Still Alive

24 Sectumsempra


Severo Snape não era exatamente orgulhoso do seu passado. Havia sido Comensal da Morte, causara a morte da sua grande paixão, matara um dos maiores diretores de Hogwarts. E ainda havia aquele livro, aquele maldito livro que o pentelho Potter encontrara no sexto ano. As memórias que deu ao Harry foram seu ato de rendição, e depois disso, principalmente após conhecer Clarissa, o seu passado ficara para trás.

E o livro? bem, Snape achou que estava livre dele quando a Sala Precisa pegou fogo durante a Guerra de Hogwarts. Ouvira dizer que fora lá que o Potter o havia jogado. Havia uma certa poesia na forma como queimara, incinerando também os pecados do homem. Isso lhe dava alívio, saber que ninguém mais o leria, que ninguém mais saberia das coisas que ele próprio criara. Até porque, após anos, retornou para ser professor de lá. Mas estava enganado, e como estava.

Lis tinha cinco anos, faltava pouco para os seis. Era uma menina esperta e, por pura curiosidade e peraltice, já havia aprendido, sofregamente, a ler. Severo nem mais se preocupava em deixá-la com suas próprias experiências em um pequeno caldeirão em sua sala, pois deixava longe os ingredientes potencialmente perigosos. Suas risadas de criança soavam alegremente pelo aposento, deliciadas pelas reações. Um dia, em Maio, ele se lembrava bem, as risadas simplesmente não soaram, ela estava quieta demais.

Um livro estava apoiado no pedestal da mesa, como a partitura de um maestro, e ela examinava atenciosamente suas inscrições. Ele não podia acreditar. Conhecia aquele livro, cada linha daquela letra bagunçada que permeava as bordas das páginas com observações e instruções e rabiscos. Na capa, a inscrição Príncipe Mestiço confirmou seu medo. O objeto estava em sua mão antes que a garotinha sequer percebesse, e ela franziu a testa, chateada, para o pai.

— Não é para crianças — ele seguiu para a sala conjugada, seu escritório, sendo seguido pelos passinhos leves como uma corça, ela sempre fora silenciosa; lá, guardou o livro em um baú. Estava ao alcance dela, mas era a intenção. Se não estivesse, se tornaria ainda mais interessante. Ele se agachou, abrandando o tom de voz — É um livro de poções complicadas, você não vai entender ainda.

— Não tinha apenas poções, tinham.... Comentários — a pequena se demorou, tentando lembrar a pronúncia e significado da última palavra.

— Eu sei, mas pode ser perigoso. Você não está pronta ainda. No futuro, quem sabe, você poderá lê-lo.

A menina apenas assentiu e se virou, voltando às brincadeiras com um ar meio tristonho. Ele deveria queimar o livro, antes que mais alguém o achasse, mas não conseguiu. Confiná-lo ao baú era o máximo que conseguia fazer para conter as ideias tortas de um garoto perturbado que vivera nele há o que parecia uma vida.

Lis esqueceu, eventualmente, o episódio. Durante anos não mencionou uma palavra sequer sobre o misterioso livro. Depois da morte de Clarissa, quando Lis fez nove anos, eles decidiram que não conseguiam mais ficar em casa, e arrumaram juntos algumas malas expansíveis para que pudessem levar o que precisassem para onde forem, mas antes disso, fizeram o que eles chamaram de “faxina pós luto”.

Os dois juntaram tudo o que pertencia a ela: roupas, instrumentos de trabalho, acessórios, e guardaram em baús no sótão junto com os quadros de fotografia que antes decoravam cada centímetro da casa, exceto dois retratos com fotos dos três (um para ele, um para Lis), e dois anéis, o de noivado (que pertencia à família D’ Noir) e o de casamento. Lis usou o de noivado em um colar como ele, até que desse em seu dedo, anos mais tarde.

