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65 Capítulo II – Fase III – Welcome
Notas iniciais
Como algumas de vocês sabem eu ando super ocupada com a vida real, por isso o atraso. Peço desculpas e um pouquinho de paciência e compreensão.
Boa leitura!
Capítulo II – Fase III – Welcome
“Um dia você vai aprender a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão...
E vai aprender também que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não para, para que você o conserte...
Um dia você vai aprender a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais...
E você aprende que realmente pode suportar... “Que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.”
Willian Shakespeare
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Bella Cullen
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Eu não estava a mais de 100 metros de distancia do meu novo refugio e para cada direção que eu olhava, encontrava uma nova coisa para admirar. Eu poderia passar o restante de minha vida assim, em um lugar tão calmo, completamente privado e que, a cada dia, parecia conseguir me trazer de volta.
Eu afundei meus pés descalços na areia fofa e quente e me voltei, com as mãos na cintura, para encarar a fachada do meu novo lar. Foi impossível reprimir um sorriso singelo.
Do meu lugar a margem do lago Leelanau eu podia ver a grama baixa e as muitas árvores que circundam as poucas propriedades. Fixei o meu olhar no pátio lateral da casa que agora chamava de minha e admirei a espreguiçadeira e mesinhas, estrategicamente posicionadas no deck, que poderiam me proporcionar bons momentos de relaxamento, apenas me encantando, cada vez mais, com o extenso lago.
A aconchegante casa não se parecia em nada com a mansão que eu costumava dividir com Edward em Los Angeles, muito menos lembrava a residência que um dia ocupei junto com meus pais e Jasper em Forks. Estranhamente o meu novo lar, se parecia, exatamente, com aquilo que eu sempre imaginei um dia ter. Tinha cara de família, tinha a minha cara e eu me apaixonei por ela no momento em que a vi. Fazia-me ter esperança, voltar a sonhar... Trazia-me paz. Eu quase podia ver o meu menino correndo pelo gramado, gritando por mim, fazendo castelos na areia... Sendo apenas criança, como eu queria que ele fosse.
Era um sonho, um sonho praticamente impossível de se tornar realidade, tendo em vista a atual situação entre eu e o pai dele, mas eu estaria mentido se dissesse que essa visão não foi a grande responsável por eu ter alugado esse local. Isso e a tranquilidade, quase palpável, que era possível sentir no ar.
As demais propriedades localizadas na extensão do lago ficavam suficientemente afastadas, o que me proporcionava privacidade e, segundo a corretora que me alugou o local, eu teria o lago praticamente para mim, até que a temporada de férias chegasse.
Isso era bom. Eu ainda estava me acostumando com a nova vida que resolvi seguir, ainda estava digerindo e gerenciando toda a confusão que tomava conta de minha mente e coração... Tudo o que eu desejava nesse momento era estar sozinha, não ser reconhecida e tentar ter uma vida normal, como todas as outras pessoas.
Traverse é uma cidade pequena e confesso que passado a euforia que senti quando aqui cheguei, temi que fosse complicado ficar. Mas eu estava, felizmente, enganada. Ninguém parecia se importar com o fato de eu ser uma celebridade, exceto algumas poucas adolescentes que procuraram conseguir autógrafos e fotos durante os primeiros dias... Passado quase um mês da minha chegada, era quase como se eu fosse como um dos nativos. Os mais idosos me cumprimentavam com um singelo “bom dia” quando eu passava, como faziam com qualquer pessoa que passasse por eles; as crianças me ignoravam como faziam com todos os adultos – o que me permitia gastar um bom tempo as vendo correr e brincar e fantasiar que Ben estava no meio delas; e os adultos eram corteses. Nada, além disso, para minha alegria.
Eu sabia que em algum momento eu precisaria voltar a LA, se eu desejasse manter a minha carreira, mas eu estava decidida a manter um lugar em Traverse para que eu pudesse fugir de toda loucura de Hollywood e recuperar a sanidade na pequena cidade que eu já amava.
