Still Alive
31 Não vai ler?
James ainda estava surpreso pelo que acontecera na noite anterior. Não esperava aquilo, principalmente sendo iniciativa dela. Tudo bem que a tensão entre eles era quase palpável desde o natal, mas ele sabia que ela nunca havia feito aquilo antes. Sabia que, por trás da fachada sem pudor da menina que tirou a roupa em sua frente sem se importar com nada, havia insegurança sobre aquilo, ou ela teria feito muito antes, não haveria parado tantos caras, como ele sabia que ela parara.
No entanto, lá estava ela, deixando tudo preparado para os dois, desde a camisola branca ao cheiro de rosas que arrebatara James assim que ela se aproximou. Ele não teve chance, estava nas mãos dela, para fazer o que ela quisesse, para adorar seu corpo com cada toque sem pensar duas vezes nos motivos dela. Sem pensar uma vez sequer, na verdade.
James espantou os pensamentos enquanto atirava outro balde de água fria na cabeça. Merlin, aquela garota o enlouquecia. Para completar, Lis não o acordou como de costume. O lado dela da cama já estava frio, e o sol já estava alto quando ele despertou de um sono que não tinha há semanas. Fazer amor com ele durante boa parte da noite e então deixá-lo acordar sozinho, lamentando não tê-la, não poder abraçar a cintura fina e os seios fartos quando acordasse. Tão Lis.
Ao olhar o relógio, James não se surpreendeu pela cozinha da casa estar completamente vazia: eram quase onze horas, ele dormira demais. Talvez achassem que ele estava cansado pela caminhada e tivessem deixado ele ficar na cama até mais tarde. Na mesa, havia um café da manhã já frio, mas ele serviu um prato com os pães e bolos divinos da Marie e um copo de leite com mel.
Por algum motivo, ele estava inquieto desde que acordara. Sabia que era idiotice, mas não conseguia deixar de sentir uma sensação de que havia alguma coisa errada, como se ele tivesse deixado passar algo. Do lado de fora, seus amigos conversavam, Louise ria, mas as vozes se sobrepunham demais para que ele pudesse encontrar a de Lis e focar nela para se acalmar. Precisava conversar com ela, ver os próximos passos do grupo. Com certeza, o plano dela não se resumia a ficar em uma fazenda isolada e protegida.
Pretendendo aliviar sua ansiedade, começou a andar pela casa, um pedaço de bolo ainda na mão. Na pequena sala de estar, se deparou com duas fotos bruxas, que o fizeram ficar confuso. Na primeira foto, o Prof. Snape e um homem negro, alto e forte, alternavam entre si uma bebezinha que mal havia aprendido a andar, pois suas perninhas gordas venciam o espaço entre os homens ainda cambaleantes. Às vezes ela caía sentada e ria antes de levantar e continuar o caminho para um dos dois, alegre.
James não conhecia o casal quase idoso que ria na segunda foto, mas sabia quem era a ruiva com eles. Era a cópia de Lis, mas mais velha e sorridente. Os três brincavam com uma Lis de dois anos que entrava e saía da foto, rindo das tentativas infrutíferas dos adultos de pegá-la. Por que aquelas fotos estavam ali? James tentou lembrar do que Lis havia dito sobre ter nascido no Condado D'Noir. Ele sempre assumira que havia sido no castelo do avô dela, mas…
— Oh, que bom que acordou!
James deu um salto, de susto, mas era apenas Marie. James demorou um pouco para registrar o francês.
— Já tomou café da manhã? — ele assentiu — Ótimo. Então... Será que poderia me ajudar com algumas coisas? Eu mobilizei o pessoal para a colheita e sem o Jean aqui…
— Claro que posso — ela havia acolhido eles e oferecido abrigo. Era o mínimo que poderia fazer.
