Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring
9 Capítulo 09
Seus olhos corriam de um lado para o outro do campo, tentando entender porque algo tão chato poderia ser considerado um esporte adorado por tantas pessoas. Ao seu redor gritos de incentivo misturavam-se a suspiros em um coro alto e irritante. As garotas chamavam os nomes dos jogadores sempre que um deles fazia algo considerado "incrível", mas alguns recebiam tratamento especial, como gritinhos animados.
Gokudera sabia as regras do baseball, mesmo a contragosto. Convivendo anos ao lado de Yamamoto seria impossível não pegar uma coisa aqui e ali sobre sua maior paixão. E, embora seu conhecimento fosse limitado, era fácil perceber que o idiota tinha talento. Suas jogadas eram as mais aplaudidas e quando o bastão estava em suas mãos o ar ao redor mudava e o sorriso dava lugar a uma fina e séria linha acompanhada por sobrancelhas juntas e um olhar desafiador. Nesses momentos o rapaz de cabelos prateados sentia o próprio ar ficar preso em sua garganta e os pelos de seus braços se arrepiavam. Yamamoto transforma-se em outra pessoa.
O time do colégio Namimori venceu por muito pouco. A última vaga para as finais foi conquistada com muito suor e comemorada com um longo abraço coletivo por parte dos jogadores. A torcida entrou em êxtase e ele viu a oportunidade perfeita para descer do local. O Guardião da Tempestade estava sozinho daquele lado da arquibancada, ainda que não fosse o único conhecido a ir ao jogo. Tsuna também estava presente, mas do outro lado e acompanhado de Kyoko. Gokudera sabia que os dois estavam juntos, por isso evitou chamar a atenção e deixar que seu precioso Chefe aproveitasse o tempo ao lado da garota de seus sonhos.
O local marcado para o seu encontro com o moreno seria o cinema. Eles assistiriam a um filme e depois jantariam em um restaurante familiar. O horário estipulado lhe dava mais de quarenta minutos sem ter o que fazer, então ele decidiu passar em uma farmácia no caminho até o centro comercial. O Braço Direito havia acordado com uma incômoda dor de cabeça e sentia que seu corpo estava pesado. Eu ficarei gripado, tenho certeza. Normalmente ele evitaria sair naquele estado, sabendo que ficaria mais ranzinza do que o costume, porém, a ideia de cancelar o encontro soava impossível. O idiota só falou nisso a semana inteira. Ontem eu já não estava me sentindo bem, mas ficamos meia hora ao telefone e ele estava incrivelmente animado.
Com exceção do leve mal-estar, Gokudera não estava desanimado, um pouco receoso, talvez. Aquele era seu primeiro encontro e, mesmo que soubesse que era somente cinema e jantar, havia aquele frio na barriga ao lembrar-se de que sua companhia não era somente um colega ou amigo. Nós estamos saindo há uma semana. A próxima será a última. Eram raros os momentos em que ele se dava conta do tempo ou da resposta que precisaria ser dada. A data estava marcada no calendário de seu telefone celular, no entanto, os dias passavam tão depressa e de modo tão natural que ele achava que se não fosse avisado o dia específico para a conversa passaria sem ser notado. Claro que ele também sabia o que aquilo significava e o pensamento era suficiente para levar uma coloração avermelhada para suas bochechas, pois, se nada fosse dito, eles continuariam juntos, não?
A visita à farmácia roubou cinco minutos de seu tempo e após medicar-se o rapaz de cabelos prateados pôs-se a andar pelas ruas do centro comercial, olhando as vitrines e o movimento. Por diversas vezes ele sentiu-se tentado a encontrar um discreto local para fumar, contudo, não o fez. Eu não quero ficar cheirando a cigarros. O Guardião da Chuva nunca disse nada com relação àquele vício pessoal, mas várias vezes ele ouviu que deveria fazer uma pausa mais longa entre um cigarro e outro. A vontade de ter alguma coisa entre seus lábios foi forte o bastante para fazê-lo comprar uma porção de pirulitos; desse modo a caminhada tornou-se menos penosa e mais divertida. As lojas de bugigangas eram suas favoritas, porque sempre encontrava alguma joia que combinava com sua personalidade, principalmente aquelas adornadas com caveiras.
