Stay a Child
1 U: i want nothing that you're not
Notas iniciais
Percy nem sempre foi um bom filho.
Não eram poucas as vezes em que se irritava com o cuidado excessivo da mãe ou o otimismo quase insuportável de seu pai. Em inúmeras ocasiões, quis juntar suas roupas e sair d’A Toca o mais rápido possível. Disse coisas horríveis a seus pais.
Nem sempre foi um bom irmão também. Fez o possível para impedir que o comportamento insolente dos gêmeos e a falta de cuidado de Rony causassem a expulsão deles de Hogwarts; também, quase sofreu uma parada cardíaca quando Ginny foi levada para a Câmara Secreta. Apesar disso, não havia amado seus irmãos como eles mereciam.
O pior de seus feitos foi o momento em que virou as costas para sua família, ele pensava. Não havia um dia sequer em que Percy não se arrependesse de quando preteriu seus pais e irmãos em detrimento de sua carreira no Ministério da Magia. Teve a audácia de enfrentar e desrespeitar seu pai, acusando-o de não ter ambição e culpando-o pelos poucos recursos da família Weasley. Quando sua mãe tentou conversar com ele em seu apartamento em Londres, seu comportamento foi desprezível: fechou a porta assim que viu os cabelos ruivos de Molly Weasley do outro lado da passagem.
Em uma carta, após meses sem conversar com seus fraternos, tentou exercer certa autoridade ao pedir que Rony se afastasse de Harry Potter, mesmo sabendo que O Eleito amava o melhor amigo como um irmão. Percy nem mesmo aceitou um presente de Natal de sua mãe naquele ano e se recusou a ver o pai no hospital durante sua internação, repetindo o ato ao não comparecer ao casamento de seu irmão mais velho, Bill.
Por anos, tentou dizer a si mesmo que aquilo era necessário, que havia se esforçado para conseguir aquela posição no Ministério da Magia, que seus consanguíneos eram egoístas e não acreditavam em sua capacidade.
Ademais, Percy demorou um bom tempo para perceber o quanto estava errado. Acreditava que teria tempo de se redimir propriamente depois da Batalha de Hogwarts, mas acabou perdendo Fred em um piscar de olhos; lembrar do momento em que seu irmão lhe acolheu o machucava mais do que jamais havia imaginado. Temia que Bill e Charlie jamais o perdoassem de verdade e sentia vergonha de George, Ron e Ginny. Ainda assim, ele percebia que os olhos de seus pais se iluminavam sempre que viam Percy pela casa. Custou a entender que não eram olhares de decepção, mas de carinho. Haviam sentido saudades de seu filho, afinal.
Definitivamente, havia feito coisas horríveis, inomináveis. Não se pode virar as costas para uma família que te amou e apoiou por tanto tempo. Surpreendeu-se, até, quando eles lhe acolheram outra vez. Porém, ao invés de se redimir, Percy não fora capaz de se livrar dos traços mesquinhos de sua personalidade: continuava entrando em discussões desnecessárias com seus pais e irmãos, mas eles não pareciam levar nenhuma briga tão a sério quanto ele. Um dia, resmungou durante o almoço que não entendia como todos conseguiam permanecer tão unidos mesmo com a quantidade de discussões em que se metiam. Não pretendia ser escutado, mas seu irmão lhe deu um peteleco na orelha.
— Isso é normal, Percival — disse George, sentado ao seu lado — É coisa de família.
— George está certo — disse Ginny — Acha mesmo que eu aturo a cara feia do Rony por que gosto? Isso é coisa da Hermione.
— Cala a boca, Ginny! — exclamou Ronald, atirando algumas ervilhas na direção da irmã.
Todos ali eram adultos, mas agiam como crianças mal comportadas. Mesmo depois de se casar com Audrey, sua amada esposa, Percy acreditava que jamais poderia lidar com crianças, já que havia aguentado seus irmãos mais novos por muito — muito— tempo. Todavia, começou a mudar de ideia com o nascimento de sua primeira sobrinha.
Percy adorava quando Bill lhe pedia para cuidar de Victoire, uma criança ótima, muito comportada, como um mini adulto. O problema era quando a pequena se unia a Teddy Lupin nos almoços de domingo e, juntos, quase desmontavam a casa inteira. Por cerca de dois anos, Percy havia ponderado em segredo sobre prosseguir com sua linhagem.
