Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
7 A Alcateia
Notas iniciais
A Alcateia
“Eu... eu... nem eu mesmo sei, nesse momento... eu... enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.” — Lewis Carroll
Era verão. Os muros do castelo amanheceram sem neve e mesmo a relva aparecia intensamente verde e cheia de orvalho. Não havia flores naquela parte de Westeros, a únicas que floresciam o faziam apenas no final do verão, quando o Sol atingia o seu calor máximo. O céu tinha o mais belo azul que se poderia encontrar e as nuvens pareciam deslizar como em aquarelas, traçando linhas. Varridas pelo vento. E o vento, ah, o vento era gentil, uma brisa leve que movia as folhas das árvores e a relva do chão.
Os cabelos negros como ébano foram presos sob um véu de linho branco, os ombros sustentavam a capa dos Stark, branca e cheia de lobos correndo, com pelo de lobo e presas afiadas como broches. O vestido branco deslizava pelo chão de pedra do salão e todos abaixavam a cabeça, unidos a dor da perda que novamente afligia a família do Lorde. O cortejo guiava-os até a Casa dos Grandes Lobos, onde cada Stark importante da história jazia em tumbas com suas estátuas a identificá-los. Embora fosse uma Reed, a última esposa de Lorde Stark recebia todas as honrarias possíveis, pois fora peça importante para a unificação do Norte.
Logo atrás vinha outra das filhas de Lorde Stark, também vestida de branco e com os cabelos negros presos em um véu. As velas que seguravam iluminavam a decida pelas escadas irregulares e estreitas. Já no subterrâneo, a única luz no ambiente estavam com as moças e elas depositaram suas velas ao redor da tumba pertencente a Margelya Reed, ou Marge Stark, como era chamada agora. O corpo envolto em panos parecia emanar calor, mesmo após dias desde seu último fôlego e após o embalsamento. A tampa foi colocada, deslizando lentamente. Toda a pedra era branca e embora houvesse um lobo ao lado da tumba, o brasão dos Reed foi colocado sobre a tampa, assim como acontecia com as mulheres que não eram Stark. Lily começou a soluçar e teve de ser consolada por Bryanna, que estava mais próxima da menina.
Aquilo não deveria acontecer com uma jovem de quinze anos, em flor da idade, pronta para abrir seu coração ao lirismo do mundo! Não, Lily não merecia perder sua mãe tão cedo. Assim como ela própria não mereceu. Bryanna entendia a dor da irmã e compadeceu-se de suas lágrimas, chorando juntas assim, nos braços uma da outra. Dignamente, Clary de cabeça baixa fazia uma prece pela alma da madrasta, que embora não fosse uma mulher muito calorosa, fora uma ótima companhia em todas as tardes e criou ela e a irmã como se fossem suas próprias filhas. Mas o que poderiam fazer? Era a maldição de Lorde Stark, nem mesmo uma feiticeira escapava desta maldição.
Os músicos então entoaram o Inverno Lembrará, canção que servia como hino para todos do Norte, e embora fosse uma exaltação à honra dos Stark, sua melodia melancólica e lenta fortaleciam o ambiente de tristeza e angústia. Clarysse não compreendia como eles choravam por alguém que já se fora. Aquele corpo nada mais era que comida para os vermes, tudo o que a mulher Reed fora não passava de lembrança agora. Lilyne tinha razão em estar triste, pois nunca mais veria sua mãe. Mas um dia ela morreria, de qualquer forma, então essa dor não deveria ser mais... contida?
A menor das três filhas de Lorde Stark entalhava o aroma dos cabelos de sua irmã no fundo de sua alma, a fragrância de lírios, a flor da morte, preenchia-lhe todo o corpo, como as notas fúnebres dos instrumentos. As lágrimas que escorriam por seu rosto eram frias e pequenas, e seus soluços secos, como o inverno. Era injusto! Muito injusto! O que havia de errado com os deuses para lançarem uma maldição tão cruel sobre sua família? E o pior castigo fora para ela mesma! Aryen, Poddie, Rodrick, Clary, Bryanna... Todos eles perderam suas mães quando eram bebês ou apenas crianças. Mas ela tinha dezesseis anos! As lembranças de sua mãe, sua voz, sua risada, eram intensas dentro dela. A dor era maior. Tivera esperança de que os poderes de sua mãe quebrassem a maldição, e por meros dezesseis anos parecia que realmente aquilo havia acontecido. E agora estava lá, ao lado das outras duas esposas de Lorde Stark. Morta.
Queria cuspir no rosto daquelas árvores, pisar em suas raízes, cortar todas!
E desatava a chorar mais.