Faltavam quinze minutos para o horário combinado para o encontro quando o Braço Direito decidiu ir à frente do cinema, disposto a esperar por sua companhia. Entretanto, assim que virou a esquina, seu estômago deu voltas e um nervoso arrepio subiu-lhe pela espinha. Yamamoto estava recostado à parede, os braços cruzados e olhando para frente com uma expressão serena e acompanhada por um meio sorriso. Os passos foram dados incertos e um pouco envergonhados e sua mão ergueu-se quando os olhos castanhos caíram sobre ele. O moreno desencostou-se da parede e o sorriso desapareceu por um breve instante, mas retornou em seguida.
"Você chegou cedo." Ele colocou as mãos nos bolsos. O amigo tinha os cabelos molhados e cheirava a banho tomado.
"Fui um dos primeiros a entrar no vestiário."
"Eu assisti ao jogo. Vocês quase perderam, idiota!"
"Hahahahaha não é? Por um momento eu achei que você precisaria me consolar, Gokudera."
"Eu nunca faria isso," o Guardião da Tempestade ofereceu um olhar irônico, "é seu trabalho vencer, então não venha até mim atrás de consolo. Você não encontrará nenhum!"
Yamamoto riu e os dois continuaram com as brincadeiras até a entrada do cinema. O filme já havia sido escolhido previamente, portanto, não houve perda de tempo com opções. Cada um pagou a sua entrada, embora o moreno houvesse tentado disfarçar o olhar cheio de uma orgulhosa angústia ao vê-lo abrir a carteira para pagar seu ingresso. Nós discutimos sobre isso durante a semana. O idiota insistiu que pagaria, mas fui contra a ideia. Onde já se viu? As pipocas e os refrigerantes, todavia, foram divididos por causa do brinde que vinha junto com o combo. Os olhos verdes brilharam ao segurarem o pequeno urso de pelúcia, cuja camisetinha que vestia possuía uma raivosa caveira ao centro.
"T-Tem certeza de que você não quer?" A pergunta foi retórica.
"Eu não quero isso." O Guardião da Chuva juntou as sobrancelhas e riu. "É um pouco assustador, Gokudera..."
"Você tem mau gosto!"
O ursinho foi guardado dentro da bolsa transversal que cruzava seu peitoral e eles seguiram na direção da sala de cinema. As poltronas compradas ficavam no meio da última fileira e os dois se acomodaram, notando que a sala estava parcialmente cheia. Os filmes de heróis ocidentais geralmente tinham sessões lotadas, então não seria surpreendente ver o local abarrotado de pessoas. Os minutos antes de o filme começar foram gastos falando do jogo e o amigo mencionou ter encontrado Tsuna na saída e que ele parecia extasiante por estar na companhia de Kyoko. Esse é o meu Juudaime! A sala tornou-se mais escura e a conversa terminou quando ambos se acomodaram melhor em suas poltronas.
O filme foi bom, com momentos interessantes e a dose certa de ação, comédia e romance. O Braço Direito se lembrava de ter ido apenas uma vez ao cinema com Yamamoto e isso há alguns anos. Ele recordava-se da animação de sua companhia, e em como aquela pessoa conseguia se entreter com tão pouco. A cena repetiu-se ao seu lado e em algumas partes ele optou por observá-lo a prestar atenção na tela. O moreno tinha uma reação diferente a todo instante, indignando-se com o vilão e exibindo uma gentil expressão quando o casal principal finalmente superou as adversidades e teve seu final feliz. A pipoca e o refrigerante acabaram na metade do filme e, quando os créditos começaram a subir, os dois ficaram de pé e se retiraram da sala.
"Esse foi um bom filme," Gokudera fechou a blusa até o pescoço e escondeu as mãos em suas mangas. De repente a temperatura havia caído ainda mais.
"Foi sim." O Guardião da Chuva jogou os pacotes e copos vazios no lixo, juntando-se a ele em segundos.
"E então?" Seu corpo virou-se e os olhos verdes fitaram o céu que começava a tornar-se escuro. "Onde vamos comer?"