Ele queria perguntar da Lis, mas provavelmente ela também estaria ajudando. Além do mais, Marie disse que eles almoçariam todos juntos, em breve. Ela explicou como limpar as cocheiras dos animais nos estábulos e pediu ajuda dele para levar as sacas de ração e alimentá-los, então, deixou-o sozinho, avisando que faria o almoço.
Era até divertido cuidar daqueles animais, as ovelhas eram dóceis, os cães, bem treinados, e os cavalos eram os mais belos que já havia visto. Haviam dois espaços vazios quando chegou aos coches dos equinos, mas pareciam terem sido usados recentemente. Por algum motivo, aquilo o intrigou, mas ele logo concluiu que deveriam estar com os trabalhadores da fazenda, ou com o Jean, no castelo Pelletier. O trabalho durou pouco mais de uma hora, mas ele nem reparou.
— Jay — Merlin, as pessoa precisavam parar de assustá-lo daquele jeito. Daquela vez, era o Malfoy — Nós vamos... Estranho…
Ele franziu as sobrancelhas e olhou ao redor. James imitou o gesto, sem entender.
— O quê?
— A Lis não está com você? — que tipo de brincadeira era aquela?
— Não. Ela está com vocês — Malfoy balançou a cabeça, começando a parecer assustado — ela não estava trabalhando com vocês, lá fora?
— Eu e Lily deixamos vocês dormirem em paz. Quando Marie disse que você estava aqui, imaginei que estaria com ela.
— Lis já havia levantado há muito tempo quando eu acordei — James largou a vassoura de piaçava que segurava e os dois correram para a casa. Algo estava terrivelmente errado.
Scorp parou na cozinha, para perguntar às meninas, mas James subiu em disparada a escada, encontrando a cama já arrumada e reparando em algo que não havia, momentos antes: a mochila dela não estava lá; os sacos de dormir e outras coisas estavam no canto do quarto, mas não havia nada que fosse dela. Antes que saísse do quarto, desesperado, algo chamou sua atenção: um papel dobrado formando uma cabaninha na penteadeira, escrito James.
— Não... — ele murmurou — droga, droga, droga. Lis... Por favor, não — ele sentia lágrimas de medo pinicarem seus olhos enquanto pegava a carta.
"James, querido, me perdoa por ter escondido isso de vocês. Você nunca me deixaria fazer isso se eu contasse as minhas intenções. Preciso que você os mantenha em segurança, leve Lily e Scorp para o castelo do meu avô, meu tio os encontrará lá. E, por favor, eu imploro, não me siga. Tem que ser eu a fazer isso, é minha responsabilidade.
Conto com você,
Lis."
A raiva subiu pelo estômago de James, que num ímpeto, derrubou tudo o que havia na mesinha, apenas para se arrepender, quando um frasquinho de perfume se estilhaçou no chão. Ele respirou pesadamente, sôfrego, e saiu do quarto, descendo as escadas de três em três degraus, quase caindo no processo. Lily e Escórpio brigavam em alta voz na cozinha, mas James não soube o porquê, pois quando chegou, os dois se calaram, encarando, esperando.
— Ela foi embora.
As perguntas surgiram, as vozes dos adolescentes sobrepondo uma à outra, mas ele não ouvia, não prestava atenção, não quando a mulher, que não parecia nem um pouco surpresa o encarava, trazendo a culpa estampada no belo rosto. Ele venceu o espaço entre os dois com poucos passos, e ela recuou, assustada até a parede. O silêncio se fez quando ele disse, em um quase sussurro.
— Onde ela está?
Ela era mais velha, e não muito menor que ele, mas pareceu encolher sob seu olhar. Ainda assim, balançou a cabeça, sem responder.
— ONDE. ELA. ESTÁ?!
Louise começou a chorar, assustada com os berros dele, e isso pareceu trazer Marie de volta, pois ela retomou a postura antes de responder, com segurança.
— Não posso dizer. Ela me proibiu. Vocês devem seguir seu caminho e deixá-la fazer o que precisa fazer.
