Notas iniciais
Este é o meu primeiro one-shot de Haikyuu! Antes tinha me sempre mantido no Kuroko no Basket, embora HQ! seja na verdade o meu mangá favorito. Mas decidi arriscar, e comecei logo com um assunto mais pesado.
Espero que gostem!

O apito que declarava o fim do jogo ressoou pelo campo e embora o ginásio estivesse dominado por gritos, um vazio enorme pareceu engolir todo o som que ouvia. Havia perdido. Havia perdido contra o Tobio-chan.

As minhas mãos tremiam. Estava tudo bem, não estava? O suor que escorria do meu rosto indicava-me como me tinha esforçado até ao fim. O meu joelho tremulo também e as dores agoniantes no meu corpo. Não havia porque me arrepender. Os meus anos haviam sido bem gastos, juntos da minha equipa, juntos do Iwa-chan.

Realmente, não havia porque me arrepender.

Tobio-chan era forte. Junto daquele pequeno, ele era ainda mais forte. Talvez derrotassem o Ushijima, talvez eles fossem para os Nacionais. As palavras que eles me lançavam não me magoavam, porque nunca tiveram intenção de arder. Mas o sorriso, o sorriso que a equipa dele partilhava.

Aquele sorriso devia ser meu.

Cumprimentamos o árbitro, o capitão e os restantes jogadores. Eles tinham disputado a partida ao máximo, jogaram bem e admitiria sem vergonhas. Senti algo escorrer do meu rosto, que toquei com as costas da mão. Ah, apenas suor. Ainda suor.

Caminhámos para os vestiários e Iwaizumi esperava o que eu lhe diria, mas eu tinha a garganta cozida e estava indeciso em libertar-me e sangrar ou fechar os olhos. Nunca fui pessoa de o fazer mas naquele momento, nada queria eu ver.

Ainda ouvia na minha mente o eco da bola a embater contra o chão, a declarar o ponto final da nossa derrota.

- Iwa-chan, vou apanhar um pouco de ar. — peguei apenas no casaco do uniforme antes de me dirigir para a porta dos vestiários. Não era por ser o capitão que tinha de dar um longo discurso de como todos tinham se esforçado e que não culpava ninguém pelo meu último jogo. Eu estava irritado, angustiado, não tinha paciência para palavras secas. Não tinha paciência para mais nada.

- Oikawa. — não foi o olhar que lhe lancei que o fez mudar de ideias, não, ele sabia como eu me sentia. Ele sempre sabia. Iwaizumi apenas queria ter a certeza de o que fazer. "Não sou um porra de génio como tu, Oikawa." era o que ele diria. Riria, a xingá-lo como sempre. Agora nem sorrir de soslaio era capaz. — Apenas não fiques fora tempo demais, idiota. Vais apanhar um resfriado.

- Certo. Obrigado por te preocupares. — lancei um olhar deambulante para a minha equipa, admirando-me de como ainda pareciam se importar com a minha condição. Eles deviam estar tão devastados como eu. Andei para fora da sala, tentando procurar um ar menos tenso para respirar, fora dos infindáveis corredores do pavilhão.

As minhas pernas doíam. A minha cabeça latejava. Os meus olhos ardiam.

Ah, eu estava partido.

E não era tão cliché? Caminhar para fora, encontrar os adversários, conversas emocionais. Isso era o que lia nos aborrecidos mangas shounen que o meu sobrinho, por vezes, esquecia-se em minha casa. Eu não queria encontrar ninguém, a não ser se fosse para mandá-los irem se fuder. Chutei uma lata vazia no meu caminho.

Puta merda de jogo.

Porque eu ainda praticava este desporto? Qual era todo o charme que eu sempre vi e me fazia brilhar por dentro? Onde ele estava agora? Enterrado sobre a humilhação de perder, no meu último ano, na minha última oportunidade de derrotá-lo. Não havia mais chances.

Sentei-me num banco, os cotovelos apoiados nos joelhos.

Ah, o meu adorado sobrinho ia ficar triste. Idiota ia dizer que eu era um perdedor e ficar sem ir treinar comigo por uns dias, mas o pivete ia ficar triste. Eu conheço-o afinal, ele sempre sorria tanto quando lhe falava de vencer o meu rival de longa data. De como ele também queria ter um, de como queria ser forte. Que tipo de exemplo era eu, se nem alcançar Ushijima consegui?

Tão perto mas tão longe. Não tinha mais forças para me esticar.

O Iwa-chan ia ficar triste também. Previa-o a não tocar no assunto por uns dias, pelo menos não diretamente. Sempre choramos juntos, mas encarámos o seguinte como o primeiro dia do resto das nossas vidas. Estas vidas que pareciam estar a acabar. O tic toc que ressoava pela minha cabeça ficava cada vez mais lento, cada vez mais baixo. Sufocava na minha própria agonia.

Agarrei os cabelos e cerrei os dentes.