"Gokudera..." A expressão tornou-se séria. Eles estavam um de frente para o outro. "Vamos esquecer o jantar."
O rapaz de cabelos prateados deu um inconsciente passo para trás, surpreso. As próprias mãos apertaram seus braços e ele tornou-se pensativo demais para perceber que seus dentes batiam uns contra os outros por causa do frio. Por que ele está dizendo isso? Nós tínhamos combinado, não? Ele estava tão animado. A mão direita ergueu-se, acenando sem muita animação e seus lábios proferiram um baixo "Até mais". Sua noite estava acabada.
"E-Eu posso te acompanhar até sua casa?" Yamamoto deu dois passos à frente e a distância entre eles tornou-se inexistente. Ele inclinou-se e Gokudera arregalou os olhos, impossibilitado de mover-se e sem acreditar que o idiota iria beijá-lo no meio da rua. "Desde quando você está com febre, Gokudera?"
As testas haviam se tocado por um rápido momento, mas se separaram antes que ele pudesse processar a pergunta. O Guardião da Tempestade passou a mão na nuca, notando que, ainda que estivesse com frio, ele suava.
"Eu não sei. Eu comecei a sentir frio no final do filme, mas achei que fosse o ar condicionado."
"Você saiu de casa se sentindo mal?"
"Não, eu talvez esteja ficando gripado, mas tomei um remédio e —"
"Eu sabia. Eu deveria ter sugerido que fôssemos embora assim que te vi." Yamamoto parecia irritado consigo mesmo. "Eu sabia que tinha alguma coisa errada, mas não disse nada. Eu sinto muito, Gokudera. Por causa do meu egoísmo voc—"
"Oi, oi, idiota," ele tornou-se bravo, "eu não pedi que se preocupasse comigo. Eu me sinto bem."
O contra-argumento foi seguido por uma meia-volta que, infelizmente, apenas comprovou que o moreno estava com a razão. Suas pernas tornaram-se pesadas e um inusitado mal-estar o fez pender para o lado, encontrando o peitoral do amigo. O Guardião da Chuva soltou um longo suspiro e Gokudera calou-se. Ele não estava se sentindo realmente bem e sua tentativa de provar o contrário havia sido um fracasso e então o que restava fazer? Ele estava tão animado para esse encontro...
O caminho de volta foi feito no mais puro silêncio. O Guardião da Chuva retirou o cachecol de dentro de sua bolsa esportiva e só sossegou ao passá-lo pelo pálido e despido pescoço do rapaz de cabelos prateados. O rosto afundou-se no tecido, sentindo o cheiro do amigo, o que fez seu corpo inteiro tornar-se mais aquecido. O "E-Eu posso te acompanhar até sua casa?" transformou-se rapidamente em "E-Eu poderia fazer o jantar enquanto você toma banho", assim que chegaram ao prédio. A caminhada foi suficiente para fazê-lo sentir os efeito do resfriado e sua resposta foi muito mais do que peso na consciência por ter estragado o encontro. Havia real vontade de ter aquela pessoa por perto em um momento tão vulnerável.
O Braço Direito pegou uma troca de roupas e seguiu direto para o banheiro. Naquela última semana Yamamoto havia se tornado familiar com o apartamento, logo, não era preciso certas cerimônias quando estavam sozinhos. Nós somos amigos há tanto tempo, que essa última semana serviu apenas para me lembrar de que não somos meros estranhos. Eu sinto como se o conhecesse a minha vida inteira.
Levaria algum tempo para encher a banheira, então ele optou por um rápido banho de chuveiro. Seu corpo tremia levemente antes do encontro com a água quente e um longo ataque de espirros o fez perceber que passar algumas horas sob a influência do ar-condicionado não havia sido uma escolha inteligente. Porém, ao deixar o banho ele tentou o máximo possível parecer saudável. Sua roupa naquela noite consistia em um forrado e confortável conjunto de moletom negro que, junto com o aquecedor, o impediam de tremer de frio.
"Você precisa fazer compras, Gokudera." O moreno havia desligado o fogo. "Eu fiz sopa miso e omurice, mas os ovos acabaram."
"Está ótimo." A voz soou mais rouca do que o costume. Eu estou oficialmente doente.
