Still Alive

17 Foi muito bem feito


Ela andou completamente sem rumo e sem saber o que fazer com o que sabia. O uniforme da Grifinória que surgiu em sua visão a fez parar subitamente. James estava encostado em uma árvore perto do lago, olhando para o espelho d’água, no lado contrário ao que Lis estava, e sua mente fervilhou.

Ela podia chamá-lo, contar o que vira, mas provavelmente não deveria, não conseguiria. Talvez ele fosse o único a entrar lá sem preparo, mas talvez ela estragasse sua integridade ao contar. Talvez, ela pensou, se ela simplesmente desse meia volta… ele não a vira ainda. Ela se virou e andou para ir embora.

— Lis! Hey, Lis! — seus músculos contraíram com o susto, mas ela se virou com um sorriso — Essa é a carta que você esperava? — ela arqueou as sobrancelhas, nem lembrava que ainda carregava o embrulho; confirmou, então, informando que as notícias eram boas — Que bom. Vem comigo à casa de Hagrid? Lá você me mostra.

— Tudo bem — eles já haviam andado metade do caminho quando ela falou de novo — Por que está indo lá? Acho que o Hagrid não está em casa.

— Tenho que deixar algo para ele. Foi até bom ter te encontrado, Hagrid está com um cachorro novo e, bem, não gosto muito quando os cachorros rosnam para mim; o que esse faz, muito.

— Você tem medo? — ela o olhou, quase rindo.

— Não, é que ele não está acostumado comigo, e não tenho experiências muito boas… Tia Mione teve um cachorro… Ainda tenho as cicatrizes.

Eles chegaram à choupana. Um cão enorme estava deitado em frente à porta; grande, mas com cara de bobo. Lis tentou se aproximar, mas quando chegou a três metros da casa, ele se levantou avançando e latindo, preso apenas por uma corda grossa.

— Entendo… Cães obedecem comandos, o dele é proteger a casa.

— Então, como entramos?

— James, James… Você acha que um cachorro do Hagrid é disciplinado o suficiente para permanecer obedecendo?

Ela pegou um aparato com rodas de dentro do bolso. Uma invenção que ela confiscara dos gêmeos, pois os diabinhos pretendiam usar para confundir os testrálios. Era um mecanismo simples, obedecia às ordens da varinha, e tinha um compartimento para colocar carne para atrair o animal, o qual já estava abastecido, pois ela os pegara no flagra. Soltou a coisa no chão, guiando com a varinha, em círculos, para perto do cão. Ele farejou e levantou, as orelhas em pé, e começou a latir e se afastar da casa o tanto que a corda permitia. Lis deu um sinal para que James entrasse na casa e o seguiu.

— Genial.

— É, eu sei — James já deixara o que quer que estivesse dentro do embrulho que trouxera e colocou a chaleira na lareira, com água quente.

— Vamos, me conte, o que diz a carta? — Só porque sabia que ele não entenderia nada do que estava escrito, ela entregou o pergaminho a ele.

— Flor, deu tudo certo. Não escrevi nada antes pois não queria alimentar esperanças caso não vingasse. As condições estão a nosso favor e hoje mesmo cheguei no Sul para a colheita. Sinto muito por não poder dizer o mesmo sobre as outras propriedades, as coisas por aqui só pioraram, mas te explico isso em minha próxima carta. O que importa é que, ao amanhecer, o que é nosso estará em nossas mãos, então tranquilize os outros. Com amor, Cravo. — ele a olhou, confuso — O que isso significa?

— Não achou que eu me comunicaria normalmente, não é? Está codificada.

— Ok, então não me conte, quero adivinhar. Flor… Seu nome é Lis, vem da Flor-de-Lis, certo? — ela assentiu — Ok… tudo dá a entender que ele conseguiu aliados, e Beauxbatons fica no Sul da França, então ele já chegou à escola. De quando é essa carta?

— Olhe os pontos embaixo, é um código nosso, foi enviado hoje; ao amanhecer, se já chegou aqui, então amanhã devemos ter notícias da escola sendo retomada. Só não entendi… o que piorou lá?

— Acho que eu sei, infelizmente.

— Como assim?

— Lembra que Rose mandou uma carta à Tia Mione? Ela respondeu, enfim. Há relatos de pessoas desaparecendo na fronteira… Na fronteira da Inglaterra com a França, perto do mar que divide os países. Todos têm algum envolvimento com o mundo bruxo, mas são trouxas. São poucas até agora, mas minha tia já alertou as autoridades francesas. Lis, você está bem? — ela então percebera que estava encarando e balançou a cabeça.