Quando chegaram às tumbas, a despedida já havia começado. Lorde Stark segurava o brasão dos Stark e ao seu lado estava Aryen, o filho encarregado de cobrir o túmulo junto dele. Juntos, o fizeram com lágrimas nos olhos, pois ambos amavam muito Margelya. Como filho preferido, Aryen sentia-se na obrigação de mostrar humildade diante dos irmãos mais velhos, que o olhavam com arrogância e às vezes raiva. Tanto Poddrick quanto Roddrick não entendiam como um terceiro filho seria tão estimado pelo pai, mesmo não estando diretamente na linha de sucessão. Sua mãe, Maryah Greystark, morrera quando era apenas um bebê, e Poddrick tinha somente três anos. Hoje ele sentia a mesma dor que Lilyne e suas meia-irmãs, pois Marge fora como a mãe que ele nunca teve. Talvez fosse essa empatia que Lorde Stark tanto apreciasse em seu filho, e que faltava nos outros dois, que mudos, estavam de cabeça baixa respeitosamente seguindo a etiqueta.
Havia ainda a segunda esposa, a que ainda não citamos. Ela era mãe de Bryanna e Clarysse, seu nome fora Alyss Cerwyn, mas agora era apenas pó. Greystark, Cerwyn e Reed. As três mais importantes casas do Norte unidas na família Stark, com seus frutos agora ali. Talvez fosse o destino de Lorde Stark amar e se casar com todas as famílias do Norte, assim reunificar se tornaria mais fácil. Ou então, a maldição era verdadeira e ele jamais amaria uma mulher que estivesse viva.
— Margelya Stark, nascida Reed, descendente dos primeiros homens do Norte e agraciada com os poderes divinos dos deuses. Hoje voltará para o lugar de onde todos viemos, e para onde todos iremos. O pó. – disse firmemente o lorde. – Que sua alma encontre repouso e paz. O Norte se lembrará.
“O Norte se lembrará”, todos ecoaram, e assim o cortejo teve fim, enquanto todos se apressavam para sair das tumbas antes que contraíssem algum resfriado ou febre. Mas Lorde Stark continuou ali, junto de seus rebentos, que só tinham permissão para sair atrás do pai. Quando os músicos também se foram, o homem se voltou para os seis, o rosto transformado numa máscara de frieza e seriedade.
— Querem, os deuses, que eu continue sozinho. Mas não puderam deixar-me sozinho realmente – a voz parecia um pouco embargada de emoção, mas apenas o mínimo dentro do perdoável. – tenho meus filhos. Vocês são tudo o que amo realmente e tudo o que me resta aqui.
O silêncio respondeu-lhe com cabeça baixa, todos envergonhados demais para falar qualquer coisa.
— Os maiores lordes do inverno receberam seis filhos. Podem procurar nos livros, todos os nomes em destaque, aqueles que são passados adiante nas gerações, eles todos foram abençoados com seis filhos. Assim como as seis árvores que temos em nosso bosque. É um sinal de benção, dizem, um sinal de prosperidade e paz na família.
Novamente o silêncio respondeu-o, agora sensibilizado e triste.
— Não me acho um grande lorde. Sou um dos menores, na verdade. Mas quiseram os deuses que eu tivesse seis filhos e que todos eles tivessem saúde. Está é a minha prosperidade, a minha riqueza. E a minha paz.
O silêncio agora os abraçava a todos, como se fosse o próprio inverno a envolvê-los com os laços de amor mútuo.
— Lily, minha filha, não deves sofrer sozinha. Esta dor é difícil demais de suportar e por isso tens seus irmãos e irmãs, providenciados pelo destino exatamente para mantê-la forte. – ele curvou a cabeça. – Somos Stark. A nossa paz está no inverno.
Os filhos do lorde olharam para seu pai, um homem alto e de ombros largos, cabelos negros e longos, amarrados sob as peles que carregava. Seus olhos eram negros, profundos, grandes como os de uma coruja e parecia sempre atento a tudo ao seu redor. Brandon Stark tinha uma inteligência fora do comum e não se achava superior aos outros. Ele estimulava seus filhos a desenvolverem seus cérebros e corpos, pois nunca se sabia o que haveria pela frente. As três esposas ele amou fervorosamente, enlouquecidamente, e por estes motivos chorou um dia inteiro sem deixar os aposentos e a cama onde dormia com elas. Ele era um homem sistemático, seus dias eram regidos com padrões e raramente ele alterava-os. Era certo de que se casaria em breve, dentro de um ano, com a próxima esposa, e que ela morreria.
— Vocês podem ir. Poddrick, fique.
Os cinco filhos dispensados subiram as escadas, todos silenciosos e muito melancólicos. Mesmo Clarysse não tinha mais a massa fria em seu coração que a deixava tão insensível à dor alheia. Pois, afinal, seu pai estava triste.