A mesinha de centro da sala foi arrumada às pressas e os dois sentaram-se frente a frente para degustar aquele rápido jantar. O Guardião da Tempestade sentia que no dia seguinte acabaria perdendo parte do olfato devido ao nariz entupido, e a comida não teria gosto por alguns dias. A sopa miso estava excelente, e a omurice feito de um jeito que somente Yamamoto sabia fazer. Eu posso utilizar os mesmos ingredientes, mas ela sairá completamente diferente. As omurice dele são deliciosas e se tornaram minha comida favorita. Se eu estivesse sozinho provavelmente comeria um macarrão instantâneo e iria para cama. É diferente quando alguém cuida de você.
Os dois agradeceram ao mesmo tempo pela refeição e o Guardião da Chuva prontificou-se a retirar a mesa. Gokudera arrastou-se para o sofá, ligando a tv e bocejando. Sua companhia retornou algum tempo depois, trazendo um copo d' água e um comprimido na palma da mão.
"Eu sempre tenho algumas coisas comigo." O remédio foi aceito de bom grado. Ele mesmo não tinha nada em seus armários. "Eu vou esperar que você durma e então irei embora."
"Certo... e obrigado."
Yamamoto sentou-se na outra ponta do sofá e por alguns minutos nenhum deles disse nada. A televisão mostrava algum drama adolescente, mas sua atenção estava totalmente dispersa e não demorou a que ele entregasse o controle para sua companhia e percebesse que lutar contra o mal-estar era impossível. Seu corpo pendeu para o lado, deitando-se no sofá e apoiando a cabeça nas pernas do moreno. Não é macio. O rapaz de cabelos prateados sentiu a tensão e sabia que o amigo havia se surpreendido com o gesto, no entanto, não moveu um dedo para mudar de lugar ou posição. Se ele fosse uma garota suas pernas seriam macias e os dedos brincariam com meus cabelos enquanto eu pegasse no sono.
Os dedos que tocaram seus cabelos não eram femininos, longe disso, mas a sensação que causaram foi infinitamente melhor que a projetada por suas fantasias. O toque não era pesado, como ele esperou, e Yamamoto parecia saber os lugares exatos para acariciar. Os olhos verdes fecharam-se devagar e ele permitiu-se sentir aquele momento, sabendo que poderia alegar estar fora de si se em um futuro próximo aquele começo de noite não se transformasse em uma boa lembrança. Eu sinto muito por ter estragado o encontro. Eu sei o quão animado você estava para fazermos algo juntos.
Gokudera havia se tornado bastante observador nesses últimos dias. Hábitos e aspectos que sempre passaram despercebidos de repente eram capazes de atrair totalmente sua atenção. O moreno nunca foi uma pessoa difícil de entender, contudo, compreendê-lo levou mais tempo do que ele pensou ser possível. Para algumas coisas ele era fácil de ser lido, como um livro. Seus sentimentos, especialmente, eram claros e os momentos que passavam juntos sempre começavam e terminavam com um largo e satisfeito sorriso.
O Guardião da Tempestade não entendia como alguém poderia tirar tanto proveito de sua companhia. Ele sabia que era chato e irritante e teimoso, e que a maioria das pessoas o evitava por receio de causar sua ira. Mas não Yamamoto. Aquela pessoa ria de seus ataques, gargalhava de suas repreensões e mesmo assim tinha sempre um terno sorriso para oferecer. Como alguém como ele foi se apaixonar por alguém como eu? Não faz sentido.
"Gokudera...?"
Seu nome foi chamado várias vezes até a consciência retornar, embora não totalmente. Os olhos verdes piscaram devagar e seu corpo virou-se o suficiente para encarar a direção de onde vinha a voz.
"Consegue se levantar? Eu vou te levar até o quarto. Você precisa deitar para se esquentar."
O pedido foi acatado e ele aceitou a mão que lhe fora oferecida, levantando-se devagar e seguindo até o quarto. A cama era de casal e ocupava quase todo o espaço, mas era um de seus mimos pessoais. Gokudera era espaçoso e virava-se constantemente durante o sono. Após anos acordando no chão, ele decidiu que, ao mudar-se para o Japão, sua cama seria larga o suficiente para mantê-lo sobre ela. A cama está arrumada. Quando ele fez isso? Provavelmente enquanto eu tomava banho.
