Stay

1 Capítulo único


Notas iniciais
Sorry not sorry, como sempre, pela angsty one-shot do mês.
Hope you like it tho (:

Você conta o tempo passando pela respiração dela.

Pelo inspirar e expirar cadenciado, direcionado exatamente ao seu colo, você sabe que cada segundo que passa é um segundo a menos do tempo que resta. Mas você não deixa de apreciá-los, um por um, enquanto corre as mãos pelos cachos bagunçados e aprecia o peso da cabeça dela fazendo seu ombro de travesseiro.

Nesse momento, embalada pelo afterglow, você quase se permite acreditar que nada podia ser mais perfeito. Porque não há nada mais certo do que se aconchegar com ela escutando os sons de fim de noite, sentindo o calor e a segurança que ela te traz. Era nisso que os poetas pensavam quando reverenciavam suas musas, nesse momento de paz e completude que, você sabe, só sente com ela.

Mas as respirações continuam seu ritmo, e o relógio continua a acompanhá-las. A cada milímetro que o ponteiro grande se aproxima da posição vertical, você sente aquele pequeno vazio dentro de si começar a crescer e crescer, incontrolável e inexpugnável.

Por mais que você queira pensar que há todo o tempo do mundo, isso não passa de ilusão. E se prender a essa ilusão só acaba doendo mais depois, você sabe por experiência própria.

O celular vibra, esquecido no bolso de calças jogadas no chão, no exato segundo em que o relógio marca onze horas. Exatamente como todas as outras vezes. Você pode falar qualquer coisa de Casey, menos que ele não é consistente e pontual. O vazio se torna ainda mais presente, pesado, quando Jane se desenrosca do seu lado e levanta para atender o telefone.

A conversa foi concisa, sem nenhuma palavra a mais do que o necessário. Quase como se fosse lida de um script, que se repetia todas as noites. Enquanto falava, Jane recolhia as roupas jogadas no chão e começava a vestí-las de volta, completamente ignorante do peso e da umidade você parece ter subitamente adquirido nas pálpebras.

Esse... arranjo, caso – porque não há outra palavra para isso que você fazem todas as noites – começou há pouco mais de oito meses. A data foi marcada a ferro e fogo, debaixo da sua pele. O dia em que você, pela primeira vez na vida, sentiu como se não te faltasse nada, apenas para depois perceber que, para começar, nada daquilo era realmente seu. Você enterrou os sentimentos, porém, eles que já faziam parte da sua rotina há anos, e se permitiu continuar nesse caminho autodestrutivo. E, até hoje, toda vez que Jane levanta e atravessa a soleira da porta, você é ingênua o suficiente para acreditar que, da próxima vez, pode ser diferente. Que da próxima vez ela vai ficar, passar a madrugada em seus braços. Que ela não vai se esgueirar no meio da noite e voltar para casa e para Casey.

- Fique. – as palavras saem tão sorrateiras que você nem mesmo percebe que elas estão no ar. Não até que Jane para tudo que está fazendo, e suspira pesadamente.

- Maur... – e essa sílaba é, ao mesmo tempo, a resposta mais completa e mais vazia que você já recebeu. E você sabe que, suficiente ou não, é a única resposta que você vai ter.

- Eu sei. Me desculpe. Eu devia lembrar que não é realmente uma coisa que eu possa pedir. – e sua voz é vazia, reflexo do que você sente. Suas mãos involuntariamente puxam o edredom que jaz aos pés da cama e você se enrola completamente nele, se sentindo mais exposta do que nunca antes.

Ela para por um momento, aos pés da cama, já completamente vestida exceto pela blusa ainda desabotoada, e imediatamente seus olhos se encontram. Ela parece querer dizer alguma coisa, mas nenhum som é ouvido. A intensidade das orbes castanhas aumenta tanto que é quase como se você pudesse sentí-las queimando sua pele, e, por um segundo, parece que ela vai se encaminhar de volta para os seus braços.

Só por um segundo mesmo.

Porque ela desvia o olhar, e vira de costas para você, que pode ver os braços se mexendo enquanto ela trabalha nos botões de baixo para cima. Ela inspira fundo, duas vezes, sinal clássico de que está prestes a falar algo que não gostaria.

- Não é porque eu não queira, você sabe. É só que... Essa... Coisa, com Case...