Quando terminaram com as coisas dela, começaram com suas próprias, e então, com os materiais de trabalho do Severo, que pediu a ajuda da filha para separar o que era necessário ou não. Ela era tão nova na época, não deveria se lembrar do livro, mas algo sobre ele, sobre a forma como a capa parecia contra suas mãos, a energia que ele emitia, ou o fato dela achar engraçado que um príncipe que não era legítimo o havia possuído. Ela simplesmente o reconheceu.

Por aqueles tempos, uma onda de acidentes escolares ocasionadas por um feitiço que causava cortes no corpo amedrontava os pais bruxos, que exigiram que o feitiço fosse tão punível quanto as Maldições Imperdoáveis. Severo não havia feito a ligação ainda, mas algo clicou em sua mente quando a filha apareceu com o livro. A menina, com certeza, aprendeu uma dúzia de palavrões novos naquela noite.

Então ele sentou-se com ela, e contou tudo. Severo contou como fora sua infância, como conhecera Lily Evans, e tudo o que ocorrera entre ele, ela e James Potter, explicou o que se tornara. Ela parecia encantada e assustada. Ele entendia o porquê, naquelas páginas havia uma forma extraordinária de fazer poções. Ele era muito bom nisso, nunca seguia as instruções à risca. Até que ela focou em um trecho: Sectumsempra: para usar em inimigos. O efeito era o mesmo do feitiço que causava problemas e aparecia nos jornais bruxos da época.

De alguma forma, havia sido divulgado, e para a sorte daquelas crianças, os medibruxos haviam descoberto uma forma de fechar os cortes, mas elas ficariam com cicatrizes horrendas para o resto da vida, para lembrá-las da dor. Havia um contra feitiço, mas somente Severo conhecia, e este quase não deixava marcas, se aplicado rápido o suficiente. Então ele a ensinou. Era longo, quase uma canção. Ele a fez repetir e repetir, até que ela o entoasse como uma canção de ninar, sabendo-o tão bem quanto as músicas que Clarissa cantava para ela quando viva. Ele esperava, com toda sinceridade, que ela não precisasse usá-lo, mas, de novo, ele se enganara.

O segundo ano de Lis fora difícil, e no Natal, a época que eles geralmente passavam juntos, ele recebeu um trabalho da Durmstrang. Uma poção de emergência, e ele era um dos únicos capaz de fazê-la. Pagariam bem pelo serviço, também. Não que ele necessitasse do dinheiro, Clarissa os deixara em posse de uma pequena fortuna, mas o dinheiro era mais da Lis que dele, e Severo preferia não usá-lo, então eram esses trabalhos que sustentavam o estilo de vida abastado deles, pois um emprego de professor não pagava tanto.

Claro que ele chamou a filha para acompanhá-lo, e claro, ela prontamente aceitou, usando suas habilidades de anos em viagens constantes para arrumar uma mala em cinco minutos. Se ela soubesse como seria, não estaria tão animada. A Durmstrang era uma escola terrível. Magia das Trevas era ensinada ao invés de combatida, e seus alunos pareciam trasgos. Grandes e corpulentos. Alguns eram até atraentes, mas não passavam disso. Muitos traziam o sadismo exposto em seus rostos.

O modo como olhavam para Lis era o pior. Ela tinha apenas doze, mas atraía o olhar de alguns do quarto ou quinto ano, era difícil saber, pois eles todos enormes. Era a garota mais bonita do lugar, já que as de lá eram quase tão corpulentas e duronas quanto os homens, e nada amigáveis, enquanto Lis crescia parecendo uma fada, ou uma princesa. O rosto e os gestos doces, mas ágeis. A magia veela despontando com a puberdade. Mas Snape não cometia o erro de achá-la frágil. Com aquela idade, ela já fazia muita confusão com algumas lâminas na mão.

Mas não apenas isso, a menina estava aprendendo a usar sua beleza como a arma que era. Todos faziam o que era queria se ela sorrisse e piscasse os olhinhos azuis. Uma verdadeira sonserina crescia dentro dela e, apesar de ter medo do que ela se tornaria, ele sabia que era necessário que ela descobrisse sozinha o que queria absorver ou não de todas as informações que recebia. Anos depois, ele se provou certo.