James Sirius, porém, fez com que ele se lembrasse o motivo de não querer ter filhos. Cinco minutos cuidando daquele garoto eram como cinco anos preso em seu maior pesadelo: Jim não parava quieto nem por um segundo. Dominique era quase pior, parecendo empenhada a fazer seu tio enlouquecer. Até que conseguiu: Percy jurou que não teria filhos e ponto final, se dedicaria apenas aos sobrinhos. Ficou feliz quando soube que Angelina, sua cunhada, estava grávida há alguns meses, então estava ansioso para o nascimento de Fred II.
Contudo, Audrey engravidou e o homem mal teve tempo de aproveitar o mais novo sobrinho antes de quase ser levado pela loucura e os pensamentos apavorados que tomavam conta de sua mente.
Percy fazia tudo: cuidava da casa, trabalhava dobrado, passava mais tempo com os sobrinhos — com a ajuda de Merlin— e encontrava todo o tipo de ocupação que o impedisse de lidar com o fato de que seria pai. O quarto do bebê estava pronto, as roupas e brinquedos estavam comprados, o plano de nascimento estava minuciosamente organizado e o Hospital St. Mungus estava avisado que logo, logo, mais um casal Weasley apareceria ali. Os dois havia decidido não revelar o sexo do bebê até o nascimento, então pacientemente esperaram.
Em 20 de abril de 2003, Audrey entrou em trabalho de parto.
Percy Weasley seria pai.
— Meu Merlin — sussurrou ele, encarando o espelho do banheiro por alguns segundos — Eu vou ser pai.
Seus ouvidos zumbiam quando correu pelo próprio quarto, alcançando uma bolsa cheia de coisas de sua futura prole. Audrey estava estranhamente calma, contrastando com o nervosismo do marido. Percy mal se lembrava do caminho que havia feito até o hospital e nem ao menos tinha noção do que estava dizendo, só sabia que estava nervoso. Devia ter enviado um patrono para a família em algum momento, pois assim que Audrey foi levada para um dos quartos, várias cabeças ruivas apareceram fazendo barulho pelos corredores.
Sentado na sala de espera, sem poder acompanhar sua esposa, Percy sentia os dedos tremerem. Encarando o piso, ele pensava em tudo aquilo que havia adiado por oito meses e três semanas. Seria pai e não estava preparado para aquilo.
— Suas pernas vão criar vida própria, Percy — disse Bill, sentado ao seu lado — Quer se acalmar?
— Não consigo — respondeu ele, esfregando as mãos no rosto — Cadê a Victoire?
— Ajudando o Teddy a colocar fogo na casa da avó dele.
Percy quase conseguiu dar risada, mas percebeu que sua mandíbula estava tensionada. Seus dentes estavam a alguns segundos de trincarem quando Bill apoiou a mão em seu ombro, chamando sua atenção outra vez.
— Você vai vê-las num segundo.
— Não é esse o problema — falou Percy, quase sussurrando — Eu não vou ser um bom pai.
— Do que está falando?
— Eu nunca fui como vocês — explicou — Maltratei nossos pais. Não sou um irmão mais velho muito protetor como você e Charles e não sou valente como nossos mais novos.
Bill deixou um pequeno sorriso atravessar seus lábios, compreendendo a insegurança do irmão. Havia passado pela mesma situação duas vezes, então podia imaginar como aquilo poderia ser complicado para seu irmão mais novo.
— Sabe, Percy — começou Bill, apoiando-se nos joelhos, como o irmão — Toire não nasceu muito tempo depois do meu rosto ficar desse jeito — falou, apontando para a cicatriz que atravessava sua face — Pensei que ela fosse ter medo de mim quando me visse. Tive medo de entrar no quarto.
— E o que aconteceu?
— Eu segurei ela e ela ficou me olhando, quieta, com aqueles olhos azuis enormes — contou o primogênito, sorrindo com a lembrança — Dominique ficou tentando apertar meu rosto com os dedinhos minúsculos.
Por alguns instantes, Percy tentou imaginar como havia sido aquilo, a sensação de segurar um filho em seus braços. Já havia cuidado de seus sobrinhos mais vezes do que gostava de se lembrar, mas sabia que não chegava nem perto de ser a mesma coisa. Ele podia ver nos olhos de Bill, porém, um sentimento que não sabia reconhecer.
