Stammi Vicino
2 Capítulo 2 ~ ...and never leave me.
Notas iniciais
Capítulo 2 ~ ...and never leave me.
Estava quase na hora. Viktor respirou fundo e vestiu a máscara que usava para a imprensa. Era quase como patinar competitivamente, mas os repórteres sempre tinham surpresas reservadas para ele. Foi para frente das câmeras e dos jornalistas. A sorte estava lançada.
"Boa tarde, senhores e senhoras da imprensa." O russo iniciou, buscando manter a leveza.
"Viktor, estamos ao vivo para toda Espanha. Onde está Yuri Katsuki?" Iniciou a repórter espanhola sem qualquer sinal de constrangimento por não cumprimentar Viktor.
Viktor sorriu. Estar ao vivo era tudo o que queria. Só esperava que Yuri fizesse sua parte e assistisse.
"Preferi deixar meu atleta se concentrando para a final. Sinto muito, mas os senhores terão que se contentar comigo apenas." Viktor disse, sem evitar o meio sorriso charmoso.
Os repórteres riram. Sabiam que se alguém lhe garantiria um furo ou uma entrevista menos chata, esse alguém era Viktor Nikiforov.
Na sala de preparação, Yuri Katsuki assistia tudo sem piscar. Ele em absoluto parecia nervoso por estar cercada daqueles repórteres sedentos por um furo que mais pareciam urubus atrás de carniça.
"Viktor, correm boatos de que Yuri Katsuki vai se aposentar depois de hoje. Você confirma?"
Yuri corou vendo a TV. Ele nunca tinha falado para ninguém, como eles poderiam saber que planejava se aposentar depois de hoje?
Viktor deu uma risada discreta e confiante:
"Um dos motivos pelos quais eu gosto de conversar com a imprensa é esse: vocês sempre me informam das fofocas em primeira mão, inclusive sobre o meu atleta, que nunca mencionou nada nesse sentido. Isso é algo que concerne ao Yuri e apenas ele deve responder, não a mim."
"Viktorr?"
Viktor observou que um repórter russo se dirigiu para ele com um inglês um tanto arrastado. Não gostava daquele homem, que mais parecia repórter de revista de fofocas do que jornalista esportivo:
"Acho que isso você pode responder: o que você vai fazer quando esta temporada acabar?"
Viktor sorriu. Sabia que aquele homem não o decepcionaria depois de tantos anos tentando conseguir detalhes de sua vida pessoal ou um vexame. Mas dessa vez ele jogava ao seu favor.
"Tecnicamente a temporada ainda não acabou. Yuri ainda vai patinar e eu estarei lá, pois sou técnico dele." Viktor deu uma pausa, querendo que a informação de que não toleraria desagrados de repórteres fosse recebida com sucesso. "No entanto, eu já sei o que vou fazer. Prometi para uma pessoa muito importante para mim que iria voltar para casa, fazer o que amo e ser feliz."
Yuri não mais piscava, sentindo o peito lhe oprimir e as lágrimas brotarem. Não deveria se sentir assim. Ele mesmo tinha pedido para Viktor voltar para a Rússia e patinar competitivamente de novo, mesmo que isso significasse ficar longe do homem que amava e melhor técnico que ele já teve.
"Então você vai voltarr para Rússia e treinarr para competirr?" O repórter russo perguntou, ávido pelo furo.
O sorriso de Viktor se desfez com a pergunta, transformando-se em um semblante ligeiramente confuso.
"Rússia? Não!" O ex-atleta sorriu com sinceridade. "Eu vou para Hasetsu, no Japão. Eu e Makkachin moramos lá há quase um ano. É lá que somos felizes. Todo dia eu levo meu cachorro para passear na praia e ele adora. Lá também tem termas maravilhosas e katsudon. Vocês já provaram katsudon? É muito bom!"
Os repórteres riram com a resposta, mas não tinha zombaria. Eles pareciam milagrosamente entender o que Viktor queria dizer.
"Mas você não vai patinarr mais?" O repórter russo perguntou, confuso.
Viktor sorriu de satisfação. Aquele homem realmente estava lhe ajudando:
"Eu parei de competir, mas nunca deixei de patinar."
