam uma ilusão de malha ondulada quando a via da janela do quarto. Ali no pátio, os soldados treinavam para a batalha de Rochedo Casterly e as donzelas podiam brincar na nascente ao lado dos estábulos inferiores.
Não se importou com o vestido bonito que usava para tentar impressionar os seus novos parentes, queria se molhar e sentar nas pedras do rio, junto das moças e de Roselynn. A tarde correu tão rápida que não notou o Sol já no alto do céu e então caindo para o pôr do Sol. Seu estômago reclamava de fome, mas estava vivendo o melhor dia de sua vida desde que Magnolya partiu. Nunca pensou que diria isso, mas agradeceu a Otto pelo casamento arranjado.
Se ao menos soubesse como seu noivo realmente era...
Mas Roselynn a roubou quase o dia inteiro e os homens estavam treinando no pátio. A única garota que ficava com eles era Ellyn e somente porque ninguém conseguia dizer não a ela. Roselynn desejava falar com seu prometido, queria saber se ele era alto e forte, inteligente e gentil como a irmã.
— Rolland é a melhor pessoa que já conheci. Mas ele também é meu irmão gêmeo, não sei se posso dizer algo sobre sua personalidade. Nos entendemos desde o ventre – Lynn riu e ajudou Mary a amarrar a barra do vestido para não molhar os corredores e quarto.
— Quando o verei?
— Talvez você o veja no banquete, hoje. – e então ambas pararam e sorriram uma para a outra, numa espécie de conversa silenciosa que apenas almas empáticas conseguem ter. – Rolland adora verde, qualquer tipo de verde, e seus olhos são o melhor verde que já vi! Também posso emprestar um vestido verde-musgo que irá combianr com sua pele e o cabelo. O meu louro é mais escuro que o seu, nunca consegui usar aquela roupa, mas em você vai ficar perfeita!
— Sim! – Rosemary só conseguiu murmurar, entorpecida pela chuva de afeto que recebia daquela amiga improvável.
Por anos todo o amor que recebeu veio de um pai doente e uma irmã menor brincalhona. O pai a beijava com a boca úmida e cheiro de leite de papoula. A irmã pulava em cima de sua cama e sujava o quarto com os sapatos cheio de lama. Rosemary era feliz e grata por sua família, mas não era a mesma coisa. Muitas vezes havia sonhado acordada com o castelo cheio, Otto cuidando dos assuntos do pai, enquanto ele descansava em sua cama, Giselle ensinando-a a ser uma dama da Corte, educada e instruída. Às vezes tudo o que queria era bordar e ler em uma sala, diante da janela. Às vezes tudo o que queria era caminhar pelo jardim e colher flores para seu pai. Mas nunca pôde. Magnolya lhe tomava todo o tempo e a pequena detestava bordado, dança, chá, música, flores...
Era terrível estar um pouco grata pela irmã não estar ali? Sim. Era terrível. Sentiu os olhos marejados e uma ebulição de sentimentos estranhos e desconexos tomando seu peito. Queria gritar e escolher outra vida, mas também gostava de como a sua estava progredindo. Com os pais e a irmã mortos? Como podia estar feliz com o andar da carruagem? Sentiu enjoos tomando seu peito e se curvou para vomitar no rio, mas conseguiu se conter. Roselynn e as damas a colocaram sentada em uma pedra e começaram a assoprar sobre seu rosto.
— O que houve, Mary? Você está pálida – Lynn gemeu de assombro e prendeu-lhe os cabelos para cima da cabeça. – Está se sentindo doente? Devia ter nos dito antes!
Queria resmungar que estava bem, que não precisavam se preocupar tanto com ela, mas ter a atenção de alguém era tão bom. Percebeu que nunca sentira aquilo antes. Não colher flores para um velho morimbundo ou cuidar para que a irmã menor não se machuque. Sem correr atrás de alguém para se sentir melhor. E, novamente, estava feliz por tudo ter mudado.
Terrível! Ela era terrível!
— O que aconteceu? – alguém se aproximou correndo.
— Estávamos brincando na água e então Mary se sentiu mal – a voz de Lynn saía descompassada e cheia de preocupação.
— Suas brincadeiras são sempre perigosas demais – o sujeito ralhou e então se inclinou sobre ela, observando seu rosto com atenção.
