Still Alive

41 Quer se juntar à festa?


Ela tentou. Merlin sabe que ela tentou. Tentou pela manhã, sob o escrutínio do olhar de seu avô, e diversas vezes enquanto as criadas a lavavam, esfoliavam, e depilavam seus únicos pelos restantes. Mas somente pensar no motivo para toda aquela preparação fazia seu estômago rejeitar tudo o que não fosse água ou algum eventual chá ou suco de abóbora. Na hora do almoço, apenas encarava o prato que lhe serviram até ouvir a cadeira do seu avô se arrastar ruidosamente no chão de linóleo.

— Tá bom. Chega — ele saiu fazendo barulho e batendo a porta, mas ela estava se sentindo tão apática que nem se assustou.

Lis empurrou o prato e, já sentindo a tremedeira a tomar pela terceira vez naquela manhã, apoiou os braços na mesa, e a cabeça nos braços. Se sentia fraca e trêmula, o que podia se dever à fome ou ao ataque de pânico que ela vinha ameaçando atingir desde que acordara. Tentando controlar a respiração, mal ouviu a porta bater de novo, e o frasco que foi colocado na mesa, ao lado de sua cabeça.

— Uma poção nutritiva — ela inclinou o rosto para olhar o avô, que já estava sentado — beba. Independente do que aconteça hoje, você não pode desmaiar na porcaria da cerimônia — ela assentiu levemente, olhando para o copo, e ele pôs um menor ao lado do primeiro — um calmante. Três gotas. Dilua no chá. Vamos!

Aquela ordem a eletrizou, e Lis se endireitou na cadeira, levando a mão ao copo, que tinha o tamanho do copo de um suco. A poção parecia um suco também, ou uma vitamina, os sabores de vários ingredientes e e ervas misturados ao toque metálico da magia que transformava a mistura em algo mais. Ela se sentiu estranhamente alerta e satisfeita depois daquilo, e chegou à conclusão de que o tremor em suas mãos não era de fome, pois não haviam cessado.

Ainda assim, não arriscaria uma xícara de chá. Deixaria o estômago lidar com a poção primeiro. Então tentou se controlar com os exercícios de respiração. Quando conseguiu, mais ou menos, resolveu tentar manter uma conversa com o avô.

— Meu pai respondeu à carta? — o senhor a olhou com preocupação, e negou com a cabeça.

— Só chegou ontem, muito provavelmente — ela assentiu, tentando não deixar a ansiedade tomar conta — Eu preciso descer, checar os protocolos de segurança. Você vai ficar bem?

A resposta de verdade era "não", mas ela assentiu e observou o avô deixar o quarto, sendo substituído pelas criadas que traziam seu vestido pela porta aberta. Estava na hora.

Em qualquer outra ocasião, teria babado por aquele vestido. O tecido prateado brilhava em contraste com as flores lilases e ramas verde escuro. O busto florido desaguava em uma cintura sem corset, e a saia de dezenas de camadas sustentava a forma rodada sem precisar de uma armação. No entanto, ela queria rasgar cada flor com as unhas, e teve de se desligar para permitir que as mulheres a vestissem.

Seu cabelo foi decorado com presilhas de brilhantes, seus braços e dedos, com correntes e jóias. As únicas coisas de que não abriu mão foram o colar de James — embora as criadas reclamassem que a cor preta distoasse do conjunto — e o anel da família. A pulseira que Escórpio lhe dera já estava longe, mesmo.

Na noite anterior, havia conseguido uma caixa, e naquela manhã pedira que seu avô enviasse a capa da invisibilidade por correio coruja. Não importava como aquele dia acabasse, James teria de volta sua preciosa capa em alguns dias.

Lis deixou que a maquiassem — mais forte do que ela gostaria — e cobrissem os sintomas de suas crises com feitiços e cosméticos. Não demorou muito para precisar do chá com calmante, e sentiu a letargia da poção tomar sua mente. Pelo menos não ia ter que lidar com os pensamentos. E pelo menos não havia cedido à tentação de tomar mais que três gotas, pois mais que aquilo a tornaria inútil.

A cerimônia comecaria às duas horas, e quando a organizadora do evento abriu a porta para verificar como ela estava e avisar que já deveriam descer, Lis agradeceu por não ter almoçado. A mulher verificou cada detalhe, estalando a língua, mas pareceu satisfeita com tudo, exceto uma coisa.

— Sorria, menina! Parece que está indo para um enterro — Lis puxou o canto dos lábios, em uma tentativa falha — Mais, mostre seus dentes lindos — Lis mostrou os dentes, e ela teve certeza de que pareceu uma fera rosnando, pois a mulher arregalou os olhos — Não, não. Tudo bem, não precisa sorrir.

