Still Alive
36 Acho que vai gostar
Sete dias. Lis nunca pôde imaginar que uma quantidade tão ínfima, acompanhada de uma palavra tão pequena pudesse ser algo a definir sua vida. No entanto, sete dias separavam aquele momento do dia que se casaria, que uniria sua vida, talvez para sempre, a alguém que não amava.
Se as famílias dos noivos estranharam a pressa, nada disseram. Cormand e Delphine apenas sorriram e se puseram a providenciar os preparativos; Arcturo apenas assentiu, a olhando como se tentasse desvendar as intenções dela; Kaleen os encarou, desconfiada, antes de dar de ombros. Naquele momento, a falta de seu tio a atingiu como uma lança no pulmão, deixando-a quase sem respirar, mas manteve o sorriso e fez uma reverência profunda antes de ir embora.
A família pode não ter dito nada, mas Lis ouvia os sussurros de alguns criados e cortesãos mais enxeridos. A neta do Conde está grávida, diziam, é por isso que vão casar tão rápido. O pouco apetite que ela vinha tendo e os enjôos que a tomavam cada vez que ela lembrava o que estava prestes a fazer colaboravam com os boatos. Ela apenas deixava que falassem. Não se importava.
Quatro dias se passaram desde que fizera o anúncio na frente de todos, e desde então, fez seu melhor para ser uma dama perfeita, jantando com a família Pelletier e deixando sua futura sogra falar de tecidos e flores, e fingindo que não queria gritar, rasgar os vestidos coloridos que usava até virarem tripas de tecido como seu próprio coração. Os únicos momentos de paz que tinha era durante a noite, quando dormia (ou tentava dormir) e durante os chás que tomava com a Kaleen.
Aquela fora uma surpresa boa: a receptividade de Kaleen para sua companhia. Desde aquele dia que a resgatara do Lorde Chevalier — adivinhando, pela satisfação no rosto do pai dela, que aquele era o tal do prometido que a garota desconhecia — a morena aceitava, todos os dias, os convites de Lis para tomar chás de diversos sabores acompanhados de biscoitos e bolos. As duas haviam, até, transformado a prova da torta e dos doces do casamento em um chá da tarde inglês, para o horror de Delphine. Um lembrete de que ela, também, pertencia à Inglaterra.
Aquela tarde, no entanto, acabara de se transformar em um pesadelo. Delphine aparecera, toda dourada, arrastando um alfaiate e dezenas de criadas e tecidos, dizendo que precisavam correr para desenhar o vestido de casamento.
Muita briga, muitos insultos ditos em tom calmo e muita frieza por parte de Lis, que se recusara a usar branco na sua cerimônia. Branco era uma cor importante para os D'Noir, ela não a usava deliberadamente e sem motivo. Também não conseguia esquecer da última vez que vestira branco, uma camisola que terminara ao pé da cama pela manhã. Nada de branco.
Acabaram por decidir por um tecido cinza claro, que parecia até prata. Kaleen, em um arroubo de consciência, disse que pareceria mais luxuoso do que um simples branco, e a discussão terminou por aí, com Lis lançando um olhar de agradecimento e a outra garota dispensando-o com um simples gesto. E então, a questão virou o decote.
Depois de ser espetada, esticada, e enrolada em diversas camadas de diferentes tecidos, a Lady Pelletier pareceu satisfeita, e saiu do quarto, finalmente deixando-a em paz. O alfaiate, no entanto, permaneceu, dizendo que o Lorde Nikolai havia mandado ela escolher um tecido e desenhar um vestido para o Festival da Lua. Lis paralisou e caiu sentada na cama, enquanto Kaleen a olhou, confusa.
— O que é o Festival da Lua? — Lis balançou a cabeça.
— Algo da minha Corte. Um presente do seu irmão ao que parece — ela passou os olhos pelos tecidos, vendo um que havia prendido sua atenção mais cedo, e que fora lindamente ignorado pela mulher mais velha. Ela sorriu, já formulando um desenho em sua mente — E eu vou fazer ele valer.
