Still Alive
22 Ah... Só o básico

Lis aproveitava os feriados para fugir da Sonserina. Odiava dormir sozinha; suas colegas de quarto e nada eram a mesma coisa, então não contavam. Talvez muitos se surpreenderiam se soubessem, mas ela desaprendera a dormir sozinha; desde que voltara da França, aos nove anos, dividia o quarto com o pai, de hotel em hotel, ou com o Escórpio, na mansão Malfoy. Praticamente não dormia, talvez apenas quando estava muito cansada, se não tivesse alguém com ela.
Por isso, durante a semana, alternara entre a sala comunal da Grifinória, onde adormecia facilmente enquanto conversava com James, e o quarto de seu pai, onde agora estava, organizando e guardando os presentes que ganhara e antes havia jogado de qualquer jeito no baú que tinha lá. Envolveu as duas adagas curvas e adornadas que seu pai lhe deu em um pedaço de pano; iria testá-las mais tarde. Ganhara também alguns livros do Alvo e Escórpio, seu primeiro suéter Weasley que Gina enviara (verde escuro com uma flor de lis bordada em prata), e alguns doces e bolos dos outros. Todos devidamente guardados e protegidos em sua “caixa expansível”.
Os únicos presentes que resolvera usar foram o vestido cinza escuro com mangas de renda preta que recebera de Lily e o colar do humor de James; na verdade, nem o tirara desde aquela manhã, encantada com a quantidade de cores que ele tinha e comovida com o modo como ele combinava com ela, mostrando como o James se dedicara ao escolhê-lo.
E lá estava ela, pensando nele de novo, e sorrindo como uma boba. Nunca sentira nada assim por ninguém antes, e estava tão feliz que nem ligava para os olhares divertidos que seu pai lhe dava quando os encontrava juntos, nem para os comentários mordazes de Escórpio, cada vez mais frequentes; até porque seu amigo também sumia suspeitamente com a Rose, de vez em quando. Lis não perguntava nada sobre isso, mas ele próprio se denunciava.
O jantar de ano novo já começara, mas a ruiva não estava com pressa, se arrumava com calma. O que dava mais trabalho era seu cabelo, que, longo como estava, não podia ser deixado solto sem que se tornasse um transtorno, então ela despendia do tempo para trançar, pelo menos, a metade da frente.
Finalmente, lá para as onze horas, ela desceu. O Salão estava colorido e animado, ninguém permanecia na mesa da sua casa. Até mesmo Severo estava na mesa da Grifinória, conversando com Maia e James. Ele parecia mais jovem aqueles dias, o cabelo longo e meio grisalho preso em um rabo de cavalo baixo, as vestes menos surradas.
O pai a surpreendera várias vezes, conversando e rindo com seu namorado durante a semana. Nunca havia passado por sua mente que Severo Snape gostasse de James Potter; essa frase parecia quase errada. Eles estavam rindo quando ela se aproximou, mas o professor Flitwick o chamou, então ele apenas a cumprimentou e se retirou da mesa.
— O que vocês estavam conversando? — ela indagou após ser recebida com um beijo.
— Ah, só o básico… Minhas intenções com você, ameaças de morte caso eu te machuque — ela revirou os olhos, e ele riu — estou brincando. Ele gosta de mim; me desejou sorte pois, nas palavras dele — o garoto fez aspas no ar — “ela se parece demais com a mãe, você vai precisar” — ela deu um tapa nele, fazendo-o gargalhar — Você está muito bonita.
Ela se empertigou, passando o cabelo por um dos ombros.
— É, eu sei — ele quase engasgou com a bebida ao rir.
Lis serviu distraidamente uma comida do banquete enquanto esquadrinhava as outras mesas. Pela primeira vez em dias, reparou em Nikolai, na Sonserina. O francês parecia abatido, quase doente, e Lis torcia pra que não fosse por causa dela. Ele percebeu que ela observava; abriu um sorriso que não alcançou seus olhos e deu uma piscadela antes de voltar a comer.
