Stella
12 Saída estratégica
Notas iniciais
O coração sempre foi um órgão muito intrigante para ela. A sua única função era mantê-la viva, mas também estava a matando com uma criatividade assustadoramente mórbida todos os dias. O dela ainda estava particularmente muito acelerado enquanto encarava a entrada do laboratório, mas tentou não pensar em seus próprios problemas. O instinto materno aflorou no momento em que soube que havia crianças perdidas pela cidade, causando uma enorme sensação de repulsa em seu íntimo. Na maior parte do tempo, era como se duas pessoas estivessem brigando pelo controle de seu corpo.
— Estou aqui. – A porta foi aberta com a determinação de uma pessoa que estava pronta para lidar com um caso daquela natureza. – Agora, me conta exatamente o que aconteceu.
O rosto de Axton estava completamente branco quando se virou para olhar o semblante igualmente preocupado dela. As palavras estavam entaladas em sua garganta; engolir era uma completa perda de tempo, mas ele o fez assim mesmo. A boca estava muito seca para formar as palavras, e as pernas ameaçavam ceder de uma hora para outra. A coragem veio em cascata, e ele soltou tudo de uma vez em cima dela, que segurou suas mãos com gentileza e o orientou a respirar fundo com ela.
— Estou muito ferrado aqui. – O segundo aperto nas mãos dela foi mais forte do que o necessário, mas ajudou. – Estou quase morrendo aqui. – As mãos foram parar direto na cabeça. O seu corpo implorando para se lançar nos braços da amiga; no entanto, ele sabia que aquela postura não era adequada para o ambiente, então se segurou e tentou respirar fundo, como ela havia lhe ensinado. – Estamos precisando de um milagre aqui e de toda a ajuda deste mundo...
Stella colocou as mãos na frente das dele e respirou lentamente, encarando com muita atenção aquele rosto extremamente pálido.
— Está tudo bem, tá? – Agarrou as suas mãos, sendo imitada por ele ao encher o peito. – Eu prometo que vamos organizar toda essa bagunça, entendeu? Estou te dando a minha palavra. Mas, primeiro, você tem que me contar exatamente o que aconteceu.
O coitado precisou respirar fundo mais um milhão de vezes antes de conseguir abrir a boca outra vez. A coragem se esvaindo do seu corpo na mesma velocidade em que surgira. Ele fechou os olhos para evitar pensar em todo aquele desastre. Explicou muito pausadamente, como se fosse aquele robozinho do seu filme favorito.
— O tiroteio na escola... – Os pulmões se desinflaram, como se todo aquele oxigênio fosse demais para o órgão. O rosto de Stella se contraiu numa careta involuntária enquanto o observava falar naquele seu estilo robotizado, que estava dando um nó em seus neurônios. – Esse tiroteio está acabando com a nossa equipe. – A expressão dela foi mudando conforme entendia o que ele estava dizendo. O choque se espalhou por seu rosto como uma doença contagiosa, e ela não conseguiu evitar que isso transparecesse nele. – O que sabemos até agora é que uma das crianças morreu e seis estão feridas. Mas o pior de tudo é que algumas delas se assustaram e saíram correndo. Agora, estamos procurando por elas. Mas, é como eu disse, estamos precisando de toda a ajuda deste mundo.
A cabeça baixa entregou o esforço que ela também estava fazendo para manter o profissionalismo. As mãos se fecharam enquanto ela respirava fundo e o encarava com uma expressão minimamente neutra. Os olhos esquadrinharam o lugar; normalmente, era uma verdadeira bagunça. Porém, naquele dia, todos estavam trabalhando na mais profunda harmonia.
— E como eu posso ajudar?
— Então... – Mordiscou os lábios, coçando a nuca. – Eu queria saber se você não poderia conversar com a família da menina que morreu? – Evitou o contato visual, apertando os lábios. – Eles estarão aqui em alguns minutos.