O coração dele despencou. Maldição, Lis. Ele se afastou bruscamente dela e subiu novamente para o quarto, ouvindo passos apressados atrás dele. James jogou e revirou todos os pertences deixados pela namorada até encontrar o que queria. Lily estava na porta, encarando-o assustada, mas ele apenas desceu novamente. James pôs, sem cerimônia e com agressividade, o mapa na mesa, abrindo-o onde Lis olhava no dia anterior.
— Mostre como chegar no Castelo D'Noir, Marie — ela estremeceu.
— Eu não posso…
— Não me importo, faça!
— Monsieur Potter... Não é seguro — ele a interrompeu
— Agora!
Ela tremia, mas pegou um lápis e traçou sobre uma linha já existente.
— Devem haver outros caminhos, mas esse é o que eu conheço: a estrada principal. É insegura, e longa, e você não chegaria lá antes do pôr do sol — ela marcou com um X o que deveria ser o castelo — O senhor não deveria, realmente, ir.
Mas ele não se importava. Iria atrás dela. Ele estava pronto para pegar suas coisas quando ela o chamou novamente.
— Monsieur... Se não posso te impedir de ir, me deixe selar um cavalo e arrumar as coisas para você. Se dê uma chance de estar descansado e de fugir, se algo acontecer — o tom dela deixava claro que o "se" era mais um "quando", e por isso, James assentiu — Almoce, e me deixe cuidar cuidar de tudo — ele assentiu de novo e, hesitante, voltou para a mesa e sentou, sendo acompanhado pelos amigos.
A francesa suspirou e levou a filha pela mão para o lado de fora. Lily encarava o James, assustada, e antes que qualquer um dissesse qualquer coisa, ele se adiantou.
— Vocês dois vão seguir em frente, para o castelo D'Noir. Era o que ela queria que fizessem — com um aceno da varinha, James copiou o mapa, fazendo outra versão — Perguntem à Marie qual a forma mais segura de chegarem lá e tomem cuidado.
Ele sacudiu o mapa e um papel caiu. Tinha a letra rebuscada da Lis e uma cera bonita em negro perolado prensada com a imagem delicada de uma flor-de-Lis e uma lua crescente. Era a imagem do anel que Lis usava, que havia sido da mãe dela. Ele achava que era apenas um anel de noivado, mas parecia que era algo mais.
— É uma permissão, para andar nas estradas do Conde D'Noir e entrar no castelo — Scorp leu — ela pensou em tudo…
— Acho melhor vocês mandarem uma carta para a Inglaterra. O papai, tia Mione, Severo, para quem vocês acharem mais seguro. Digam o necessário, sem se entregarem demais.
— James... Não vá — Lily o encarava, com medo.
— Lils... Eu preciso. É a Lizy.. a que ficou do meu lado todos os dias depois do ataque, a que te visitava todos os dias com distrações quando você tinha dez anos e pegou varíola de dragão, aquela que quando Alvo quebrou o braço, fez questão de assinar a tipóia dele, mesmo que não fosse ficar com ela por mais do que uma noite. E é a mulher que eu amo. Não vou deixá-la ir sozinha.
Ela soluçou, segurando o choro, e o silêncio se abateu sobre eles, que comeram a comida sem dizer uma palavra. O estômago de James se revirava, mas ele se forçou a comer.
Lily ajudou James a arrumar a mochila, e parecia a cada minuto querer chorar, mas não disse nada. E em meia hora, eles estavam do lado de fora, o cavalo selado, a ruiva em lágrimas. Ele estava tão apavorado quanto ela, não sabia o que encontraria, mas não deixaria Lis sozinha. Ela achava que merecia estar sozinha, enfrentar aquilo, pelo que era, pelo que foi forçada a fazer, mas ele sabia a verdade, e ele merecia estar lá tanto quanto ela.
James abraçou a irmã com força e murmurou palavras de conforto antes de soltá-la, dizendo mil vezes que a amava. Então ele abraçou o Malfoy.
— Cuide da minha irmã, Malfoy — ele foi respondido com um aperto mais forte.