"Eu vou fechar as janelas e ir embora. Eu deixarei a ch—"
"Você pode passar a noite?" As palavras deixaram seus lábios sem hesitações.
"S-Sim." Yamamoto postou-se ao seu lado imediatamente. "V-Você quer companhia... para dormir?"
"Sim."
O rapaz de cabelos prateados permaneceu imóvel, entretanto, seus olhos viram a expressão no rosto do moreno ao caminhar até a cama. Pare de sorrir, idiota! O Guardião da Chuva sentou-se em uma das pontas da cama e ergueu os dois grossos cobertores. Gokudera arrastou-se até aquele seletivo espaço, afundando o rosto no largo peitoral e abraçando-o forte, como a um gigantesco travesseiro. As mãos ao redor de seu corpo tornaram-se mais apertadas e ele respirou fundo, sentindo o cheiro de Yamamoto e deixando que seu corpo relaxasse. Isso é bom...
Os olhos verdes se fecharam e a última coisa que ele lembrou foi de ouvir a voz do amigo avisando ao pai que passaria a noite fora, pensando que conseguiria facilmente se acostumar àquela vida e, principalmente, a ter aqueles braços ao redor de seu corpo todas as noites.
x
"Então?"
"Eu ainda estou lendo, idiota!"
"Você não precisa ler, Gokudera. Minha nota está clara." O sorriso tornou-se largo. O '80' escrito em caneta vermelha era tão grande e brilhante que quase iluminava o cômodo.
"Ainda não acredito que você realmente tirou tudo isso." A folha de papel foi pousada sobre a cama e o Guardião da Tempestade ergueu uma sobrancelha. "Você colou, idiota?"
"Como? Você esteve ao meu lado o tempo todo!" Yamamoto riu, apoiando uma das mãos sobre a própria cama e inclinando-se à frente. Ele havia esperado a semana inteira por aquele momento. "Agora, você precisa cumprir o que prometeu."
Gokudera virou o rosto e soltou um audível "tsk", que não foi suficiente para desencorajá-lo. Finalmente!! Por alguns segundos sua companhia permaneceu imóvel, como se tomasse coragem para o que viria em seguida. O moreno endireitou-se ao vê-lo virar o rosto, sentindo o coração bater mais rápido. Uma pálida e gelada mão tocou sua face e o rapaz de cabelos prateados moveu-se um pouco à frente. Os lábios se encontraram devagar, beijando-o sem pressa. Yamamoto correspondia à carícia e seus olhos fecharam-se quando a tímida língua pediu passagem, invadindo sua boca e intensificando o beijo. Eu estou no céu...
Quando os testes foram anunciados, o Braço Direito o desafiou a tirar uma nota superior a 50, prometendo que faria o que ele quisesse em troca. A certeza da vitória fora tão grande que Gokudera não se abalou quando o Guardião da Chuva pediu um beijo caso saísse vitorioso. Por três noites ele se dedicou aos estudos como se sua vida dependesse disso. O teste não estava fácil, mas ao ver a nota positiva naquela manhã Yamamoto soube que seu final de tarde seria simplesmente perfeito.
Os dois se deitaram sem que os lábios se separassem. Eles estavam na casa dos Yamamoto, pois o moreno não aguentaria esperar parar ter sua recompensa. Ele ficou por cima, sentindo os delgados dedos subirem por suas costas e apertarem a camisa branca do colégio. Sua própria mão trilhava a cintura do amigo, descendo até uma das coxas e apertando-a. Ele parece bem melhor agora. Eu estava realmente preocupado.
O resfriado do Braço Direito durou três dias e durante aquele tempo eles mal se viram, visto que Gokudera era um doente autossuficiente que se recusou a encontrá-lo até estar curado. E gentil. Eu sei que ele fez isso porque ficou com medo de eu adoecer antes do próximo jogo. Com o resfriado superado, o tempo que passavam juntos retornou e o moreno teve novamente aquela pessoa em seus braços pelo resto da semana, compartilhando toques e beijos. Mas eu sinto que estou esquecendo alguma coisa importante...