Mas ela não tem tempo de terminar a frase, a explicação, qualquer que fosse ela – se bem que, provavelmente, seria apenas uma variação da mesma coisa de sempre. E toda vez que esse assunto era trazido à tona, você praticamente podia sentir a parede se erguendo novamente entre vocês.

- Casamento, Jane. Essa coisa é o seu casamento com Casey. E eu sei que é complicado, e que não é uma coisa que vai simplesmente desaparecer só com a força do pensamento e a vontade de que ele nunca tivesse existido. Ao contrário do que você possa pensar, eu escuto. Na verdade, eu escuto versões variadas da mesma frase todas as noites.

E você não consegue impedir o tom seco e frio de escapar pelos seus lábios – e nem tem certeza que o faria, mesmo que pudesse.

- Por favor, Maur, você sabe que isso não é fácil pra mim. – ela diz, enquanto checa novamente as horas no relógio de pulso e se agacha para pegar o sapato que foi parar debaixo da cama. O movimento sutil, porém, não passa despercebido pelos seus próprios olhos semicerrados – se de raiva, frustração ou tristeza, nem você sabe dizer.

- Ah, me desculpe, Jane. Isso é difícil para você, claro. Me diga, o quão difícil é deixar o conforto de uma cama pelo de outra? O quão difícil é me deixar aqui apenas para chegar em casa e dormir ao lado de Casey? Você tem alguma ideia do quão difícil é para mim? Você acha que eu não sinto nada todas as vezes que lembro que não tenho escolha senão dividir a mulher que amo? Você acha que a cama não fica vazia quando você sai, que eu não tenho vontade de chorar quando me reviro nos lençóis e penso que, nesse exato minuto, ele está tocando você, beijando você, apagando da sua pele todo e qualquer resquício da minha presença? – Jane sequer esboçou uma resposta, mas você não estava exatamente esperando uma. O silêncio pesou e pressionou sobre cada centímetro do seu corpo, apenas pelo tempo que você tomou fôlego para sua última retórica. – Você já imaginou o quanto dói não saber quando eu vou te ver de novo?

- Eu vou te ver no trabalho amanhã. – ela diz, mas ainda continua de costas para você, arrumando coisas invisíveis na calça.

A acidez e a frieza da sua voz surpreendem ainda mais quando você escuta as palavras saindo da sua boca, lenta e deliberadamente.

- Não foi isso o que eu quis dizer. Não se faça de desentendida.

- Eu não sei. – ela responde, cabeça baixa e ombros decaídos.

A falta de expressão no tom dela se equipara à sensação de uma adaga perfurando seu peito, atravessando camadas e camadas de pele, tecidos e órgãos. Você sabe muito bem o que isso significa. Você sabe os dias que estão escondidos por debaixo dessa resposta não compromissada. Você também sabe com que facilidade esses dias podem se arrastar em semanas. Semanas de solidão e vazio, tão agudos e violentos que você se duvida capaz de sobreviver a eles. E o paradoxo da situação, da Rainha dos Mortos sentir falta de contato e proximidade, de você ficar isolada não por vontade própria mas porque ela se afastou, isso é o que mais te deixa pasma. O que mais faz doer, porque não há como fugir de algo que não está presente, que não está onde deveria. E enquanto você pensa, ela termina de se arrumar e, finalmente, vira na sua direção, prestes a dizer adeus e sumir por sabe-se lá quanto tempo.

- Tudo o que nós temos, tudo o que nós somos? Essas são coisas que você nunca poderá ter com Casey. Mas mesmo assim você vai embora, e eu não posso deixar de me perguntar se você quer mesmo ficar comigo para começo de história.

Jane puxou os cabelos para trás, correndo os dedos pela cabeça para tirar os cachos do rosto, um gesto claramente frustrado. – Como você pode me perguntar isso? – e então as mãos, tão frequentemente usadas simultâneas às palavras, passam a se sustentar, trêmulas, nos quadris estreitos.

- Porque toda vez que você diz que quer ficar comigo, toda vez que você diz que me ama, é exatamente no momento em que estamos prestes a fazer sexo.

- É claro que eu quero ficar com você! – e, mesmo quando ela parecia querer ficar e provar que o que falava era verdade, a ansiedade por não já estar no caminho de casa falava mais alto. – Só é... complicado.

