Nos arredores do território de Aquila…
— Fogo!
Os canhões explodiram no campo de batalha estrelado. Os projéteis brilhantes atingiram o navio inimigo, diminuindo sua velocidade, mas não foram capazes de pará-lo totalmente. Era como se os canhões de luz não fizessem dano aos navios obscuros.
A comandante rangeu os dentes, confusa e nervosa.
— Recarreguem! — Ela atravessou o convés de sua embarcação. — Lalázia! A cavalaria?
— Ainda sem visual deles, Mizalí! — A mulher no topo do observatório mantinha os olhos brilhantes presos nas estrelas.
Sua concentração foi perturbada quando o navio balançou violentamente, atingido pelo outro lado.
— Comandante! O segundo galeão está virando!
Mizalí viu o galeão se mover, tentando deslizar entre os navios dourados, separando-os ainda mais; todas as portinholas de canhões estavam abertas, prontos para atingir os dois galeões do Império Estelar.
A manobra fazia sentido, mas ainda era estranha, assim como toda aquela situação. Mizalí ordenou que os canhões a bombordo fossem alimentados e tomou um momento para pensar. Eles tinham homens e poder de fogo o suficiente para enfrentar os dois galeões sombrios, ela sabia, porém, com suas armas tendo tão pouco efeito nos navios inimigos, era difícil ter certeza se sairiam triunfantes.
— Comandante! — chamou Lalázia. — Eles chegaram!
Mizalí se inclinou contra um dos lados do navio, vendo as Carruagens Estelares se aproximando em formação. Ela ergueu a espada para sinalizar e quase a perdeu quando o navio balançou mais uma vez.
— Continuem atirando! — Ela foi interrompida pelos tiros do inimigo. Mizalí esperou pelo impacto, mas ele não veio.
Não era fácil ver os projéteis obscuro, mas ela pôde seguir suas silhuetas por um instante, dessa vez na direção dos recém-chegados. As estrelas em forma de flecha se moveram com facilidade e fluidez, desviando do ataque, e retornando à sua formação original.
Uma das carruagens desceu em um arco, pairando sobre o galeão dourado como um farol guia; um grupo se moveu ao redor dos quatro galeões sem entrar na área de tiro dos canhões, impedindo que qualquer uma das embarcações deixasse o perímetro; enquanto outro grupo circulou os navios obscuros, se separando em duplas, uma para cada navio inimigo.
Mizalí estava feliz com a chegada rápida da cavalaria, embora soubesse que não havia muito que pudessem fazer naquele momento, ou no estado em que estavam. Recuar não era digno, mas talvez fosse hora de uma manobra evasiva.
— Tomem posições defensivas! — ordenou para a estrela pairando acima do observatório. — Ainda temos poder de fogo suficiente…
— Comandante! O galeão a boreste está manobrando!
A comandante piscou, surpresa com a interrupção de Lalázia; ela se virou e mal pôde acreditar em seus olhos ao ver a velocidade com a qual o navio inimigo se virou, voltando a proa na direção deles. Era como se estivessem desesperados para impedir que os galeões dourados saíssem dali.
— Merda… Mudança de planos! Vamos fazer uma manobra evasiva! Mantenha seu posto! — A estrela acima do galeão brilhou, mostrando que tinha recebido a mensagem. Mizalí girou a espada e a estrela desceu para se juntar às outras que cercavam os galeões dourados. — Vocês ouviram! Manobra evasiva, agora!
Com ajuda das carruagens de luz, os navios conseguiram se mover. Ainda assim, dava para ver que, com a velocidade do navio inimigo, eles não conseguiriam se afastar a tempo; se continuassem em frente, seriam atingidos pelo lado o que seria ainda pior; e com o outro navio ali, tudo ficava ainda mais difícil. Mizalí viu que os soldados inimigos já tinham suas espadas erguidas, prontos para o que estava por vir.
— Toda força a frente! — Talvez eles tivessem uma chance.
— Bombordo! O outro navio se aproxima! — disse outra voz antes que a comandante pudesse dar mais ordens.
Isso era um problema, eles ainda estavam manobrando para fora do caminho do primeiro, mas agora com aquele vindo pela outra direção…
Ou os inimigos estavam ignorando o outro galeão dourado, ou tinham decidido que o galeão da comandante era o único adversário digno. Mizalí rangeu os dentes. Talvez eles quisessem exatamente ela, não seria a primeira vez que era diretamente antagonizada.