Mas, apesar disso, naquele ano, ele cometeu um erro: deixá-la sozinha naquele lugar. Aparentemente, alguns garotos vieram incomodá-la, e ela não precisou das armas que carregava na mala para se defender, sua língua veela e manipulação sonserina eram o bastante. Ele não sabia como, mas a garota conseguiu fazer com que os alunos brigassem entre si, e apenas cinco minutos foram necessários para a confusão estar feita.

Quando Snape chegou, ela estava ajoelhada diante de um garoto, as pernas mergulhadas em uma poça de sangue enquanto murmurava o contra-feitiço cantado para fechar as feridas no corpo do pobre garoto. Lágrimas desciam desesperadamente do rosto dela, mas Lis parecia serenamente calma, como se sua mente não estivesse lá naquele momento. Ele fora o único a tentar proteger e defendê-la, e por isso fora atingido.

Severo sabia que aquilo ficaria para sempre gravado em sua memória, e agradeceu aos céus por ter ensinado a ela o que fazer, pois não sabia o que aconteceria caso outra pessoa morresse aos pés dela ao tentar protegê-la.

Naquela noite, após receberem a notícia de que o garoto estava bem, Lis entrou correndo para o quarto que dividiam na suíte dedicada a eles naquele enorme castelo. A lareira estava sempre acesa, mesmo no verão, pois nunca parava de nevar ali; talvez por isso as pessoas fossem tão duras. Quando ela voltou, trazia o livro, tão apertado em suas mãos, que seus dedos dobravam a capa dura. As lágrimas desciam novamente em seu rosto, brilhantes como cristais.

Lis parou em frente ao fogo, as palavras Príncipe Mestiço refletiam a luz, e abriu sua capa. Rasgou as primeiras páginas com frieza, as próximas com raiva e então frustração, jogando cada uma para ser devorada pelas chamas. Terminou com a capa vazia, ajoelhada em frente à lareira, respirando pesado, então Severo se ajoelhou ao lado dela e lançou, também, a capa às labaredas. Então ambos se abraçaram e permaneceram olhando enquanto o fogo, faminto, devorava muito mais que simples folhas de papel.

***

O crepitar da lareira e o som do vento fazia a cabeça do Snape pender com o sono. Estava corrigindo atividades há horas, o que o fez sentir falta da filha e do afilhado, que corrigiram várias por ele durante o feriado. Suas vistas embaçavam por conta do cansaço, e da idade; Lis sempre dizia para ele procurar um oftalmologista, mas ele era orgulhoso demais. Ele estava rindo do pensamento quando um espectro prateado entrou atravessando as paredes.

Ele conhecia o patrono de sua filha tão bem quanto conhecia o próprio, então não demorou para identificá-lo. Os patronos podiam gravar a voz de quem o fazia para reproduzir mais tarde, se ordenados, e a voz de Lis parecia trêmula e fraca ao ecoar pela salinha.

— Pai… Ala norte… sexto andar… traga ajuda… por favor — as últimas palavras saíram quase em sussurro.

Para emergências como aquela que os professores dividiam o mesmo corredor, e logo Snape estava subindo para o sexto andar com Minerva e Flitwick no encalço.

— No que essa menina se meteu dessa vez? — ele ouviu o professor de feitiços comentar. Mas ele sabia que não fora culpa dela. Por mais que se arriscasse e fosse meio maluquinha, ela nunca arranjava problemas que não pudesse, ela mesma, resolver. Era seu limite. Mesmo com o dragão, no ano anterior, ela tinha tudo sob controle.

Ele freou bruscamente quando viu a cena. Havia muito sangue, mais do que daquela vez em Durmstrang, e ela estava apagada, deitada no peito do James. Os olhos de ambos estavam fechados, mas ele estava respirando e os professores se adiantando para separá-los foi o suficiente para acordá-la.

