Notas iniciais
Boa leitura ^^

Dany não havia se sentido tão calorenta desde a sua passagem pelo deserto vermelho. Havia sido a quanto tempo? Talvez em outra vida, Dany pensou consigo mesma, descansando em seu aposento no interior do navio.

A Daenerys que cruzara o deserto vermelho com seu esfarrapado khalasar não era a mesma de agora. Era uma menina, antes, com três bebês que lhe concedera o título de Mãe de Dragões. Uma menina indefesa, tais como seus bebês, mas de alguma forma Dany resistira. Por seus dragões, por Drogo, pelos bebês de Elia e Rhaegar. Por Viserys. Estavam todos mortos, todos, e o que restara da Dinastia Targaryen era Dany, a Nascida na Tormenta. E ela tinha de honrar esse título.

Irri e Jhiqui estavam nuas e espalhadas pelo chão de madeira. O embalo sereno do navio fazia a todos quererem dormir até o calor passar, mas isso fora a duas semanas. E o calor não só havia permanecido, como também tornou-se mais forte. O Capitão Grunjar dissera que aquelas águas eram geralmente mais quentes. Balerion e os outros mil navios recém saiam da Baía dos Escravos, e Dany estava impaciente.

– Mil navios não são fáceis de se deslocarem, Vossa Graça – disse-lhe o Capitão com cortesia, como se explica-se a um bebê o certo e o errado.

A boca de Dany curvou-se e o Capitão continuou:

– Foi o plano do Selmy de separar os Imaculados. Homem sábio, esse.

Dany tinha de concordar. Antes de partirem de Meereen, Barristan tinha lhe apresentado um plano de viagem muito inteligente.

– Uma frota pequena pode atrair olhares indesejados – tinha explicado o homem. – Se dividirmos as tropas em grupos menores, em centenas de navios, por onde a frota passar os mares se abrirão em reverência.

– Isso levará mais tempo. Precisamos de mais navios, e isso quer dizer capitães para os comandar – disse Dany, insegura.

Para aquilo Barba-Branca já tinha resposta.

– Dê o comando de cada navio a um Imaculado. São homens treinados, e experientes, seja por terra ou mar. Saberão o que fazer.

Tiveram de esperar mais tantas voltas de lua até que todos os navios estivessem ancorados em Meereen. Antes de chegar aos trezentos o porto já estava lotado, o que gerou uma magnífica confusão de navios. A maior parte era constituída de galés, barcos pequenos para grupos de no máximo dez homens, e Dany ordenou que todos tivessem uma vela dos Targaryen bem erguida. Ao final, quando todos estavam em ordem para partirem, Dany pensou jamais ter visto coisa mais fabulosa.

O navio que fora construído para Dany e seus servidores mais próximos ia sempre à frente da frota. Tinha um mastro principal de dez metros de altura e três cabeças de dragão entalhadas na madeira na proa do navio. Atrás, na popa, a cauda de madeira era negra e cheia de estacas, como espinhos, e se estendiam até cinco metros. Chamava àquele navio de Rhaego.

Dany estava com a garganta seca e quebradiça. Olhou para baixo, para Irri e Jhiqui deitadas na madeira, e decidiu não acordá-las. Levantou-se da cama, nua e suada, e buscou uma taça de água gelada no cômodo. Seus dragões não estavam ali. Drogon, Viserion e Rhaegal dormiam em seus próprios navios, embarcações simples com um convés largo, onde podiam se deitar com espaço.

Vestiu-se com a roupa mais confortável que pôde encontrar: um vestido lilás à moda qartena, de seio à mostra. Dany já não era mais menina, e seu corpo também não. Sentia-se grata por ter guardado aquele vestido. A seda de Qarth era tão fria e macia que, quando a vestia, parecia não estar vestindo nada.

Saiu do aposento para encontrar um mundo claro e sereno. O céu estava um azul cintilante, sem nuvens, e Dany via as ondas de calor subirem da água do mar. Poucas pessoas restavam no convés e a movimentação era pouca. Avistou dothrakis carregarem dois barris de água nos braços e descerem por uma escada. Os Imaculados, pensou Dany nos homens que remavam, lá embaixo. Eles também sentem calor. Devem sentir. Isso o treinamento de Astapor não os tirou.

Capitão Grunjar estava no extremo oposto do Rhaego, sozinho e de olhos fixos no mar. Então Dany lembrou-se de Sor Jorah. Por que, meu bom cavaleiro? Dany se perguntou. Logo em seguida, o pensamento a fez ficar com raiva. Jorah Mormont a tinha traído, tal como traíra sua Casa e as leis de Westeros havia tantos anos. Devia ter percebido isso antes, muito antes, lá em Pentos. Mas ela era apenas uma menina.

Às vezes Dany se lembrava do passado e as lágrimas chegavam sem pedir aos seus olhos violeta. Sentia-se tão culpada. Como uma carne podre atraí as moscas. E todos que provaram dessa carne já não vivem para dizer como é o gosto. As lágrimas de Dany rolaram pela madeira do navio e caíram na água salgada do mar. Viserys, Drogo, Rhaego... eu, eu os matei. A lembrança de uma garota lisena que tagarelava fez os olhos de Dany encherem-se novamente. Doreah. E tantos mais.

Só quando ficava sozinha Dany lembrava-se de Viserys. Ele era sua única família desde que se conhecia por gente. Será que a justificativa pode cobrir o ato? Dany nunca soube se o que fizera fora vingança ou justiça. Não queria parar para pensar. Fogo e sangue. Fogo e sangue.

Dany despertou de seu transe quando ouviu uma agitação estranha às suas costas. Limpou os olhos e as bochechas com a mão e virou-se para ver. Do outro lado do convés, um grupo de pessoas reunia-se em volta de algo que Dany não podia enxergar.

– O que é isso? – perguntou Dany curiosa quando se aproximou do grupo.

Rahkaro abriu espaço entre as pessoas e apontou para o chão com o arakh.

– Veja com seus olhos, Khaleesi.

Dany arregalou os olhos e soltou um grito de surpresa. O chão estava molhado sob um amontoado de redes de pesca. Dany notou que a água evaporava. Ali, entre as redes, estava uma dúzia de peixes cinzentos, mortos, com os olhos saltados para fora das órbitas.

Não precisou perguntar para compreender. Os peixes não eram maiores do que uma sandália e toda a sua cor tinha desaparecido. As escamas estavam brancas ou cinzentas, e havia feridas profundas pelo corpo. Um dos dothraki ali presentes cutucou o peixe maior e seu olho morto rolou para o meio da rede.

– O mar, Khaleesi. Está muito quente – disse-lhe Rakharo.

Dany virou-se para contemplar o Capitão Grunjar correr até entre eles, com sua barba mal-feita pingando suor. O homem tentou falar mas sua voz falhou, saindo uma tosse rouca e sem palavras. O Capitão olhou para Dany com olhos apavorados.

– Nós não estamos na Baía dos Escravos – ele disse, com dificuldade. – Este é o Mar Fumegante.

Notas finais
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