O rapaz saiu sem esperar pela resposta; estava com muita coisa na cabeça e não podia perder mais tempo com banalidades. A mulher se sentou numa das cadeiras na entrada do laboratório e fechou os olhos. Aquela conversa não seria das mais prazerosas, mas alguém precisava ser a portadora daquela notícia horrorosa e, infelizmente, esse alguém era ela. Ainda estava falando consigo mesma quando Sage chegou, e colocou a mão em suas costas.
— Ei. – Eles sorriram um para o outro ao mesmo tempo. – O que você está fazendo aqui? – Ela se levantou e o cumprimentou com um abraço. – Você está bem?
— Estou ótima. – O sorriso permaneceu em seu rosto enquanto ela indicava a cadeira ao lado. – Senta. – Ambos se sentaram. – E você? O que tem feito?
— Então... – Entrelaçou os dedos. – Eu acabei de me encontrar com o conselho. A reunião era para falarmos sobre a reconstrução da parte destruída pelo incêndio. – O suspiro que escapou de seus lábios chamou a atenção dela, que colocou a mão direita sobre as dele, recebendo um sorriso como resposta. – O seu marido me pediu para ir no lugar dele. Ele estava muito ocupado com toda a história do tiroteio na Maryel. – As sobrancelhas dele se franziram, e as dela seguiram o exemplo. – Mas foi meio esquisito, sabe? – O seu semblante inteiro se contraiu numa careta. – O Mark estava querendo implementar umas coisas que, na minha opinião, são caras e extremamente desnecessárias. – O seu corpo se projetou para frente; foi quando ela finalmente olhou para ele. – É claro que eu quero o melhor para a nossa equipe, mas acho que esses fundos deveriam ser investidos em equipamentos novos e tecnologia de ponta, não em um busto do Mark para a entrada do laboratório.
O rosto de Stella estava completamente vermelho por conta do esforço que estava fazendo para não soltar um berro no meio daquele laboratório. Ela sempre soube que ele era um homem muito egocêntrico, mas nunca imaginou que chegaria àquele ponto.
— Um busto do Mark? – Apontou o indicador para o chão. – Aqui na entrada? – A sua mão era a única barreira entre a risada que estava segurando e o trabalho silencioso dos colegas. – É sério isso?
Ele assentiu, sentindo os lábios também se repuxarem com uma risada iminente.
— Estou te falando. Eu sei que isso é o cúmulo, mas chegou realmente a ser mencionado durante a reunião.
Os lábios dela estavam sendo castigados por seus dentes quando, finalmente, entregou os pontos e soltou uma risada muito escandalosa, que não combinava nadinha com a imagem de dama de ferro que havia construído. O susto que Sage tomou foi tão grande que ele praticamente pulou da cadeira, encarando-a como se estivesse vendo uma coisa de outro mundo.
— Eu não acredito nisso! – Espalmou a mão na direção dele, sacudindo a cabeça freneticamente. Algumas lágrimas escorriam de seus olhos. – Mas, considerando o tanto de dinheiro que ele colocou nisso... – Engasgou ao dar uma longa inspirada para recuperar o fôlego perdido, secando os olhos e imaginando como seria chegar ao trabalho e se deparar com uma cena daquelas todo santo dia. – Eu acho que ele poderia ter até um nu frontal dele bem na entrada.
A testa dele se franziu; estava rindo, mas por conta do misto de horror e incredulidade.
— Misericórdia! – Apertou o braço dela. – Não diz isso nem brincando.
Os rumos da conversa ganharam um contorno mais dramático quando as risadas pararam, com ela fazendo uma breve pausa para limpar a garganta antes de mudar completamente de assunto.
— Mas eu acho que não é exatamente isso que está te incomodando, estou errada?
A cabeça abaixada praticamente falou por ele.
— Eles... mencionaram a Rebecca...
A sua mão direita acariciou as costas dele.
— A sua namorada...
— É... – O peito apertou e os olhos arderam, mas ele se esforçou para manter o sorriso. – Mas muitíssimo obrigado por me ouvir.