— E como é? — perguntou Percy — A sensação. Como foi segurá-las?
— Eu não consigo descrever. Mas, você vai se dar bem — assegurou Bill — Você é organizado demais ‘pra deixar alguma coisa errada acontecer com aquela criança.
Antes que pudesse responder, um medibruxo caminhou até ali, chamando por ele. Percy se levantou com pressa, chegando a ver alguns pontos escuros tomando conta de seus olhos, mas manteve a compostura. O medibruxo lhe cumprimentou, apertou sua mão e disse que ele tinha uma adorável menina. Percy ficou pálido, transparente.
— Vamos, P — Bill incentivou, segurando o irmão pelos ombros — Quando olhar para ela, vai saber o que fazer.
Não fazia ideia do que aquilo queria dizer, mas assentiu e se afastou, caminhando até o quarto. Ao entrar, percebeu que Audrey parecia hipnotizada enquanto observava um pequeno embrulho de cobertores em seus braços. Lentamente, Percy se aproximou da cama no centro do quarto, ainda com as mãos trêmulas e a boca seca. Foi apenas quando segurou a recém-nascida em seus braços que aquilo tudo passou. O único pensamento em sua mente era “eu sou um pai”.
— Oi — ele disse, surpreso com o quanto a criança estava quieta — Sabe quem eu sou?
Sabia que era uma pergunta tola, mas não pôde evitar. Tocou o rosto delicado da criança e deixou um suspiro escapar de seus lábios quando ela agarrou seu dedo indicador com as mãos pequenas e rechonchudas.
— Você é muito bonita — disse ele, ainda absorto nos olhos da infante.
— Estive pensando sobre ela — disse Audrey, feliz ao ver o marido tão encantado com a pequena menina de cabelos ruivos — Devíamos chamá-la de Molly.
— Molly II — completou Percy, concordando — Minha pequena Molly.
Encarando-a nos olhos, ele finalmente entendeu. Seria o melhor pai que conseguisse e seria por ela. Por amor a ela.
*
Molly II dormia demais.
Percy ficava preocupado: dormia durante a noite e boa parte do dia. Dormia enquanto comia, tomava banho e trocava as fraldas. Quase não chorava e mostrava pouco interesse pelos brinquedos que ganhava. Audrey dizia que ela estava bem, que havia sido examinada no hospital e que não apresentava problema nenhum. Sua mãe, Molly, lhe disse que ele mesmo era idêntico e quase impossível de ser acordado depois que nasceu.
Conforme crescia, porém, a menina se mostrou uma criança bastante extrovertida. Estava sempre rindo e brincando com seu primo, Fred II. Percy adorava vê-los brincando, pois sabia que seu falecido irmão também ia gostar.
Molly II aprendeu a falar muito rápido. Era até assustador: com apenas um ano de idade, ela falava quase tudo e com uma eloquência praticamente impossível para um bebê em sua idade. Não muito tempo depois, aprendeu a andar. Vê-la dando seus primeiros passos foi um dos dias mais felizes da vida de Percy e passou a ser a memória responsável pelo sucesso de seu feitiço do Patrono.
Então, Molly teve varíola de dragão e precisou ficar internada por dias no Hospital St. Mungus. A doença era mais facilmente tratada em crianças, mas ver sua filha tão frágil e pequena, tão vulnerável, era a pior dor que poderia sentir. Saber que não podia fazer nada era pior ainda. Felizmente, após algumas semanas tomando as poções corretas e descansando bastante, sua menininha já estava de volta ao lar, bagunçando tudo o que encontrava pela frente.
Molly II sempre se mostrou muito apegada ao pai, e a proximidade aumentou quando Audrey engravidou outra vez. Apesar disso, a primogênita adorava ter uma irmã caçula e prometeu ao pai que cuidaria da pequena Lucy para sempre. Uma das maiores alegrias do Weasley era ver suas filhas juntas, unidas, como ele havia sido com seus irmãos quando era mais novo. Todos os dias, se dedicava a criar ambas para que fossem melhores do que ele.
O tempo, infelizmente, passava muito rápido. Molly II recebeu sua carta de Hogwarts e, apesar de estar contente, Percy sentia seu coração apertado em seu peito. Era difícil pensar que sua menininha estava crescendo e passaria a maior parte do tempo longe dele. Lucy ainda estava em casa e Percy a amava muito, mas não tinha com ela a mesma conexão que dividia com Molly II.