Èmilie tagarelava ao seu lado, balançando os cachos loiros e exibindo os seios em um decote vulgar; ela o tocava com intimidade e ousadia; Lis já a vira agir assim, sempre com rapazes com quem fora para a cama, e isso lhe dava nojo, essa necessidade de anunciar com quem dividia a cama. A ruiva desviou o olhar, dando um beijo na bochecha de James, que conversava com os amigos.
— Seus aniversário é agora em janeiro, Scorp? — Maia perguntou.
— Sim, dia 9; o do pai da Lis também. Geralmente fazemos uma comemoraçãozinha na sala dele, nada demais. Ele não se incomoda, não é, mana?
— An? É. Ele até gosta. Papai se faz de mal-humorado, mas adora a pequena bagunça que fazemos na vida dele. Você é mais que bem-vinda.
Eles conversaram até perto da meia noite. O costume era, trinta minutos antes da virada, McGonagall subir para um discurso, mas deu onze e meia, onze e quarenta… e nada da diretora aparecer. Reparando bem, Snape, Maxime e Armstrong também não estavam presentes, assim como vários outros professores. Apenas dois ficaram, e pareciam apreensivos.
Com a proximidade da hora marcada, os alunos começaram a silenciar, e então a murmurar, nervosos. A porta grande se abriu, os professores e diretores entraram em procissão urgente, como se fossem a um enterro, mas estivessem atrasados.
Severo encarou Lis enquanto passada, fixando o olhar no dela de um jeito que só ele fazia, do mesmo jeito que havia sido quando a mãe dela morreu, dizendo o que precisava ser dito sem usar palavras. A ruiva apertou a mão do namorado, se encolhendo.
— Lizy, está tudo bem?
— Não, Jay, não está.
Minerva subiu no palanque, se tornando o foco da atenção de todos. Ela pigarreou e suspirou antes de falar.
— Sei que vocês devem acompanhar os conflitos que nosso Ministério está enfrentando hoje, mas vou esclarecer os detalhes. Há uma espécie de facção purista que não ficou contente em ter nossa ex-aluna condecorada, Hermione Granger-Weasley, como Ministra da Magia por ela ser nascida trouxa,e não concordam com suas novas leis. Em o apoio do governo do país onde se encontram tais bruxos, eles nada poderiam fazer, e por isso nada de sério ocorreu até agora. Porém, hoje, às dez e quarenta e sete da noite, o Ministério francês foi invadido pela Alta Nobreza da França — os alunos da Beauxbatons arquejaram. O coração de Lis virou chumbo — e por causa disso, é com infelicidade que anuncio que estamos em guerra com a França.
Um barulho ensurdecedor preencheu a cabeça da garota, mas todos no salão estavam em completo silêncio, o som vinha do sangue acelerado em seus tímpanos. O sino tocou, anunciando a meia-noite, mas ninguém se mexeu. Madame Maxime assumiu o lugar da McGonagall, os olhos inchados.
— Es escoles von se manterr territorrios neutrros, portanto ê Torneio non serrá influenciade porr isse. Porrén, se alguém quiser retornarr à Frrance, serrá enviade em segurrança parra a Beauxbatons. Bonne nuit.
Os alunos, aos poucos, se levantaram, parecendo anestesiados pela notícia. Lis não percebeu que estava chorando até que James a abraçou, beijando seu rosto molhado. Alguns alunos a olhavam, cochichando. Eles não entendiam. Ela estava no fogo cruzado: pertencia à Alta Nobreza e À Inglaterra; seria puxada de um lado para o outro como um brinquedo entre crianças. Seu pai se aproximou e a abraçou, fazendo-a chorar ainda mais.
— Não vou deixar que nada aconteça a você, florzinha. Está segura aqui — ele enxugou as lágrimas dela, encarando-a nos olhos para acalmá-la.
Ele a levou para a sala adjacente ao Salão, seus amigos logo atrás. Canecas cheias de chocolate quente os aguardavam, assim como os diretores. Maxime a olhou com empatia e ansiedade. James tentou se aproximar, mas a ruiva não tinha forças para lidar com o carinho dele, e sentou em um sofá de dois lugares com o pai, sua âncora em meio a tudo.