Atenção. Ali estava outro sentimento que ela adorava receber e que lhe causava angústia. Ele tinha olhos azuis como o céu de verão e cabelos louros como ouro derretido. Seus ombros apareciam por trás da armadura de couro mole e parecia pronto a matar qualquer um ou salvar uma donzela em perigo. Quase uma cópia perfeita de Roselynn, mas com barba rala e dois palmos a mais que a gêmea. Rolland seria reconhecível em qualquer lugar após tantas horas ao lado de Lynn.
— Mary, está sentindo enjoo ou dor? – a pergunta parecia-se mais com “quer casar agora ou amanhã?”.
— Agora – murmurou, colocando o rosto para trás. O vento ajudava a ignorar a vontade de vomitar tudo o que não havia comido durante o dia. Roselynn gritou para as moças molharem o pescoço dela e Rollando passou a assoprar sobre seu rosto. – Quero tomar um banho.
— Vamos levá-la para seu quarto, um meistre a atenderá.
Diria que não precisava de um meistre, mas Rolland a tomou no colo como uma princesa de contos de bardos e a levou calmamente para seu quarto, subindo a escada e passando pelo corredor estreito sem machucá-la em nenhuma parede. Os guardas recebiam as ordens de Roselynn de buscar toalhas molhadas, chamar criadas, preparar uma banheira, levar todas as outras damas para o seus quartos para se prepararem pro banquete, trazer leques e abrir as janelas ao máximo. Entre outras coisas.
Rolland a colocou sobre a cama gentilmente, ignorando seu vestido molhado e as reclamações sobre não precisar fazer aquilo. Ele se sentou e colocou uma toalha molhada sobre sua testa, enxugando o suor e continuando a assoprar sobre seu rosto. Roselynn logo se juntou á tarefa e lá estavam ambos os Lannister cuidando dela como se fosse uma irmã menor.
— Ela está delirando? – perguntou Lynn quando o meistre entrou.
O homem se deteve sobre a cama e em seguida puxou o lençol, pressionando a barriga de Mary com cuidado.
— Quando foi a última vez que comeram?
— No desjejum. – confessou.
Rolland pressionou as têmporas.
— Você mal a deixou tocar na comida, estava falando o tempo todo.
— A culpa não é minha! – Roselynn resmungou com os olhos preocupados sobre a cunhada, mas assim que o meistre se levantou, moveu a atenção para ele. Alarmada com o que poderia ter acontecido.
— Lady Rosemary está desnutrida. Talvez a viagem tenha sido difícil demais e ela precisava se alimentar. Uma noite de sono, sopas e um banho restaurarão a sua saúde. – o meistre instruiu e Lynn balançou a cabeça a cada tópico. – O que aconteceu foi um começou de anemia, mas nada muito grave. Recomendo que façam exercícios pela manhã e não se esforcem demais a tarde. O Sol é ruim para algumas pessoas, passar a tarde bordando seria mais apropriado.
Esta última parte era um cutucão na costela de Lynn, que detestava ficar dentro de quatro paredes, mas ela assentiu e agradeceu muitas vezes ao meistre. Quando ele saiu, os irmãos se entreolharam e suspiraram de alívio. Criadas chegavam para trocar as roupas da moça e lhe dar sopa, por isso foram expulsos do quarto e mandados para o banquete.
Mas nem Rolland e nem Roselynn conseguiram rir o bastante para esquecer da Tyrell adormecida no andar de cima.
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Girou o troco para desferir o golpe mortal no segundo inimigo, pois o primeiro já estava morto a seus pés. A espada cortou a carne como manteiga e separou braço de ombro por inteiro. A força do impacto o fez perder alguns segundos até recobrar os sentidos, mas logo estava enterrando Uivo do Inverno em mais um e outro homem de ferro. Não gostava daquela gente de qualquer modo, agora que estavam em guerra declarada com o Norte, não tinha por que se segurar. Não haveria prisioneiros, nenhum homem seria poupado pelo que fizeram às cidades portuárias. Nenhum afogado permaneceria em território nortenho. Nenhum.