— James… Estamos à beira de uma guerra, você percebe, não percebe?

— Sim… — ele suspirou — quer voltar para o castelo?

— Quero, não sei onde está o Nikolai ou Maxime, então vamos para a Sonserina, uma hora ele me encontra, mesmo. Existem lugares limitados onde eu poderia estar.

Ele, com certeza, estava demorando. Lis já estava há uma hora na sala comunal submersa; já vira a Lula Gigante nadar pelas janelas, já lera; agora estava jogada no sofá, a cabeça deitada no colo de James, que lia um livro qualquer. A mão branca pendia, sendo mordiscada pelo gato preto de estimação. Os dentes afiados incomodavam, mas eram melhores que as garras, as quais deixaram marcas ainda visíveis no pulso da menina enquanto brincavam, minutos antes. O animal ronronava quando deixava que os dedos dela esfregassem atrás de suas orelhas, e então voltava a mordê-la. Coisinha bipolar.

A porta se abriu e ela levantou o olhar. Era Nikolai, e ele não parecia muito satisfeito. Lis descobrira o que o incomodava: não era a amizade com o James, ou simples ciúme bobo, mas aquilo, o carinho despropositado, ela abraçada a ele, ou deitada em seu colo; confinada em Hogwarts, ela havia esquecido os costumes do país em que crescera, do país em que ele crescera. O fato era que afeto físico era demonstrado apenas por namorados e casados, e em privacidade, tanto na Inglaterra quanto na França.

Mas ela não resistia ao contato, precisava daquilo; Alvo demorou muito para se acostumar, ainda evitava muitas vezes, Escórpio crescera com ela, então estava acostumado e James… James parecia ter a mesma necessidade que ela, de fato, parecera aliviado ao perceber que ela não se importava, que até gostava daquilo, então tudo entre eles era muito natural; não para Nikolai, é claro, mas… ele não era namorado dela, não lhe devia explicação; talvez fosse por isso que nunca aceitara nenhum dos vários pedidos de namoro: não suportava a ideia de dar satisfações, de que a achassem uma propriedade, ela não era de ninguém.

E por isso, ela apenas se levantou e o cumprimentou com um beijo. Lis se virou para James, ele tirou os olhos do livro, arqueando uma sobrancelha. Seu olhar dizia Você sabe o que eu penso disso, então boa sorte, nos vemos mais tarde. Então ela cruzou o braço com o do francês e saiu pela porta.

— Você não estava no ponto de encontro.

— Eu fui, mas você que não estava lá — não era mentira, mas não era completamente verdade, também — Tenho boas notícias, pode nos levar para a Madame Maxime? — ele assentiu, o brilho voltando aos seus olhos.

— Mas só se me contar primeiro.

***

James conseguia ouvir a multidão rugir do lado de fora da cabana, os nomes dos campeões gritados por suas torcidas, embora a dele fosse consideravelmente maior, já que estava na própria escola. O dia da prova havia finalmente chegado, e o garoto mal conseguira tomar café da manhã. Draco e Olívio estavam lá de novo, para explicar as regras. Aparentemente, havia um tesouro lá fora que eles teriam que achar e pegar no menor tempo possível. Cada um teria direito a um pelúcio e dois feitiços, mais que isso e o jogador ficaria em último lugar, quanto menos feitiços, mais pontos.

A dupla deixou a tenda que fora montada no campo de quadribol, e James encarou os adversários. Maia desejara boa sorte para ele mais cedo, mas não parecia propensa a deixá-lo ganhar e Nikolai, bem, James ficara feliz quando Lis ignorou o francês e foi abraçá-lo, pedindo que tomasse cuidado e desejando que tivesse uma boa prova; ele não fazia ideia da mudança repentina, mas não se importava, não se aquilo deixava o lorde engomadinho com uma careta horrorosa.

Primeiro as damas, foram o que disseram, e então Maia saiu da tenda. Ela vestia uma blusa grande com manga e uma calça de couro, leve, flexível e prático, como as dos dois garotos; o escudo de Ilvermorny bordado no peito. As pessoas gritaram e bateram palmas, um canhão explodiu. Alguns minutos de tédio e gritos, e então um silêncio frágil, se passaram antes que a multidão explodisse em gritos e uivos e palmas. Draco voltou para dentro e perguntou qual dos dois iria primeiro; eles se olharam, pela primeira vez naquele dia, e o francês se ofereceu. Mais alguns minutos para James esperar.