Ele conjurou os biscoitos favoritos da Lis, com gotas de chocolate e tudo, e a envolveu em um abraço protetor. A garota estava perdida; suas casas estavam em guerra, precisava enviar tantas cartas, falar com tanta gente, mas tudo o que conseguia fazer era se encostar no pai e se controlar para não desmoronar. Pegou um dos cookies e mordeu, deixando a massa e o chocolate derreterem em sua boca, acalmando-a.
— Eles atacaram um dos postos dos aurores — Minerva respondia a alguma pergunta — e alguns vilarejos trouxas, a maioria em seu próprio território, provavelmente alguns lordes que não quiseram se juntar à causa — um soluço saiu de Lis; tantos vilarejos… tantas pessoas sofreriam — A defesa do Ministério está sendo reforçada, já que é o foco deles, mas… é estranho, eles parecem conseguir ultrapassar muitas das barreiras mágicas.
Os soldados são treinados para driblar a magia. Lis quis muito dizer isso, mas sua voz a traiu. Ela deu um gole no chocolate quente, que tinha canela e marshmallow. O calor e a grande quantidade de açúcar a fizeram se sentir melhor.
— Por que entrar em guerra? Os argumentos não me convencem — ruiva ouvia tudo abafado, como se estivesse debaixo d’água.
— Território — ela sabia que era seu pai falando pela vibração que percorreu seu corpo — na França, eles ficam presos a pedaços de terra nas margens e campos do país; isso, além da questão ideológica. Nunca aceitariam uma nascida trouxa como a Hermione no poder. Isso, certamente, é a justificativa que usam para convencer. O poder bruxo sendo maculado por uma “sangue-ruim”.
— Vocês têm nomes de quem orrganizou ê tomade de ministêrie?
— Alguns… Só reconheci um, que, na verdade, nos é a todos familiar, por conta do Torneio; vou lê-los, talvez façam mais sentido para você, Olímpia — ela não falou, mas Lis sentiu os olhos da diretora sobre ela “para você, também” — Roger Le Roux — não era surpresa, ele quem tomara a Beauxbatons — Cormand Pelletier — o pai do Nikolai. James se agitou ao reconhecer o nome — Valentin Moreau — um barão de quem Lis não gostava — Jean Chevalier e Arcturo D’Noir.
Minerva disse o último nome sem hesitar, como se não lembrasse do sobrenome de solteira da mãe de Lis. Provavelmente, não lembrava mesmo, mas a Maxime, sim, e suspirou ao ouvi-lo. A garota não escutou mais nada depois disso; não lhe importava mais. Ela sabia quais nomes não estavam na lista, e esses lhe valiam mais do que os que foram soprados pela diretora. Muita coisa… ela tinha muita coisa a fazer… Então apenas pegou os biscoitos e o chocolate e deixou a sala, sozinha.
***
James sofria ao vê-la daquele jeito. Queria segui-la assim que a porta se fechou, mas um olhar do Severo lhe disse claramente para deixá-la em paz; recebera muita informação, e precisava organizar as ideias, precisava se organizar. Os diretores continuaram discutindo estratégias que as escolas deveriam tomar, comentando as ações do Ministério. James garimpava informações do pai e da tia, mas nada além do óbvio.
O Potter fez um sinal para os amigos, avisando que sairia. Subiu correndo os andares para o quarto dos monitores, avisando a Sarah que pegaria sua ronda; a lufana, que estava com os olhos assustados, pareceu agradecida com a oferta. James se oferecia para as rondas quando precisava pensar; fazer isso no quarto não funcionaria. Começou do andar dos monitores para baixo, uma lamparina fraca iluminando seu caminho.
Ouvira o nome do avô da Lis na lista, e a garota não pareceu nem um pouco surpresa. Ela parecia… aliviada; parecia esperar não ouvir outros nomes. Ele suspeitava que o tio dela fosse um deles; como era o nome dele, mesmo… Carl? Claudio? Ele não lembrava, mas com certeza não era nenhum dos citados, esperava que fosse uma coisa boa, e não que ele estivesse em apuros. E ele nem sabia o que pensar sobre os Pelletier estarem envolvidos. Não gostava do Nikolai, mas imaginava a confusão nas mentes dele e da irmã.