Ela apertou carinhosamente a mão que estava entre as suas.
— Eu acho que você sabe que sempre estarei aqui.
Um sorriso amoroso se espalhou pelo rosto dela. O abraço que compartilharam parecia uma espécie de casa para ele naquele momento tão delicado, e ele demorou para se desvencilhar totalmente dos braços da colega e voltar ao trabalho.
— Ah! – Ergueu o dedo, virando a cabeça para encontrar os olhos dela. – Vê se não esquece de dar um abraço na Lily por mim.
O coração da mãe disparou ao ouvir o nome da filha, ficou tão atordoada que suas pernas ficaram moles e ela se apoiou na cadeira.
— Lily! – Levou as mãos à cabeça. – Oh, meu Deus! Lily! – As suas pernas simplesmente a levaram rumo à saída.
O compromisso firmado com Axton ficou em segundo plano em sua mente. A única coisa em que ela pensava era no perigo que a filha estava correndo, estando completamente sozinha naquele restaurante.
A porta do restaurante foi aberta com a mesma urgência que ela havia experimentado no laboratório. Os olhos varreram o lugar como se ela estivesse procurando uma evidência esquecida. E lá estava a menininha, dormindo tranquilamente com a mãozinha ainda na boca em seu carrinho, nem sabia do esquecimento da mãe.
— Oh, meu Deus. – As mãos foram direto para a cabeça enquanto ela se agachava ao lado do carrinho. – Meu Deus. – As mãos abafaram sua voz. – Está tudo bem com você.
— Está tudo bem com você? – O homem que ela havia visto na entrada a olhava com um ponto de interrogação estampado no rosto. – Moça?
A moça que o acompanhava olhou da mãe para o bebê.
— Esqueceu alguma coisa?
Os olhos de Stella se fecharam por um momento, e ela aproveitou para respirar fundo e pensar em alguma coisa enquanto se levantava para falar com eles.
— Eu... fui buscar o meu celular no carro. – Mostrou o aparelho. – Mas pedi para o James dar uma olhadinha nela para mim.
A outra mulher olhou para o balcão vazio.
— É mesmo? E onde ele está?
— Eu não sei. – Ensaiou um sorriso torto, engolindo em seco. – Eu acho que ele foi fazer alguma outra coisa... – As suas sobrancelhas se franziram quando ela encontrou o motivo perfeito para mudar de assunto na forma de um corte em cima da sobrancelha direita dele. – E o que foi que aconteceu com o seu rosto?
Ele levou a mão ao machucado, como se fosse uma coisa irrelevante.
— É... não é nada demais.
A acompanhante lançou um olhar orgulhoso na direção dele e disse:
— Ele entrou numa briga e ganhou.
Stella abriu um sorriso saudoso, lembrando de todas as vezes em que seu marido tinha feito exatamente o mesmo por sua causa.
— Então ele deve gostar muito de você para entrar numa briga dessas. Eu não sou médica, mas acho que vai precisar de alguns pontinhos...
— Não. – Ele negou com a cabeça, olhando para a moça. – Não se preocupe com isso.
Stella ergueu as mãos.
— Eu ainda acho que precisa. Ou isso pode acabar infeccionando...
— Eu acho que posso cuidar disso...
— Ela tem razão. – Segurou a mão dele. – Eu vou com você.
— Mas... eu... tenho outras coisas para fazer...
— Mas é melhor você ir. – Stella piscou para a outra mulher. – Ou não vai conseguir fazer mais nada.
— Eu vou te levar para o hospital, combinado? – Apertou a mão dele. – Eu sei que você vai me agradecer por isso depois.
— Eu até ajudaria, mas como podem ver... – Olhou para a filha e sorriu para eles. – Estou com as mãos meio ocupadas.
— Sem problemas. – Abriu um sorriso. — Nós entendemos.
Eles se despediram dela com sorrisos amigáveis e foram embora. A mãe imediatamente voltou toda a sua atenção para a menininha, se agachando ao seu lado outra vez.