Graças a Merlin.

A mulher era atarracada, mais baixa que a ruiva, e gordinha, com um gênio forte quando deu as últimas ordens às criadas e a enxotou para fora do quarto, escoltada por dois soldados D'Noir. Todos eles estavam de sobreaviso, aparentemente, pois pareciam olhar dela para os lados, como se alguém fosse sequestrá-la antes da cerimônia. Ela tinha a leve impressão de que eles permitiriam, caso alguém tentasse. A quem estava tentando enganar? Ela ficaria mais que satisfeita se o fizessem.

Depois de cinco minutos, ela se arrependeu de não ter tomado mais do calmante. Já começava a tremer de novo. E a hiperventilar. Os degraus pareciam girar debaixo de si, e ela não tinha certeza de que não cairia. Na verdade, ela tinha certeza de que o chão estava ficando perto demais. E então alguém a segurou pelo braço, e a puxou envolvendo-a.

Ela conhecia aquele abraço, e quase chorou ao sentir os cabelos lisos de seu pai nas mãos trêmulas. Ele acariciava a parte nua de suas costas em ritmo constante, o ritmo que ela precisava respirar para se acalmar.

— Eu estou aqui. Está tudo bem. Estou aqui.

— Ei! Você vai amassar seu vestido! E o cabelo! Por Merlin!

Mas os dois ignoraram o chilique da mulher. Pela primeira vez em dias, ela se sentiu segura, e Severo sentia a filha tremendo em seus braços. Não iria soltá-la até que ela se sentisse melhor.

— Quem é você, Monsieur?

— Sou o pai dela, e não importa o que quer que você tenha planejado, eu entrarei com ela.

Ele ainda não havia tirado o braço da cintura dela, e Lis não podia ser mais grata. Não tinha muita certeza de que se manteria em pé, ainda. A mulher deu de ombros.

— Contanto que ela entre — Lis sentiu uma súbita vontade de gargalhar, precisando pressionar os lábios para não o fazer, e a mulher deve ter tomado seu ataque histérico como um sinal de melhor humor, pois mandou chamarem Kaleen para que pudessem entrar.

A morena estava linda, com um vestido em tons pasteis e um buquê mais simples que o da ruiva. Ela seria uma espécie de Dama de Honra, e Lis havia feito a escolha para que não pudessem tirar a garota de seu campo de visão, caso algo desse muito errado. A presença de seu pai ali só a fez agradecer por aquela decisão, já que os olhos dele lhe diziam que algo iria acontecer.

Enfim, as portas abriram, e Lis teve um vislumbre da quantidade de pessoas que haviam ali. Crianças em roupas pomposas, parecendo embrulhos de presentes; mulheres cheias de jóias e ansiosas para ver a noiva; homens aparentando enfado, cuja presença ali era puramente por motivos políticos.

O salão era enorme. Ela precisaria andar muito para chegar até o altar, onde já via um mestre de cerimônia e Nikolai aguardando-a. Guardas por todos os lados, negros e roxos. Quase seiscentas pessoas em um lugar só. Ela não sabia quem eram as menininhas vestidas de daminhas, nem quem ocupava os lugares dos padrinhos.

Severo apoiou a mão dela em seu braço, com um olhar significativo, e Lis reservou um último olhar para a garota atrás de si, sabendo que ambas estavam além de sorrisos naquele momento. Assentindo com a cabeça, entrou. A única coisa que a mantinha na realidade era o pai ao seu lado.

Ela via tudo com clareza demais: Nikolai com um sorriso no rosto, Cormand perto demais do altar, com a esposa dourada ao lado (ela chamava mais atenção que a própria Lis), os guardas do avô alertas, os guardas Pelletier entediados, cada passo mais perto, até que conseguia ver os pontos pretos nos olhos dourados de seu noivo.

Um último olhar para seu pai, e sua mão saiu da dele para o rapaz à sua frente. E foi quando o inferno se abriu.

***

— Tem certeza de que isso vai funcionar, menina? — a voz da mulher era baixa enquanto a comissão de quatro pessoas que incluia Lily, Scorp, Tivan (um dos homens de Carlo) e Annelise — que agora encarava a ruiva mais nova com desconfiança.

Lily carregava na mão um saquinho que recebera naquela manhã. Graças a Merlin, Lorcan tinha conseguido enviar a tempo, pois facilitaria muito a vida deles. Era uma espécie de poção do sono desitratada, e apagaria qualquer pessoa que o respirasse, além de fazer uma fumaça e tanto.

— Vai funcionar, meu namorado é um gênio — ela deu um sorriso travesso, e o grupo chegou à saída que levava ao corredor onde encontrariam Rose e Hugo.