— E você, tome conta da minha, Potter.
Ele deu um sorriso triste e subiu no cavalo. Scorp abraçava uma Lily chorosa, mas ele não se demorou muito. James tomou o caminho que indicava o mapa, sem desconfiar que ia para longe do caminho tomado por Lis, sem desconfiar que poderia estar tomando o caminho para a próxima morte.
***
Severo estava a ponto de enlouquecer. A cada hora, era chamado para a sala da McGonagall, identificar pistas que não levavam a lugar nenhum e apenas o impediam de dar suas aulas em paz. Já era ruim demais sem a Lis, não precisava de mais pressão. Ele tinha certeza de que ela mandaria uma carta em breve; se ainda não entrara em contato… Ele apenas esperava que não significasse que estavam em perigo.
Antes de passar pela gárgula pela décima vez naquele dia, ele respirou e afastou os pensamentos de sua mente. Não valia a pena pensar daquele jeito, deixar seus receios escaparem e fazer os outros entrarem em pânico. Ele era Severo Snape, o professor de poções, ex-comensal da morte, aquele que enganara o Lorde das Trevas por anos. Não seria essa pequena crise que o faria desmoronar. Todos olhavam para ele naquele momento.
Para a sua surpresa, a sala estava cheia. A Ministra Granger-Weasley parecia horrível. Havia perdido mais peso nas últimas semanas do que em todos os anos após o nascimento do segundo filho, trazia bolsas roxas abaixo dos olhos, e os cabelos, que já eram cheios, pareciam ninhos de rato. O marido, ao lado dela, continuava extremamente irritadiço. Snape ainda lembrava do que ele fizera ao seu afilhado; imaginava o que pensava de um Malfoy arriscando a vida para salvar seus filhos.
O Potter e sua esposa pareciam mais calmos do que há dois dias, e Ginevra o escaneava com os olhos decididos. Ele deu um breve sorriso a ela antes de tomar seu lugar e aguardar o que quer que eles queriam com ele.
— Sua filha fez contato? — a Granger (Snape ainda pensava nela assim, muitas vezes) perguntou, ansiosa.
— Não — ela pareceu decepcionada — mas imagino que não tenha sido para me perguntar isso que vocês me chamaram aqui no meio de uma aula.
O Weasley lançou a ele um olhar assassino, mas a esposa apenas suspirou e pôs um pedaço de pergaminho na mesa, enquanto mordia os lábios — um tique frequente, ele percebeu, pela forma como os lábios dela já pareciam castigados e partidos. O papel estava vazio, à exceção de uma bela rosa desenhada em tinta vermelha.
— Recebemos isso, hoje, pela manhã. Utilizamos todos os tipos de feitiços reveladores, mas… não funciona. Quero acreditar que é mais do que um pedaço de pergaminho vazio, mas…
Severo o pegou nas mãos, reconhecendo o pergaminho que os franceses da corte usavam. Era de boa qualidade, e a rosa, no canto do papel, brilhava de uma forma diferente ao contato com sua mão. Ele sorriu abertamente, agora, e sentiu os olhos de todos se voltarem para ele, tanto de surpresa, quanto por curiosidade.
Ele pegou a mão da Hermione e, antes que ela pudesse dizer algo, furou seu dedo com a ponta da varinha e um feitiço silencioso. Uma gota brilhante de sangue vermelho verteu de sua pele e pingou suavemente no centro da rosa. Sangue e tinta se misturaram antes da cor vermelha se mover pelo papel, formando palavras na caligrafia de Rose Weasley. A Ministra o encarou, assustada.
— Como você…?
— É um encantamento típico da corte francesa. Deve ter sido feito para ser destravado apenas por você. A rosa era um código, algo para que reconhecêssemos que Rose a enviou. Sua filha deve ter feito amizade com alguém por lá. Não saberia fazer o feitiço sem ajuda. Vai querer ler?