Não sabia se conseguiria lidar com a ansiedade, ainda mais quando Nikolai pareceu tão seguro de si ao sair dali. Demorou mais daquela vez, James se recusava a prestar atenção nos gritos de surpresa e decepção e alegria que eram dados, então palmas mais escassas que as para Maia, James estranhou a demora, pois o silêncio perdurou por muito tempo antes de Olívio entrar, sorrindo.

— Potter, venha, sua vez. Boa sorte.

Ele saiu da tenda, os raios fracos de luz do outono o saudaram, assim como as palmas e torcida das pessoas que se encontravam nas arquibancadas. O campo estava completamente diferente: haviam arbustos, lugares para se esconder como pilastras e pequenos muros, e várias, várias pilhas de trecos, coisas amontoadas, ele supôs que deveria encontrar o tesouro em uma delas, mas qual a dificuldade?

A multidão rugiu quando o soltaram. James havia escutado dezenas de vezes as histórias dos pais e tios do cão gigante de três cabeças chamado Fofo que protegera a Pedra Filosofal no primeiro ano deles, mas esperava nunca encontrá-lo cara a cara, latindo para ele como se fosse devorá-lo. Pensou em tudo o que sabia sobre ele antes de entrar em pânico: música o acalmava, mas… ele não tinha um instrumento, nem sabia como conjurar um.

O canhão atirou, o tempo começava a contar a partir dali. Ele olhou para a arquibancada, seus olhos acabaram esbarrando nos de Lis, que não parecia conseguir respirar, mas sorriu para ele e assentiu. Ela sabia. Ela sabia que ele enfrentaria o Cérbero na prova e tentou avisá-lo, na verdade…. Ela lhe deu a resposta. Ele olhou para o pelúcio que trazia amarrado; era um bicho engraçado, parecia um ornitorrinco e gostava de perseguir tesouros, e o mais importante: corria muito. Seria distração suficiente.

James desamarrou a corda e o soltou. Ele foi em direção a uma das pilhas de coisas; como nada mais parecia ser de muito valor, e pelo modo como o cachorro protegia aquela pilha específica, ele soube que era a certa. Agora, como fazer o pelúcio ir para o outro lado? A luz do sol refletiu em seu relógio de prata, um presente de aniversário de anos atrás e que já quase não funcionava direito. Ele o tirou, e jogou.

Os próximos momentos ele viu em câmera lenta. Seu relógio rodou no ar, brilhando, e o pelúcio mudou a rota para cima dele; o garoto viu os olhos do cachorro ficarem vidrados e então seu grande corpo trambolhudo se contraiu para correr, e assim o fez, aos tropeços e latindo, a sorte era que a pequena criatura era muito, muito rápida. James não queria arriscar mudar a atenção do Fofo para ele mesmo, então teria que usar um feitiço convocatório. Esperava que desse certo, já que não fazia ideia do que convocar.

— Accio tesouro do Torneio — e não foi que funcionou?

Algo brilhante e dourado voou em sua direção e ele pegou sem nem ver o que era. O tempo não pararia de contar até que ele saísse da arena. De repente, tudo ficou tão silencioso, sem gritos ou palmas. Uma sombra cobriu o sol. Não, não… tudo menos aquilo. Ele olhou pra cima. Três bocas cheias de dentes o encaravam, rosnando. James quase entrou em pânico, mas o Cérbero não atacou. Sem movimentos bruscos, ele foi se afastando sem tirar os olhos daquelas cabeças, devagar… O cão o olhava, como se soubesse que ele fizera algo que não devia, mas não o seguiu enquanto o moreno colocava três, então seis, e então dez metros entre eles, poderia muito bem ter continuado assim, mas...

O pelúcio pulou em seu colo, querendo pegar a corrente dourada em sua mão e o cachorro começou a latir, acordando do transe, as três cabeças focadas em James enquanto se se preparava para avançar, e James começou a correr. Os gritos recomeçaram, mas ele não os ouvia. Os latidos eram altos demais em seus ouvidos.

O Potter corria como se sua vida dependesse daquilo, e talvez realmente dependesse. Ele olhou para trás apenas para ver a besta tropeçando e escorregando no chão arenoso a três metros dele, tão perto, levantando uma nuvem de poeira. Essa olhada custou ao Potter, que esbarrou em um arbusto espinhento, rasgando a roupa e a pele embaixo dela, a dor tomou o seu braço e ombro, mas ele continuou correndo.