No primeiro andar, um som familiar de lâminas cortando ar e feno entraram pela janela. Ele apenas soube que era ela porque não havia mais ninguém tão sem noção para estar do lado de fora naquele tempo, pois estava muito escuro, e ela não usava nenhuma luz.
O Potter desceu as escadas correndo, e apertou as roupas para mais perto do corpo ao ser recebido pela noite de inverno. À luz da lamparina, ela era apenas um vulto avermelhado; a roupa de um tecido preto maleável que ele já a vira usar algumas vezes para treinar se agarrava em seu corpo, transformando-a em sombras. Não usava a espada de costume, mas duas adagas pratas curvas, e se movia como ele nunca havia visto antes.
A ruiva enfeitiçara alguns bonecos de feno para atacá-la; ela girava, rodando as lâminas nas mãos, alternando entre cortes, chutes e defesa, desviando das espadas de verdade que a atacavam e fazendo feno voar. Ela era um furacão, uma força incontida, fazendo-o agradecer por não serem pessoas de verdade atacando-a; pois ao invés de palha, o chão estaria encharcado de sangue. Lis dizia que pegava leve com ele, James ria, não acreditava, até agora.
Ela não pareceu percebê-lo, e ele a viu decapitar quatro dos bonecos usando a espada de um deles, em um só golpe. O quinto recebeu um chute no peito, indo parar a dez metros dela; os próximos movimentos dela, foram um flash: Lis arremessou uma das adagas, acertando o que seria a testa do boneco, e então James apenas ouviu o vooop ao lado de sua cabeça, antes que a segunda adaga se cravasse em um poste a milímetros de sua orelha.
James não atreveu a se mexer enquanto ela vinha em sua direção, os olhos tempestuosos, carregados de magia, faiscantes; o cabelo era uma bagunça de neve e palha. Ela parou em sua frente, sua respiração condensando no ar frio. Não parecia estar frágil, ou querer chorar, como antes; o olhar tão afiado quanto o fio da lâmina que ainda permanecia ao lado do garoto.
— Bela mira — ele abriu um sorriso maroto, sua marca.
Ela arrancou a faca, girando-a nos dedos.
— Ajuda a relaxar, sabe, fazer algo útil.
— Só me lembre de nunca provocar você enquanto estiver com uma faca na mão — ela revirou os olhos e o beijou. A outra adaga voou de volta para ela, e a ruiva a pegou com a mão livre, sem nem descolar os lábios dos dele.
— Como você faz isso? Sabe, essa coisa — fez um gesto vago.
— Eu apenas controlo a magia. Não sei porque, dentre tantos, eu consigo fazer isso; meu pai acha que é a minha linhagem: uma mistura de bruxos poderosos com o sangue veela da minha bisavó.
— Veela, você tem sangue veela? Isso explica muita coisa. Você usa seu poder em mim?
— Claro que não! — ela se afastou, exasperada. Ele sabia disso, óbvio, mas era sempre legal ver como ela ficava quando desconfiavam de algo — Eu adquiri controle sobre minhas habilidades, quase nunca as uso, mas esqueça isso, eu estava falando sobre a magia livre.
— Magia livre?
— É, a magia manipulada sem a varinha, em seu modo mais primitivo, a mesma que fazemos quando somos crianças, só que mais forte. Não é todo mundo que consegue fazer, pois uma vez que nos condicionamos à varinha, não conseguimos controle o suficiente para usar a energia sem o facilitador.
— E como você faz isso?
— Nunca me limitei à varinha, e acho que a minha herança me ajuda a canalizar minhas emoções, que são necessárias para isso. É muito mais fácil quando… tenho picos emocionais. Muita raiva, ansiedade, ou… ah, tudo.
— Tipo agora? — ela assentiu enquanto continuava girando as facas como se fossem brinquedos, e não armas mortais — Por que você gosta tanto de estar em perigo, hein?
— Não gosto; eu aprecio o controle. As facas podem me cortar, mas tenho habilidade suficiente para dominá-las. Eu poderia facilmente cair quando me penduro nas janelas; a graça está em, justamente, controlar meu corpo para que isso não aconteça.