Lis, felizmente para ela, era prática e objetiva, e não demorou muito para estar sozinha no quarto, vestindo sua camisola de cetim champanhe e se enroscando nos cobertores. A primavera estava a cada dia mais perto, mas o frio se recusava a deixar completamente a propriedade e, durante a noite, ela precisava ficar bem coberta, às vezes com um manto de pele. Ela já tinha fechado os olhos, com esperança de conseguir dormir ao crepitar da lareira, quando ouviu uma batida suave na porta.
Ela sabia quem era, já estava ficando familiarizada aos dois toques hesitantes e então dois mais fortes, como se a coragem tivesse, enfim, aparecido. Então, nem abriu os olhos enquanto avisava que a porta estava destrancada e que ele podia entrar.
Nikolai a olhou, apenas o rosto descoberto, voltado para a porta por causa da posição lateral que ela geralmente dormia. Ele a ofereceu um sorriso suave, como se não esperasse que ela já estaria na cama, e então se aproximou, permitindo-se sentar ao lado dela.
— A que devo a honra? — o sarcasmo era tão forte quanto o sono em sua voz. Nikolai fez menção de tocá-la, mas mudou de idéia, a mão alisando os lençóis.
— Vim te chamar para um passeio noturno — ela ia recusar, mas ele a interrompeu — se você levantar, e trocar de roupa... Eu pretendo te mostrar algo. Acho que vai gostar.
Talvez fosse o sorriso sincero ainda desenhado em seu rosto, ou a curiosidade que comichou em seu interior, mas Lis jogou as cobertas para fora de si, fingindo irritação e preguiça, quando estava mais do que acordada por dentro. O chão estava gelado, mas ela não saiu procurando por pantufas.
Um olhar para o rapaz e ela se lembrou que pudor e decoro não estavam em seus dicionários. Sua camisola ia somente até o meio das coxas, uma renda fina cobria os seios e era sustentada por alcinhas finas, mas ele a olhou sem mudar um centímetro de sua expressão. Tão diferente de James, que ficaria impressionado e quase constrangido, antes de outra parte dele assumir o controle. Arrependida por se permitir esses pensamentos, Lis os jogou longe enquanto escolhia sua roupa.
Preto para sair à noite era perfeito (não que ela achasse que não se encaixava em qualquer outra hora do dia), então logo estava com um vestido longo de algodão pesado e negro, de corte simples, e uma capa negra por cima, para afastar o frio. Botas cobertas de pele (lebre, talvez?) no interior completavam o conjunto, e ela prendeu a metade frontal do cabelo com um elástico trouxa, para que não caísse para fora do capuz.
Aprovação emanou do olhar de Nikolai, e ele abriu a porta para que saíssem. Os guardas se alarmaram, mas ela os dispensou, avisando que não demoraria. Nenhum soldado roxo em sua porta, apenas uniformes negros como a noite, o que a fez quase se sentir parte deles de novo. O lorde a guiou por uma parte que ela não conhecia do castelo, e Lis fez questão de decorar cada curva e volta. Ele confiava demais nela, se nem se importava em tentar despistá-la, ou talvez, o que quer que ele queria mostrar, não era tão importante.
Não era tarde da noite, mas aqueles corredores estavam vazios, e ela seguia logo atrás do rapaz. Estava acostumada a acompanhá-lo, já que se forçava, diariamente, a ser a noivinha apaixonada e o deixava levar a um passeio, que geralmente começava em uma das galerias e terminava nos jardins.
Eles faziam bem o seu papel, conversando como se realmente fossem amigos (ela se esforçava para lembrar que deveriam ser, se aquilo fosse adiante) e trocando alguns beijos "roubados", quando alguns criados espiavam, pensando estar incógnitos. Isso já estava, quase, não fazendo o estômago dela convulsionar.