Draco Malfoy esperava no portão da arena, o braço estendido e a urgência no rosto. James agradeceu silenciosamente pelos treinos diários com Lis, antigamente estaria morrendo ao correr tanto, embora, mesmo assim, suas pernas queimassem com o esforço. Ele apertou um pouco o passo e segurou a mão do senhor loiro, que o puxou para fora com força. A porta se fechou. O coração dele batia desesperadamente, e ele encostou em uma parede. Draco deu dois tapinhas em seu braço bom.

— Parabéns, Potter, você foi muito bem. Vá para o centro de enfermaria, vão cuidar dos seus machucados. Logo as notas serão divulgadas.

James andou, ainda tremendo, para a pequena tenda onde os outros dois campeões estavam. Maia sorriu para ele. Os cabelos haviam soltado do coque que fizera, e ela trazia um curativo no rosto, mas parecia bem. O mesmo não podia ser dito do francês, que parecia bem machucado e muito, muito bravo.

— O que aconteceu com ele? — James sussurrou, imaginava que o lorde não ficaria satisfeito em ouvir seu interesse.

— Ele não hesitou em atirar um conjuctivitus no Cérbero, cegando-o, mas isso só o fez se irritar. Além do mais, cachorros se guiam mais pelo olfato e audição, então ouso dizer que ele não foi muito inteligente — James segurou o riso, e ela também, dando uma olhada de esguelha para o jovem emburrado — Então ele foi perseguido e uma das patas arranhou suas costas, ele usou o Accio e saiu correndo, quase foi mordido, acho que se machucou feio, mas não demonstrou, está aí, apenas com raiva desde então — se James não o odiasse tanto, sentiria pena.

— E você, como foi? O que fez? E como conseguiu esse machucado?

— Tive que correr também. Tentei usar a agilidade e chegar lá escondida, mas ele me farejou. Então lembrei que alguém da minha família já criou um desses, e que a música o acalmava. Conjurei uma harpa q tava no meu quarto e a enfeiticei para ficar tocando, ele dormiu e eu corri, achei o apito, e voltei. O machucado foi uma parte das ruínas que acabou caindo e passando pelo meu rosto.

— Apito? — James tirou a corrente do bolso — De fato, era um apito de ouro maciço, adornado com asas, mas era diferente do da menina.

— Conversei com o Sr. Wood, os apitos foram sorteados aleatoriamente, todos são diferentes e cada um ditará os nossos recursos na próxima prova, mas ele não disse mais nada além disso — o silêncio perdurou por um tempo — James, eu vi a sua prova e, sinceramente, você foi genial, acho que foi o mais rápido de todos, tanto na prova quanto correndo — ela riu — seu condicionamento físico é louvável.

— Agradeço à Lis por isso, ela é uma treinadora bem exigente, acho que corremos uns cinco ou mais quilômetros por dia.

— Nossa, então é assim que ela mantém aquele corpo lindo? Acho que vou treinar com vocês qualquer dia desses, estou precisando.

Uma voz alta ecoou na arena, era McGonagall, o silêncio imperou sob a ordem dela.

— A prova que nossos campeões enfrentaram desafiou suas mentes e técnicas. Pode parecer algo fácil de se fazer, mas limitamos sua magia para apenas dois feitiços, deixando com suas habilidades a escolha de como resolveriam os problemas e, embora alguns deles tenham saído um pouco machucados, eles se desenvolveram bem, provando que a magia é um meio para ajudar suas mentes a trabalharem. Agora, as notas dos nossos valentes campeões.

“Todos conseguiram seu objetivo, todos permaneceram dentro das regras, e apresentarei as pontuações por ordem de participação. Maia Kringles, de Ilvermorny, completou a prova em sete minutos e um segundo, utilizou dois feitiços, o limite permitido, e recuperou o tesouro, recebendo a nota 83! — algumas palmas soaram, vindas dos americanos e de alguns ingleses, seus amigos estavam entre os que aplaudiam, James percebeu com alegria — Nikolai Pelletier, de Beauxbatons, completou a prova em 12 minutos e vinte e cinco segundos, utilizou dois feitiços e recuperou o tesouro, recebendo a pontuação de 74 pontos! — algumas palmas soaram, fracas, James reparou que Lis não se juntara às comemorações — E James Potter, de Hogwarts, completou a prova em cinco minutos com bastante fôlego — risadas ecoaram, ela estava mesmo fazendo uma piada? — utilizou apenas um feitiço e recuperou o tesouro, ficando com 95 pontos! — ele pensou que a tenda cairia com os gritos e aplausos, a multidão era uma fera que rugia junta em glória.