O Kindaichi não iria nos treinos nos próximos dois dias, tinha quase a certeza. Provavelmente por alguma culpa que surgiria dentro de si. O Kunimi treinaria ainda mais, por ter achado que as energias todas que poupou não foram gastas na devida ocasião. Kyotani desapareceria de novo. O Matsukawa, o Hanamaki...esses escreveriam as suas cartas de resignação do clube. Iam seguir a mesma rota que nós.

Algo escorreu do meu rosto. Não era suor.

E o que faria eu? O que faria eu agora? Não tinha mais para onde fugir, não tinha mais palavras para dizer, provocações para mandar pois elas não fariam diferença. A distância aumentou, tudo o que desejava tornou-se apenas inalcançável. Estavam sem forças, uma dor horrível no joelho cortava-me a respiração e deduzia que tinha desenvolvido alguma lesão. Se houvesse alguma oportunidade a mais...

Não há.

Eu estava a chorar, de novo, agora não por apenas ter o segundo lugar, mas por ter sido deixado. Havia ainda a disputa para terceiro, mas essa não me interessava, não agora. Não iria para os Nacionais, nunca. "Número um do Japão", não quando não se consegue derrotar aquela pessoa, aquela que sempre me tapou o céu.

O céu. Eu esticava a mão para chegar até lá, quando era criança. Lá alto teria toda a liberdade que desejava, uma que nem sempre conseguia dentro do campo. Desde quando perdi essa inocência, de que se subisse apenas mais um pouco, chegaria lá. Quanto mais subia, mais forte caía.

Os meus ombros tremiam do choro, do frio, da dor, e o meu corpo relaxava a cada segundo que passava. Talvez caísse ali mesmo, de novo, desamparado. Longe de todos, longe do céu.

- Não andes por aí sozinho, a fazer idiotices, Oikawa. — um leve soco foi distribuído na minha nuca e não me atrevia a encarar o moreno que se sentou ao meu lado. O seu suspiro foi longo, tremulo, a fraqueza na sua voz tão explícita que me enojava.

Não pude impedir que os meus companheiros sofressem. Falhei como capitão.

- Ah, vieste me procurar, foi, Iwa-chan? — acabei soltando um sorriso irónico. — Tu realmente me amas, não é?

- Caluda, idiota. — ele soltou um riso nasal, e fungou, limpando as lágrimas que escorriam do seu rosto. — A culpa não foi tua.

- Quando disse que a culpa foi minha?

- Não precisas de dizer, eu sei o que estás a pensar. Conheço-te à tempo suficiente para isso.

- Eu poderia ter apanhado aquele remate, tu sabes disso. Se tivesse me movido mais depressa, eu teria apanhado— Se tivesse treinado mais, eu teria apanhado, e mesmo assim! — cerrei os punhos, socando o banco. — Nunca é suficiente para chegar até ao Ushijima e derrotá-lo! Nunca! Entendes, Hajime?! — raramente usava o seu primeiro nome, raramente o encarava com olhos tão ameaçadores. — Ele sempre foi a única coisa que queríamos alcançar, que queríamos derrotar! Estás a ver o céu?! — estiquei o dedo para a noite estrelada. — Em todo o céu, ele era a única coisa, lembraste?! E mesmo assim! — a minha voz ficou mais suave. — E mesmo assim, não conseguimos...

Não era da minha personalidade agir daquela forma. Não era da personalidade de Iwaizumi rir-se cruelmente e encarar a noite com tanto desprezo. Antes víamos nela a oportunidade de nascer um dia seguinte que nos trouxesse mais um passo em direção ao que desejávamos.

Agora. Agora, cortaram-nos as pernas.

- Há milhares de estrelas no céu. — ele olhou-me de relance. — Mas nem todas elas conseguem formar constelações.

Arregalei os olhos. As minhas mãos sacudiram-se ao lado do meu corpo quando me levantei e um espasmo ocasional fazia a minha perna direita tremer.

- E eu parei de brilhar há muito tempo.

- Oikawa-san!! Iwaizumi-san!! — a voz de um dos jogadores reservas gritava de longe os nossos nomes. Era hora de voltar.

- Não. Tu não entendes, Tooru. — ele levantou-se. — Tu não és uma estrela. Tu és um sol. — pôs meu braço direito em volta dos seus ombros. — E vais sempre iluminar toda a Aobajousai. Capitão.

Quando voltamos aos vestiários, todos os outros jogadores estavam prontos. Não precisava de dizer um discurso embora fosse capitão, era verdade, mas porque eu era capitão, eu quis dizer um discurso. Porque eu era capitão, não escorria só suor do meu rosto. Porque eu era capitão, todos os passos que dei em direção à Shiratorizawa iriam ser retomados por quem ficasse no meu lugar.

Porque eu era capitão, vestia a camisa número #1.

- Ganhem contra ele, por nós também.

E como eu era capitão, teria de dizer adeus.

-FIM-

Notas finais
Espero que tenham gostado tanto de ler como eu gostei de escrever!
Por favor, digam-me a vossa opinião através dos comentários!
Muito obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!