...
Caminhar pelo lago era uma das minhas atividades prediletas agora, assim como escrever. Algumas vezes eu unia os dois passatempos e trazia o meu novo notebook, procurava um lugar embaixo de alguma árvore e perdia a noção do tempo em meio ao inicio de um novo roteiro, novas letras de alguma música, alguns textos aleatórios e uma espécie de diário da minha nova vida.
Poucas coisas tinham, de fato, mudado durante esse tempo. Os meus sentimentos continuavam os mesmo – e desconfio que permaneçam assim para sempre, mas eu já tinha aceitado o fato de que precisava controlar isso, não me deixar dominar por um amor tão forte que beirava a doença.
Não existia um só dia que eu não pensasse em Edward. Ele estava presente em minha mente toda vez que eu abria os olhos pela manhã; ao preparar algo para comer, sempre me lembrava dos seus pratos prediletos e me questionava se ele apreciaria o que eu estava fazendo; toda canção que eu compunha era para ele; o protagonista do roteiro que eu tentava escrever era, pateticamente, inspirado nele; cada linha aleatória escrita no meu diário contava um pouco de nossa história; ao me deitar na cama à noite, meus pensamentos vagavam até ele com tamanha intensidade que, às vezes, era como se ele estivesse ao meu lado; e quando eu dormia, sonhava com ele. Eu saboreava todas as lembranças de nós dois juntos com uma saudade esmagadora, mas não mais com dependência, com desespero.
Tudo o que vivemos foi lindo, intenso, arrebatador e vai estar para sempre marcado em meu coração, mas tinha chegado ao fim. Eu sabia disso, no fundo do meu coração, porque a cada vez que me lembrava dele, também lembrava o vídeo que tinha assistido e de como esse vídeo tinha me levado ao fundo do poço.
Eu estaria mentindo se dissesse que não gostaria de estar em seus braços agora; que não mais sonhava com a possibilidade de sermos uma família, ele, Ben e eu... Que não o desejava, com ferocidade, todas as noites; que muitas das vezes em que falava com Ben desejei que ele pegasse o telefone, apenas para que eu pudesse ouvir a sua voz... Que eu ainda me pagava fitando, longamente, o cordão que ele havia me dado, a aliança que simbolizava o nosso casamento e me perguntando onde eu tinha errado. Estaria mentindo se dissesse que não chamava seu nome baixinho à noite. Assim como estaria apenas me iludindo se dissesse que me sinto capaz de perdoá-lo.
Minha razão me dizia, a todo o momento, que não existia nada para perdoar, afinal estávamos separados, mas isso não muda o fato de que alguma coisa se quebrou dentro de mim ao vê-lo junto com Victoria. Hoje consigo ver claramente que sempre me senti inferior a ela, que sempre imaginei que qualquer mulher o faria mais feliz do eu, que eu não o merecia... Talvez tenha sido esse o meu erro, talvez se tivesse deixado de lado todos esses temores, eu não o tivesse perdido.
De qualquer forma, de nada adiantava ficar pensando em “talvez”. Eu não podia mudar o que tinha acontecido, não podia mudar as consequências de nossas escolhas. Tudo o que eu podia fazer era recomeçar, tentar me manter de pé, seguir a vida, fazer com que o que eu ainda tinha pela frente fosse melhor do que tinha passado.
Eu ainda tinha um longo caminho a percorrer até que chegasse a esse ponto, mas até agora estava me saindo bem. Os cortes tinham sido definitivamente, deixados de lado; os longos períodos sem me alimentar tinham acabado; Eu tentava, com muito afinco, me manter ocupada e sempre que as piores lembranças vinham à tona, eu me obrigava a afastá-las. Ainda era, terrivelmente, doloroso, mas a cada dia que passava se tornava mais fácil.
