Stay with me
5 Epílogo
Notas iniciais
Algum tempo depois
Yūri realizou uma combinação de saltos impecável que até Viktor interrompeu sua sequência de passos para admirá-lo em meio à pista de gelo. O rinque de patinação da cidade estava vazio naquele final de semana, e aluno e técnico faziam bom proveito do lugar. As palmas de Viktor ecoaram pela arena, chamando a atenção do japonês.
— Uau! Sovershennyy, Yūri! Perfeito! Triple Axel, um Loop e Salchow quádruplo! Nunca te vi tão empenhado em me derrotar no gelo assim antes. — Brincou ao se aproximar de Yūri, que secava a testa com as costas da mão enluvada e recobrava o fôlego.
— Sente-se desafiado, Vitya? — O japonês lhe dirigiu um sorriso encantador que escondia uma malícia que poderia enganar a qualquer outro, menos Viktor. Aquela provocação tão sutil mexia com os brios do russo.
— E tão apaixonado quanto... — Pôde se aproximar a ponto de sentir a respiração forte do outro como uma brisa morna roçar em seu rosto corado. Sem nem mesmo notar, Viktor estava preso no feitiço que era o conjunto da obra à frente, a poucos centímetros.
Yūri soltou uma risada tímida, prostrada pelo cansaço do treino. Repousou uma mão sobre o peito de Viktor para se apoiar ou mesmo para afastá-lo e evitar de perder o decoro. Outros vícios foram sendo adquiridos quando ficavam juntos. Novas descobertas, desejos e manias eram catalogados. Ah, Viktor não aguentava mais passar tanto tempo sem beijá-lo e ali não havia ninguém. Tão tentador...
No começo, ele mesmo tinha adotado a regra de nunca atrapalhar o treino com carícias ou escapulidas para saciar suas vontades carnais. Mas a cada dia que descobriam mais um do outro e constatavam que ficava mais difícil de não quebrar a regra, mais negligências aconteciam. Então, optaram por treinar sempre com a equipe toda presente. Vinha dando certo, ainda que aquele treino fora uma grande exceção.
Viktor observou os movimentos de Yūri como se não quisesse perder qualquer frame daquele sorriso. Repousou a sua sobre a mão dele em seu peito, ao perceber a tentativa de fuga. Viktor voltou a diminuir a distância entre eles, sem precisar forçá-lo.
— Não atrapalhe meu treino — o japonês protestou, mas a convicção em sua voz não abalou a investida do russo.
Viktor beijou os lábios de Yūri, ganhando a cintura fina do japonês com intimidade ao alisá-la e anular qualquer espaço que houvesse entre eles. Manteve a outra mão em seu próprio peito, junto com a do seu amado rival, que logo subiu a nuca do russo e permaneceu ali, enterrando seus dedos enluvados nos cabelos platinados. Era um beijo cálido, ávido, que arrancou gemido gutural de Yūri. Viktor iria à loucura se o ouvisse de novo.
Nunca antes estiveram tão absortos da realidade que os cercava como estavam em meio ao beijo. Não sabiam mais se o calor que sentiam era pelo desgaste físico dos treinos tão rigorosos, ou pelas sensações que usufruíam no tocar de pele, lábios e corpos tão dispostos para novas explorações.
Yūri tirou força não sabendo de onde e conseguiu se afastar daquele homem que causava sensações incômodas dentro de sua calça e fazia seu coração quase pular pela boca. Ofegava com as bochechas ainda mais vermelhas. Viktor, hesitante, o deixou ir. Precisava respirar e...
— Ei! Govno! Vão pro motel! — Yuri Plisetsky gritou da entrada da pista, fazendo ambos quase pularem com o susto.
— Oh! Zatknis, Yuriy! — Viktor ordenou que o menor se calasse, usando seu dialeto de origem. Precisava esfriar a cabeça para não causar qualquer constrangimento; dar mais munição às chacotas do pequeno tigre russo contra o japonês.
Mas com Yuri presente, os ânimos foram contidos e o treino recomeçado.
Quase 8h se passaram e Viktor dera o treino como encerrado. Estava exausto, não fazia muito que se recuperara de sua pneumonia mal curada e estava exigindo-se muito com os treinos pesados. Temia pela demora em recuperar seu vigor trabalhado para os campeonatos, mas estava satisfeito com o resultado.