Ela embainhou as lâminas e se aproximou, enlaçando-o com os braços pela cintura e expondo o pescoço. Ele aspirou o suave cheiro de rosas e beijou sua pele, sentindo o pulsar de seu sangue na artéria contra seus lábios, enquanto ela estremecia.
— É por isso que estar tão apaixonada me assusta — o som de sua voz reverberou contra seu corpo, e ela se aproximou de seu ouvido, quase sussurrando — eu não tenho controle algum — beijou o pescoço dele, logo abaixo da orelha — não dá pra controlar meus batimentos — beijou sua bochecha, próximo à boca — não dá pra controlar o que irá me fazer sentir — ela se aproximou, os lábios a milímetros dos dele — e pelo mesmo motivo, estou extremamente assustada com essa guerra, presa aqui, sem controle.
Qualquer outro estranharia, mas não ele. Aquela era sua garota, sua amiga; a única que compararia o relacionamento deles com uma guerra, usando seus próprios sentimentos para fazê-lo entender pelo que ela estava passando. Ela não se afastou, e ele a envolveu em um abraço, rompendo o espaço mínimo entre seus corpos, suas bocas, beijando-a com cuidado.
— Ainda assim — ela continuou quando pararam — a coisa mais incrível que já me aconteceu foi beijar você, foi… caramba, foi acordar e me dar conta que nós estamos namorando e que tenho você só pra mim — ela o olhou e sorriu, a névoa deixando seus olhos — Vamos treinar? — ela desembainhou as lâminas, girando os pulsos.
— Prefiro a espada — as adagas brilharam em suas mãos, e duas espadas que ele nunca vira antes as substituíram, uma dourada, e outra prata. Lis lhe ofereceu a primeira, que tinha um leão esculpido no cabo.
— É sua, tome, você mereceu. Lembre de afiá-la e mantê-la limpa.
— É linda, era sua?
— Tenho uma pequena coleção de família.
James testou o equilíbrio, era perfeito. A lâmina parecia emitir luz própria, iluminando um pouco o ambiente. A da ruiva era mais fina e levemente ondulada, todas as fases da lua esculpidas em meio a arabescos no punho. Runas idênticas cobriam o cerne das duas lâminas.
— Feitiços de proteção. Evita que quebrem ou sejam corroídas por ácido ou pelo tempo.
Ela se afastou, e um gesto com a varinha o cobriu com roupas de quota de malha, calça de couro e luvas protetoras. Um sorriso lupino se abriu naquela boca avermelhada, incitando-o a avançar, e ele o fez. A lâmina era fácil de manejar, se encaixava em seus movimentos perfeitamente, facilitando muito os seus golpes. Ainda assim, sua namorada era muito mais rápida. James sabia que ela não estava dando seu máximo, ainda mais depois de vê-la momentos antes. A garota o desarmou rapidamente, sua espada voando a três metros de distância e então o atingiu com a lateral da lâmina nas costas, jogando-o no chão. Ela parou, encarando.
— Ora, levante-se — ele gemeu, mas pegou sua arma e levantou, se pondo em posição de defesa.
Ele tentou novamente, conseguiu acertá-la no braço, mas ela lhe deu uma rasteira, jogando-o novamente na neve, que lhe gelou os ossos. Somente desafio brilhava nos olhos azuis, e James se ergueu novamente, avaliando. Ela estava rindo, o lado esquerdo desprotegido por uma falha na guarda..
O Potter fez uma finta, desviando a atenção dela enquanto a acertava com o cotovelo nas costelas do lado esquerdo. Ela se encolheu com a dor, e ele a desarmou, usando o impulso para lançá-la ao chão. O garoto se pôs em cima dela, a espada encostada em sua garganta. Um sorriso orgulhoso se desenhou no rosto da ruiva, e ele a beijou, apoiando-se na neve fofa, uma parte de si estava com tanto orgulho quanto ela.
James afastou uma mecha do cabelo ruivo, que agora estava salpicado de pequenos flocos brancos e meio molhado dos que derreteram, e a observou. Merlin, nunca se acostumaria com aquela beleza. Suas bochechas estavam rosadas pelo frio; as sardas, agora sempre expostas, pontilhavam sua pele como estrelas; a boca desenhada se inclinava levemente em um sorriso sonhador que enrugava o canto dos seus olhos. Debaixo dele, ela se arrepiou, e James notou como ambos estavam molhados e gelados.
