— Oh, boy! — conseguiu dizer Emma, deparada com a figura de uma apática Regina.

A Rainha Má era naquele momento o contrário de tudo o que aparentava desde a chegada da salvadora à Storybrooke; os cabelos curtos estavam opacos, a maquiagem era inexistente em sua face, o pijama de seda verde que vestia seu corpo estava tão amassado quanto as folhas velhas espalhadas na grama do jardim, o que havia sobrado da mãe adotiva de Henry era o humor negro em excesso.

— Tire os pés daqui imediatamente, sua... sua... — Regina mal conseguia chamá-la do que queria.

Algo dentro de seu peito apertou-se, como se o coração ainda existisse por dentro, e naqueles muitos segundos a ver Swan diante de si, sentiu-se gélida, mais pálida que sua pele naturalmente era. Fez o movimento de fechar a porta mas Emma interviu com uma das mãos, abrindo de volta. Novamente o silêncio zumbiu nos ouvidos das duas, mas fora por pouco tempo.

— Regina, você me chamou? — Emma fitava o rosto de Regina virado para o lado na tentativa de evita-la.

— Vá embora!

— Mas...

A loira franziu o cenho, largando a mão da porta.

— Eu estou te dando uma chance de tirar essa sua cara nojenta da minha frente, me faça pelo menos esse favor, ou vai querer estragar a minha noite mais do que ela está como todas desde quando você chegou nesta cidade?

Regina ergueu a cabeça e voz autoritária, encheu o peito de ar e encarou Swan com olhos de repudia.

— Mas foi você quem me chamou aqui. — Emma tirou do bolso da frente de sua calça o pedaço de papel erguendo-o entre seus dedos na altura da prefeita.

— Vá embora daqui! — a morena estava prestes fechar a porta novamente, mas titubeou com o papel tão perto da fuça. — Eu jamais chamaria você aqui, miss estraga prazer.

— Então por que diabos me deram isso? — ainda mantinha o papel erguido entre os dedos, Regina pegou aquilo de sua posse e rasgou em pedaços ainda mais minúsculos que flutuaram suavemente até tocarem o chão.

— Historinha para fazer a adormecida dormir novamente, volte para o navio do seu pirata e trate de morrer junto dele.

Nesse momento a salvadora recordou do fato de também não ter visto Killian à dias. Ela respirou fundo, mordeu o lábio inferior e tornou a dizer:

— Regina, eu não tenho motivos para estar aqui, se tivesse seria pelo Henry, e ele não está aqui, está? Ou foi você que mandou o bilhete me pedindo para vir aqui a essa hora ou foi quem? O fantasma da Cora?

— Não ouse dizer o nome da minha mãe, que por culpa da sua está morta.

A loira suspirou insatisfeita, colocando as mãos na cintura e erguendo as sobrancelhas de forma debochada.

— Vai começar com a troca de farpas? Isso é passado, Regina.

— Arg, como eu odeio quando você fala o meu nome desse jeito.

A morena jogou os cabelos para trás no típico movimento charmoso que fazia.

— Ok, então eu vim atoa, obrigada por me fazer de besta, Regina. — disse Emma batendo continência.

— Espere... — chamou Mills no momento em que Swan virou-se para ir embora — eu não mandei esse bilhete, isso não é alguma invenção sua? O que estava escrito nele?

— Que eu devia vir aqui me encontrar com você para um assunto sério, você disse por favor e urgente, se lembrou agora?

— Não! Isso não é meu, Emma.

— Pois também não é coisa minha. — Swan fez uma careta cômica ao fitar Regina de volta.

— Então quem foi que te mandou isso?

— Ruby me entregou, mas... por que... — Emma parou para pensar por um momento. — se for o que eu estou pensando... não, aquele garoto...

— Henry? — Regina questionou fitando a loira tão estranha quanto.

— Foi ele! — as duas disseram juntas, as vozes saíram quase que num suspiro.

Se olhavam assentindo em conjunto, os lábios entreabertos sem mais palavras para definir a situação, só tinham a certeza de que o filho estava envolvido. Naquele instante as bochechas de Emma coraram e a Rainha Má precisou aceitar que a presença dela ali era uma armação. Não reclamou, não a fitava mais de cara fechada, nem tinha coragem de fazê-lo novamente, engolira seco.

— Olha, eu sei que não vai adiantar nada do que eu te disse aqui agora, mas eu sei porque Henry fez isso, hoje de manhã ele me pediu que viesse aqui te convencer. Você não sai de casa tem uma semana, estamos todos preocupados, acredite. Eu sei muito bem que eu sou a última pessoa que você deseja ver no mundo, acontece que Henry não está feliz em te ver desse jeito. Será que poderíamos conversar? Só um pouco? Para que eu chegue em casa com um bom argumento.