Ele ficara em primeiro lugar e, ao sentar aliviado, a Madame Longbottom, enfermeira do castelo, se aproximou para passar um tipo de unguento em seu braço e o rosto, que aparentemente também estava machucado.

— Os cortes foram profundos, mas não vão demorar muito para curar; o rosto não terá cicatriz, fique tranquilo, e esteja atento a uma possível reação alérgica.

Ela envolveu os cortes com uma faixa e o dispensou com um sorriso, orgulho, ele percebeu.

James viu Lis descer correndo em sua direção, e ele já se levantava para recebê-la, quando Nikolai a pegou pelo braço e a puxou. James se odiou por aquilo, mas prestou atenção em cada palavra.

— Não vai falar comigo porque perdi? Não achei que fosse assim, milady — o tom de voz dele era puramente acusativo, e algo dentro de James rugiu em resposta.

— Não, não vou falar com você porque é bem feito que tenha perdido. Eu vi você espiando aquele dia, você sabia o que ia enfrentar hoje, só você sabia, e, sinceramente, não senti um pingo de pena quando o feitiço não deu certo e aquele cachorro enfiou as garras em você. Foi justo, muito justo — James viu toda a arrogância dele murchar sob o tom frio que ela usara, até mesmo o Potter havia estremecido diante do que ouvira.

— Não acha que eu perder foi punição suficiente?

— Talvez. Vou me decidir sobre o que fazer em relação a você, em relação a... O que quer que a gente tenha — James percebeu que falar ”nós” seria demais para ela — Mas agora, eu vou parabenizar meu amigo e ir para a Grifinória comemorar a vitória dele, e depois eu penso nisso, depois.

Ela se virou sem se despedir e abriu um sorriso lindo ao ver o Potter. Ele já estava levantado, então ela pulou nele e, apesar da dor ainda latente em seu braço, ele a carregou, e a abraçou. Ela se afastou, o sorriso ainda no rosto.

— Você sabia.

— Sim, e eu sei que você ouviu a minha conversa com o Nikolai o suficiente para saber como eu soube.

— Você não me contou, para que não fosse injusto.

— Me sentiria horrível se o fizesse, mas você captou minha dica, parabéns.

— Falou sério sobre a festa na Grifinória?

— Claro, você conhece os seus amigos, é óbvio que eles preparariam uma comemoração. Aliás, como você me rendeu muito dinheiro hoje, vou contribuir com meu estoque pessoal essa noite. Agora, deixe-me ver o que você recebeu — ele entregou a corrente para a ruiva, que a analisou com um ar inteligente. Uma garota de muitas faces, ele percebeu, e ele ainda não conhecia todas, nem ao menos sabia se a conhecia sem uma das muitas máscaras — Acho que sei do que se trata, mas depois eu falo. Agora, comemoremos.

Os outros se juntaram a ele, uma enxurrada de mãos e parabenizações, vultos loiros chegaram, os gêmeos, e o carregaram junto com outros dois, Escórpio e Alvo, acima das cabeças de todos e continuaram assim, todos gritando seu nome ritmicamente, até chegarem ao salão da Grifinória, onde comida e bebida suficientes para a noite inteira esperava, então a festa começou.

Lis não saiu do seu lado a noite inteira, e se estava aborrecida com o fato de Nikolai ter trapaceado, não demonstrou, aliás, não havia demonstrado antes, fazia dias que ela sabia, e ficara com ele mesmo então. Ainda assim, se aproximou o suficiente para se fazer ouvir por cima do som.

— Vai continuar com ele, mesmo depois disso?

— Não sei, provavelmente sim. Apesar de tudo, é uma boa distração de toda a tensão que tenho tido. E como ele disse, ter perdido, e aquele machucado nas pernas e nas costas foi punição suficiente para ele. Pedi a Madame Longbottom que deixasse cicatrizar naturalmente, para que ele se lembre do que fez por um tempo — sua expressão era divertida ao dizer isso — você correu bem, parabéns. Amanhã começamos a treinar com espadas de verdade, você merece.

Ele riu, e pegou sua mão, porque podia, porque ela era dele naquela noite, e serviu dois copos com cerveja amanteigada, pois percebera que ela não havia bebido nenhuma gota de álcool aquela noite e provavelmente não pretendia beber.