— Vamos entrar? Vai acabar pegando um resfriado desse jeito — a luz deixou seus olhops, provavelmente lembrando do que a esperava, mas ele deixou beijos por seu rosto e pescoço enquanto falava calmamente — Tome um banho quente, então fugimos e roubamos algo das cozinhas, com muito chocolate, e só iremos à comunal quando estiver vazia… Você pode dormir na minha cama, dessa vez. Eu fecho as cortinas do dossel e você sai de manhã com a Capa da Invisibilidade.
Uma oferta de uma noite de paz, de lidar com os problemas só bem depois do sol nascer e após muita comida e descanso, de passar o resto da madrugada ao lado dele, em uma cama de verdade, como nunca haviam feito antes. Ela assentiu, o sorriso passando de tímido a sarcástico.
— Tudo bem, mas não fique achando que, porque estamos namorando, eu irei tomar banho com você.
***
Um pequeno bolo de aniversário aguardava na mesa de trabalho de Severo Snape, decorado por sua própria filha, que desenhara a constelação de escorpião, o brasão dos Prince (a família de sua avó) e um “Feliz Aniversário” com o glacê em cima dele.
O professor de poções havia insistido naquela festa para animar a Lis. Desde a declaração no Reveillon, sua filha quase não deixara o quarto que ele ocupava no andar dos professores; quando saía, era arrastada por Alvo, Escórpio e James, juntos. O único consolo dele era que a garota nunca estava sozinha, o que compensava o fato dele perder o quarto para os adolescentes que estavam sempre lá.
Naquele momento, eles esperavam que esses adolescentes aparecessem na sala dele para a tradicional comemoração conjunta dele e de seu afilhado. A ruiva estava jogada na poltrona, como um gato preguiçoso, apreciando o calor da lareira, exatamente como seu bichano, Kandle, estava fazendo no chão. A semelhança o fez rir internamente.
O primeiro a chegar foi o James, que se sentou com Lis, aconchegando-a em seu colo e dando um sorriso torto para o homem, que retribuiu. Quando aquele garoto chegara em sua sala, seis anos atrás, Severo, com certeza, não imaginava que fosse se afeiçoar a ele. O sorriso, o cabelo, a forma desleixada como agia, tudo nele remetia ao seu avô, James Potter, a quem Severo odiou a sua vida inteira.
Mas o rapaz se mostrou esforçado e, apesar de todas as brincadeiras e trapaças, ele não tinha nada da arrogância do outro James. Meses depois, não que fosse surpresa, lá estava Lis, andando com os dois Potter e os gêmeos Scamander. Sua filha pregava peças desde os quatro anos, quando descobriu a loja Gemialidades Weasley, e não parara desde então, sua criatividade comparável às dos Marotos originais; sua esposa ria quando ele se lamentava de ter uma filha tão igual aos seus inimigos de infância. Não foi, mesmo, surpresa ela ter se juntado aos mais encrenqueiros de Hogwarts.
Lis se apaixonara pelo rapaz aos quinze, e nem mesmo percebera, mas o pai via o ciúme em seus olhos quando ele estava com outras e a observava suprir isso com os rapazes da escola, vários deles, nunca se apegando, nunca por mais que um mês; muitas vezes, não durava nem um dia. Ele não interferiu, era o acordo tácito entre eles, e apenas a acompanhou, muito resoluta, ignorar seus sentimentos.
Se fosse para ser sincero, confessaria que quase abandonara a neutralidade ao vê-la com o francês; por repetidas vezes perguntara se ela queria mesmo fazer aquilo, e a cada vez, ela demorava um pouco mais para responder, a relutância aumentando. Totalmente ingênua, achava que ele era alheio ao quanto ela estava confusa entre os dois, Nikolai e James, ao quanto ela se prendia ao estrangeiro por medo de admitir o que sentia pelo amigo, que esperava pacientemente, protegendo-a sem que ela percebesse.