Poddrick era o filho mais velho, seu primogênito, filho da primeira esposa que Brandon tomou para fazer-lhe feliz. E o fez, sim, por um curto tempo. Dos rapazes, Poddrick era o único que puxara a mãe, com os cabelos castanhos mais claros e os olhos azuis feito gelo. Tinha expressões mais angulosas e um rosto triangular, diferentemente dos demais Stark. O rapaz tinha vinte e sete anos e já tinha um filho de doze, que lhe servia como escudeiro. Brandon Snow. Um bastardo, sim, feito enquanto era criado como protegido de Lorde Tully em Correrrio. O lorde não sentia nojo por ter um bastardo com seu nome, embora o irritasse levemente o fato do nome também pertencer a seu finado filho Brandon, o irmão gêmeo de Poddrick, que morrera em um solstício de verão.
Talvez a única coisa que impedisse Lorde Stark de realmente repudiar seu filho mais velho, após tanta desonra que ele trouxe até a família, fosse o fato de ter passado a maldição para ele. Sua primeira esposa havia cometido suicídio após uma batalha dura que Poddrick travou defendendo os portos dos Greyjoy, antes de se estabelecer a paz. Ela, pensando que o esposo estivesse morto, não pode suportar. Poddrick sentia o desejo ardente de seu pai para que ele se casasse com Anezka Lannister, para assim reconciliar a família com os Lannister, além dela ser também uma Tully. Mas dificilmente resolveriam qualquer coisa agora.
— Por que me quer aqui, pai? – perguntou Poddrick, enfim não aguentando mais o cruel silêncio das criptas de Winterfell. Parecia que cada lorde ali olhava-o e julgava-o. Covarde. Fraco. Assassino.
— Quero falar sobre... uma mensagem que nos chegou hoje.
— Eu já estou ciente da invasão dos Bolton à Correrrio e se quiser partirei imediatamente para lá com meus homens.
— Não – Bran Stark balançou a mão, ainda sem olhar diretamente para seu filho. – Veja, sua mãe precisa de uma flor nova – e caminhou até a estátua da sepultura de Maryah Greystark, que ao invés de um lobo, tinha uma flor em mãos, porém esta havia se partido em algumas partes, transformando a flor em pontas lascadas e arranhadas. – Mandarei fazer algo... uma cesta de flores, talvez. – e com isso o lorde afundou-se em longo silêncio, melancólico e taciturno silêncio. Até que ele se lembrasse de estar com o filho. – Bem, eu não estava falando sobre os Bolton.
— Sobre o que, então? – Poddrick estava começando a ficar impaciente e nervoso.
— Chegou-me uma carta de Correrrio, que dizia com as letras de Anezka Lannister, que o motivo dos Bolton estarem tão ao sul é que seus pais os convidaram para um banquete e firmaram um casamento entre ela e o filho do Bolton.
Poddrick arregalou os olhos, completamente em choque. Era impossível que a única neta de Lorde Tully se casaria com um Bolton, enquanto o primogênito dos Stark era oferecido para ela. Uma completa idiotice, em sua opinião. Embora, é claro, ele não fizesse questão de se casar com uma Lannister, não era algo que desejava. Na verdade, preferia vê-la morta esfolada pelo Bolton. Qualquer Lannister merecia morrer.
— Isso é... bizarro. E os pais dela?
— Ao que a carta diz, alguns dias após a chegada dos Bolton, uma febre forte alcançou a cidade e ambos morreram, deixando Anezka na proteção dos Bolton, que pedem licença para retorna ao seu Forte em paz.
— Deveriam ter pedido paz desde o começo.
— E não acaba por ai – pigarreou o Lorde, preparando-se para a pior parte, com certeza. – o Senhor Bolton deseja casar sua filha mais nova com o meu herdeiro.
— Eu?! – Poddrick balbuciou, descrente – Eu, casado com uma Bolton? Impossível!
— A menina é filha do último casamento do velho com uma Frey.
— Deixe-me adivinhar: Walda Bolton.
— Não. – Brandon Stark fez uma carranca para o filho, que murchou um pouco. Era complicado as conversas importantes entre eles, pois geralmente um não gostava dos comentários do outro. – Vallery Bolton. É uma donzela de treze anos.
— Treze? Querem me casar com uma garota de treze anos? Pai, o senhor não pode concordar com isto.
Lorde Stark moveu o maxilar, a contragosto.
— Eu... Não posso fazer muito quanto a garota, pois ela já foi mandada para cá como prova da boa-fé do Bolton. – ele notou a careta que seu filho fez. – Não respondi, ainda, se aceito a oferta. Mas você sabe como seria ótimo ter os Bolton enfim sob as rédeas. Principalmente se eles se sentirem tão importantes com uma Lady Stark no poder de Winterfell.
— Eles querem tomar o poder, isso sim.
— Com uma mulher? Eu acho muito difícil. Se oferecessem o primogênito do Bolton para se casar com Clarysse, eu com certeza recusaria.
Poddrick pensou um pouco, notando que seu pai estava apenas comunicando-o, e não pedindo sua opinião no assunto. O que queria dizer que nada que dissesse mudaria algo. Então permaneceu em silêncio.
— Era somente isto. Pode me deixar, agora. – o lorde indicou as escadas da cripta, e sem esperar por mais, Poddrick deixou-o.
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