Ver sua primeira filha crescendo foi uma grande aventura e uma jornada cheia de acontecimentos inesperados. No dia após a seleção das casas, Percy recebeu uma carta de sua filha. Molly havia sido selecionada para a Corvinal, e aquele foi o seu primeiro choque. Depois de digerir a informação, ficou contente; Molly era muito inteligente e tinha a mente bem aberta também, disposta a lidar com mudanças e curiosa pelo desconhecido. Percy acreditava que ela se daria muito bem ali e estava certo: Molly triunfava cada dia mais.
Percy Weasley tirava inúmeras fotografias de sua princesinha, expondo-as pela casa de campo onde morava com a família. Organizou, inclusive, um álbum de fotografias quando o espaço nas estantes se mostrou insuficiente para os registros. Sua preferida era uma de Molly correndo pelo terreno, brincando com as plantas. Aquela imagem era seu conforto quando discutiam — o que passou a acontecer com mais frequência do que ele gostaria.
Para o desespero de Percy, o monstro da adolescência havia tomado conta de sua filha. As constantes mudanças de humor, a puberdade e os ideais conflitantes dificultavam a convivência entre pai e filha durante o recesso de fim de ano e as férias. Por vezes, paravam de se falar e a garota insistia em passar o restante dos dias com seu tio Charles, na Romênia. O pior de tudo era que, quando discutiam, Percy tinha a impressão de que Molly se parecia demais com ele quando estava irritada. Seu maior pesadelo estava acontecendo: sentia na própria pele o mau comportamento que forçou seus pais a aturarem.
Entretanto, tão rápido quanto veio, aquela fase tortuosa passou. Era imensamente mais fácil lidar com a Molly de dezessete anos do que com a de treze, apesar das notícias incessantes de que ela havia arrumado uma nova paquera. Não sabia muito bem como reagir em relação àquelas notícias, mas era um tanto incômodo que a menina jamais lhe apresentasse um namorado fixo mesmo com todos aqueles boatos. Vez ou outra, ela mesma confirmava que havia se relacionado com um ou dois garotos de sua turma. Molly sempre esteve muito confortável com a própria sexualidade e, portanto, nunca se importou em falar sobre o que fazia e com quem se encontrava — para o desespero de seu pai.
— Sou nova demais ‘pra me prender, pai — ela dizia, aos dezesseis, quando perguntada sobre relacionamentos fixos — E muito ocupada também. Resolvo mais tarde na vida.
*
Pela última vez, logo após aproveitar um recesso de Natal com sua família, Percy deixou sua filha mais velha na Estação 9 ¾ com o mesmo aperto no peito que havia sentido nos últimos sete anos. Está quase acabando, ele repetia em sua mente, sorrindo ao acenar para as filhas pela janela do trem.
Com a proximidade do mês de julho, Percy estava melancólico. Em suas melhores vestes, viajou até Hogwarts na companhia da esposa e do restante da família. Já havia comparecido em ocasião parecida, mas não era a mesma sensação; havia presenciado a formatura de vários de seus sobrinhos. Victoire concluira seus estudos três anos antes, enquanto James Sirius e Dominique se formaram no ano anterior. Albus, Rose e Roxanne se formariam no ano seguinte, mas aquela era a vez de Molly e Fred.
Com os olhos inchados e lacrimejando, Percy viu sua filha aceitar seu diploma, comemorar com os amigos e a irmã e se despedir de seus colegas e professores. Em certo momento da noite, os dois dançaram juntos, enquanto Molly caçoava da dificuldade de seu pai em controlar as emoções.
— Eu tenho uma boa notícia — disse a menina — Mas só te conto se prometer que não vai fazer um escândalo.
— Ora, por favor — repreendeu ele, forçando um tom irritado — Eu jamais faria isso. Agora, ande, me conte de uma vez. Eu sou seu pai, eu quem mando e não o contrário.
— Vamos supor que eu tenha passado em todos os meus NIEM’s — começou ela, parecendo confiante — E tenha enviado minha aplicação para o Santuário de Dragões na Romênia. E tenha passado. Vamos apenas supor.
— Você perdeu a cabeça? — questionou ele, abaixando o tom de voz quando percebeu que havia feito exatamente o que sua filha lhe pediu para evitar — Você perdeu a cabeça? Só o treinamento leva meses.