O frio começava abraçar seu corpo desprotegido e só observou os dois Yuris lhe acompanhar à saída da pista. Yuri alcançou sua bolsa e tirou de lá o celular. Yūri seguiu para o vestiário depois de colocar protetores de lâmina nos patins.
— Está tarde para você voltar embora sozinho, Yuri — Viktor puxou assunto com o mais jovem.
— Não venha com essa. Eu não serei vela para vocês, idiotas — Yuri respondeu sem sequer tirar os olhos da tela do aparelho enquanto digitava. — Eu tenho carona bem mais agradável e silenciosa do que vocês.
— Ah, é? E quem seria essa sua carona? — Viktor sentia-se responsável em, ao menos, levar o mais jovem de volta para casa em segurança quando eles ficavam até mais tarde no rinque. Mesmo que em São Petersburgo as noites eram claras como um eterno ocaso. Mas estava curioso em saber quem levaria Yuri para casa que não fosse o avô. Yuri resmungou como resposta e Viktor insistiu. — Pode dizer para mim agora, ou vou descobrir quando sua carona chegar...
— É Beka! Otabek — se corrigiu prontamente — é a minha carona, satisfeito?! — respondeu entre dentes, num rosnar de um felino arisco.
Viktor estava surpreso com o fato de Otabek Altin estar na Rússia, mas não por eles manterem o contato. Não evitou o sorriso de deboche curvar seus lábios, o que deixou o pequeno ainda mais furioso. A essa altura, Katsuki retornava do vestiário, com agasalho e gorro para aguentar o frio que fazia lá fora. Todos ouviram o motor poderoso da motocicleta de Otabek anunciar sua chegada. Yuri pareceu mais relaxado, por um mero segundo, voltando para seus parceiros de rinque com a expressão de arrogância.
— Divirtam-se, seus melosos!
— Obrigado, Yurio! — respondeu Viktor. — E aproveite a noite com Otabek, vejo que ele te faz bem. — Terminou abraçando Yūri, que parecia certamente confuso.
— Oh, Otabek está na Rússia? — o japonês indagou, mas rapidamente concordou com Viktor. — Que bom que vocês estão bem próximos!
Yuri entendeu o recado; por toda a zoação que ele fazia que tinha certeza que, involuntariamente, vomitaria arco-íris de tanta demonstração de amor dos mais velhos. Saiu xingando, batendo a porta e vermelho feito um pimentão. Viktor suspirou satisfeito com o efeito causado no mais novo e desagarrou Yūri para sentar-se num banco e retirar seus patins. Na mesma hora, sentiu a falta da temperatura do amado lhe aquecendo.
Yūri, por sua vez, fuçava no celular com o brilho da tela refletindo em seus óculos.
— Viktor, estão suspeitando ainda mais de nós. Não vai demorar para começarem a perguntar nas entrevistas.
Viktor ergueu os olhos após remover o primeiro patins e massagear o pé. Não havia parado para pensar na repercussão que seu relacionamento teria e em como Yūri agiria tendo sua intimidade contada em revistas. Compadeceu da preocupação que identificou na voz de Yūri.
— Desculpa, eu não queria deixá-lo desconfortável com isso, não precisamos dizer nada se...
Yūri o interrompeu, sentando-se ao seu lado para segurar sua mão.
— Não vejo problema em dizer que você é meu namorado.
— Somos noivos, Yūri — corrigiu, mostrando a aliança na mão direita. — Não precisaríamos dizer ao mundo que estamos juntos se fossemos diferentes. Penso se teria ainda uma chance com você se não fossemos patinadores conhecidos. — Removeu o outro patins, colocando a alça do par sobre o ombro.
— Você continuaria sendo russo bêbado se não fosse patinador. E eu estaria cuidando das termas em Hasetsu. — A tranquilidade em sua resposta causou um choque muito grande em Viktor.
— Eu estava tentando ser romântico! — alegou.
— Gosto quando é romântico, mas hoje eu quero ouvir outra coisa de você... Quero ouvir... — Aproximou do ouvido do outro e sussurrou suas provocações que causaram vermelhidão no pescoço e bochechas de Viktor.
Yūri levantou-se do banco deixando ele terminar de calçar os tênis com rapidez enquanto se dirigia à saída.
— Yūri! — Viktor chamou com desespero e ansiedade, saltitando ao puxar o tênis para o calcanhar e esquecendo-se completamente de se agasalhar.
The End.
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