— Não, não… A Rose, ela… foi levada. Ajudem-na. A Rose… — Minerva arregalou os olhos, todos sabiam o que aquilo significava, e tudo o que ouvimos foi o eco dos seus sapatos enquanto corria e berrava por seu patrono, mandando fechar todas as saídas.

Lis olhou para Severo, e eles conversaram daquela forma não falada. Nenhum dos dois acreditava que ela pudesse ser encontrada. O rosto dela estava marcado por lágrimas secas, ele podia imaginar o quanto ela havia chorado pelo namorado. E então, ela apagou novamente.

— Eu a carrego — ele disse — levite o garoto, você é melhor nisso.

— Mas ele está sangrando — a voz de Flitwick era trêmula e aguda.

— Se eu conheço bem minha filha, não está mais. Leve-o para a enfermaria, para que a Sra. Longbottom possa fortalecê-lo, ou ele vai morrer por falta de sangue.

Snape carregou a filha, como não fazia há muitos anos. A cabeça dela pendeu em seu ombro. Ela tremia, de frio e esgotamento. O outro professor já levitava o garoto, e já seguia com seus passos de meio duende para a enfermaria; Snape foi logo atrás.

Snape odiava a enfermaria. Passara um bom tempo lá quando criança, acompanhado do menino Lupin, que sempre aparecia nas luas cheias, cheio de cortes e hematomas, parecendo que não dormia há dias. A enfermeira, Ana Longbottom, antigamente Ana Abbott, fora sua aluna junto com o trio de ouro, e era mais uma que desconfiava dele, mas era completamente profissional. Ministrou prontamente uma poção que aceleraria a reposição de sangue do Jame, e uma que o nutriria, então ordenou a uma das enfermeiras que trocasse as vestes ensanguentada antes de se virar para Lis, preocupada.

— Ela parece muito fraca, mas não há sinal de ferimentos, o que houve?

— É o contra-feitiço para o que atingiu James — ele explicou — quanto mais tempo para aplicá-lo, mais energia ele requer para curar. Uma vida pela outra, é como dizem.

Ela apenas assentiu e também trocou as roupas da ruiva por uma camisola hospitalar, então a envolveu em uma manta térmica e lhe deu vitaminas.

— Ela vai ficar bem, e o garoto também; ao que parece, graças a ela. Se perdesse um pouco mais de sangue, morreria. Ela deve levar algumas horas para acordar, e vou deixá-la aqui por um dia para observação.

— Sim, claro. Eu… preciso achar Minerva.

— Claro, nós cuidamos deles, não se preocupe.

Os professores procuraram por todo o castelo, pela floresta e em Hogsmead. Nada da Rose, e nada do Hugo também. Aparentemente, ele havia sumido algumas horas antes, mas Lily achava que ele estivesse na biblioteca, ou dormindo, algo assim, e agora se encontrava aos prantos ao lado de Escórpio e Alvo. Os irmãos Weasley haviam desaparecido de Hogwarts, onde eles deveriam estar seguros. Hermione e Rony foram informados, e logo, apareceram na lareira da diretoria.

— Minha filha, o que você fez com minha filha? — o Weasley veio para cima do Severo, mas Prof. Longbottom o parou.

— A culpa não é dele, Rony. A filha dele foi atingida, também.

— Mas não foi levada, foi? Ela é francesa, como sabe que…

— Olha aqui — Severo o interrompeu — Eu sei que você me odeia, te dei motivos para isso, mas não coloque minha filha no meio. Ela não tem nada a ver com o desaparecimento da Rose. Ela viu sua filha ser levada, ela nos avisou.

— Certo… — ele pareceu se acalmar, a razão tomando conta da raiva — mas e todos esses franceses na escola? Já verificaram se algum deles também sumiu?

— O senhor está certo, Sr. Weasley — a voz de Mcgonagall era branda — não imaginamos que algum deles possa fazer isso, mas mandarei verificar se todos estão na escola. Prof. Arynn, pode ir checar isso para mim, por favor?