Naquela noite, como em todos os outros dias, ele não tentava tocá-la mais que o necessário, embora ela soubesse que ele desejava isso. Era como se estivesse dando a ela uma escolha, uma chance de decidir isso por si mesma enquanto aqueles sete dias não acabavam. Porque quando ela dissesse eu aceito, o custo pelos seus amigos seria ser dele, dividir a cama com ele... As coisa que precisaria fazer…
Só aquele pensamento a fez respirar fundo e parar de andar, enquanto lutava para manter a última refeição no estômago. Nikolai a olhou, preocupado, mas ela o dispensou com um aceno de cabeça e forçou seus pés a continuar andando por aquele piso marmóreo. O último corredor os levou até uma porta com uma maçaneta escondida. Ele, definitivamente, ou confiava demais (o que provavelmente era um erro) ou a subestimava (o que era um erro ainda maior), pois permitiu que ela visse como abriu a porta, completamente.
O ar frio da noite a atingiu, fazendo-a ofegar. Não fazia ideia de onde ele a estava levando, mas não desconfiava dele o suficiente para sair correndo quando ele a guiou para uma trilha na floresta que ficava atrás do castelo. Ela havia acertado nas roupas, pois sentia a terra meio úmida afundando sob suas botas e os galhos açoitando seus braços por cima do manto, dando certeza que sua pele estaria esfolada, não fosse a grossa camada de tecido.
Ele parou, de repente, e ela o olhou, confusa. Nikolai olhava para o nada, como se procurasse alguma coisa. Ela o observou, e percebeu que ele parecia contar as árvores. Então, ele ofereceu a mão a ela, pedindo pra tocá-la pela primeira vez na noite. Lis quase estremeceu. Tocar as pessoas já havia sido tão natural para ela, essencial como respirar, mas seu coração encolhia ao sentir sua pele na dele. Por alguma sorte, ele estava de luvas, e isso a tranquilizou enquanto ele a guiava, segurando seus dedos, até a quinta árvore.
Lis sentiu como se atravessasse uma cortina de água gelada, seus pelos se arrepiando, e então ela ouviu, antes mesmo de ver, o que havia ali. Qualquer proteção colocada era boa demais, pois do castelo ninguém ouvia nada dos rugidos abalador de montanhas que as bestas confinadas davam aos seus capatazes. O queixo dela caiu. Nikolai sorriu.
— Eu sabia que iria gostar. Eles são lindos, não são?
A ruiva contou cinco. Cinco dragões do tamanho, ou até maiores que a casa dela. Fogo surgiu e esturricou alguns galhos. Um lindo Meteoro-Chinês, suas escamas vermelhas brilhando com as chamas que ele lançou. Lis estava sem fala e sem fôlego. Não sabia se estava admirada com os animais que ela mais adorava ou horrorizada com a forma como eles estavam presos, provavelmente sendo treinados para algum ataque surpresa.
— Nós os estamos treinando para obedecer comandos, trabalhar em equipe entre eles. Quem sabe conseguimos uma espécie de exército totalmente nova — Lis arqueou as sobrancelha com o entusiasmo na voz dela, e segurou a própria língua diante de tamanho absurdo — Vem, vem cá, vou te mostrar — a voz dele era quase um sussurro perto da confusão que as feras causavam, e ele a arrastou para mais perto delas, o calor fazendo Lis querer tirar o manto.
O primeiro a receber-los foi um verde-galês majestoso, que puxou as correntes, mas não lutou muito. Efetivamente domado, ela percebeu, e incrivelmente lindo. O animal os cumprimentou com um urro melodioso, característico da espécie, e inclinou a grande cabeça como um grande bicho de estimação.
— Eles atendem pelo nome. Foi a primeira medida tomada para torná-los mais obedientes e dóceis. Essa é Dar’sa, a mais tranquila entre eles. Você poderia até tocar nela se quisesse — a ruiva resolveu não arriscar, e balançou a cabeça para parecer assustada demais, mesmo quando não estava. Nikolai riu e os fez seguir em frente.