— Eu sei, já conversei com tio Charlie — explicou ela, afastando-se da pista de dança, cruzando o braço com o do pai — Ele me explicou sobre os alojamentos, o treinamento e essas coisas.
— Acha mesmo que vou deixar você morar na Romênia? — perguntou o Weasley, sentindo o sangue ferver — Com seu tio Charles? Ele é um perdido!
Percy se arrependeu no instante em que deixou aquelas palavras saírem de seus lábios, mas já era tarde demais. Molly ficou séria, e Percy sentiu-se repreendido por sua filha de dezessete anos. Que situação, pensou ele. Não pensava realmente aquilo sobre seu irmão mais velho, mas não queria sua filha morando tão longe dele outra vez. Para seu desespero, as discussões sobre o assunto não cessaram até que ele parasse de resistir.
Molly estava impassível, não pretendia desistir de seu treinamento. Percy assistiu, em silêncio, a apresentação da filha sobre o porquê deveria ir para a Romênia cuidar de dragões. Ela organizou informações, planilhas, depoimentos de colegas, professores e familiares. Tinha, também, indicações de alguns dos colegas de trabalho de seu tio Charles, que havia conhecido nas vezes que o visitara na terra dos dragões. Molly soube explicar sobre os alojamentos, as inscrições, o pagamento e os protocolos de emergência no Santuário. Percy até mesmo descobriu novos feitiços de proteção a partir da pesquisa minuciosa da garota. De acordo com o que ela havia dito, Molly viajaria em agosto e estaria de volta para algumas semanas de recesso em julho do ano seguinte.
Percy não teve escolha. Precisava deixá-la ir.
*
O treinamento de Molly II terminou quase um ano depois. Percy, Audrey e Lucy a visitavam sempre que podiam, organizando viagens em família para acompanhar o desempenho e o sucesso da filha. Percy, a contragosto, reconheceu que havia feito a escolha certa ao deixá-la ir. Era bom ver sua filha prosperando.
Com o fim da capacitação, era hora de Molly voltar para a Inglaterra. Percy vibrava de felicidade e estava ansioso para voltar para casa depois do trabalho. Depois de sair do Ministério, comprou algumas das guloseimas preferidas da filha no caminho para o lar, sorrindo em antecipação com a chegada da garota. Não obstante, não estava esperando a imagem que o recebeu depois de atravessar a sala para alcançar a cozinha.
Sentadas à mesa estavam Audrey, Molly II e uma garota que Percy já havia visto em diversas fotos, mas não se lembrava do nome. Alheio à situação, se aproximou para deixar as caixas de doce sobre a madeira da mesa, mas viu algo que não entendeu. Sua filha estava sentada ao lado da garota de cabelos castanhos. As duas estavam de mãos dadas.
— Pai, que bom que chegou! — disse Molly, levantando-se com a mesma confiança de sempre para abraçá-lo. Ele sorriu, deixou os doces na mesa e abraçou-a de volta, mas permaneceu em silêncio — Quero te apresentar a alguém.
— Muito prazer, senhor Weasley — disse a garota. Ela também se levantou e apertou a mão de Percy quando Molly lhe deu espaço.
— Essa é Camille Wood, pai — explicou Molly — Minha namorada.
Percy não sorria mais. Seus olhos estavam opacos e a expressão preocupada de Audrey o irritou. Camille parecia nervosa e Molly estava séria, de braços cruzados, esperando alguma reação do pai. Ele conseguiu ouvir o suspiro surpreso da filha quando se virou e saiu dali, alcançando a lareira. Sem oferecer explicação alguma, encheu o punho de pó de Flú e atirou-o nos pés, exclamando o destino em voz alta. A última coisa que viu antes de ser engolido pelas chamas esverdeadas foram os olhos decepcionados de sua filha.
— Chalé das conchas!
*
— Molly está namorando uma menina e eu não faço ideia de como lidar com isso — disse Percy assim que chegou na casa do irmão, sentando-se ao lado de Bill em uma das cadeiras de madeira ao redor da mesa da cozinha. Dominique, agora formada, também estava ali, com os pés apoiados em outra cadeira enquanto fazia as unhas.
— Oi, tio P — disse ela.
— Boa tarde, Percy — cumprimentou Bill, afastando-se do jornal que segurava e bebendo um gole de sua caneca — Dominique fez café. Beba um pouco.
