Stay In The Pass
1 Eu sinto muito.
Notas iniciais
-Você precisa levantar. Você não come faz dias, Nathan.
-Eu não quero levantar, já disse. -Virei de costas para ele, colocando o travesseiro acima da minha cabeça.
-Você vai morrer de fome. Vamos, levante. Só vi você sair pra ir no banheiro. Qual foi a última vez que uma luz entrou nesse quarto? -Ele se dirigiu até as janelas do meu quarto e puxou a cortina, deixando que o Sol iluminasse completamente meu quarto.
-Para! Eu já disse, eu cuido da minha vida e você da sua! -Fui até lá e fechei as cortinas novamente, com raiva.
-Sua mãe está preocupada.
-Diz pra ela que eu tô bem.
-Não, você não está. Vamos te levar no hospital.
-Mas que droga, dá pra me deixar em paz?!
-Se seu tio estivesse aqui...
-Mas ele não tá, então sai do meu quarto. Agora.
Ele ficou me olhando por alguns segundos, até que suspirou e deixou o quarto, batendo a porta.
Esse é meu padrasto. Quanto eu odeio ele? Muito. E outra, ele sabe que odeio que me chamem de Nathan, por que ele faz isso? Eles sabem o porquê de eu estar assim, eles podiam pelo menos respeitar. Digo...Talvez eu devesse comer um pouco, mas...
-Ugh, eu não acredito que vou fazer isso. -Disse, me levantando. Fui até a cozinha parecendo um zumbi. Minha mãe estava fazendo torradas para o café da manhã e quando se virou para pegar uma faca, deu de cara comigo. Ela parecia bem surpresa, tipo, bem surpresa mesmo, ela não falou nada, só ficou me olhando.
-Você parece tanto com seu tio...
-Ah não, não não não, vou voltar pro meu quarto. -Saí correndo, mas ela segurou meu braço.
-Nathan, volta aqui! D-Digo, Nathaniel...
-Eu não quero falar do meu tio, não quero ver nada dele, qualquer coisa que tenha a ver com ele. Eu vou voltar pro meu quarto até vocês pararem com essa merda. -Ela me soltou e eu saí, batendo os pés. Enquanto eu saía, pude ouvir a voz do meu padrasto dizendo "É um caso perdido" e mais umas coisas, não consegui ouvir direito. Me atirei na cama, sentindo que iria começar a chorar.
Acordei com o sol batendo na minha cara, abri os olhos rapidamente e vi que não era minha mãe, não era o meu padrasto, era Joe e Charlotte.
-Levanta. Agora. -Joe puxou meu travesseiro.
-T-Tá! Calma! Como você e Charlotte vieram aqui? Achei que não soubessem onde eu moro.
-Não sabíamos, vimos sua mãe no mercado e seguimos ela. -Charlotte falou, mexendo no meu armário. Só agora fui perceber que havia mais alguém no quarto, ele era alto, tinha o cabelo preto...Digo, metade preto, metade vermelho. Ele estava mexendo na minha estante...Espera, por que raios ele está aqui?!
-E-Ei! Quem é esse?!
-Ah, é um amigo nosso. Ele tava com a gente no mercado. Calleb, esse é o Nathaniel.
Ele se virou, mostrando o rosto pálido como o meu. Seus olhos eram pretos, mas eram tão lindos...
-E aí. Nossa, quando vocês falaram dele, achei que não era tão magrelo.
-Uhhh...-Retiro todos elogios que dei à ele.
-Não que isso seja ruim, gosto de gente magra. -Ele deu um leve sorriso. Charlotte jogou umas roupas em cima de mim, minha calça jeans, meu moletom preto com detalhes brancos nas mangas e um grande "HYPE" escrito na frente e uma touca preta.
-Vai, veste. -Ela sentou na ponta da cama.
-O que? Pra quê? Eu não vou sair do meu quarto.
-Se você não se vestir, a gente vai te vestir. -Joe disse, atirando meu par de all star vermelho ao pé da cama.
-Eu odeio vocês. -Comecei a me vestir.
-Nós também te odíamos, por isso estamos aqui fazendo você sair de casa pra se divertir com suas melhores amigas.
Quando Charlotte disse isso, não pude segurar o sorriso. Elas realmente são minhas melhores amigas, e tenho um bom pressentimento sobre esse tal de Calleb. Ele parece... Simpático.
Descemos, tentando passar pela cozinha sem que minha mãe percebesse minha presença, o que não deu muito certo por causa do desgraçado do Ricardo, que anunciou minha chegada em voz alta.
-Veja só, pra sair com os amigos ele sai do quarto, mas pra almoçar com a família não está nem aí.
-Fica quieto, é melhor ele sair com os amigos do que ficar lá pra sempre. -Minha mãe disse, enquanto fritava ovos. Ricardo me olhou com uma cara feia enquanto eu saía.
Como eu disse antes, o dia estava ensolarado. Não tínhamos carro, então fomos até o shopping de ônibus mesmo. Na ida eu conversei bastante com o Calleb.
-Então...Nath, elas me falaram sobre sua perda. E eu queria falar com você sobre isso.
-Mas eu não quero falar.
-Você precisa superar de alguma forma. Eu sei que é difícil, mas você precisa dar um jeito de aceitar que ele já foi.
-Você diz isso porque não sabe como... -Antes que eu pudesse falar, ele me interrompeu.
-Minha tia morreu em um acidente de carro com meu pai dirigindo. Você quer mesmo discutir sobre perdas comigo?