O próximo era enorme, o maior que Lis já havia visto em toda sua vida, e ela reconheceu a raça que era usada para guardar os cofres mais antigos e profundo do Gringotes (obviamente os D’Noir teriam um desses). O animal se apoiou em suas duas patas, e expôs sua barriga branca, sua pele cor de osso. Um Barriga-de-Ferro Ucraniano. Aquele animal poderia esmagá-los com as patas, e no entanto…
— Esse é Neerzu. Estamos quase convencendo-o a permitir que um cavaleiro o monte — ela quase riu com a frase e a visão de um homem cavalgando aquela besta. Só podiam estar de brincadeira — Aquele é Bjorn.
Ela olhou para onde apontava e viu as escamas azuis que denunciavam o esplêndido Focinho-Curto Sueco. Era o segundo mais belo entre todas as espécies. Ele mordiscava e puxava as correntes, mas não parecia exatamente irritado. Eles veriam chamas azuis derreter todos aqueles homens se estivesse.
— Não vamos nos aproximar muito dele. Sabia que ele tem o fogo mais quente entre todos eles? — ela sabia, sabia muito bem.
Ele a puxou para a outra baia, estendendo a mão para mostrar o Meteoro-Chinês que ela já havia visto. Ele era incrivelmente lindo, seu corpo aparentando mais uma cobra gigante que um dragão, e suas asas tinham quase oito metros de envergadura. Bolas de fogo ainda saiam de suas narinas, evidenciando sua irritação em uma demonstração da origem de seu nome.
— Essa é a nossa Banshee. Minha favorita. É uma das mais temperamentais — Merlin, era uma fêmea. O ar deixou seus pulmões sem deixar que ela imaginasse o quanto Banshee era, realmente, agressiva.
Ele a segurou antes de levá-la ao próximo. Ela ainda não o tinha visto direito, pois a baia ficava mais distante do que qualquer outra, como se ele não ficasse bem com os outros dragões (o que não era surpresa. Pelas barbas de Merlin, o absurdo era que todos os quatro conseguissem ficar bem juntos). Nikolai a olhou, em aviso
— Esse último não é bem adestrado. Algum idiota perdeu o ovo dele durante o verão, e quando conseguiram encontrá-lo, há algumas semanas, ele estava em uma reserva de experimentos inglesa. Foi fácil trazê-lo, pois eles o drogavam com algum tranquilizante para fazer os testes, mas quando o efeito passou… Ele é o mais agressivo dos cinco, e não atende por nenhum nome. Fique perto, está bem? Por segurança.
Lis apenas conseguiu assentir. Não tinha palavras enquanto seu cérebro absorvia e reconhecia a história. Não foi surpresa quando reconheceu aquela pele avermelhada, vários metros mais alto do que quando ela o viu da última vez. Ele a olhou, e pareceu reconhecê-la quando rugiu e tentou ir em sua direção, irritado com as correntes que o impediam. Seu coração doeu com isso, e Nikolai a empurrou para trás dele, achando que o animal queria atacá-la.
Ela o conhecia, o havia criado por longos oito meses, e ela sabia por qual nome ele atendia. Agradeceu aos céus por Nikolai não poder ouvi-la quando ela o pronunciou em voz alta, estupefata.
— Ragnar.
***
Ela o visitava todas as noites, quando achava que ele estava dormindo. James só não sabia o porquê. Por que se importar em vê-lo se o havia traído? Por que verificar, todas as noites, se ele estava indo bem? Ele a ouvia perguntar para o soldado negro que ele não se importara em perguntar o nome e que guardava sua cela todas as noites. Perguntava e perguntava, em voz tão baixa que às vezes ele não sabia o que ela estava perguntando.
Ele tentou ouvir com atenção aquela noite, aquela conversa, mas ela estava mais silenciosa do que nunca, ou era seu subconsciente que não se esforçava mais em decifrar os sussurros. Merlin sabia que James os ouvia, os sussurros dela, todos os dias, o dia todo. Ouvia a voz dela até não saber se era realidade ou sonho. Ouvia os sons que ela fez sob seu corpo na última vez em que estiveram juntos, antes de ele partir de Hogwarts, quando ela o fez sentir como nenhuma garota antes havia feito. Odiava, com todas as forças, o quanto lembrava disso, e como, ao mesmo tempo, parte da lembrança estava tão borrada que parecia um sonho. Ou um pesadelo.