Carlo havia feito eles decorarem cada pedaço daquele lugar, e Lily achava que conseguia andar naqueles túneis de olhos fechados. Não que andar de olhos abertos fizesse muita diferença naquele breu. Lily ajeitou o dispositivo em suas mãos, ligou o temporizador elogiando mentalmente Lorcan e sua inteligência e o jogou como uma granada pela fresta que Scorp tinha aberto na passagem.

5... 4... 3... 2...

O barulho de duas pessoas caindo junto com armaduras e armas foi sinal suficiente. Com um pano cobrindo o nariz e a boca, o grupo saiu, encontrando o corredor vazio e dois guardas Pelletier caídos no chão. O aparelho ainda soltava a fumaça, caso alguém mais aparecesse.

Estavam evitando usar a varinha graças à possibilidade da magia ser rastreada, e a tranca foi aberta da maneira trouxa, todos com as espadas em punho, prontos para alguma guarda interna. Eles não esperavam aquilo, no entanto. Os franceses se encararam incrédulos e então olharam para o quarto completamente vazio.

— Onde infernos estão eles?

***

James não conseguiu dormir aquela noite, não quando aquela sensação comprimia seus ossos, aquele sentimento de que algo ia acontecer, reforçado pelo aparecimento súbito da última pessoa que ele esperava ver. Sempre que fechava os olhos, a via de novo, e de novo, e revivia cada palavra e olhar, e tudo fazia ainda menos sentido. Havia algo errado consigo mesmo, sempre que pensava muito naquilo, sua cabeça latejava como se alguém enfiasse agulhas em seu cérebro, e ele desistia de elaborar suas teorias.

Sua resignação foi desafiada naquela manhã, no entanto, quando o Conde D'Noir não apareceu para verificá-lo, como fazia todos os dias. Aquela quebra da rotina foi a primeira de muitas naquele dia. O café da manhã não veio na hora de sempre, o soldado Jean não estava lá, e havia aquilo no ar. James queria muito estar imaginando coisas.

Um som de espadas e metal se chocando o alarmou, tirando-o do torpor que tomara sua mente. Não queria nem imaginar quem infernos enfrentaria os guardas do Conde; quer quer que fosse, não era coisa boa. Houve um silêncio logo após o ruído que pareceu muito com dois corpos atingindo o chão, e então uma torrente de xingamentos em francês vindos de uma voz que ele achou já ter ouvido em algum lugar.

— Quem são esses idiotas? — uma voz mais grave respondeu em um francês ligeiro, que James não conseguiu traduzir.

Então eles entraram: os dois guardas e mais dois homens; um loiro e alto, que James achou curiosamente familiar, mas olhar para ele lhe dava dor de cabeça, então apenas olhou para o segundo. Tinha os cabelos negros, era alto e forte e estava no auge dos trinta e... E James conhecia aqueles olhos azuis.

— Quem são vocês? O que está acontecendo?

— Carlo D'Noir, ao seu dispor — o homem deu um sorriso idêntico ao da Lis — E isso é uma operação de resgate. Está disposto a sair daqui?

Ilustrando suas últimas palavras, abriu a porta da cela. James nem havia se recuperado da constatação de que aquele era o tio da Lis. A semelhança com o Conde era assustadora, era como voltar no tempo e vê-lo uma geração mais jovem, à excessão da cor dos olhos.

— Carlo — o outro falou, aparentando certo nervosismo. Ele ainda encarava James com um olhar estranho — Nós precisamos nos apressar. Não temos tempo.

Os quatro começaram a sair da antecâmara, e o Potter não viu outra opção que não segui-los. Não iria ficar calado, no entanto.

— Minha varinha. Eles a tiraram de mim.

— Deve estar com meu pai.

— Não vou subir sem uma varinha — um dos guardas o olhou divertido, e então o grupo deu de cara com dois corpos caídos no chão — Quem são...? Estão mortos?

— Não — foi um guarda mais novo que respondeu; poderia ser dois anos mais velho que James — Não faço ideia de quem são, mas... — ele vasculhou as vestes de um dos homens — aqui está, uma varinha.

Os outros se ocuparam em pegar a varinha do outro, e as espadas e adagas, então os arrastaram para dentro, trancando-os com o portão pesado. Foi então que James ouviu o barulho. Parecia uma explosão. E então, os gritos.

— O que-

— Carlo! Temos que ir, agora!

O homem concordou, e James apenas seguiu os quatro, que corriam em urgência. O barulho aparentemente era algum sinal para eles, mas o Potter não tinha certeza se queria saber o que estava acontecendo ali. Com sorte, colocariam aquela porcaria de castelo abaixo.