— A você, por me ajudar.

— A você, James, e ao seu sucesso.

E brindaram.

***

Lis caminhou nos corredores, de volta para sua Casa. McGonagall aparecera para dar fim à festa e, ao invés de ficar até mais tarde como sempre fazia, ela obedeceu ao horário, pelo mesmo motivo que não bebera naquela noite: queria estar decente para treinar pela manhã. Com toda a euforia que se seguira depois da carta com as boas novas, e com todas as notícias que vieram depois com Beauxbatons sendo reconquistada e aquelas pessoas desaparecendo, ela quase não dormira naquela semana e, consequentemente, seus treinos foram sofríveis e fracos.

Pretendia estar alerta pela manhã, e não pretendia pegar leve com James, a espada com corte era recompensa suficiente. Credo, estava ficando pior que seu tio quando a treinava, mas era preciso, ou ela nunca teria aprendido. E o Potter… Ele tinha potencial, era até mesmo melhor que o Scorp, se bem que… Não contava, Escórpio nunca quis aprender a lutar. Pacifista até a morte.

Ela lambeu os lábios, conseguia sentir a eletricidade, o sabor metálico da tempestade que se aproximava. Nem mesmo as proteções de Hogwarts conteriam a força daquela chuva que desceria no dia seguinte, ou os raios.

Lis se permitiu alguns minutos na janela, respirando aquele ar frio. Era a única coisa que odiava na Sonserina, ou a única que se transformara um problema com o passar dos anos: ficava fundo demais no castelo para ter janelas. Ela não via o sol quando nascia pela manhã, nem podia sentir o vento no rosto. O frio que chegava vinha das próprias pedras e do lago, que era a única paisagem das janelas de vidro impenetrável da sala comunal e dos dormitórios. Nos piores dias, aqueles corredores escuros que desciam infinitamente lembravam muito as terríveis masmorras do Castelo D'Noir, fazendo-a dar meia volta e subir para o aposento do pai: um quarto simples, com banheiro próprio e uma cama extra para ela.

Seus pensamentos foram interrompidos pela porta no final do corredor. As cobras sibilaram e se abriram quando ela disse a senha nova sem muito ânimo. Ainda lembrava de quando levara o James ali pela primeira vez e ele percebeu que a senha não era "Puro-Sangue", como seu pai disse que sempre seria. De fato, a senha não era mudada por décadas, até que ela, com cinco anos, mudou sem querer, ao falar com as cobras da porta. Algum dia, pensou, trocaria a senha sem avisar, e repetiria o caos daquela época, provavelmente em algum dia que saísse da escola, para que não a achassem. Algum dia, mas não tão perto, não tinha tempo para ficar de detenção, não com tanto a fazer.

Estava muito, muito cansada. Aqueles últimos dias foram exaustivos. As escadas sempre descendentes a ajudavam a manter o ritmo e impediam que ela desistisse e dormisse no sofá, ali mesmo, como já fizera uma vez no castelo D'Noir. As outras já estavam dormindo, o que era uma benção, e Lis se arrastou nos últimos metros para a cama, querendo apenas se jogar nela, mas algo a impediu.

A cama estava cheia de pétalas de rosas, que formavam um coração. Se o ato não entregasse o autor, um bilhete escrito "me perdoe" o faria. Ela o perdoaria, já havia decidido antes, mesmo sem aquela frescura toda. O cheiro doce e enjoado a atingiu, fazendo-a torcer o nariz.

Odiava aquela flor, a Rosa Nobre da França, uma planta feita exclusivamente para os membros da nobreza onde nascera, a Rosa que enfeitava os jardins de todos os castelos, que sua mãe não plantara pois era esnobe e demasiado perfumada e humilharia as outras flores, sobrepondo seus cheiros, a flor que todos da nobreza amavam pois ostentava a beleza e opulência como a próprias ladies, mas que Lis aprendera a odiar, a cor vermelha e brilhante demais, o cheiro forte demais, as pétalas lisas demais e a ausência de espinhos. Tudo artificial demais, assim como cada um naquele ninho de cobras.

A garota recolheu as pétalas e jogou no lixo, mas o odor estava impregnado nos lençóis. Abriu o baú e pegou uma manta antiga sobressalente, e o travesseiro que ficava debaixo dos outros na cama; dormiria no sofá então. Apagou o bilhete com a varinha e escreveu um pedido educado aos elfos que trocassem a roupa de cama, inteira.

Então deixou o quarto, e as rosas, para trás.