A mulher pequena de cabelos curtos anuiu e saiu em silêncio apressado da sala, enquanto Minerva fazia um gesto para que o casal se sentasse. Hermione estava lívida, as lágrimas escorriam em seu rosto enquanto ela soluçava entre palavras.

— A culpa é minha — soluço — passamos tanto tempo — soluço — focando na segurança das bases — soluço — nunca — soluço — imaginamos — soluço — que Hogwarts — ela desabou, chorando no ombro do marido

— Nenhum de nós imaginou, querida… — Minerva era bem maternal quando queria — Não se preocupe, nós vamos achá-la. Harry já está atrás de recursos, não está? Eu sei que sim — ela assentiu e virou para Severo.

— Snape… — enxugou as lágrimas — Sua filha não viu algo que pudesse identificar quem fez isso?

— Eu ainda não sei, Sra. Weasley. Lis ainda não acordou, nem o James. Não há como saber.

— Sim… e como ele está? Gina e Harry não conseguiram vir imediatamente. Ela está muito preocupada.

— Ele vai ficar bem, mas imagino que passará alguns dias apagado, pois perdeu muito sangue — seu coração pesava ao lembrar da quantidade que havia no chão quando os encontrara — Mas vai viver, felizmente.

— Achei que não gostasse dos Potters, Snape — o ruivo arranhou.

— Achei que estava cansado de trocar farpas, Weasley. Sabe muito bem que minha filha é a melhor amiga do Alvo e… ela gosta muito do James. Além do mais, ele é um dos meus melhores alunos, seria uma grande perda, caso acontecesse algo.

— Com o que ele foi atingido, Severo?

— Sectumsempra, McGonagall, aquele que deu trabalho para alguns diretores há alguns anos — Hermione o olhou, assustada. Ela sabia que havia sido ele a inventá-lo.

— Sim, sim, claro. Ainda bem que sua filha sabia um contra-feitiço. Com o tempo que levamos para achá-los, James já não estaria mais entre nós.

— Sim… direi isso a ela — a diretora deu um sorriso fraco e levantou. A professora Arynn entrou, devagar, pela porta.

— Minha senhora… Nenhum dos alunos ficou fora de vista. Estavam todos nos corredores principais, biblioteca ou em seus quartos; checamos um por um; todos tem testemunhas para confirmar.

— Ótimo, obrigada Prof. Arynn — ela se voltou para o casal — falem com o Sr. Potter para vir e recolher informações quando puder, voltem para suas casas. E Severo — “sim?” — fique com sua filha, esteja lá quando ela acordar. Ela vai precisar de você.

***

Já estava quase amanhecendo quando Lis acordou, lentamente, deslizando a mão para a do pai, que repousava na cama dela. Seus olhos piscaram para se ajustar à luz clara demais da enfermaria. Eles pelo menos deveriam tê-las apagado, para que os pacientes dormissem melhor.

— James… — sua voz ainda estava rouca, e Severo deu a ela um copo de água enquanto a ajudava a se sentar.

— Ele está bem, querida, você conseguiu.

— Rose? — dessa vez, a pergunta foi pequena por medo da resposta.

— Não… — ele abaixou o olhar — não a encontraram. Você lembra de alguma coisa?
A cabeça de Lis doía, e ela esfregou o ponto entre os olhos com o indicador.

— Não muito… Estava escuro e ele se aproximou, acho que vi os olhos dele, mas… não lembro a cor, e não me recordo de muita coisa a partir daí, só dele carregando a Rose embora e do James no chão.

— Certeza?
— É, eu… sinto que tem algo para lembrar, mas não consigo.

Ela pareceu afundar de frustração nos travesseiros e inclinou a cabeça para olhar o james na cama ao lado, com uma expressão triste.

— Ele vai demorar alguns dias para acordar.

— Eu sei.

— E vai sentir dor por um tempo.

— É, eu também sei disso — ela se virou novamente, encarando o teto — Vou ficar de observação, não vou?

— Na mosca — ela fez uma careta.

— Não fale assim. Bem, isso quer dizer que vou ter tempo antes de ter que dar o depoimento.