Já estava rouco. A cada golpe gritava para intensificar a morte. Seus braços doíam e os músculos rugiam, mas a adrenalina o impedia de parar. Mesmo com o campo de guerra já calmo e a maioria dos inimigos dilacerados na relva, ainda havia os bravios que corajosamente se davam para a morte honrada no fio de sua espada. A recompensa pela cabeça do Lorde Stark também os motivava. Homens que davam mais valor a sua posição que a família que deixavam para trás. Poddrick os respeitava por isso,
Sua mente nunca conseguia pensar na família ou em Winterfell quando estava lutando. Tudo o que via eram os homens que tinha de matar e as bandeiras dos Stark tremulando no campo. Procurou por uma nova ameaça, mas tudo o que encontrou foi um mar de corpos decepados e ensanguentados. Os corvos já começavam a descer dos céus para saborear o banquete. Mesmo os cavalos já estavam tomando seu banho e sendo escovados pelos cavaleiros. O acampamento se estendeu sobre o acampamento dos homens de ferro, mas tudo o que encontraram foi carne salgada, cerveja azeda e peles sujas. Nada que denunciasse um Greyjoy ou algum senhor das Ilhas de Ferro.
Então eles não estavam atacando com a infantaria. Mandavam seus camponeses para amortecer as tropas. Poddrick estava cansado de lutar contra homens que não conheciam a arte do combate. Seus capitães e cavaleiros aguardavam pela ordem de vitória, que ele deu erguendo o braço e gritando uma última vez. Todos uivaram e aplaudiram, batendo suas espadas contra os escudos.
As prostitutas se moviam de tenda para tenda, meistres e curandeiros cuidavam dos feridos, os mortos eram levados até uma mortalha para serem queimados na pira, junto aos corpos dos homens de ferro. Poddrick queria um banho quente e alguém para massagear suas costas. Mas tudo o que tinha eram os cuidados de velhos e algumas prostitutas nortenhas pálidas. Uma mulher faria o que era preciso para confortar seus músculos doloridos e o cansaço de matar homens.
Era difícil confessar, mas mesmo com o grande tamanho das terras do Norte, eram poucas as cidades e as pessoas que sobreviviam ao frio e ao inverno constante. O exército tinha muitos homens, todos duros e íntegros em batalha, não corriam e não se amedrontavam. Mas ao passar do tempo, as revoltas nos portos se tornaram batalhas e as batalhas se mostraram tratar de uma guerra. Neste momento era certo que os Greyjoy estivessem alcançando a Ilha dos Ursos para aportar lá. Expulsar Lorde Mormont também seria fácil e matar suas filhas igualmente. Todos os portos do sudoeste estavam destruídos, as pessoas foram mortas ou feridas gravemente. Não havia como cuidar de todas. Seriam sacrificadas para seu próprio bem.
A estratégia de Lorde Greyjoy veio como uma lufada de ácido. Destruir as fontes de suprimentos do Norte, enfraquecer as cidades e as pessoas. Bater na dureza dos nortenhos até que estilhassassem.
Poddrick entrou em sua tenda, onde a banheira já estava pronta. O meistre o examinou minuciosamente e declarou que era um milagre estar intacto depois de uma batalha tão sangrenta.
Após matar tantas ovelhas, Pod também achava um milagre.
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Bryanna acordou muito cedo. Antes que o sol surgisse por detrás das muralhas de Winterfell, a donzela estava vestida e pronta para cavalgar no bosque. Raramente nos últimos tempos ela havia saído para aquele passeio matinal, mas sentia falta do minuano e do orvalho. Abotoou a capa sobre os ombros e escondeu os cabelos no capuz. Os guardas de Winterfell dormiam solenemente em seus lugares. Quem os culparia, quando o castelo estava no meio de um bosque de neve e recebia visitas uma vez por ano?
Ela não os culpava. Agradecia por permitirem que passasse despercebida. O pai começara a ter uma postura mais protetora em relação a suas filhas. Clarysse estava em Porto Branco com seu esposo e rumores diziam que seu sangue não descia há uma semana de atraso. Isso seria um milagre, ter engravidado em um mês de casamento. Uma benção dos deuses, um presságio de que o inverno chegaria para os Stark. Ou contra os Stark. Bryanna não tinha certeza. Seus irmãos mais velhos pareciam constantemente em guerra, Poddrick no oeste, Roddrick no leste. Elyna gerava o filho com todo o esmero e nunca saía do quarto além do necessário. Ela não queria pegar algum resfriado capaz de matar o único herdeiro de Winterfell. Até o momento.
Lilyne era outro problema. A irmã menor havia superado a morte da mãe, mas não superou os pesadelos à noite. Sempre que ela acordava aos gritos tinha uma nova história para contar. Cada vez menos oníricas e mais realistas. Ela sonhava que o bebê de Elyna era um menino e que ele tinha os cabelos negros dos Stark, também sonhava que Harpa morria no parto por hemorragia e que Roddrick se recusava a casar novamente, pois acreditava na maldição da família. Poddrick morreria sem herdeiros, velho e preso em uma masmorra.