No outro lado da tela, Yuri concordava. Viktor treinava com ele todo dia. O russo lhe mostrava o que queria no gelo, desde a coreografia artística até os saltos. Também fazia séries livres para divertir as filhas de Yuuko-chan e outras crianças locais. Patinar voltou a ser uma atividade importante em Hasetsu e até a professora Minako tinha mais alunos, graças ao Viktor. Ele sabia também que o russo patinava bastante sozinho. E também patinavam juntos, de mãos dadas as vezes, Yuri lembrou, corando.
"Mas agora minhas motivações para fazer o que eu amo são outras. Em dez anos, eu nunca mais tinha assistido uma final de Grand Prix do lado de fora do rinque. Eu tinha esquecido como isso é fascinante. Patinar é muito mais do que competir e eu estou descobrindo isso finalmente, graças a Yuri Katsuki."
O repórter russo não desistiria fácil e Viktor sabia disso.
"E o que o Japão tem de tão interessante a ponto de você abandonarr a Rússia?" O homem perguntou com malícia e certo despeito.
Viktor sorriu. Sabia que aquilo mexia com o patriotismo do repórter, mas não ligou. Definitivamente aquilo não era o mais importante.
"Eu nunca aprendi tanto em tão pouco tempo. Eu cheguei no Japão achando que iria ensinar ao Yuri sobre patinação, mas ele me ensinou muito mais sobre a vida e sobre o amor. Coisas das que eu não sabia quando eu vivia para competir."
"Então Viktor Nikiforov está amando alguém?" O repórter perguntou, com ar ligeiramente sarcástico.
Viktor coçou o rosto com o dedo indicador direito, sem perceber que o anel que Yuri lhe dera cintilava a luz dos flashes das máquinas fotográficas e refletores. Aquele era o tipo de pergunta da qual sempre se esquivava, mas não o faria daquela vez. Alguém importante ouvia o que ele tinha a dizer.
"Sim, estou amando alguém." Ele respondeu simplesmente, com um sorriso confiante no rosto.
"E pretende casar?" O repórter russo perguntou, ganancioso. Finalmente conseguia tirar de Viktor seu tipo de informação preferida, então aproveitaria.
Dessa vez Viktor foi realmente pego de surpresa. Aquele homem ajudava, mas da pior forma possível.
"Pretendo, mas não depende só de mim. Casamento precisa de duas pessoas que se amam e queiram fazer isso." O russo respondeu, sério. Com um sorriso mais suave, ele acrescentou "Alguma pergunta que não seja sobre a minha vida pessoal?"
"Sabemos que você escolheu ser técnico de Yuri Katsuki, que veio de uma temporada desastrosa ano passado. Você não vai voltar a competir, então entendemos que pretende fazer seu nome como treinador através de Yuri. Como lidará com a mancha no seu nome caso ele falhe e não ganhe o ouro?" A repórter espanhola perguntou, séria.
Viktor sentiu o sangue gelar de ódio. Aquela espanhola era tão urubu quanto o russo, mas corriam atrás de carniças diferentes. Ambos trabalhavam com possibilidades irreais. Ambos eram medíocres.
No camarim, Yuri se encolheu de nervoso. Sabia que as pessoas pensavam isso dele, mas ouvir era tudo muito pior. Era quase insuportável.
"Yuri Katsuki não vai falhar. Você tem minha palavra nisso." Viktor respondeu, confiante, sem deixar transparecer sua frustração. "Só responderei mais uma pergunta."
"Então acha mesmo que Yuri pode ganhar o ouro?" O repórter retorquiu.
"Tenho certeza que ele não só pode como vai ganhar o ouro hoje." Viktor falou, mantendo a seriedade. "Obrigado pela atenção e com licença."
"Que absurrdo ele acharr que aquele japonês qualquerr pode ganhar do nosso Yuri Plisetsky." O repórter russo falou um tanto alto, sem saber que sua fala vazava ao vivo pela TV espanhola.
Viktor ouviu isso e voltou, chegando perto do repórter. Todas as atenções, câmeras e microfones se voltaram para ele, que parecia irado e ainda assim extremamente confiante.
"Ele poderia ter escolhido um russo." O repórter continuou, sem saber que era o centro das atenções. "Poderia ter escolhido Yuri Plisetsky. Agora vai amargar um vexame na carreira e vai voltar para a Rússia com o rabo entre as per..."