— Sim, o que vai fazer com ele?

— Dormir. E comer. Não necessariamente nessa ordem.

— O que quer que eu traga?

— Qualquer coisa. Com bastante açúcar, e que seja quente.

— Vou trazer uma sopa.
— Não tem açúcar.

— Por isso mesmo — ela revirou os olhos, mas apenas se virou na maca e fechou os olhos, voltando a dormir.

Harry Potter chegou às 10:17 do dia seguinte. Lis sabia pois não parava de olhar para o relógio. Ele perguntou coisas para enfermeira, e a garota apenas fingia que não ouvia. Depois do café da manhã, pedira à Sra. Longbottom para tomar um banho, pois ainda conseguia sentir o sangue grudado em sua pele. Não que fosse novidade, já lidara com as mãos sujas da vida de alguém antes; talvez fosse difícil lidar com o fato de ter sido o James, mas o sangue? Ela superaria bem rápido.

O Chefe do Departamento de Aurores assumiu uma postura profissional às 10:35, e fez todas as perguntas de praxe para ela, mas Lis não se lembrava de muito mais do que dissera ao pai na noite anterior. Ela descreveu todos os acontecimentos, mas nada servia se ela não tivesse visto o rosto ou alguma característica de quem fizera aquilo.

— Você sabe que foi seu pai quem criou o feitiço com o qual James foi atingido, não sabe? — ele não parecia acusador, apenas desconfiado

— Sei — ele provavelmente esperava uma negativa, pois suas sobrancelhas sumiram debaixo do cabelo tão parecido com o de James — Quem você acha que me ensinou o contra-feitiço?

— Entendo…

— Se está pensando em colocá-lo na sua lista, desista — sua voz estava fraca demais para parecer desrespeito — Meu pai adora o James… Apesar de tudo. E nunca faria nada a favor dos franceses, já que comprou sua inimizade ao se casar com minha mãe.

— Certo… — ele prosseguiu com alguns outros questionamentos, mais coisa inútil, e logo a deixou sozinha novamente.

Já era tarde da noite quando a Sra. Longbottom a liberou da enfermaria. Lis checou James, sua temperatura e pulso, e lhe deu um beijo na testa antes de sair. De pé, em frente à porta fechada e no corredor escuro, ela ponderou onde iria. O quarto de seu pai era fácil e cômodo, mas havia uma pessoa com quem ela precisava conversar.

Ele estaria acordado, quando todos os outros estavam dormindo, ela sabia. Lis o encontrou em sua cama, apenas com um short de dormir, o peito pálido exposto por cima dos lençóis sonserinos. Ela fechou as cortinas do dossel e sentou de pernas cruzadas ao pé da cama; ele, encarando-a.

— Como você está? — a voz suave da ruiva cortou o silêncio.

— Eu é quem deveria perguntar. Não é o meu namorado que está inconsciente na enfermaria — sua voz não era dura, apenas desanimada.

— Mas a sua está desaparecida.

— Ela não é minha namorada… oficialmente.

Lis pediu espaço com um gesto e ele recuou, deixando-a deitar ao seu lado, virada de frente pra ele.

— Sinto muito…

— Não sinta… não.. se culpe, não por salvá-lo, não por estar viva e bem — ele a abraçou, como fazia nas noites que ela tinha pesadelos e fugia para a cama dele quando eram mais novos, mexendo no seu cabelo e fazendo círculos em suas costas.

Lágrimas rolaram no rosto dela, e um soluço lhe escapou dos lábios.

— Nunca te ocorreu, não é? — ele sussurrou — que meu maior pânico tenha sido ver você, ensanguentada, naquela cama. Eu sou apaixonado pela Rose, mas você é minha irmã; não sinta por estar comigo ainda, Lis. Eles vão encontrar a Rose, eu sei que vão, mas não poderiam fazer nada se algo tivesse acontecido a você. Eu certamente agradeço muito por você estar bem.

Nenhum dos dois dormiu, mas permaneceram abraçados por toda noite.