O Guardião da Chuva afastou os lábios, respirando fundo e erguendo-se devagar. O rapaz de cabelos prateados manteve-se deitado, cobrindo o rosto com uma das mãos e fazendo-o sentir-se envergonhado. Todas as vezes que os beijos tornavam-se muito eufóricos Yamamoto se distanciava. Ele conhecia seu corpo melhor do que ninguém e mais alguns segundos em contato seriam o bastante para fazê-lo perder o controle.
Nós não podemos. Ir mais longe do que isso somente acarretará sofrimento quando ele me deixar. Ah... eu me lembro agora. O moreno ficou em pé, passando a mão pelos cabelos e vestindo uma expressão séria. Seu peito tornou-se apertado e o nó em sua garganta coincidia com o desespero que se alojou no fundo de seu estômago. Ele havia esquecido. Naqueles últimos dias ele esquecera-se totalmente que aquela relação tinha prazo, cuja validade havia vencido no começo da semana. Estamos juntos há quase três semanas...
"Deveria ter sido na segunda-feira." A voz do Braço Direito soou baixa. "Hoje é quinta."
"Eu sei." O Guardião da Chuva não sabia se deveria virar-se. Ele não se esqueceu. Ouvir a resposta de costas soava menos doloroso.
"Quer conversar agora?"
"Eu não sei." Ele foi sincero. A resposta mudaria tudo. "Eu quero perguntar por que você não me lembrou disso na segunda, mas tenho medo do que vou ouvir."
Gokudera calou-se e o silêncio tornou-se pesado.
"Eu não lembrei porque também esqueci. Eu me recordei que deveria dar uma resposta esta manhã."
"Nós prometemos conversar no terraço," ele virou-se devagar, mas conservou-se no mesmo lugar. Sua companhia havia se sentado na cama e apoiava os cotovelos sobre suas coxas.
"O lugar importa? Minha resposta será a mesma."
Yamamoto engoliu seco. Ele já se arrependia de ter se virado.
Suas mãos fecharam-se em forma de punhos e suas sobrancelhas se juntaram. Por um instante ele vacilou. Por um instante ele sentiu-se tentado a ir embora sem sua resposta. Eu não sei se suportarei a rejeição.
"Antes de eu dizer qualquer coisa, eu preciso me desculpar novamente e não ouse me interromper, idiota!" O rapaz de cabelos prateados o intimidou ao apertar os olhos. "Aquele dia eu fui um perfeito babaca ao zombar dos seus sentimentos e chamá-lo de... tudo aquilo que chamei. Porém, meu pedido de desculpas não é para o que eu disse, mas por ter aceitado sua confissão com sentimentos tão superficiais. Quando você propôs que tentássemos nos relacionar por duas semanas eu aceitei porque estava curioso. Eu pensava em você o tempo todo, provavelmente influenciado pelos contatos físicos que tivemos."
"É assim que você se sente agora?" O moreno mentiria se dissesse que não doeu um pouco ouvir aquilo, no entanto, era a realidade, então o que poderia ser feito? Uma verdade dolorosa dita com sinceridade soa melhor do que uma mentira enfeitada e dita para agradar. Yamamoto sempre foi o tipo que tirava o band-aid com um único puxão.
"Não, e por isso eu me esqueci de que deveria ter dado uma resposta oficial, como estou fazendo agora." O Guardião da Tempestade abaixou os olhos, encarou as mãos e levantou-se. "Na verdade, eu achei que não precisaria dar resposta alguma e que as coisas aconteceriam por si mesmas, mas eu estava errado. Depois de tudo o que eu disse você merece sua resposta."
"Então," ele ergueu o rosto e surpreendeu-se por não soar hesitante. Por dentro Yamamoto estava com medo, "você aceita meus sentimentos agora? Não... não é essa a pergunta..." um breve meio sorriso cruzou seus lábios e as palavras que seguiram o fizeram perceber que sua luta havia chegado ao fim. Independente da resposta, não haveria mais nada a fazer. "Você me ama, Gokudera?"