A carruagem principal saiu de formação, flutuando ao lado do galeão dourado.
— Deixe com a gente, comandante! — Uma voz veio dela. — Em frente, cavaleiros! — Outras estrelas se juntaram em revoada, passando por cima do galeão dourado e se lançando na direção do navio mais próximo.
Um grupo de estrelas atingiu o inimigo de frente, perfurando a popa com suas formas pontiagudas e atirando pedaços escuros para longe; a força dos impactos, para o alívio da comandante, ajudou a empurrar e diminuir consideravelmente a velocidade da embarcação, mas não o parou totalmente.
— Tobiân, diminua a velocidade!
— Diminuir a velocidade?! — repetiu Tobiân, confuso com a ordem, mas só um olhar da comandante o calou. Ele repetiu e fez sinal, girando o timão para interromper a manobra original.
— Tenente, mantenha um grupo focado no primeiro galeão sombrio! — Mizalí se dirigiu para a estrela principal, mas não desviou os olhos para ter certeza de que estava seguindo suas ordens. — Lalázia! Sinalize para nossos companheiros darem a volta e continuarem atirando! — Com os navios inimigos focados no seu galeão dourado, talvez o outro tivesse mais chances de fazer alguma coisa, ela decidiu.
Mizalí observou, tensa, enquanto os navios vinham em sua direção. Eles eram rápidos, mas seriam rápidos o bastante?
— Aumentar a velocidade!
Adquirir velocidade tão rápido era difícil, mas com um solavanco a embarcação se moveu, se afastando dos navios inimigos que continuaram em seu caminho. Os galeões obscuros não puderam parar nem desviar a tempo.
O menor atingiu o maior pelo lado, atirando sua tripulação pelo convés e partindo em pedaços o material negro da embarcação maior com a ponta de seu gurupé.
Mas o galeão dourado não alcançou velocidade o bastante para escapar ileso. Mizalí se agarrou às cordas da vela principal, quase caindo quando a proa do galeão inimigo atingiu a sua popa.
O movimento violento virou o navio, colocando os dois galeões quase lado a lado. Não era a melhor situação, mas era melhor do que poderia ter sido.
Mizalí não precisava de anos de experiência para saber o que ia acontecer a seguir.
Um soldado usando roupas obscuras pulou da beirada de seu navio, se lançando na direção do galeão dourado. Mas antes que pudesse atingir o convés, uma pequena flecha brilhante cravou em seu ombro e o lançando pela beirada do navio. Mizalí sorriu, reconhecendo as flechas de sua esposa.
— Cavaleiros! — As Carruagens Estelares se ergueram a comando da principal. — Hora de embarcar!
A comandante quis retrucar. Era a segunda vez que o tenente movia seu grupo sem consultar com ela. Aquele podia ser a companhia dele, mas ela era a pessoa de mais alto escalão ali!
— Pois muito bem! — sibilou por entre os dentes. — Tobiân, manobre para fora, forme o maior arco que conseguirem! Lalázia, mande o outro galeão fazer o mesmo! Se não conseguirmos sair daqui, talvez eles ainda tenham chance! Continuem atirando até a munição acabar!
Enquanto seus subalternos faziam como mandado, Mizalí girou a espada, segurando a lâmina na boca e, com uma agilidade adquirida com o tempo, ela subiu nas cordas de sustentação das velas principais. A carruagem principal deu meia volta, descendo ao lado do galeão dourado, e Mizalí pulou, pousando em cima dela.
A estrela sobrevoou o navio inimigo mais uma vez antes de brilhar com força, sumindo de repente, sendo sugada para dentro de si mesma, revelando seu piloto e permitindo que esse pousasse sobre o convés, já com a espada fora da bainha quando a comandante pousou ao seu lado.
— Eu dou as ordens, entendido? — Mizalí bloqueou um ataque, o retribuindo.
— É claro, comandante. — O tenente sorria levemente enquanto lutava com habilidade.
Os dois se calaram, afastando os inimigos sombrios que se aproximavam. Mizalí revidou um golpe, de repente notando quão pesada a sua própria espada parecia estar…
— Álreas! — A comandante puxou o outro para longe antes que ele fosse atingido por uma espada inimiga. O peso de sua espada passou para seu corpo, como se ela estivesse cansada; e Álreas parecia dividir a sensação.
— Tem algo errado… — arfou Álreas.
Foi quando a comandante notou que os inimigos tinham parado de atacar; eles ficaram parados, com as espadas ainda erguidas, desviando olhares para os outros, mas sem se mover; pareciam tão confusos quanto os soldados estelares.