— Isso não faz sentido — continuou ele, servindo-se do café enquanto falava — Ela vivia rodeada de meninos em Hogwarts.
— Nunca gostou de nenhum, eram testes — contou Dominique, sem levantar os olhos. Bill apenas observava o incômodo do irmão, achando graça da situação. Havia passado pelo mesmo há alguns meses e, com certeza, era por isso que seu caçula estava ali.
— Isso é coisa sua, não é, Dominique? — acusou Percy — Molly não é de fazer essas coisas e-
— Cuidado, Percy — interrompeu Bill, colocando a varinha sobre a mesa — Você é meu irmão, mas Domi é minha filha. Eu gosto mais dela.
— Valeu, pai — murmurou Dominique, ainda sem se incomodar em levantar o olhar de suas unhas.
Percy tomou consciência do que quase disse e se calou, pensando em suas próximas palavras. Percebeu que, na verdade, não sabia o que pensar ou dizer. Em sua mente, o olhar entristecido de Molly o atormentava.
— O nome dela é Camille Wood — contou Percy, encostando-se na cadeira — Se conheceram na Romênia.
— Finalmente se assumiram — comentou Dominique, divertindo-se com o incômodo do tio.
— Como eu dizia — enfatizou ele, irritado com as caretas da sobrinha -, ela simplesmente chegou com essa garota em casa. Como foi quando Dominique te contou da menina Chang?
— Dominique me falou sobre a Jia logo antes do Natal — contou Bill — Por isso a menina estava na ceia com a gente.
Lembrava-se bem daquilo. Molly não pôde comparecer no Natal, assim como Charles, mas ficou muito animada quando soube que a prima havia levado a namorada para o jantar da família. Bill estava certo, Jia parecia mesmo uma boa garota e Percy até gostava dela, mas Dominique não era filha dele. Molly era.
— E o que você fez? — perguntou ele.
— Meu pai já sabia que eu gostava de meninas também — explicou Dominique — Eu contei quando eu tinha uns quatorze anos.
— Também? — perguntou Percy, sentindo-se tonto.
— Bissexual e etecetera — resumiu Dominique, sem querer aprofundar-se no assunto — Molly é lésbica.
Percy estremeceu ao ouvir a frase dita em voz alta, com todas as letras. Não poderia reagir daquela forma em frente a filha, de jeito nenhum. Então, decidiu colocar em prática o plano que tinha ao chegar ali: pedir o conselho de seu irmão mais velho.
— Como você se sentiu, Bill? O que você fez? O que acha que eu devo fazer?
Seu irmão ficou em silêncio por alguns instantes, olhando para a filha com certa cumplicidade. Percy estava ansioso, observando enquanto Bill caminhava pela cozinha para pegar alguns pães e colocá-los sobre a mesa, afastando os esmaltes da filha depois de bagunçar-lhe os cabelos. Voltou a se sentar e, por fim, disse:
— Percy, escute bem. Há dezoito anos você me perguntou qual a sensação de ser pai e, não importava o que eu respondesse sobre Vic ou Domi, não chegaria perto do que você sentiu quando pegou Molly e Lucy em seus braços ou de quando eu vi Louis pela primeira vez. Há vinte e um anos, nós dois lutamos para deixar o mundo melhor para todos eles, mas ainda existem muitos problemas e perigos lá fora. Não sou eu quem vai deixar tudo mais difícil. Meus filhos estão seguros na minha casa. As suas estão?
— Acho que entendo.
— Não é para mim que deve dizer isso — informou Bill, apontando para a lareira — É para Molly.
*
Percy estava em absoluto silêncio há pelo menos cinco minutos, mas parecia muito mais do que aquilo. Sentado em uma poltrona de sua casa, o Weasley olhava para todos os lados, evitando encarar sua filha no sofá ao seu lado. Ao voltar da casa do irmão, Percy a encontrou naquele mesmo lugar, encarando a lareira e esperando que ele chegasse. Molly estava quieta por acreditar que o pai lhe devia desculpas; Percy permanecia calado por não ter a menor ideia do que dizer.
Quando não aguentava mais a ausência de sons, o homem disse:
— Você parece decepcionada.
— Eu estou — respondeu Molly, tão rapidamente que surpreendeu seu pai — Quando eu tinha cinco anos, tive varíola de dragão. Precisei ficar alguns dias internada.