— Eu sinto muito mesmo, meu anjinho. Estou tão feliz que você esteja bem. – As mãos foram automaticamente parar na cabeça; era como se alguém tivesse aberto um buraco no meio do seu estômago. – Eu... eu sou uma idiota, Lily. – A vergonha era tão avassaladora que não conseguia nem olhar para ela, então simplesmente encarou o chão. – A mamãe é uma detetive e... esse é um trabalho muito, muito importante. Algumas crianças se perderam hoje... e, se alguma coisa acontecesse com você, eu gostaria que uma detetive competente cuidasse de você. – Os seus olhos arderam quando percebeu o que estava dizendo. – Essa é uma péssima desculpa, e eu sou uma péssima mãe. – O celular tocou, mas ela não desviou a atenção da menina. – Está tudo bem, querida. A mamãe está bem aqui.
— Oi.
— Oi. – O marido dela respondeu, causando um enorme frio na sua barriga. – Sou eu. – A próxima frase foi dita com muita gentileza. – Estou indo ver vocês antes de voltar ao trabalho.
— Então estaremos te esperando aqui no restaurante do James.
A mãe levou a criança para o lado de fora do restaurante e se sentou em um banco para esperar o marido. O sono da menininha não foi interrompido, mas ela não tirou os olhos daquele rostinho fofo, não queria cometer o mesmo erro outra vez.
— Estamos bem, querida. – Lily havia acabado de acordar e encarava a mãe com curiosidade. – O papai está vindo para cá. – O bebê sorriu para ela, começando a chutar o ar como se tivesse entendido o que foi falado. – Eu sei que cometi um erro enorme, mas ainda bem que está tudo bem com você... porque, se tivesse acontecido alguma coisa, ou se alguém tivesse te levado embora, o papai nunca me perdoaria, e eu também não. – A menina colocou alguns de seus dedinhos na boca e chupou como se fosse sua chupeta. – Eu sei que sou uma péssima mãe... porque poderia ter acontecido qualquer coisa com você. – Lily olhou para ela. – Eu não posso mais continuar sendo tão desatenta e, definitivamente, não posso mais ficar me esquecendo da minha menininha. Mas o importante é que você está segura... e que você ainda é muito pequenininha para se lembrar disso. – Balançou as chaves do carro na frente dela, que as agarrou e puxou. – Está com saudades do papai?
A chegada de Will foi tão sorrateira que ela só percebeu a sua presença quando ele finalmente falou.
— Oi. – O susto que ela tomou foi tão grande que chegou a dar um pulinho no banco. – Está tudo bem, não se preocupe. Eu não estou aqui para brigar. – Ela fechou os olhos, soltando um suspiro aliviado. Era exatamente isso que ela queria ouvir. – Está com frio?
Ela negou com a cabeça, esboçando um sorriso envergonhado.
— Não.
— Oi, meu amorzinho! – Agarrou a mãozinha da filha, que deu um gritinho e sorriu. – Eu sei que você está muito zangada comigo, e não te culpo por isso.
— Não?
— Não, eu sei que não deveria ter falado dos nossos problemas pessoais com outras pessoas.
— É... – Cruzou os braços. – Eu fiquei muito chateada com isso.
Lily deu outro gritinho, batendo as chaves no carrinho para chamar a atenção dos pais.
— Mas eu juro que nunca mencionei a palavra depressão pós-parto. – Sentou ao lado dela, fazendo-a ficar entre ele e Lily. – É que estou sendo pai pela primeira vez na minha vida, Stella... então, é óbvio que nunca me senti assim antes. Eu sei que parece que estou calmo por fora, mas juro que estou em pânico por dentro. Mas prometo que tentarei me acostumar com tudo isso e vou tentar ser um bom marido.
— Eu agradeço muito por isso...