E grande parte desse avanço se devia a Benício Cullen. Todo dia, depois de falar com ele, de rir de suas aventuras, de ouvi-lo me chamar de “mamãe”, eu sentia as minhas forças serem renovadas. Eu queria ser melhor para ele, queria poder vê-lo novamente sem sentir nada além de felicidade por tê-lo nos meus braços, queria-me sentir inteira... Para ele.
Fechei os olhos apreciando a água gelada, correr por meus pés e, inconscientemente, levei uma de minhas mãos ao bolso traseiro do short curto que usava e apanhei a foto de meu filho, que sempre estava comigo. Fitei o rosto inocente, permiti que o brilho dos olhos azuis e me envolvesse e mais uma vez, prometi a ele e a mim, que voltaríamos a estar juntos.
Como fazia todos os dias, eu procurei por uma grande árvore, que proporcionava sombra suficiente para me cobrir, mesmo se desejasse me deitar sobre a area fofa, me acomodei e fechei os olhos, sem pensar em nada específico, apenas apreciando a brisa fresca que batia em meu rosto.
Estava distraída demais, sonhando acordada com o que ainda poderia ter em minha vida, que fui, realmente, pega de surpresa quando uma voz gentil soou acima de mim:
– Você é uma turista estranha... E bastante previsível.
Eu me sobressaltei e me coloquei de pé o mais rápido que fui capaz, apenas para levar o meu corpo de encontro a outro, nos fazendo cair de encontro ao chão.
– Oh meu Deus! Desculpe-me... – Tentei dizer enquanto me levantava. – Eu sinto muito!
Toda a resposta que eu recebi foi uma suave risada.
Eu tentei tirar a areia que, com a queda, grudou em meu cabelo e dirigi o meu primeiro olhar para o estranho que eu tinha, acidentalmente derrubado. Ele ainda estava no chão e sorria para mim, ou ria de mim. Seus brilhantes cabelos louros estavam tão cobertos de areia quanto os meus, seus olhos castanhos pareciam emanar diversão. Era bonito de ser, muito. Alto e forte, mas não foi o que me chamou a atenção e sim a forma como continuou a sorrir de uma forma que me fazia acreditar que ele não fazia nada mais além de distribuir sorrisos aos estranhos. Reparei nas quase inexistentes covinhas que se formavam em suas bochechas e então desviei o olhar, um pouco irritada com a facilidade com que ele emanava felicidade.
– O que é tão engraçado?
– Eu sinto muito se a assustei... – Ele, finalmente, disse algo e estendeu sua mão em minha direção esperando que eu o ajudasse a se levantar.
O ignorei por alguns segundos, mas por fim, fechei meus dedos ao redor de seu pulso e o ajudei a ficar de pé.
– De verdade, não era minha intenção assustá-la. Eu apenas pensei em... Dizer “Oi”.
Eu cruzei meus braços sobre o peito e o encarei, depois de dar um passo atrás.
– Por quê? – Eu questionei com evidente mã vontade.
– E por que não? – Ele deu de ombros e recostou seu corpo contra a árvore que nos fornecia sombra. – Eu sou Riley Biers, a propósito.
Mais uma vez sua mão se estendeu a minha frente e eu não tive outra escolha a não ser corresponder o cumprimento.
– Bel...
– Bella Swan. Eu sei. – Ele completou, apertando a minha mão. – Todo mundo na cidade sabe.
Ótimo!
– Não me diga que você é como as adolescentes que me seguem pela cidade atrás de um autógrafo...
Riley voltou a sorrir. Era uma bela visão, não posso negar, mas de alguma forma me irritava.
– Longe de mim perseguir a nova celebridade da cidade... – Ele levantou as suas mãos simulando um gesto de rendição, quando viu o olhar que eu o dirigia. – A questão é que você parecia muito solitária aqui, sozinha. Pensei em dar as boas vindas. É isso que os bons vizinhos fazem, não é?