O Braço Direito o encarou e permaneceu em silêncio. Aquele curto momento pareceu ter a duração de horas, contudo, nenhum deles ousou quebrá-lo. Ali, naquele pequeno quarto, aquelas vidas mudariam para sempre. Gokudera meneou a cabeça em positivo, virando o rosto para o outro lado e mordendo o lábio inferior. Suas orelhas estavam vermelhas e o moreno abriu um largo sorriso, sem conseguir descrever a felicidade que fazia seu estômago dar voltas. Entretanto, ele queria ouvi-la... escutar a resposta que tanto ansiou ou não seria real.
"Gokudera..."
"S-Sim, está bem?" O amigo ofereceu somente meio rosto. "Você sabia que eu diria isso, então não me faça perder tempo."
"Eu quero ouvi diretamente, Gokudera. Eu preciso ouvir."
O Guardião da Tempestade o encarou e seus olhos se arregalaram. A pequena boca entreabriu-se, mas ele nada disse. Ao invés de continuar, ele fechou os olhos e respirou fundo.
"E-Eu... sinto... por você... i-idiota!!"
A voz soou mais alta, como um chiado, e totalmente a contragosto.
Yamamoto o puxou pelo braço, trazendo-o para perto. Os dois se olharam e novamente houve silêncio. Eu quero beijá-lo... de novo e de novo e de novo...Ele deu um passo à frente, envolvendo-o pela cintura e juntando os corpos. O moreno sempre foi consciente de seu tamanho e sabia bem que era maior e mais alto. Ele não vai me dizer mais nada, não? Eu estou pedindo demais de Gokudera. Eu acho que consigo esperar por uma confissão completa. Eu tenho a vida inteira para isso.
"Obrigado," o moreno sorriu e acariciou a bochecha direita com as costas de sua mão, "eu não prometerei que nunca vou te machucar ou te magoar. Provavelmente iremos discutir e brigar, mas darei o meu melhor para que existam mais momentos felizes do que tristes. Você não irá se arrepender, Gokudera, isso eu prometo."
O Braço Direito entreabriu os lábios, mas nada disse. Seu rosto tornou-se corado e ele virou-o para o lado, segurando-o pela camisa e tentando esconder as bochechas vermelhas.
"E-Eu vou me lembrar disso, i-idiota..."
O Guardião da Chuva soltou uma alta gargalhada, dando um passo à frente e fazendo-o ir de encontro à cama. Ele ficou por cima, deitando-se e abraçando Gokudera, que se remexia, tentando soltar-se e reclamando de seu peso e tamanho. Yamamoto, por sua vez, só o soltou o suficiente para que pudesse inclinar um pouco o rosto. Sua boca capturou os lábios avermelhados e o segundo beijo teve um sabor diferente. As mãos voltaram a descer pela cintura, subindo pela coxa e dessa vez apalpando o quadril. A resposta foi imediata e o amigo pareceu surpreender-se, mas não se afastou. Eu finalmente posso tocá-lo de verdade. Eu estava com tanto medo de ir muito longe. Teria sido pior dizer adeus sabendo que passaria o resto da vida vivendo de lembranças.
O beijo foi longo e bem menos comportado. Fosse qualquer outra pessoa ele tinha certeza de que teriam parado há muito tempo, perdidos naquele momento de aceitação mútua e planejando os próximos passos com cuidado. Todavia, ambos eram amigos há anos e o companheirismo e convivência tornou desnecessário manter certas cerimônias, além do fato de serem dois saudáveis garotos de quase 18 anos que evitaram o máximo possível qualquer contato mais íntimo, ainda que seus corpos ansiassem por um pouco mais de pele.
Portanto, não foi apressado ou inusitado que as mãos se misturassem e que algumas etapas fossem puladas. Pela primeira vez o moreno não escondeu seus anseios, deixando que Gokudera sentisse o quão desejado era. O rapaz de cabelos prateados não fugiu quando os corpos se encontraram e apenas suspirou ao sentir o joelho entre suas pernas, pressionando seu sexo.
"Seu pai..." Foi a primeira coisa que o Guardião da Tempestade disse quando os lábios se encontraram mais uma vez. Eles haviam rolado para o lado e estavam um de frente para o outro.
"Ele foi na casa de um dos amigos para a reunião e voltará tarde."