"Escute aqui, senhor." Viktor iniciou, virando o repórter para si e mirando-o bem no fundo dos olhos daquela criatura insuportável. "Ninguém no mundo confia mais em Yuri Katsuki do que eu. Eu escolhi apostar minha carreira em Yuri porque ninguém, russo ou não, patina como ele. E eu faria tudo de novo."
O semblante suavizou e ele olhou para a câmera com um sorriso charmoso:
"Não se esqueçam de torcer por Yuri Katsuki mais tarde."
Viktor caminhava para o camarim onde deixara Yuri Katsuki. No meio do caminho, bebeu uma garrafa de água gelada para refletir o que havia sido aquela coletiva. Pela segunda vez em menos de 24 horas as coisas quase saíram do seu controle. Mas se Yuri tivesse ouvido e absorvido cada uma daquelas palavras, teria valido a pena. Entrou na sala de concentração e encontrou Yuri se olhando no espelho, pronto para competir, mesmo que ainda estivesse usando os óculos. O nariz estava vermelho, sinal de que chorara, mas o rosto estava transformado em uma expressão determinada. Mas ainda faltava algo.
"Viktor, na entrevista, tudo o que você falou era verdade?" Yuri perguntou, sério, como se sua vida dependesse daquilo.
"'Era’ não. É a verdade." O russo respondeu sem duvidar.
Yuri se aproximou, olhando-o nos olhos, como se o analisasse. Então o abraçou, sussurrando:
"Obrigado."
Viktor o abraçou de volta e sorriu quando viu Yuri lhe sorrir, confiante, e dizer:
"Vamos acabar logo com isso."
Ligou o mp3 player em um volume considerável e saiu pela porta sem dizer nada. Viktor se apressou para pegar os crachás e saiu atrás do atleta. Aquele estresse da entrevista coletiva tinha valido a pena.
~*~*~*~*~*~*~*~
'Ninguém no mundo confia mais em Yuri Katsuki do que eu. Ninguém no mundo confia mais em Yuri Katsuki do que eu. Ninguém no mundo confia mais em Yuri Katsuki do que eu.'
A frase que Viktor disse ecoava na cabeça de Yuri como se fosse música. Se alguém como Viktor confiava nele, era porque tinha algo de bom. Ele respirou fundo. Sabia que tinha algo bom. E hoje ele patinaria competitivamente pela última vez e comprovaria isso. Seu solo era sua trajetória. Conseguiria mostrar para os outros o que Viktor via nele, conseguiria...
Viktor sabia quando Yuri pensava muito. E quando ele estava prestes a pisar no rinque de patinação era um daqueles momentos. Desde cedo, depois da entrevista, Yuri estava concentrado. Mas tão concentrado que não reparava no que Viktor fazia. Não que o russo se importasse. Era o movimento de Yuri e enquanto estivesse saudável, ficaria tudo bem. Recebeu os óculos do japonês e também os protetores das lâminas dos patins. Era a hora do show. Yuri veio para Viktor buscando as últimas instruções e ele se perguntou o que poderia dizer a ele.
Yuri se assustou quando Viktor lhe ofereceu a mão esquerda, mas a tocou, embasbacado por ver o anel que lhe dera no anular daquela mão. O russo o puxou para um abraço sem lhe soltar a mão e Yuri o abraçou de volta intensamente. Soltaram-se e Viktor puxou a mão da aliança e a beijou, dizendo:
"Mais do que nunca eu espero que o feitiço deste anel funcione: que você pense menos e viva mais."
Yuri ficou boquiaberto e começou a patinar lentamente para o ponto inicial de sua coreografia. Pensava no que Viktor tinha lhe dito, no que queria dizer e no que Yuri gostaria para eles, tanto no nível profissional quanto no pessoal:
'Que você pense menos e viva mais.' A voz do Viktor ecoou em sua mente, fazendo-o respirar fundo.
Yuri tirou a aliança da mão direita, botando-a no anelar esquerdo, beijando-a em seguida. Parou no seu lugar e respirou fundo. A música iniciou e Yuri deslizou pelo gelo, iniciando a coreografia. Lembrava de quando achava que estava só e geralmente aquilo lhe evocava sensações de solidão. Mas não dessa vez. Agora parecia ver um quadro distante de uma pessoa que sabia que era ele. Era. Deixou de ser. E essa alegria fluiu em seu sangue, deixando-o feliz e confiante. Executou a combinação de quádruplo toe loop combinado com toe loop duplo. Nada mal.