— Eu sei disso, vou tentar ficar mais calmo. – Envolveu a esposa em um abraço. – Você é uma mãe maravilhosa e também é uma detetive maravilhosa. – As palavras dele a atingiram com todo o peso do segredo que ela estava guardando, e ela cobriu o rosto com a mão dominante. – Eu quero que saiba que estou muito orgulhoso de você, tá bom? – Beijou sua testa. – Eu prometo que vou tentar te ajudar mais com a nossa menininha.
— Mas você já está ajudando.
Ele a abraçou mais forte, dando um beijo no topo de sua cabeça.
— Então, será que podemos parar de falar sobre isso? Já me sinto culpado demais por ter tentado te obrigar a tratar uma doença que você nem tem.
Ela olhou para ele com um sorrisinho contente, mas continuou sentindo aquele frio na barriga.
— Eu fiquei chateada quando o Dante apareceu na minha casa e começou a me acusar de estar com depressão pós-parto, mas acho que posso ter exagerado um pouquinho. – Encostou a cabeça em seu peito, evitando seus olhos. – Mas você tem todo o direito de desabafar com um amigo.
— Eu sei, mas não queria que fosse assim. – Acariciou os cabelos dela. – Eu só queria que alguém me escutasse, então achei que podia confiar no Dante, mas a primeira coisa que ele fez foi ir até você para tirar conclusões precipitadas. Eu juro que não queria que isso acontecesse, não queria que você ficasse chateada. – Colocou as mãos em seus ombros, afastando-a para olhar em seus olhos. – Mas fiquei pensando em tudo que aconteceu e acho que você está bem.
— Você cometeu um erro. – Ergueu a cabeça, encarando o nada atrás dele. – Mas estava certo sobre eu precisar passar mais tempo com a nossa princesinha. – As cócegas que fez na menina resultaram numa risadinha estridente da sua parte. – E eu te agradeço por isso.
Will sorriu.
— E como foi o dia de vocês?
— Excelente! – Levantou para se agachar na frente do carrinho. – Fomos ao parque, observamos as pessoas, e as crianças no parquinho. – Esticou o paninho sobre as suas perninhas, estava esfriando. Os pais sorriram para a criaturinha. – Foi ótimo enxergar o mundo pelos olhos da Lily.
O pai chegou mais perto do carrinho, apoiando o cotovelo nele para brincar com a criança.
— Eu fico feliz só de imaginar vocês duas se divertindo no parque.
A mãe abriu um sorriso nervoso.
— Eu sabia que você adoraria saber disso.
— E vocês passaram quanto tempo lá?
— Algumas horas.
— E almoçaram lá?
— Não, almoçamos aqui mesmo. Mas depois fomos dar uma voltinha ao redor da lagoa, e eu a coloquei no balanço.
A boca dele se abriu numa expressão de choque fingido.
— O quê? Então o papai perdeu a sua primeira vez no balanço?
— Pois é. – Arrumou a posição; seus calcanhares estavam começando a doer. – Eu não a balancei, sabe? Era só para ver como ela reagiria.
Lily resmungou, olhando da mãe para o pai.
— E ela gostou?
— Ela amou!
— O papai lamenta muito por ter perdido a sua primeira vez no balanço, meu amorzinho. – Segurou aquelas mãozinhas, dando um beijinho em cada uma. – Mas teremos muitas outras vezes. O que acham de um passeio em família no meu dia de folga?
A pergunta acabou ficando sem resposta, pois, quando ela estava abrindo a boca para responder, Jas apareceu com um enorme sorriso no rosto e entrou na conversa dizendo:
— Oi, família.
Os dois também abriram sorrisos calorosos e responderam:
— Oi.
Jas agarrou aqueles bracinhos e sacudiu.
— Espero que você tenha se divertido muito com a mamãe, lindinha!
— Ela...
Will riu.
— Ela experimentou muita coisa nova! – O pai encarou a menininha com muito orgulho. – E o papai está muito, muito orgulhoso dela!
A boca dela se abriu numa expressão divertida.
— É mesmo, lindinha? Eu fico muito feliz em saber! – Os olhos dela se voltaram para a amiga. – Ah! Muito obrigada pela ajuda com aquela caixa hoje mais cedo...