— O que…?
Ela não terminou de falar quando seus ouvidos foram tomados pelo som de gritos de dor e seu centro tremeu, reconhecendo a sensação de uma dor compartilhada. Mizalí se virou para a origem dos gritos, vendo os soldados do outro galeão dourado caírem sobre o convés de seu navio; ela abriu a boca para dizer alguma coisa, tentou se mover, mas sentiu como se o universo girasse ao seu redor de modo nauseante, seu corpo perdendo as forças a cada segundo que passava.
— Mizalí… — A comandante se virou para o tenente, notando que ele olhava para algo além do campo de batalha.
Outro galeão se aproximava, surgindo da escuridão do espaço como se tivesse se materializado dele. Um arrepio desceu pelas costas da comandante. A embarcação era grande, maior que os dois primeiros, praticamente do tamanho do seu próprio navio brilhante; e sua aparência era diferente de tudo que Mizalí já tinha visto, como se tivesse sido feito para distorcer a forma típica dos navios do Império Sombra.
Estavam agora cercados por três gigantescos navios de guerra, com apenas dois galeões dourados que já fraquejavam sob o poder de fogo inimigo. Eles deviam ter sido informados sobre outros galeões nos arredores horas antes, especialmente um tão grande quanto aquele!
— Uma armadilha… — Mizalí sibilou por entre os dentes.
— Cavaleiros! — gritou Álreas.
As Carruagens Estelares se moveram em formação, se lançando na direção do novo galeão como tinham feito antes. As flechas de luz atingiram a embarcação com força e de repente Álreas caiu de joelhos, um grito de agonia acompanhando o movimento. Como que repelidas pela embarcação destorcida, as carruagens foram lançadas para longe, e Mizalí pôde sentir a mesma dor que o tenente sentia, vindo não só das estrelas dentro das carruagens, mas das carruagens em si, antes dessas desaparecerem no espaço.
Mizalí lutou contra o peso que tomava seu corpo, mas antes mesmo que pudesse pensar no que fazer para ajudar o amigo, algo a atingiu, a envolvendo totalmente como um abraço frio. Mizalí gritou, sentindo seu corpo inteiro queimar por apenas um segundo, antes de um gelo assustador tomar conta dele; seu centro vibrou com violência, antes dela perder todas as forças que ainda lhe restavam, e ela caiu.
O mundo ao seu redor se tornou um borrão e uma cacofonia de sons que ela mal conseguia descrever.
— Comandante! — Ela ouviu a voz de Álreas e sentiu quando o tenente se aproximou, mas mal pôde ver ele fazer tal coisa. A luz dele pulsava, vibrando de modo irregular, imitando a de Mizalí e a das outras estrelas, compartilhando a mesma dor.
A dor se intensificou, mas a comandante não podia ver, não podia entender o que estava acontecendo… Ela nem poderia dizer quanto tempo tinha se passado, quanto tempo ela tinha ficado em baixo daquela rede, tão fina, tão simples, mas que, de algum modo, a forçava ao chão, pesada como chumbo.
De repente uma luz brilhou no meio da escuridão.
Ignorando o peso de suas pálpebras, Mizalí assistiu quando o tenente estrela foi envolto em luz dourada, antes de desaparecer ao longe como um cometa.
O líder acinzentado se levantou, afastando os soldados que se aproximaram para ajudar. Ele ergueu os olhos na direção em que o tenente e sua carruagem sumiram; Mizalí não podia ver seu rosto, mas sentia que não estava contente.
Ele se voltou para ela finalmente.
Mizalí tentou se mover mais uma vez, em vão.
O sombra se abaixou, agarrando-a pelos cabelos e a puxando para cima. Mizalí sibilou e tentou revidar, mas não tinha forças para tal coisa.
— E você… — disse, sua voz fria, assim como seu olhar. — Quero que volte para seu povo brilhante.
Ele deitou a mão contra o peito da comandante, assim como tinha feito com a outra estrela, e Mizalí sentiu como se seu corpo estivesse sendo destruído de dentro para fora. A fraqueza de antes se intensificou, a energia de seu ser sendo sugada, deixando-a sem nada, ela mal conseguiu gritar.
A última coisa que registrou foi ser atirada de volta para um dos galeões dourado. E ela ainda conseguia ver aqueles olhos cinza-azulados por trás de suas pálpebras fechadas.
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