Ela tremeu um pouco, mas pegou o papel e respirou fundo antes de iniciar.
— “Mãe, espero, de verdade, que essa carta chegue às suas mãos, pois significará que tenho uma aliada aqui. Mais importante é: onde é aqui. Eu e o Hugo estamos no Castelo Pelletier e, embora eu não saiba exatamente onde seja, estou desconfiada de que é ao norte do país, pois o inverno não se foi completamente ainda.
‘Aparentemente, todos os Lordes estão no Castelo, ou em casas próximas daqui, mas não é a família Pelletier quem está no comando, e sim a D’Noir. Por algum motivo, o avô da Lis está protegendo a mim e ao Hugo e, se não fosse pela guarda dele, provavelmente estaríamos em pior estado. Não estamos em masmorras, mas em quartos, caso consigam uma forma de se infiltrarem.
‘Além disso, quero pedir desculpas, mas precisei passar informações para eles, ou o Hugo sairia muito machucado. Evitei informações importantes, mas precisei contar dos quatro pontos estratégicos do tio Harry, então é melhor que ele esteja preparado. Contei sobre alguns infiltrados aqui na França, também, errando os nomes, deliberadamente. Acho que eu sabia demais para meu próprio bem…
‘De qualquer forma, espero que não demorem para nos encontrarem. Não sei por quanto tempo o Conde D’Noir vai conseguir manter nossa proteção; o Lorde Pelletier está cada vez mais audacioso. Ah, Nikolai e Kaleen então aqui. Imagino que já saibam que fugiram. Enfim, estamos bem, mas não sabemos até quando.
Aguardo ansiosamente,
Rose
Ps: Se essa carta realmente chegar nas mãos de vocês, significa que a Kaleen não está envolvida nos planos da família dela. Ela ofereceu ajuda, escondida, e está responsável por esse pergaminho e o feitiço de proteção.”
— Só isso? — o Weasley pegou o pergaminho da mão da esposa, olhando-o frente e verso, como se novas palavras fossem surgir do nada.
— Imagino que ela não teve muito tempo para escrever, Rony. Sabermos onde estão e que a menina Pelletier é confiável já é muita coisa — Gina disse com uma voz tranquilizadora enquanto o marido já se levantava, provavelmente raciocinando como resolver os problemas que a sobrinha fora forçada a causar. O coração de Severo gelou. Esperava que o menino não tivesse se ferido muito antes da irmã soltar as informações.
Harry voltou sua atenção para Snape, parecendo lembrar-se, pela primeira vez, que o professor estava ali.
— Você sabe onde fica o Castelo Pelletier?
— Se eu soubesse, teria dito — Severo pôs a cabeça nas mãos, apoiando os cotovelos no joelho e suspirando antes de continuar — A única coisa de que me lembro é a Clarissa mencionando ser perto de uma fazenda que eu conheço — isso despertou o interesse do Potter.
— Fazenda?
— É, mas ela é protegida com mil feitiços, você não conseguiria localizá-la.
— Mas você pode me dizer a região, eu posso fazer pesquisas por perto e — antes que Snape pudesse dizer que era mais complicado do que aquilo, uma coruja de torre marrom que nenhum deles nunca havia visto antes invadiu a sala, pousando no ombro do professor.
A ave trazia um pergaminho na perna e Severo reconheceu a letra do afilhado. Duas coisas passaram em sua mente: 1- se não se preocuparam em pôr feitiços protetores na carta, estavam seguros; 2- por que não fora Lis a escrevê-la?
— O que é isso? — Gina se adiantou, os olhos arregalados fizeram Snape esboçar um sorriso.
— Uma carta do Escórpio — ele abriu o pergaminho e começou a ler — “Padrinho, chegamos à França e estamos seguros. Estamos em uma fazenda no Condado D’Noir, e é protegida por muitos feitiços. Chegamos aqui ontem à noite e… a Lily está reclamando por que estou enrolando, mas a verdade é que eu não sei como explicar isso — Severo se perdeu na frase seguinte, e não conseguiu mais continuar a ler, sua voz traindo-o. Gina, de uma maneira surpreendentemente gentil, tirou o papel da mão dele e continuou.