Os sonhos deixavam a menina amedrontada e infeliz. Bryanna nunca viu Winterfell tão cinzenta e fria até o momento, mesmo sendo o começo do verão. O inverno que havia passado deixou grandes cicatrizes para a família, mortes e maldições, ambas andavam lado a lado aparentemente. Nunca imaginou que sentiria aquilo, também, mas Clary fazia muita falta. A irmã mais velha sempre parecera deslocada e irritante, se recusando a ser útil para todos. Mas era isso que a tornava parte da família, do castelo, de uma vida feliz e pacífica. Às vezes Bryanna desejava ter nascido homem para estar ajudando o pai e o Norte, lutando contra os homens de ferro e os Stane. Mas tudo o que ela podia fazer era ir até a Muralha e tentar convencer os homens que vestiam o negro para ajuda-los como pudessem.
Uma missão que achava ser perda de tempo. O juramento dos corvos da noite dizia que não optariam por lados em guerras, mas defenderiam a todos ao sul da Muralha contra os selvagens e os monstros do inverno.
O pior era que realmente pressentia algo ruim. Assim como Lilyne, as noites corriam e ela não fechava os olhos. Sempre assustada com as próximas notícias dos irmãos ou dos selvagens. Greyjoy e Stane juntos eram uma força quase imbatível. O Norte tinha de se dividir para proteger ambos os lados e dividir o exército é o mesmo que assinar a rendição. Se os Greyjoy dominassem o Norte, nenhuma terra estaria segura de sua ganância e ambição. Homens de ferro tinham o seu lema tatuado na pele: Nós não semeamos. Eles tomavam tudo o que podiam para si e nunca cultivavam a terra.
Isso seria um grande problema se quisessem tomar o poder do Norte, pois um Lorde precisa de cuidar dos seus e organizar o futuro. Seu pai fazia isso com a desteza de qualquer Lorde Stark, mas se perdessem...
Balançou a cabeça e continuou caminhando para os estábulos. O vento da manhã era muito frio e isso a despertava do torpor dos sonhos. Suas mãos estavam insensíveis mesmo dentro das luvas. Sua égua estava adormecida e custou-lhe acordá-la. Sono tão profundo de um ser que nada sabe sobre bem ou mal, guerra ou paz. Se fosse um troca-peles, ela gostaria de trocar de lugar com um cavalo e correr para o norte, além da Muralha e dos selvagens. Onde ela seria apenas um animal livre, solto no meio da neve. Encontrando um grupo para se juntar, correr, caçar...
Mas a consciência lhe obrigava a voltar para Winterfell. Sentou-se na palha ao lado das patas da égua e começou a alisar-lhe a barriga. Era um animal lindo, com a crina branca e olhos muito grandes. Sempre parecia entendê-la. Não houve sinal de que estivesse desperta, mas Bryanna sentiu sua respiração se aprofundar. A conexão que tinha com a égua vinha desde a infância, quando o pai a presenteou. Bryanna nunca gostara de cavalos, tinha medo de que um deles pulasse em cima dela ou acertasse um coice em seu rosto. No entanto, quando a mãe faleceu, todo o seu mundo se despedaçou e a única pessoa que tinha para confortá-la era Clarysse. A irmã nunca foi a melhor pessoa nesse quesito. Então a égua surgiu nos estábulos e papai disse que poderia montar nela, se quisesse. Subentendido, era um presente. Bryanna se recusou a cavalgar, mas após uma semana não conseguia passar pelo curral sem olhar diretamente para os olhos do animal e sentir que uma parte de sua mãe ainda estava lá. Mamãe adorava cavalgar. Ela era conhecida por apostar corridas nas caçadas e sempre ganhar. Seu cavalo era veloz mesmo nas florestas mais densas e cheias de neve, e nunca quebrava a pata.
Talvez essa foi a motivação para tentar vencer seu medo. Pouco a pouco, se aproximou da égua e a montou. Foi como estar livre e completa pela primeira vez em meses. Depois deste dia, Bryanna nunca deixou de alisar os pelos ou a crina ao menos uma vez por dia e às vezes até mesmo passava horas lendo sentada sobre a palha do curral. Ainda não gostava dos demais cavalos de Winterfell, mas a crina branca a fascinava.