Yuri lembrou de Viktor dizendo que ninguém no mundo patinava como ele. E ninguém no mundo patinaria aquele programa melhor do que ele. A confiança em si mesmo era novidade, mas não o agitava. Iniciou a sequência de giros, apreciando a adrenalina que corria em seu corpo enquanto fazia isso. Há quanto tempo simplesmente não patinava por amar fazer aquilo?
Apreciando esse novo momento, Yuri saltou um Salchow quádruplo pousando apenas em uma perna, como era esperado. Funcionou. A música desacelerou, entrando na parte que simbolizava a entrada de Viktor na sua vida. Um arrepio correu seu corpo enquanto ele fazia a coreografia, incluindo um Ina Bauer suave e belo e um triplo axel sem qualquer falha e depois um flip triplo.
Yuri sentia a delicadeza simplesmente fluir pelo seu corpo durante a coreografia artística e os saltos eram simplesmente parte disso. Estava tudo certo e era maravilhoso poder constatar isso. Essa tranquilidade lhe garantiu executar a combinação de axel triplo, loop simples e triplo Salchow de forma satisfatória. Emendou um Lutz triplo e um toe loop triplo sem problemas. Amava o que fazia e estava conseguindo demonstrar isso ao mundo. E demonstrava a Viktor por consequência. Todo o esforço dele em tornar Yuri uma pessoa melhor valeria a pena, porque, para o japonês, aprender com o russo sobre amar e patinar era o tesouro mais valioso que guardaria pelo resto da vida.
Viktor não acreditava no que via. Yuri patinava como um deus e o amor simplesmente fluía pelos poros do atleta. Era disso que ele falava quando perguntavam o que ele via no Yuri. Era isso que ele sempre viu, mas só agora conseguia que o mundo visse junto. Egoisticamente pensou que não queria perdê-lo. Mas se fosse inevitável o fim, ao menos teria cumprido sua meta inicial com Yuri.
Katsuki se avaliou fisicamente. Não estava cansado. A ansiedade definitivamente lhe tomava mais força do que pensava e o amor tornava tudo possível. Toda essa leveza lhe dava condições de uma última tentativa. Acertaria um flip quádruplo ou morreria tentando.
Viktor viu o japonês iniciar a última combinação: um axel triplo, um loop simples e um Salchow triplo. Por fim, ele faria um toe loop quádruplo e no estado que Yuri estava, o russo sabia que seria perfeito. Sorriu, feliz, antecipando os fatos. Mas o sorriso se desfez logo em seguida, transformando-se em uma boca aberta: viu Yuri executar na sua frente um flip quádruplo sem falhas graves, caindo em um só pé, como deve ser.
'Consegui! Eu não caí!' Yuri pensou, executando os últimos passos da coreografia.
Deixou fluir o resto de energia entre os giros, sabendo que estava quase acabando e resistiu, forte, até a pose final.
Os aplausos e gritos eram ensurdecedores, tirando parcialmente Yuri de seu transe. Ele patinou em direção a saída das notas, buscando Viktor, que o abraçou apertado, embora estivesse embasbacado.
"Eu não sei o que fazer para te surpreender mais do que você fez comigo." O russo disse.
"Viktor, o que aconteceu?" Yuri perguntou, tremendo de nervoso.
"Ninguém sabe explicar como a perfeição acontece." Viktor respondeu, sentando o atleta no banco das notas.
"Viktor..." Yuri disse, sentindo as lágrimas se formarem e escorrerem ao mesmo tempo que os lábios se abriam em um sorriso.
O russo ficou nervoso, mas percebeu que o noivo chorava de felicidade. Aquele tipo de choro era menos difícil de lidar, então só o abraçou.
Yuri não acreditou na nota que recebeu. Ela lhe botava em primeiro lugar com uma margem ridiculamente alta do segundo colocado, o público aplaudindo e gritando feito louco. Ele respirou o mais fundo possível, buscando forças. Ouvia ao longe sobre ter batido um recorde, mas nada importava ou fazia sentido, porque Viktor o abraçava com firmeza.
"Yuri!" Viktor o chamou, com alegria.