Eu desviei o meu olhar e pensei em ir embora, principalmente porque não entedia toda a antipatia que estava sentindo por ele, apenas porque ele parecia feliz. Eu parecia uma velha amarga que detestava qualquer pessoa minimamente mais bem de vida do que eu.
Forcei um sorriso.
– Bom, e onde está a minha torta de maça ou qualquer uma dessas coisas que os vizinhos oferecem aos outros?
– Sou um terrível vizinho! – Ele ignorou a minha péssima atuação de boa vizinha e prosseguiu com toda a sua gentileza e felicidade. – Talvez eu possa lhe dar uma torta de cereja... Você sabe uma das especialidades da cidade, qualquer dia desses.
...
Eu sorri de verdade ao ouvir a animação na voz do meu filho quando ele continuou a narrar todas as coisas legais que fazia em sua nova escola ou como seus novos amiguinhos eram bons com ele.
– Isso quer dizer que você está gostando da escola nova? – Disse quando ele parou por um segundo. – Eu não disse que você iria gostar?
– Muito! – Sua animação era simplesmente contagiosa e como sempre acontecia eu me senti renascer um pouquinho mais enquanto falava com ele. – Vovó vai me levar no aniversário da Lisa.
– Lisa é a sua nova amiguinha? – Perguntei, mesmo sabendo a resposta. – Aquela que tem sardinhas e que você acha muiiiiittttoooo bonita? – Provoquei porque gostava da forma como ele sempre ficava envergonhado. Era fofo.
– Pára mamãe! – Aí estava o tom de voz manhoso que me aquecia o coração e eu quase podia visualizar suas bochechas avermelhadas e seu olhar baixo.
Antes que ele pudesse emendar um novo assunto, a minha campainha, nunca antes utilizada, soou.
Eu me levantei com um sorriso no rosto e caminhei até a porta.
– Nada de arrumar uma namorada, hein? – Continuei a dizer ao celular. – Você é só meu! Para apertar e beijar e fazer muitas cosquinhas.
Sua risada chegou até mim, me fazendo gargalhar junto enquanto abria a porta.
Foi uma surpresa me deparar com meu vizinho, Riley, parado a porta, mas Ben tinha me feito ficar de bom humor e então eu sorri para ele, como ele tinha feito comigo no lago.
– Hey filho... – Eu disse, tentando recuperar sua atenção. – A mamãe precisa desligar agora...
– Ahhh não! – Ben reclamou. – Só mais um pouquinho...
– Você pode me ligar de novo antes de dormir... O que acha? – Com um gesto convidei Riley a entrar apenas porque parecíamos idiotas parados na porta enquanto eu tentava convencer um menino de 4 anos a encerrar uma ligação que nenhum de nós dois gostaríamos que chegasse ao fim.
– Tá... – Foi à resposta sentida do meu bebe.
– Eu te amo campeão!
Assim que a ligação foi finalizada eu me voltei para minha inesperada visita.
– Má hora? – Riley me deu o seu habitual e irritante sorriso que eu tinha passado a me acostumar e de certa forma a esperar.
Mais de 15 dias tinham se passado desde que nos conhecemos e era quase natural nos esbarramos sempre que eu ia ao lago. De certa forma, era bom ter alguém com quem conversar sobre nada em especial.
– Tão bom quanto qualquer outra... – Menti. Os meus momentos com Ben era únicos e tão escassos que eu gostaria de não ter que interrompê-los por nenhuma razão.
– Aqui está a sua torta de cereja... – Só então vi alguns embrulhos em sua mão. – Vou ser promovido a um bom vizinho agora?
– Talvez... Se for tão gostoso quanto você me fez acreditar...
Eu aceitei uma das sacolas e nos conduzi até a cozinha.
– Uauu vinho! Você sempre pensa em tudo? – Comentei meio sem jeito após nos servi um pedaço de torta e abrir a garrafa que de vinho tinto que ele tinha trazido.