— “A Lis foi embora hoje de manhã, sem dizer nada, apenas sumiu antes que acordássemos e deixou um bilhete com instruções do que deveríamos fazer. James pirou, colocou na cabeça que ela foi para o Castelo Pelletier, onde Rose e Hugo estão, e se mandou atrás dela há alguns minutos. Sei que não entendo muito da dinâmica daqui e, pelo mapa, o tal castelo não parece ser tão distante, mas entendi o suficiente para saber que Lis vai se dar melhor que James nessa história, então estou preocupado.
Quanto a mim e a Lily, não ficaremos na fazenda por muito tempo. O bilhete de Lis nos mandava ir para o castelo D’Noir e, como as estradas são seguras, seguiremos para lá amanhã mesmo. Você deve saber onde é o castelo, mas diga ao Sr. Potter para ter cuidado. Só teremos acesso por conta de uma autorização assinada pela Lis, não tenho garantia da segurança de ninguém mais por aqui. O condado todo está em alerta.
Entraremos em contato em breve,
Escórpio.”
***
Marie não estava errada quanto à distância. O sol iria embora dali há meia hora, e James não se sentia mais perto de qualquer lugar que fosse. Ele não tinha mais Lis como guia, não tinha estrelas, e os melhores pontos de referência eram as poucas bifurcações que apareciam no caminho e que eram indicadas no mapa que tinha em mãos. Fora isso, estava praticamente no escuro.
James se manteve na estrada principal a tarde inteira, e até agora não entendia o porquê da Marie ter dito que o caminho era inseguro. Tudo bem que a única pessoa que havia pegado o mesmo caminho que ele surgira de uma das trilhas secundárias e desaparecera rapidamente em uma bifurcação, e todos os outros que vira tomavam caminhos opostos, mas… ninguém parecia estranhar que ele estivesse indo e não voltando, e não pareciam perigosos.
Em momento algum ele vira guardas ou soldados ou qualquer indício do domínio dos Pelletier ou dos D’Noir sobre qualquer local. Ele nem ao menos sabia se havia cruzado a fronteira ou não. As únicas carroças que cruzaram seu caminho pareciam ser de comerciantes ou famílias, traziam mulheres e crianças que, se estranharam vê-lo, não demonstraram. Ele não sabia se eram bruxos ou trouxas, mas não podiam ser as pessoas que fugiam dos territórios perigosos: dificilmente fugitivos tomariam a estrada principal.
Ele também não havia visto nenhum sinal de civilização o caminho inteiro. Não passara por casas ou vilarejos, nada, apenas estrada, árvores e mais estrada. Diversas trilhas menores, algumas grandes o suficiente para carroças, outras que somente pessoas a pé conseguiriam entrar, entravam e saíam de seu caminho. Ele se manteve na via central mas se sentia tentado a tomar um dos caminhos, embora não soubesse se dariam em alguma fazenda, ou um vilarejo.
A vontade aumentou depois que cruzou com a última alma viva, uma hora atrás: um velhote com uma carroça de abóboras que tinha o francês tão carregado em sotaque interiorano que James entendeu apenas as palavras “noite” e “abrigo”. Ele fingiu que entendeu e respondeu que logo ele conseguiria um lugar para dormir.
O homem pareceu frustrado, mas quando percebeu que não conseguia se explicar, apenas resmungou algo como “que seja” e seguiu seu caminho. Depois dele, ninguém mais apareceu, e James se viu desejando ter entrado em uma das estradinhas ou seguido o senhor para onde quer que ele tivesse indo quando a noite começou a cair.
Ele jamais admitiria em voz alta o quanto estava apavorado. Não fazia ideia de onde estava, nem para onde estava indo, mas ele era um grifinório, e se queria provar para o pai que podia ser um bom auror e tomar boas decisões, deveria ter sucesso naquela missão. Embora ela parecesse mais suicida a cada minuto que se passava.