"Mas voltará..."
"Eu sei..." Yamamoto voltou a beijá-lo. De repente ficar longe daqueles lábios parecia impossível. "E-Eu também sei que é cedo, mas... nós podemos, d-digo, eu posso... tocar você? Um pouco, prometo!"
O Braço Direito o olhou por um instante, meneando a cabeça em positivo, mas escondendo-a em seu ombro. O Guardião da Chuva engoliu seco, sentindo cada fibra de seu corpo ansiar por aquele momento. Todo o contato que tiveram naquelas semanas resumiu-se a longos beijos. Vez ou outra seus corpos se esfregavam com um pouco mais de sensualidade, porém, ele rapidamente afastava-se, temendo que o amigo se sentisse ofendido ao notar sua excitação. Nesse tempo suas fantasias foram companheiras fieis, portanto, quando uma de suas mãos começou a descer a calça do colégio de Gokudera, palavras não seriam capazes de descrever as batidas incansáveis de seu coração.
A roupa de baixo era vermelha e apertada. Ela deslizou devagar e o bastante para que seus olhos tivessem acesso à área. É prateado também. Combina com a cor de seus cabelos. Parte dele queria senti-lo sem camadas de roupas e intermediários, mas temia que sua ousadia fosse repreendida. O moreno havia reprimido por tantos anos aqueles sentimentos e desejos que, agora que estavam prestes a se tornarem realidade, havia uma tola hesitação em parecer atrevido demais.
O zíper de sua calça desceu com um discreto barulho e uma pálida mão entrou por dentro da roupa de baixo. Yamamoto sentiu todos os músculos de seu corpo se paralisarem e seus olhos abaixaram-se, procurando uma explicação para aquilo. O rapaz de cabelos prateados tinha as bochechas coradas, mas movia a mão devagar, tocando a ereção do Guardião da Chuva de modo desajeitado.
"Não se esqueça que eu também sou um homem," a voz veio de sua orelha esquerda, "e você é um p-pouco maior do que eu esperava. Como isso é possível?!"
Todas as suas inseguranças, dúvidas e medos desapareceram completamente. Sua mão terminou de descer a calça do Braço Direito do futuro Décimo, o suficiente para que o membro ficasse exposto e fácil de ser manuseado. Os corpos se encontraram e as mãos se misturavam enquanto masturbavam ambos os sexos. Os gemidos e suspiros eram baixos e tímidos, acompanhados pelos indecorosos sons do próprio ato, que o lembrava das inúmeras vezes em que ele se tocou sozinho naquela cama, fantasiando com um Gokudera totalmente inacessível. Mas ele está aqui, literalmente ao alcance de minhas mãos. É quase como um sonho.
Os toques misturaram-se a longos e profundos beijos que só cessaram quando gemer tornou-se mais necessários. Os movimentos eram apressados e necessitados, buscando o auge do prazer que pela primeira vez seria compartilhado. O Guardião da Tempestade tentava omitir suas reações, no entanto, quanto mais se aproximava do orgasmo menos controlado eram seus gemidos. Yamamoto conhecia seu corpo para saber que o clímax deveria ter acontecido, mas ele estivera adiando o máximo possível, querendo aproveitar aquele doce momento um pouco mais.
Gokudera foi o primeiro a se render, afundando o rosto em seu ombro e o mordendo levemente. O Guardião da Chuva arrepiou-se, gemendo e deixando-se perder naquela agradável sensação de satisfação. Os dois permaneceram quietos, respirando alto e perdendo-se em um apertado e necessário beijo. O moreno foi o primeiro a sair daquele transe, rindo de orelha a orelha ao observar a expressão encabulada com que era encarado.
Os lábios brincaram por alguns instantes antes de voltarem a se encontrar. As línguas se envolveram e naquele momento ele teve realmente certeza de que aquela pessoa lhe pertencia. Durante aquelas semanas seu coração esteve receoso, temendo que a resposta não fosse positiva. Até mesmo ao se esquecer de que haveria a resposta, ele não conseguiu se entregar totalmente, limitando-se somente a sonhar com os rumos que aquela relação pudesse ter.
Não mais. Gokudera é finalmente meu.
Continua...
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