–Apenas prevenido. – Riley aceitou o prato que eu ofereci e se acomodou na pequena mesa de jantar. – Talvez o vinho me promova a um bom amigo.
– Você vai precisar de mais do que uma taça de vinho para isso... – Provoquei.
De uma forma que eu não saberia explicar Riley me lembrava Emmett, talvez só um pouco mais reservado. Emmett nunca sabia quando deixar as brincadeiras de lado e algumas vezes se tornava um pouco inconveniente, mas sua contagiante alegria sempre consertava tudo. Assim como a alegria e tranquilidade de Riley sempre fazia com que tudo parecesse estar bem. Minha irritação com isso não passava de inveja, a verdade é que eu gostaria de ser como ele.
– E uma taça de vinho e um bom livro? – Ele me ofereceu um novo embrulho, quando nos acomodamos no espaçoso sofá, e o peguei com minhas bochechas em chamas.
– Um livro para mim? Sério! Você não tem por que me dar presentes... – Comentei, com meus olhos presos ao embrulho, sem saber se o abria ou não. – Eu não quero ser má agradecida, é só...
– É um presente de boas vindas, nada mais.
Eu o olhei, de forma avaliativa, por um instante, mas a curiosidade teve o seu melhor sobre mim e eu me peguei abrindo a sacola e admirando a capa multicolorida do livro que ele estava me dando e acabei gargalhando.
– Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n'roll Salvou Hollywood? – Citei o título do livro. – Sinceramente, Riley, seu senso de humor é tão irritante. – Não era uma repreensão. No fundo, eu tinha simplesmente adorado o presente e meu sorriso comprovava isso.
– Ahh vamos lá, Bella. Você anda precisando de um pouco de senso de humor, talvez eu possa te ensinar a sorrir.
– Eu sorrio... Muito. – Me defendi.
– Sim, claro. Mas apenas quando está falando com Ben ou logo depois disso. No restante do tempo você está sempre de mau humor.
Eu não podia negar a veracidade das suas palavras e, na realidade, nem queria. Seria bom estar sempre com o astral elevado, mas eu nunca fui do tipo super animada e, bom depois de tudo, eu tinha me tornado realmente, mais amarga. Isso era algo que, sem duvida, eu gostaria de mudar, mas era mais difícil do que aparentava.
– Certo. – Depositei o livro sobre ao meu lado no sofá e me ocupei com a minha taça de vinho. – E como eu deveria fazer isso, Sr. estou sempre de bem com a vida?
– Eu não estou sempre de bem com a vida, você vê apenas o que eu quero que você veja. E bom, eu aprendi a não levar tudo muito a sério. Talvez você devesse tentar.
É mais fácil falar do que fazer!
Tomei um longo gole do vinho e recostei a minha cabeça no sofá.
– Muito simples. – Minha resposta irônica causou um silêncio prolongado e incomodo.
– Ou você pode continuar a sentir pena de si mesma e deixar de viver. – Riley, finalmente disse algo, embora toda a habitual tranquilidade tivesse sumido de sua voz. – Eu preciso ir.
Eu o olhei por um instante, sem saber porque o que ele tinha dito tinha me atingido. Não era nenhuma mentira, pelo contrário. Mas soava como se eu não estivesse tentando, com muito afinco, reverter isso.
– Você não poderia entender por quê... – Encontrei a minha voz no momento em que ele já havia chegado à porta.
– Um dia você vai aprender a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão... – Eu revirei os olhos e acabei de tomar o restante do vinho, antes de colocar de pé e o fuzilar com um olhar. – E vai aprender também que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não para, para que você o conserte.
– Recitar Shakespeare não o torna menos irritante ou mais conhecedor das aflições humanas.
– Não. – Ele concordou, de volta com o seu arrogante sorriso. – Mas pode torná-la menos egoísta.