Ela riu, e ele voltou à realidade. Como ela ousava rir?! Não durou muito, no entanto; a voz do homem sobrepujou a dela em um diálogo calmo. Eles passavam vários minutos conversando. E James não tinha certeza se ela vinha para vê-lo ou se era uma desculpa para conversar com o outro.
— Marie sente sua falta, Jean. Louise também — aqueles nomes estalaram na mente de James, como se ele já os conhecesse.
Uma dor de cabeça muito forte o tomou, e ele gemeu, sem conseguir se conter. Se convenceu a não pensar nisso, e retomou o controle sobre si mesmo, a dor indo embora a tempo de de ouvir o homem falando.
— Tente dormir um pouco, querida. Vai lá, e boa noite.
***
— Muito bem!
A voz de Carlo soou orgulhosa quando Lily acertou a terceira adaga no alvo. Ele a estava treinando há alguns dias, agora. E ela estava ficando boa. Como artilheira, sua mira era boa. A esgrima, talvez nem tanto, mas ela tinha um tempo até ser boa o suficiente para se defender. Doze dias. Havia um calendário que fazia a contagem regressiva para todos, para o dia em que resgatariam seus amigos. Às vezes parecia uma eternidade, e às vezes a proximidade a sufocava como uma mão em seu pescoço.
Nenhum deles negou quando Lily e Escórpio pediram para participar, para ir junto, e eles agradeciam demais por isso. Então, estavam sendo treinados. Scorp conhecia o básico de esgrima, graças a Lis, mas se recusava a se transformar em um mestre de armas, então preferiu ser treinado em magia e proteção pelo lorde de cabelos dourados, Aaron.
Eles estavam do lado de fora desde o amanhecer, e ela conseguia sentir que Carlo parecia inquieto, assim como o outro homem. Pareciam estar esperando por algo e, a cada minuto que passava, eles ficavam ainda mais agitados, trocando olhares preocupados. Já eram por volta das dez da manhã quando um terceiro rapaz apareceu. Era um dos que estava no grupo que encontrou Lily e Scorp na taverna, e trazia um sorriso sincero no rosto.
— Eles chegaram!
***
— Certo. Explica de novo... Essa é a rota de fuga do Lorde. Isso não significa que ele irá fugir por aí?
Escórpio sinalizou a parte do mapa marcado com uma seta vermelha. Ficava nos fundos do castelo e terminava no rio que as duas cortes "compartilhavam". Carlo estava familiarizando, não apenas eles dois, mas todos os sob o seu comando. Eles foram apresentados aos outros quando chegaram, um grupo de, aproximadamente, vinte pessoas.
Eram homens, principalmente, mas haviam três mulheres com idades próximas a 25 ou 30 anos. Todas filhas de lordes e duques, todas treinadas desde a infância. Carlo parecia confiar nelas de olhos fechados, assim como cada um de seus companheiros.
— É uma rota esquecida. Como as defesas anti aparatação estarão ativadas, eles fugirão por aqui — ele apontou para uma saída que dava para a floresta — e nós... Por aqui — voltou a apontar para a do rio — fora que, entrando por aqui, há uma passagem que dá acesso a um dos corredores secundários do castelo, então, caso precisemos, é uma rota extra.
Lily e Scorp assentiram. O loiro parecia muito com os lordes ali, com o cabelo longo, caindo pelo rosto, e o porte puro-sangue de ser. Poderia ser facilmente confundido, e ela sabia que usariam isso a seu favor. Todos os outros olhavam o mapa e apreendiam as informações, fazendo suas próprias perguntas.
— Seus primos estão aqui — Aaron deu à Lily um sorriso prateado que a fez corar ridiculamente. Ela namorava Lorcan a alguns meses, agora, mas ele era estupidamente bonito e a deixava sem graça com mais frequência do que gostaria.