"Viktor, me tira daqui antes que o Yuri venha chutar a gente do banco." O japonês balbuciou, fazendo o russo rir.
"O que meu campeão quiser." Viktor respondeu, flertando descaradamente com seu corado aluno.
~*~*~*~*~*~*~*~
Yuri saiu do banho ainda sem acreditar que há algumas horas estava no lugar mais alto do pódio. No quarto, viu a medalha de ouro brilhando em cima da sua cama, mas estava só. Viktor disse que tomaria banho no banheiro coletivo da piscina do hotel, orientando o atleta a aproveitar a banheira sem qualquer preocupação. Mas não ver Viktor ali o preocupava. O russo sabia o que ele pensava e vice-versa, mas não conversaram e chegaram em um consenso. Ligou a luz e viu que tinha um bilhete:
"Vista-se apropriadamente. Vamos comemorar. Amor, V."
Yuri ficou tenso. O que era se vestir apropriadamente? Como iriam comemorar a vitória? Na dúvida, vestiu blusa de botões, suéter, calças jeans de lavagem escura simples e meias, e resolveu esperar Viktor voltar. Se precisasse, trocaria de roupa. O estilo combinava melhor com Viktor, mas tentaria não pensar nisso. Pegou o celular e viu que tinha ligações perdidas e poucas dezenas de mensagens pessoais e várias dezenas de notificações nas redes sociais. Mas ligou para a família, especificamente sua mãe. Lembrava bem da experiência no ano anterior.
"Mãe?" Yuri disse quando atenderam a ligação. "Oi, mãe, estava dormindo? Desculpe. A senhora me assistiu? Eu só queria lhe agradecer por tudo e dizer que eu consertei as coisas."
Yuri sorriu ao perceber que a mãe entendia o que ele queria dizer e lhe parabenizou. A conversa não durou muito, pois a mulher precisava dormir. Ainda trabalharia no dia seguinte. Desligou a ligação e quando estava prestes a olhar as mensagens, a porta se abriu.
Viktor entrou no quarto com uma embalagem grande, parecia uma panela, sendo empurrada em um carrinho. O cheiro era familiar. Yuri reparou que ele estava vestido de terno e gravata, como se fosse a uma festa muito chique.
"É assim que você pretende comemorar sua vitória?" Viktor perguntou, decepcionado.
Yuri corou, mas sorriu. Não sabia dizer se estava vestido simples demais ou se Viktor estava exagerando. Mas o cheiro que vinha daquela panela era familiar.
"Katsu... Katsudon?" Yuri perguntou, nervoso.
Viktor assentiu, dando um sorriso mal contido.
"Você disse que queria vencer para comer katsudon comigo. E que queria continuar vencendo para comer katsudon comigo." O russo disse, abrindo a tampa e deixando o aroma da comida inundar o quarto, adorando ver o sorriso do japonês. "Também trouxe saquê."
Viktor serviu a comida e eles sentaram juntos na pequena mesa do quarto. Yuri se deliciou, mas o russo disse:
"Muito bom. Mas a senhora Katsuki faz melhor. Mal posso esperar para comer um katsudon feito por ela."
Yuri olhou para o russo com curiosidade:
"Você vai voltar para Hasetsu?"
"Eu moro lá." Viktor respondeu de maneira duvidosa.
"Ah..." Yuri disse, incerto. Estaria brincando?
Viktor e o japonês comeram em silêncio, até que o russo perguntou sem rodeios:
"Vai mesmo se aposentar?"
Yuri engasgou com a comida. Iria se aposentar? O que iria fazer a partir daquele instante? Tinha algumas ideias do que faria com o tempo livre, mas de repente já não parecia mais certo fazer o que pensava. Eram caminhos seguros, planos benfeitos, mas frutos da ansiedade.
"Não sei. Nenhuma das ideias que tive incluíam uma medalha de ouro. No máximo uma de bronze, talvez." Yuri riu, tímido.
"Por que não me contou que planejava se aposentar?" Viktor perguntou, uma ponta mal disfarçada de mágoa. "Suas ideias e planos não me incluíam?"
Yuri mastigava um pedaço relativamente grande de porco e se engasgou, corando violentamente. Olhou para o russo e rapidamente desviou o olhar. Como ia se explicar? Bebeu a água que Viktor lhe ofereceu e resolveu dizer a verdade:
"Todas as vezes que eu tinha alguma ideia do que fazer, você estava lá, do meu lado. Mas eu refazia tudo sem você ali, porque achava que seus planos eram outros, incluindo voltar para a Rússia e também a patinar." Yuri explicou, incapaz de comer mais de tanta vergonha. "Desculpe."