Fiquei um tempo em silêncio, olhando sobre a janela do ônibus.
-Ele era legal com você?
-O melhor que já conheci.
-E quanto a sua mãe?
-Ela mora em outro país. Abandonou meu pai por um homem rico.
-...Meus pêsames.
Olhei para ele, esperando por uma resposta. Ele estava cabisbaixo, até perceber que eu estava observando-o.
-Meus pêsames pra você também, Nathan.
Ele olhou para baixo novamente, e eu, para a janela. Foi a primeira vez que me chamaram de Nathan e eu não senti um ódio imenso. Continuamos a conversar até chegarmos no nosso destino.
Aquela foi a melhor ida ao shopping que eu já fiz. Compramos algumas coisas, comemos e ficamos rondando por lá, conversando. Descobri que Calleb tem 17 anos, ele vive com o avô e outra tia, ele joga os mesmos jogos que eu e ele é o cara mais legal que eu já conheci. Eu adoro estar com ele, ele me faz rir a cada minuto, me sinto seguro com ele. Ele vai na minha casa (se minha mãe deixar) este sábado mesmo. Foi tão legal estar com ele que eu até...esqueci...
...
...
Mal posso esperar para o sábado.
Cheguei em casa, correndo pelas escadas para não ter que enfrentar aqueles dois, o que falhou, já que estavam na mesa da cozinha me esperando. Fui até lá e sentei com eles.
-Adoramos que você saiu hoje.
-Corrigindo, sua mãe adorou, eu acho que devia ter feito algo com a gente, e não com aqueles moleques...
-Não chame eles de moleques. -Eu disse, sem ao menos fazer contato visual com esse hipócrita. Antes que ele pudesse falar, minha mãe começou:
-Você pode sair com eles quando quiser. É bom pra sua recuperação. Aliás, eles podem vir aqui também. Não queremos te prender, se não vai ser pior, nós sabemos disso. Eu te amo, Nathaniel.
Fiquei algum tempo em silêncio, e depois olhei para ela.
-...Eu também te amo, mãe.
Acordei ao som do meu despertador. Olhei a hora, 13:56...Espera, O QUE?
Me levantei rápido, olhando a bagunça que se espalhava pelo meu quarto. Pacotes de comida, roupas sujas, calçados atirados de qualquer jeito, tudo jogado em qualquer lugar. Eu nem sequer vesti algo, apenas coloquei os pacotes no lixo e as roupas pra lavar. Como algumas não estavam sujas, dobrei elas e guardei. Arrumei minha cama, varri o chão, até botei perfume. Me vesti com um moletom preto e uma calça jeans. Sentei na cama e esperei que ele chegasse. Ele bateu na porta e, eu, como sempre, fiquei na indecisão de abrir na hora, como se eu estivesse esperando muito por aquilo ou esperar uns 4 segundos, pra mostrar que eu não sou um inútil sem nada pra fazer. Acabou que ele bateu 3 vezes e eu não havia dito nada. Abri a porta, um pouco vermelho, e olhei para ele dos pés a cabeça. Usava uma calça jeans preta, um tênis igual ao meu, uma camisa preta e um casaco xadrez, nas cores vermelho, cinza e preto. Eu contei à ele que adorava essas camisas.
-Entre, sente-se.
Disse, fechando a porta depois que ele entrou. Me sentei ao seu lado na cama e fiquei encarando o casaco com um sorriso bobo. Como sempre, minha gata, Gaya, abriu a porta e entrou no quarto. Me levantei para fechar e depois voltei para a cama, percebendo que durante isso Gaya já estava subindo no colo de Calleb e ele estava fazendo carinho nela.
-Qual o nome dela? É bem fofa.
-Ah...É Gaya.
-Você tem uma bela escolha pra nomes. -Ele continuou acariciando ela. Peguei os controles do ps3 e liguei para jogarmos.
Algumas horas depois, tipo, lá pelas 23:00, ele foi pra casa. Deitei na minha cama e liguei para Joe.
-Calleb me falou que ele foi aí hoje e vocês ficaram a tarde toda se divertindo. Sozinhos.
-Foi exatamente o que aconteceu.
-Você tá afim dele?
-Que? Pra que vou te falar? Você vai contar pra ele.
-Não vou, ele é hétero.
-Ah, então sim, estou afim dele. Mas agora que você disse isso eu desisto de tentar algo com ele.
-Ótimo, agora me conta como foi. O que você sentiu?
Depois de muuuuito tempo de conversa, nós dois dormimos. Tive pesadelos com meu tio e contei para Calleb. Ele tem me ajudado muito em relação a minha perda. Durante esse tempo, não aconteceu nada de importante, apenas conversas íntimas e tal...coisas fofas. Ricardo começou a cuidar mais da minha vida do que deveria, e isso é ruim. Ele não pode nem sonhar que gosto de garotos.
Enfim, esse mês acabou sendo uma mistura de emoções muito grande. Eu ainda estou bem abalado pela morte do meu tio, mas o Calleb me atingiu como uma bomba de felicidade. O que eu sinto...é incrível, nunca senti algo assim. Eu queria que meu tio estivesse aqui, pois ele me entendia. Eu contei pra ele sobre ser homossexual e ele me deu o maior apoio que pôde. Eu sinto falta disso, falta de receber carinho, o carinho dele...Eu queria que Calleb me abraçasse, ficasse ao meu lado, segurasse minha mão. Queria poder contar para Calleb o que eu sinto...
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