- Não acho que seja isso, Jane. Porque, se sua primeira justificativa é de que isso é complicado, você pode muito bem dizer que não quer enfrentar esse problema de frente. O que, basicamente, é a mesma coisa que te chamar de covarde. – você para por frações de segundo ao ser presa pelas chamas no olhar dela. – E se tem uma coisa que você não é, é covarde. Então eu vou perguntar mais uma vez: você quer mesmo ficar comigo?

- Não é questão de querer ou não, Maura! – as chamas, que antes pareciam forçadamente contidas, brilharam em toda a sua periculosidade, mas você levantou, se agarrando ao lençol enrolado sobre seu corpo como se ele fosse algum tipo de escudo. Você é a única pessoa que se atreveria a discutir com uma Jane nesse estado, e não é dessa vez que vai se afastar com cuidado e medo de quebrar esse equilíbrio frágil a que vocês tinham chegado. Porque o equilíbrio não era mais suficiente, o meio-termo já deixara de ser satisfatório. Você fixou os olhos no rosto dela, mesmo que tendo de levantar a cabeça para fazê-lo, e estudou aquelas feições a que já estava tão acostumada. E, pela primeira vez, sua leitura não rendeu resultado algum. Você não viu ali escritos fatos ou ficção. Nem promessas nem mentiras. Nem começo nem fim. Absolutamente nada.

- Então fique. – as sílabas são brutas, ásperas, finais. Você sente seu cabelo virar abruptamente quando seu corpo se encaminha de súbito para a saída mais próxima e lógica, o banheiro. Uma última tentativa desesperada de retesar a explosão emocional para um momento em que você esteja sozinha, protegida pela porta fechada. Mas ela, sua melhor amiga, o amor da sua vida, seu quase para sempre, seu possível final de contos de fadas, ela interrompe seu caminho com uma mão firme – mas que ainda assim passa longe de machucar – no seu pulso, e você vira automaticamente quando a trajetória é invertida. E vocês estão próximas, próximas demais, e você pode sentir o calor emanando da pele dela, as orbes castanhas presas às suas, praticamente derramando emoções e sentimentos.

- Você sabe que eu não posso. – e a voz dela carrega mais arrependimento e pesar do que você jamais viu, junto com uma simpatia infinita por você, a pessoa que não quer nada mais do que passar a infinidade com ela.

- Você entendeu errado. – e você endireita os ombros e inspira fundo, tentando juntar a maior quantidade de força possível, porque sabe que nada na sua vida foi ou será tão difícil quanto dizer essas próximas palavras. – Quando chegar a hora, quando você finalmente achar que é o tempo certo para nossa “próxima vez”? Fique. Fique exatamente onde está. Se aconchegue nos braços de Casey e esqueça que eu sequer fui uma opção. Porque é isso o que eu sou para você, Jane. Uma opção. E eu não tenho que viver assim, e tenho certeza absoluta de que não mereço isso. Eu não mereço a injustiça de te dar todo pedaço de mim e receber migalhas em troca. – sua voz subitamente falha, e você percebe que um soluço tenta escapar. As lágrimas há muito já correm soltas por suas bochechas, mas você não se importa. – Eu pensei que não estava te dando o suficiente. Eu pensei que não era boa o suficiente para você. – Jane abre a boca, provavelmente para discordar, mas um aceno de mão seu a impede de dizer qualquer coisa. – E eu estava tão errada. Eu te dei tudo e mais um pouco, qualquer coisa possível e imaginável. Todo o amor que eu tinha em mim, toda a afeição que eu guardei por tantos anos. E o que eu recebo em troca? Um “te vejo amanhã”. – o tremor que percorre por completo o seu corpo é incontrolável, e se estende mesmo até a mão que você levanta para afastar as lágrimas. – Eu fui usada e aprendi minha lição. E você deve ir embora agora.

Jane está estática, e apenas pisca duas vezes, como se não conseguisse entender o que acabara de se passar. Como se, racionalmente, as palavras e seus significados tivessem sido processados, mas não compreendidos. O rosto dela se contorce numa expressão indecifrável, mas não há nada que você possa fazer sobre isso. – Eu nunca te usei, Maura! Por favor!

Mas você não está mais lá. Sua fachada inacessível, sua máscara inexpressiva já foi posta no lugar – mesmo você sabendo que nenhuma das duas pode durar mais que alguns segundos. E você se solta dela e se dirige ao banheiro, e só olha para trás uma vez, apenas pelo tempo de dizer uma última palavra antes de fechar a porta.

- Vá.

Notas finais
Reviews são felizes e compensam o angst aí de cima u_u
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!