O medo consumiu a outra numa fração de segundos, e sua boca ficou seca de uma hora para a outra.
— O prazer foi todo meu.
— Os nossos colegas agradecem. – Riu. – Eles comeram feito loucos!
As sobrancelhas de Will estavam franzidas; alguma coisa não estava batendo naquela história.
— Vem aqui, Lily. – As chaves foram devolvidas para a dona, e a pequena saiu do carrinho direto para o colo do pai. – O papai trouxe uma surpresinha para você. – Arrancou uma chupeta do bolso do sobretudo e colocou na boquinha da filha. Os sonzinhos fofos de sucção encheram o lugar, fazendo Jas apertar aquelas bochechinhas rechonchudas. – Agora conta para a tia Jas sobre a sua grande aventura, amorzinho. – Os dois estavam sorrindo para ela, que esfregou os olhinhos com as mãos. – Eu acho que ela está com um pouquinho de sono.
Jas murmurou:
— Eu queria estar assim também.
— Está com dificuldades para dormir?
— Não. Estou bem... só estou fazendo muitas horas extras por causa do incêndio.
— Então não tente tomar nenhum remédio para dormir, hein. – O dedo de Will estava apontado para a subordinada. – Você é uma das nossas melhores mentes, e não queremos perder isso.
Um sorriso divertido enfeitou seu rosto, e ela bateu continência para o chefe.
— Entendido, chefe. – As duas riram. – Agora tenho que voltar para o meu marido. – O sorriso dela se voltou para o homem que a esperava na porta do restaurante. – Nos vemos mais tarde.
Stella bateu a mão na testa.
— Eu quase me esqueci do nosso encontro com a tia Jas. – Segurou uma das mãozinhas da menina. – Eu acho que ir ao parque foi tão bom que acabei me esquecendo do restante.
— Entendo. – Beijou seu rosto. – Eu acho que tive uma ideia.
— É mesmo? – O sorriso que ela tinha no rosto era muito sereno quando se sentou ao lado dele. – E eu posso saber do que se trata?
— O papai aqui ainda está devendo um jantar para a mamãe. – Lily resmungou, recostando a cabecinha no peito do pai e fechando os olhinhos. – Não é, Lily? – Aconchegou a esposa em seu corpo com o braço livre, passando a mão para cima e para baixo em suas costas. – Mas essa mocinha aqui ainda é muito novinha para sair à noite. – Beijou o topo da cabeça da criança, que choramingou enquanto sua mãe soltava uma risadinha baixa. – Mas ainda acho que posso pagar o jantar da mamãe.
Ela parou de rir só para perguntar:
— Eu quero, mas e a Lily?
— A Maggie está livre, podemos ligar para ela. – Arrumou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. – E então? Aceita o meu convite? Sim ou não?
— É claro que sim! – Fechou os olhos, suspirando de contentamento ao sentir o corpo relaxando contra o dele outra vez. – Eu adoro comer de graça.
Os minutos restantes foram usados numa conversa; foi muito complicado externalizar tudo o que estavam sentindo naqueles últimos meses, mas, no fim da conversa, tudo estava esclarecido.
O combinado entre eles era que não tocariam mais no assunto depressão pós-parto, um erro grave que cobraria seu preço muito mais cedo do que estavam imaginando. Naquela noite, Stella deixou Lily com Maggie, com a intenção de sair para jantar com o marido, mas ficou indecisa quando se deparou com uma encruzilhada em sua frente. O lábio inferior foi mordido com tanta força que o gosto de ferro ficou em sua boca; então, acabou escolhendo recalcular a rota e ir direto para Redfield. As dúvidas pairavam em sua mente como um mau agouro, mas agora estava feito. Os rostos do seu marido e da sua filha permeavam seus pensamentos; a última coisa que queria era abandoná-los, mas sabia que não conseguiria ficar ao lado deles naquelas circunstâncias. É claro que voltaria; aquela era só mais uma saída estratégica.
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