Ele não entendeu o que houve. Em um segundo estavam correndo por corredores que ele percebeu serem secretos, e então, os dois líderes pararam, de vez, sem dar aviso, provocando uma espécie de colisão coletiva. O loiro olhou de um lado para o outro.

— Aaron... Eles já deviam estar aqui.

— Eu sei. Será que devemos-

James nunca soube o que ele estava prestes a sugerir, pois um grito ecoou pelas paredes de pedra. "Rose, não!" Os dois homens se olharam e o grupo correu na direção do som. James não estava preparado para o que viu ali.

Seu cérebro absorveu rápido demais os dois homens armados de varinha em uma mão e espada na outra enquanto lutavam com um homem, uma mulher, Escórpio e Lily. Rose e Hugo estavam em uma espécie de cabo de guerra, sendo disputados pelos dois grupos.

Aparentemente cansada daquilo, Rose tentou bater em um dos seus captores, e roubar sua varinha, mas o outro viu aquilo e lançou um feitiço que devia atingí-la. Aquele momento passou em câmera lenta; James viu, sem poder intervir, Escórpio se pondo na frente dela. Depois disso, ele só viu o amigo cair desacordado no chão, e ouviu os gritos de Rose e Lily enquanto ele lançava as próprias azarações e corria na direção delas junto com os outros.

Os dois homens já estavam no chão, nocauteados por uma overdose de feitiços, quando ele se aproximou. Ele deu uma boa olhada em seus primos. Rose tinha as roupas gastas e rasgadas, os cabelos bagunçados, e alguns cortes; Hugo parecia ter levado uma surra, com certeza já havia visto dias melhores, mas ambos pareciam bem. O Malfoy, no entanto, estava no chão, tão apagado quanto os outros dois homens.

— Scorp!

Rose ajoelhou ao lado do loiro, os olhos castanhos arregalados enquanto tentava descobrir o que ele tinha, se estava bem. Carlo se aproximou, e James pôde jurar que viu a prima rosnar, não permitindo que o homem tocasse no rapaz.

— Tudo bem, Rose. Ele está com a gente — foi Lily quem falou, dividida entre abraçar o primo e olhar preocupada para o amigo.

Carlo inspecionou o loiro, tocando seu pescoço e o peito, mas seu rosto não estava muito preocupado.

— Estuporado, eu acho, mas vai ficar bem. Annelise, levite ele e leve-o para a base. É melhor que algum curandeiro o acorde, não sei bem as consequências do feitiço que o atingiu.

A mulher que estava no grupo apenas assentiu, e foi gentilmente conversar com Rose para poder levitar o garoto.

— Acho que esses são os homens que Nikolai contratou — Lily sugeriu enquanto se aproximava do irmão, e compreensão misturada a certa admiração passou pelo rosto dos três homens presentes.

— Está bem, Hugo? — Seu primo concordou, um pouco pálido, sem proferir uma palavra antes de tentar consolar a irmã, que ainda parecia apavorada com a imagem do loiro desmaiado.

Lily abraçava James como se não fosse soltá-lo nunca ao mesmo tempo que ouvia as ordens que o D'Noir emitia. Pareciam fazer algum sentido para ela, pois no final ela concordou e segurou James pelo braço, tentando levá-lo para a saída, mas ele olhava para os dois homens, que não pareciam vir com o grupo.

— Ei, onde vocês vão? — o loiro bufou, impaciente, mas Carlo respondeu, sério.

— Buscar a Lis.

— Eu vou junto — sua voz disse antes que ele conseguisse pensar — Me arranje uma espada, eu vou.

— Quem te treinou, garoto? — o tal de Aaron perguntou.

— A Lis.

A resposta pareceu suficiente para o tio da menina, que lhe lançou uma espada. Para o crédito do Potter, a base da lâmina não escorregou nem um centímetro em seu aperto firme. A dupla girou nos calcanhares, tomando um dos túneis da passagem secreta.

— Toma cuidado, Jay — Lily lhe deu um beijo antes de seguir com o outro grupo.

James correu atrás dos dois. As passagens se tornaram escadas, e os dias parado começaram a ter seu peso. Aparentemente, eles estavam em um andar subterrâneo e, qualquer que fosse seu destino, era bem acima do chão. Finalmente, quando estava achando que os corredores eram infinitos, os homens pararam.

— O que é que está acontecendo? — ele se assustou ao ouvir o caos por detrás da porta que os homens indicaram.

— Ah, nada não — o sarcasmo escorreu na voz de Carlo, fazendo James se lembrar de Lis, de novo — Só estamos estragando um casamento. Quer se juntar à festa?