Ela respirou e focou no lugar onde ele colocou o dedo. Um emaranhado de corredores. O quarto da Rose e do Hugo ficava um pouco afastado dos outros quartos, que eram ocupados por membros das cortes. Acompanhantes de...(Qual era o nome dela? Delphine, isso) Delphine, os lordes hospedados ali e suas famílias. Passando os olhos, identificou o quarto da Kaleen e do Nikolai (como Carlo sabia onde ficava, ela não tinha ideia), mas faltava alguém.
— Onde está o da Lis?
— Nesse corredor, acredito — ele flutuou um lápis por um traço que representava um corredor — Não procurei saber.
— Por quê? — ela o olhou espantada, mas ele deu de ombros.
— Estamos lidando com informações demais, e essa é desnecessária. Lis não precisa ser resgatada, entra e sai desse castelo a hora que quiser. Acredito que se mantém aí para proteger seus amigos. Quando eles forem embora, e o castelo for tomado, ela não será uma preocupação a mais.
— Como entraremos, Carlo? Como faremos isso? — a pergunta vinha de uma mulher com cabelos cor de mel cacheados. Seu francês era melodioso, e sua voz era macia. Ela era casada com um dos homens ali, Lily só não sabia qual.
— Nos dividiremos em três grupos. Não estamos em número suficiente para isso no momento, mas com os aurores, será perfeito. Daqui a doze dias eles tem uma reunião mensal, estarão todos os lordes e ladies concentrados aqui — ele apontou para o Grande Salão — Então, o nosso maior grupo vem aqui, e bagunça a vida deles. Os guardas vão dificultar o nosso lado, mas, esperançosamente, os do meu pai serão um número a nosso favor.
— Você conseguiu falar com ele? — ele negou com a cabeça, uma expressão infeliz em seu rosto.
— É inseguro demais mandar uma coruja diretamente para ele. Tentei entrar em contato com a Lis, mas… acho que ela me bloqueou. Deve estar com medo de ser interceptada — ele deu de ombros — mas os soldados D’Noir me conhecem e conhecem nossos homens. Não vão ficar contra.
Murmúrios em concordância e Carlo voltou ao plano.
— Enquanto uma equipe os distrai, duas outras, menores, resgatam as crianças. Uma sobe por aqui — ele apontou os corredores de criados até o quarto onde Rose e Hugo estavam — E a outra desce por aqui — ele apontou as únicas escadas que davam nas masmorras — Tiramos os três, e uma equipe esperará no lago para levá-los a um lugar seguro.
Era um plano sem detalhes ainda, mas os outros pareceram achar bastante sólido, pois pareceram se agradar com ele. Lily ainda não conseguia entender por que não incluir a Lis nos planos, mas todos pareciam achar desnecessário, tranquilizando-a, dizendo que conhecem a herdeira dos D’Noir, e que ela sabia muito bem se virar sozinha.
Escórpio, mais tarde, repetia as mesmas palavras para ela enquanto eles discutiam qual o papel eles fariam no plano, e ela parou de discutir.
— Você vai com a equipe para a Rose, certo? — ele anuiu.
— Carlo disse que consegue me infiltrar facilmente com algumas roupas bonitas, e eu seria um lorde perdido enquanto vasculho os corredores e silencio os guardas.
Ela achava aquilo uma péssima ideia. Ele sempre fora péssimo em ser silencioso, e hesitaria muitas vezes antes de matar alguém. Se ele não fosse eficaz, e um guarda acordasse para dar o alarme, as coisas ficariam muito feias.
— Acho que vou com você, então. Carlo disse que vai, ele mesmo, atrás do James, antes de subir para o Salão. James vai estar seguro. E o Hugo é meu melhor amigo.
Ele concordou, sem dizer nada, e ela sentou ao lado dele, analisando a cópia do mapa que Carlo havia dado a ela, estudando e ativando o modo concentração e foco dentro de si, para que não se distraísse um segundo sequer. Tinha muito trabalho a fazer, e a liberdade de sua família podia depender disso.
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