Por fim, ele decidiu que logo ficaria escuro demais para seguir em frente, e tentou pensar qual lugar Lis escolheria para passar a noite. Ele acabou entrando para dentro da floresta, não muito longe da estrada, mas não perto demais, caso alguém aparecesse para patrulhar. Ele tirou a mochila do cavalo, mas não a sela, e deixou que o animal bebesse um pouco da água que ele havia trazido e comesse uma das maçãs que Marie havia posto em sua bolsa.
Vasculhando o que tinha, chegou à conclusão de que uma fogueira não era uma boa ideia, e comeu um pão e queijo de cabra encostado à raiz de uma árvore, verificando se era boa o suficiente para passar a noite: na confusão, esquecera dos sacos de dormir. Logo, a escuridão se impôs, e ele encorajou, com cuidado, o cavalo a se abaixar e descansar um pouco, ficando surpreso com a facilidade com que obedecera.
Ele observara o cavalo quando Marie o entregou: era marrom, simples, nem ele, nem as celas chamavam atenção desnecessária para si, e as roupas de camponês que Lis insistira que vestisse desde aquela noite na taverna ajudaram no disfarce, com certeza. O animal parecia, também, acostumado a viagens longas, sem reclamar qualquer que fosse o momento e se mantendo silencioso mesmo agora.
James dobrou uma capa extra que havia trazido e usou como apoio para que as raízes e a terra não ficassem duras demais. Seria bom não ter tanto conforto, assim não dormiria pesado, mas também precisava descansar. Ele fechou os olhos, tentando se manter atento aos sons.
Alguns grilos cantavam, ainda tímidos com o frio do fim do inverno, e alguns predadores noturnos saíram para sua caça: James ouvia o vôo das corujas, o som tão familiar para ele, mas também o farfalhar de folhas esmagadas ao chão, passos leves demais para serem pessoas. Com esses pequenos barulhos, ele adormeceu.
O Potter acordou com o bufar do cavalo,e seu primeiro instinto foi se adiantar na direção do animal, tentando silenciá-lo. Então, ele percebeu como estava silencioso demais, os grilos não cantavam e… ele ouviu o som de passos, humanos dessa vez, e seu coração acelerou enquanto ele tentava, silenciosamente, voltar para sua mochila.
James ouviu risadas. Eram três. Homens. E não pareciam ter percebido ele, pois conversavam em um francês alto, mas estavam vindo justamente para sua direção. Ele praguejou e pegou a espada que levava presa à mochila. Percebeu que foi uma péssima ideia quando os três apareceram, portando varinhas nas mãos e um sorriso no rosto.
— Ora, ora, ora — eles se aproximaram, mas estava escuro demais para James identificar se eram soldados ou não — Se não é um daqueles trouxas idiotas.
James conseguiu abaixar quando viu o do meio levantar a varinha e proferir uma maldição, e largou a espada, pegando a varinha e rolando no chão para escapar de um outro feitiço. Ele lançou alguns não-verbais cegamente, mas viu que atingira um, estuporando-o.
— Bruxo! — ele ouviu um dos restantes resmungar — Pegue ele!
James tentou lançar outro feitiço quando se levantou, mas não estava enxergando direito e não conseguiu desviar do expelliarmus que lhe lançaram, fazendo sua varinha voar longe, nem da rasteira que um deles lhe deu, jogando-o no chão. Um dos bruxos prendeu-o, segurando no chão pelos ombros, enquanto o outro vasculhava suas coisas, tentando achar algo que o identificasse. Infelizmente, havia.
— James Potter… — ele acendeu a varinha e pôs sobre o rosto do James, cegando-o — É, você parece mesmo com o famoso Potter — maldita semelhança inegável — Meu Lorde vai amar saber disso.
E essa foi a última coisa que ele disse antes de apagá-lo com um soco.
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