A ruiva nem precisou contar ao pai quando começou a namorar. Na manhã de Natal, ele a viu chegar abraçada com ele, os olhos alegres e mais leves, como se um peso saísse de seus ombros. A cara dela quando ele os parabenizou, sorrindo, foi impagável. Ele, também, não havia colaborado com sua reputação, nem mesmo com a própria filha. Todos o viam como ranzinza e de poucos amigos; a verdade é que tivera poucas felicidades na vida, e isso o tornara fechado; havia sido feliz com a Clarissa, e a morte dela o abalara, mas, naquele verão, ao ver sua filha feliz no dia do aniversário dela mesma e da morte da mãe, decidira seguir em frente. O primeiro passo: admitir como gostava daquelas pestes que sua filha chamava de amigos.
Todos os outros chegaram juntos, carregando mais comida do que conseguiriam comer e garrafas de cerveja amanteigada. A novidade no grupo era a americana, Maia, que olhou para as paredes da sala em curiosidade e admiração.
— Uau, um belo acervo o senhor tem aqui, professor.
— É, é útil, mas não sei se muito seguro, já que alguéns têm a mania de roubá-lo de vez em quando — a indireta atingiu a todos, já que cada um ali já o havia furtado pelo menos uma vez naqueles seis anos.
O acordo da noite era não falar de problemas. Sem guerras, sem Torneio, sem atividades da escola, apenas diversão. E nesse quesito, ele tinha que admitir que aqueles jovens eram peritos. Os gêmeos levaram os jogos mais variados, e até a menina Weasley, que quase nunca aparecia, riu e se soltou. Severo trocou olhares com a filha ao reparar como a Rose e o Escórpio estavam próximos. Finalmente rolou alguma coisa? Era o que ela entenderia com sua sobrancelha levantada, e respondeu com um sorriso satisfeito e um rolar de olhos. É o que parece, mas ele não me falou nada ainda.
Adorava conversar com ela apenas com os olhos e expressões. Haviam adquirido aquela habilidade do nada. Quando Lis era criança, ela e a mãe conversavam em francês apenas para irritá-lo, já que quase não conhecia a língua, mas um dia, aquela garotinha o encarou com os olhos azuis e, ele nunca soube como, entendeu exatamente o que ele estava pensando. Se tornara algo deles, aquela conversa não falada, geralmente trocada quando Clarissa estava ocupada trabalhando e não os deixava fazer um barulhinho sequer. Quando ela morreu, se tornou o refúgio dos dois, que muitas vezes não conseguiam proferir palavras por conta da dor, mas conseguiam entender o que o outro queria ou precisava imediatamente.
Cedendo aos pedidos, também jogou com eles, ganhando de todos no snap explosivo e xadrez, Lis rindo quando via seus amigos apostando contra ele, mal sabendo que ele era o melhor que conhecia em ambos os jogos e que se quisessem ganhar teriam que desafiá-lo em outra coisa.
Ele, óbvio, também entrou nas apostas, fazendo o Alvo beber uma poção aleatória de um aluno atrapalhado do primeiro ano. Felizmente (ou não), não aconteceu muita coisa, mas ele ficou com a língua inchada por meia hora, causando risos em todos, até que insistiram em dar a ele um antídoto pois estava impraticável rir mais do que aquilo.
Já era quase meia noite quando ele resolveu jogar para o ar os escrúpulos de professor e tirou uma garrafa de Whisky de fogo de um dos seus armários. Irresponsável? Talvez. Fora ele quem apresentara a bebida à Lis quando ela fez quinze anos. Para sua sorte, ela tinha uma resistência boa para o álcool, então sua consciência aliviava; além disso, era bom ter uma companhia para uma caneca de hidromel em uma noite particularmente ruim.
Para sua surpresa, Lis quase não encostou em seu copo, preferindo se servir de chocolate quente. A festa ainda se estendeu por mais duas horas, até que sobrasse apenas ele, a filha e seu afilhado. Lis levantou e serviu vinho quente em taças para eles, o líquido brilhava, parecendo sangue à pouca luz. Ela deu uma das taças para Escórpio, então sentou no colo do pai, abraçando-o.
— Obrigada, pai — então passou uma das taças para a mão dele, e ergueu a própria — aos dois homens que nunca me abandonaram na vida. Amo vocês, feliz aniversário.
Fale com o autor