Emma Swan respirava pela boca. Regina sem alternativa, de olhos vidrados na mirada esverdeada da mulher que implorava a sua frente, rangeu os dentes. Ela virou-se de costas e caminhou de volta, para dentro da casa, deixando o portal de madeira aberto como se esquecesse do fato da outra mãe de seu filho estar ali. A loira bufou cansada e seguiu Regina casa a dentro.

— Não espere pela minha simpatia, muito menos meu desabafo porque não preciso disso. — Mills, que caminhou até uma sala de visita, procurou no bar que havia na mesma uma garrafa de whisky qualquer. — Eu não vou me humilhar por tão pouco.

— Hey, o que está fazendo?! — Swan correu até ela impedindo que a bebida fosse entornada na garganta de Regina, tomou de sua mão e colocou sobre o balcão, intimidando a prefeita. — Não vai ser com isso que vai resolver. Por favor, diga que não tem bebido por conta do que houve?

— E por que você se importa? Você não pensa nas consequências, você é como a sua mãe, porque se preocuparia com o fato de eu beber duas dessa todos os dias?

Regina a fitou com repulsa novamente.

— Se Henry souber disso, ele vai ficar ainda mais chateado. Isso não pesa na sua consciência?

— Que se dane a minha consciência nesse momento!

Emma indignou-se, acompanhando com os olhos os passos de Regina em outra direção.

— Regina, olha pra você, está perdida.

— Não estou perdida, estou apenas lamentando.

A prefeita de Storybrooke parou em um canto do recinto, cruzou os braços e lutou para conter um nó na garganta que surgiu de súbito.

— Lamentando o que foi culpa minha? Regina...

— Quieta! — Mills interrompeu. — Chega de falar disso, não vale a pena. — seus olhos ardiam, era preciso piscar demais para segurar a vontade que eles impunham a ela. — Diga ao Henry que eu já esqueci o que houve, vá lá, diga a ele, mas saiba você que essa não é a verdade.

A voz dela estremeceu. A loira tomou ar antes de replicar:

— Regina... eu...

— Pare! Pare de falar o meu nome! — Regina interrompeu uma segunda vez irritada, desfazendo o laço dos braços. — Você vai me dizer as mesmas coisas que disse naquele dia, que não sabia de nada, que queria salvar a vida dela... você só esqueceu que ele estava salvando a minha, Robin era tudo o que eu tinha, você não pensou, por isso eu não acredito que se preocupe comigo, eu não acredito em ninguém.

Emma andou até Regina. Segurou seus ombros com força e mergulhou com seus olhos na escuridão dos da Rainha Má, que àquela altura tinham suas laterais encharcadas e avermelhadas. A boca rosada tremia para baixo sem controle, Regina desejava demonstrar força e seriedade, mas pouco conseguia controle de si.

— Eu passei seis noites sem dormir, meus dias tem sido tédio puro, eu odeio ouvir Henry me perguntar de você toda manhã, eu odeio não conseguir mais criar magia alguma das minhas próprias mãos, porque se eu conseguisse fazer isso sozinha, eu faria uma para consertar tudo, Regina, eu faria, acredite ou não. Agora, eu só peço que faça meu filho... o nosso filho sorrir de novo, porque me cortou o coração ouvi-lo dizer que não é feliz se uma de nós também não for, então por favor me perdoa, eu prometo nunca mais pisar nessa casa ou te encontrar, eu saio do seu caminho mas faça isso pelo Henry, e um pouco por mim, para que eu durma em paz, com a mente limpa, sem culpa. — Emma sentiu o calor de uma lágrima escorrer por cima de uma das bochechas.

Regina Mills estava inerte, mortificada da sensação que as palavras de Emma provocaram. Um minuto depois, caiu sobre os braços da loira que a segurou com toda a força e um medo absurdo de tê-la ferido ainda mais internamente. O rosto muito pálido da Rainha aproximou-se do seio direito de Swan, pesado e molhado de lágrimas, Regina estava inconsciente, e a razão a loira não sabia ao ver que aquilo ocorreu subitamente.

Com muito esmero tomou o corpo enfraquecido de Mills em seus braços e carregou pelos corredores e escada acima. Emma repousou o corpo da prefeita na cama do quarto maior no segundo andar, ao qual a própria Regina pertencia, cobriu seu corpo com um lençol ali jogado e sentou-se ao lado dela no macio. Pensou em sair e deixa-la, pensou em chamar alguém, mas por alguma razão tinha uma interna esperança de que aquilo era apenas uma defesa de Regina, desejando apagar todo o peso da tristeza.

Notas finais
Pensaram que ia demorar... não foi dessa vez. Enfim, segundo capítulo e as emoções começaram pra valer, espero que aproveitem. Comentem, digam suas opiniões, e perdão por qualquer coisa que eu tenha exagerado ou colocado de maneira que não agrade. No mais, aguardem os próximos e obrigada por ler ;)