Eu abri a minha boca pronta para rebater, mas ele se foi antes que eu conseguisse articular qualquer defesa.
...
Por que eu estou fazendo isso? – Me perguntei, talvez pela centésima vez, quando parei a porta da casa de Riley. – Talvez porque você ache que ele estava certo em chamá-la de egoísta.
Ou porque eu deseje xingá-lo. Essa era uma boa resposta e me faria muito bem soltar alguns palavrões, arrancar o constante sorriso do rosto dele e... Depois? Eu voltaria para casa, sozinha, para continuar com a minha rotina de piedade para comigo mesma?
– Você vai entrar ou veio apenas para admirar a fachada da minha casa? – Eu olhei para Riley, parado ao lado da porta de correr de sua cozinha que assim como a minha concedia passagem até o lago.
Ele vestia apenas uma calça de moletom preta, o cabelo estava desgrenhado, como o de Edward costumava ficar sempre que ele passava as mãos pelos fios, e na mão ele tinha uma lata de cerveja. As luzes da casa estavam apagadas e eu não podia ver muito além da sua silhueta iluminada pela lua cheia no céu.
– Eu não sou egoísta! – Disse, parecendo muito com Ben quando fazia uma birra.
– Brindemos a isso então. – Riley levantou a mão com a cerveja em minha direção, fingindo um brinde e logo depois me deu as costas, voltando a entrar em casa.
– Espera! – Disse sem pensar e subi os degraus do deck para alcançá-lo. – Talvez eu seja um pouco, mas quem não é? E, além disso, não é de propósito.
– Um dia você vai aprender a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. – Ele recitou Shakespeare mais uma vez, e apesar de ter me deixado de ainda mais mau humor, eu me apeguei ao fato de que ele não estava olhando para mim, não estava de cabeça erguida e não estava sorrindo, como sempre fazia. — Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
– Isso é algum tipo de mantra? Algo que você repita sem parar até que se convença?
– E você aprende que realmente pode suportar... Que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
– Pare com isso! – Eu o empurrei levemente. – E me dê um dos seus idiotas, irritantes e dispensáveis sorrisos.
Ele fez como eu disse, mas pela primeira vez eu consegui ver além do que ele queria que eu visse. Foram seus olhos que me disseram e o maldito e sincero poema: Riley era como eu, a única diferença é que ele, aparentemente, tinha conseguido seguir em frente.
Talvez, se ele tinha conseguido, eu também poderia.
CONTINUA...
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SPOILER:
O cômodo estava tão escuro quanto minha alma ou talvez fosse apenas a minha incapacidade para enxergar qualquer coisa além da minha dor. De qualquer forma, apesar do breu que me envolvia, eu ainda podia vê-la tão nitidamente que quase cheguei a acreditar na veracidade de sua existência.
Sua imagem era como um raio de sol, iluminando apenas um pequeno canto da sala, um brilho pequeno e indistinto ao qual eu me apegava com tamanha intensidade, a única luz que ainda me mantinha vivo.
Seus olhos estavam presos aos meus, me hipnotizando, me chamando...
Um esboço de um sorriso surgiu em sua face, me roubando o ar e ela sussurrou:
– Você não me ama mais.
Ela estava errada, tão errada. Eu nunca a amei mais do que agora que não a tinha mais.
– É tão lindo! E comovente...
– Lindo? – Existia algo como pesar em sua voz e foi isso que me fez virar em sua direção e fitá-lo. – Eu diria que é triste aniquilador... Jamais “lindo”.
– Eu te amo! – Era estranho que, exatamente, naquele momento ela me dispensasse o seu sorriso mais lindo, àquele capaz de espantar todo o medo, todo o desespero, toda a culpa. Era tão lindo que me prendeu que me fez acreditar que tudo acabaria bem. Apenas alguns minutos depois eu me arrependeria de não ter dito “Eu também te amo!”. Foi a minha última oportunidade.
Notas finais
xoxo
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