Viktor mastigava o katsudon sem pressa. Precisava de tempo para absorver a informação.
"Agora só me pergunto se consigo fazer mais e melhor ou se devo mesmo parar..." Yuri acrescentou. "O que você pensava depois que ganhava um ouro?"
Viktor levou alguns minutos para responder:
"Até dois anos atrás, eu pensava em como surpreender as pessoas na temporada seguinte e me superar. Na temporada passada, eu pensava se conseguiria fazer isso..."
Yuri observou como Viktor parecia pensar em algo mais, então esperou pacientemente até que ele falasse:
"Esse ano é a primeira vez que eu não conto a minha vida em temporadas ou competições." O russo disse, bebendo um gole de saquê. "Guardando as devidas limitações de ser seu técnico e ter compromissos nas temporadas, eu tive tempo para fazer coisas simples como assistir à final do Grand Prix ou brincar com o Makkachin na praia."
Yuri sorriu ao lembrar das vezes que vira os dois brincando na praia no fim da tarde, como já fizera com Vichan, seu falecido cachorro, tantas vezes.
"E o que você vai fazer agora, Viktor?" O japonês perguntou, incerto.
"Não sei. Da última vez que parei para pensar nisso, lembrei que fui dispensado. Então estou enfrentando uma situação completamente nova: estou desempregado."
O russo riu melancolicamente, pensando no absurdo da situação.
"E solteiro, já que fui duplamente dispensado. Se alguém me dissesse que isso aconteceria comigo dentro de uns 11 meses ano passado, eu riria. Mas agora meus planos não dependem somente de mim e de Makkachin..."
Yuri observou a mão esquerda de Viktor. O anel estava no mesmo lugar que o russo tinha deixado. Ele mesmo não tinha tirado o anel da própria mão esquerda. Aquilo tinha que significar algo.
"Acho que podemos começar a conversar e planejar as coisas juntos." Yuri disse, tocando a mão esquerda de Viktor e brincando com o anel nela. "O que você tem em mente agora?"
"Você casando comigo." O russo respondeu sem pestanejar, exalando confiança e objetividade.
Yuri corou e cobriu a boca, nervoso.
"É-é um bom plano. Eu gosto." O japonês sorriu, tímido. "Você tem algum outro plano?"
"Makkachin de pajem e Yurio como meu padrinho. Você tem algum padrinho em mente?" Viktor respondeu, puxando o noivo para sentá-lo em seu colo.
"Pichit seria bom padrinho..." Yuri disse, pensando em voz alta. "Mas espera, você parece ter planejado o nosso casamento antes."
"Algumas vezes em minha cabeça, a última vez enquanto eu comprava esse katsudon e pensava em meios de fazer você mudar de ideia." Viktor respondeu, acariciando a nuca do noivo, tentando fazê-lo parar de pensar.
Yuri sorriu e eles convergiram para um beijo apaixonado, selando o pacto de se casarem.
"Sobre continuar patinando, eu não faço ideia ainda." Yuri disse, incerto.
"Se você continuar, eu conheço um excelente técnico. Ele se chama Viktor Nikiforov. Ouvi dizer que ele está disponível depois de ter sido demitido por um medalhista de ouro no Grand Prix." Viktor respondeu, confiante e bem-humorado. "Ele pode montar sua apresentação de gala também."
Yuri riu e beijou o noivo de novo. Precisava de coragem para dizer o que queria:
"Ouvi falar desse tal de Viktor Nikiforov. Será que ele toparia patinar comigo na exibição de gala? Tornaria a ocasião mais especial."
Viktor ficou chocado, mas sorriu.
"Você não cansa de me surpreender?" O russo respondeu, emocionado. "Eu não tenho meios de te surpreender mais se você for continuar assim."
Yuri sorriu, beijando o noivo.
"Tenho certeza de que você vai achar meios de conseguir me surpreender." O atual campeão mundial disse, sorrindo contra os lábios do amado.
"Pode apostar que sim." O russo respondeu, carregando Yuri em direção a cama.
FIM.
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