— Cinco dias. Os mais longos de toda a minha vida — disse, franzindo a testa por não entender onde a filha chegaria — Me surpreende que se lembre disso.
— Poucas coisas. Enfim, eu tinha medo de dormir no hospital e acordar sozinha. Lembra do que eu te pedi?
Percy suspirou, sendo invadido pelas memórias. Sabia exatamente o que Molly lhe dizia.
— Você me pediu para ficar com você e não te deixar sozinha.
— E você prometeu que jamais me deixaria.
Molly quase deu risada da situação. Passou um bom tempo esperando o momento certo para conversar com o pai até notar que não imaginava qual seria a reação dele. Sua mãe foi compreensiva e disse que já suspeitava, enquanto Lucy mostrou-se preparada para brigar com qualquer um que trouxesse problemas à irmã mais velha. Percy mal a olhava, mesmo quando ela voltou a falar.
— Você me deixou hoje, papai.
— Foram vinte minutos, Molly!
— Achei que não fosse voltar.
Sentindo o peso de suas ações, Percy estremeceu. Assustou-se, até, ao ouvir a voz trêmula de Molly II, que dificilmente se deixava abalar por qualquer coisa.
— Você podia ter me dito algo antes — disse ele, alguns minutos depois.
— Queria evitar que o senhor fizesse uma cena, mas acho que não adiantou.
— Eu não fiz uma cena! — defendeu-se Percy, finalmente encarando sua filha e sentindo seu coração afundar com o olhar gélido que lhe esperava.
— Sumir no instante em que eu falo sobre minha namorada na frente dela me parece uma cena.
— Foi uma reação intensa.
— Precisamos ficar aqui por alguns dias até meu apartamento ficar pronto — disse ela, chamando a atenção do pai — Se for muito para você, posso ficar com a vovó Molly. Ou com meus primos; Jim e Alice me convidaram e Cami é amiga da Vic.
— Não seja ridícula, Molly. Essa é sua casa também.
— Quer saber? — perguntou, cruzando os braços — O senhor está certo. Essa é minha casa e, portanto, de Camille também — apesar de irritada, o tom de voz de Molly era sereno.
— Como espera que eu aceite isso assim, sem nem ao menos pensar a respeito? — questionou Percy, arrependendo-se no instante seguinte. Molly respirou fundo antes de continuar:
— Não digo isso por rebeldia, mas não preciso que o senhor me aceite. Preciso que o senhor me respeite, pai. Você me ama?
— É claro que sim, Molly!
— Isso é tudo o que eu preciso de você.
Ela se levantou de onde estava e afagou o ombro do pai, sorrindo tristemente antes de caminhar para as escadas. Ao vê-la se afastando, Percy temeu que tivesse danificado a conexão tão bela e profunda que havia construído com sua filha mais velha desde seu nascimento. Isso posto, decidiu chamar sua atenção outra vez, caminhando até ela
— Tem certeza disso? — perguntou ele, ansioso pela resposta.
— Eu gosto de ser quem eu sou. Queria que você gostasse também.
Ela disse aquilo com tanta confiança que Percy quase deu um passo para trás. Abraçou a filha apertado, reconhecendo nela todas as qualidades que sabia que ela tinha. Quando ela se afastou, reprimindo um sorriso, o Weasley a observou subir as escadas. Vendo-a ali outra vez, sob seu teto, perto de suas asas, não teve escolha senão sentir-se aliviado. Molly estava em casa, em segurança, onde era amada e cuidada. Ele só precisava de um pouco mais de tempo para entender que sua filha era uma pessoa diferente dele; filhos são assim.
Sozinho em sua sala de estar, observou as fotografias em movimento apoiadas no topo da lareira, prestando atenção naquelas onde a primogênita aparecia — sempre confiante, decidida. Sentiu falta de quando ela era uma criança, pequena e dependente de sua proteção, mas estava feliz de saber que sua garotinha estava preparada para lidar com o que quer que lhe acontecesse. Ela havia crescido.
Percy, então, finalmente enxergou Molly II; ela era a mulher forte, inteligente, confiante e assertiva que criou para ser muito melhor do que ele. Estava orgulhoso e a amava muito, sem dúvida alguma. Não podia deixar que ela pensasse o contrário.
E, por amor a ela, ele sabia: jamais poderia lhe virar as costas.
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