Enquanto lentamente voltava ao sono, a garota não percebeu como o castelo estava silencioso. Os animais não pareciam acordar, os criados não abriam as janelas para o novo dia, nem mesmo os pássaros saíam de seus ninhos. O bosque, o céu e os rios estavam parados. A árvore-coração emanava leite e sangue, seu rosto em uma expressão de horror e medo. Por mais que os deuses chorassem aquele momento, nada poderia tê-lo evitado. A menina Stark encostava sua cabeça nas tábuas do curral e sua égua preferida resfolegava tentando despertar do sono obscuro que enfrentava.
O ladrão apareceu na surdina, era como uma sombra que se movia no pátio de Winterfell, acobertado pelas vontades de um ser ainda mais obscuro e maldoso. Para ele a vida daquela menina não era nada, faria o que precisasse para conseguir o dinheiro. Um assassino, com o peso dos nomes de suas vítimas sobre os ombros, andava encurvado e com a adaga na mão. Seu nome fora há muito tempo esquecido e ele vinha como o presságio de uma maldição. A árvore-coração e o bosque sagrado estavam quentes, a neve ao redor das raízes se dissolvia e a cada passo, o sangue escorria mais forte pelos olhos e boca dos deuses antigos.
Uma lufada de inverno tentou despertar a garota, mas ela estava no feitiço de uma entidade tão poderosa quanto os deuses do inverno. Uma maldição rogava seu nome, embora não fosse ela o alvo. No alto de uma das torres de Winterfell, uma grávida despertava em meio aos gritos, seu filho saindo por suas entranhas, voraz e forte como um lobo, cheio de vontade de vingança. Era para ela que o assassino deveria mirar sua adaga. Mas a tarefa estaria terminada com a menina, ela apresentava o mesmo peso que a Harpa Stormsea. Uma vida era apenas uma vida, para um assassino imortal, não era nada.
Ele girou a adaga nas mãos e olhou para a pequena donzela, pura, virgem e com o melhor dos caráteres já vistos por seus olhos eternos. Honrada, educada, respeitosa, uma flor do inverno que nunca fora colhida ou admirada o bastante. Seria uma pena roubar-lhe aquele suspiro de calor. Mas o faria, pois era seu trabalho.
A lufada de vento invernal soprou novamente e desta vez alcançou a mente de Bryanna, congelando-lhe os sentidos por um segundo antes de acordá-la. A mão do assassino já descia sobre seu rosto, mas seus reflexos eram ótimos e a égua relinchou num ímpeto de coragem, também vencendo o feitiço. A lâmina acertou sua mão e abriu um corte grande sobre as costas dos dedos, mas ela não encolheu. Levantou-se de súbito e encarou o homem de olhos brancos e lábios azuis. Ela não precisava de explicações para saber que ele era o espírito da maldição de sua família. O ser que rondava Winterfell e os Stark por gerações.
Suas veias se inflamaram de raiva e uma sede por vingança quase surreal a invadiu. Bryanna nunca imaginou que seria capaz de sentir a mesma vontade de acabar com a vida de alguém como sentira quando sua mãe morreu. A única vez que realmente detestou uma pessoa. Ela culpava os Stane, mas com mais força, culpava os deuses antigos por permitirem que aquela maldição se propagasse sobre o Norte. Agora confiava de que aquele momento era um presente há muito esperado. E não recuaria, pois não era uma mulher de recuar diante um bom oponente. A égua se ergueu e jogou o corpo contra a sombra. O ser se desintegrou e fincou a adaga no peito logo abaixo do pescoço do animal.
Era tenebroso o que uma mulher seria capaz de fazer para salvar os seus. Bryanna Stark alcançou o punho da adaga antes que a égua caísse no chão, sobre a arma, e então apontou-a para o homem, já voltando a se materializar. Ele encarava a própria adaga nas mãos pálidas e sangrentas daquela menina e se perguntava o que um poder imortal de ceifar almas seria capaz de fazer em um ser imortal. E foi como se seu questionamento se respondesse de uma só vez. Bryanna jogou o corpo para frente e cravou a adaga no coração do assassino. Os ventos invernais sopraram novamente sobre seus cabelos e roupas e a geada levou os restos da sombra e de sua arma para longe de Winterfell. Ela caiu de joelhos, repentinamente sem forças.
Sobre a palha do estábulo, sua égua sangrava para a morte. Encolheu-se contra a parede e começou a chorar.

— Lysa Flowers, com o cabelo natural -
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