Spring NY

7 Take my breath away


Take my breath away

A cerâmica branca refletia tudo no cômodo, causando uma estranha sensação de mundo duplicado. O chão limpo e cada parafuso das trancas do banheiro estavam em seu mais devido lugar. As extensas lâmpadas fluorescentes iluminavam as portas que não tinham sequer um recado pichado. O espelho limpo de forma impecável revelava à Anna seu cabelo desgrenhado e o semblante levemente abatido, resultado madrugadas mal dormidas.

Pode-se explicar o mundo através dos banheiros públicos e privados.

Ou através do meio termo.

A ruiva abriu a torneira que despejou água fria contra o mármore cinza de formato quadrado. Uniu ambas as mãos, sentindo o líquido transparente correr entre os dedos. Um arrepio correu sua coluna quando molhou o rosto sardento. Olhou-se novamente. Olhos vermelhos que clamavam uma noite de sono em um colchão descente. Alguns fios avermelhados pingando água e molhando ligeiramente a camisa social que trajava.

Certamente você está um lixo, Anna.

Buscou deixar os fios rebeldes atrás de sua orelha. Conferiu o celular antes de voltar ao ameaçador mundo real.

Estivera ali diversas vezes.

MoMA, 11W 53rd St.

O Museu de Arte Moderna de Nova York era um dos mais influentes do mundo e também um dos diversos que o centro disponibilizava. Um lugar alto de arquitetura luxuosa, onde só os melhores dos melhores eram expostos a milhares de olhos curiosos por mês. Porém, o piso de madeira clara e paredes tom creme deixavam o ambiente mais quente que o necessário. Alto número de pessoas indo e vindo. Anna decidiu que era hora de sair e buscar um pouco de ar puro, além do ar-condicionado.

Sentou-se na escadaria quente, observando a fonte d’água dar seu particular show às crianças contentes. O sol forte fazia seus olhos arderem, o que fez a ruiva colocar a mão sob a testa.

Péssimo dia para dar uma volta, certamente.

Mais cedo havia recebido um telefonema de sua mãe, questionando se Anna iria visitá-los durante as férias. A garota repassou em sua mente a ideia de pegar um avião e atravessar a Pensilvânia, a Carolina do Norte e a Geórgia, torcendo para não ter escala no Alabama ou no Mississipi, para enfim, pegar um ônibus até Miami.

Todo o mundo ouvia falar das belas praias da Flórida. Sobre Orlando e os parques temáticos da Disney e da Universal, grandes restaurantes internacionais como o Hard Rock Café e o Planet Hollywood. Certamente a Flórida era um sonho e Miami era representada como lugar luxuoso com um belo pôr do sol. Abaixo de tudo isso, a realidade era um pouco diferente: o sul de Miami era tão falido quanta Detroit. A crise imobiliária, o alto custo de vida, a corrupção política, a taxa de criminalidade.

Entre isso, a casa dos Miller.

Anna nunca visitou todas as atrações de Orlando, pois suas férias se davam na casa de seus avós, em Key West, uma cidade em meio ao Golfo do México, mais perto de Cuba que das Bahamas.

Desse jeito minhas sardas vão dobrar de tanto sol.

Voltou a caminhar devagar, desviando da multidão e suas roupas coloridas. O amarelo era comum essa época do ano e fazia Anna sentir saudades de casa.

Os prédios antigos e sua arquitetura a lembrava do King Kong.

Seu estomago resmungou, obrigando a garota a buscar o telefone. Havia um SMS não lido, o que fez os olhos de Anna brilhar rapidamente de emoção, até que reparou ser o número de Kristoff. Do outro lado da rua, um Burger King a esperava. Seu almoço se resumiu em um hambúrguer, o dobro de batata frita e ao invés de Pepsi, Milk-Shake de morango.

— cover do queen as oito. topa?
recebida, 10h47.

— tao bom quanto o rei mercury?
enviada, 12h14.

— talvez nao. mas heeey estamos de ferias. que tal algo legal pra variar?
recebida, 12h16.

— meu turno acaba tarde hoje. acho que nao dá tempo.
enviada, 12h17.

— mas posso tentar sair mais cedo. te aviso dps?
enviada, 12h17.

— estarei esperando. e o rei é o Jackson.
recebida, 12h19.

De volta ao Eight Legend, o restaurante estava assustadoramente cheio. Alguém muito popular estava fazendo aniversário e por questão, decidido comemorar lá. Batiam palmas e conversavam alto. O som das taças de vidro em meio à um constante brinde de ‘muitos anos de vida’. Um dos ajudantes de James havido ligado, alertando estar gripado e com uma febre superior a trinta e nove graus.

“Escolha os trinta melhores” James mandou, medindo o fio de azeite puro “E cuidado, eles são rigorosos”.

Acho que não tanto quanto você.

Fatal.

Anna não via diferença entre os tomates.

“Acenda o maçarico”.

“Chame a Ciara para pegar este prato”.

“Aonde foi parar a Amber?!”.

O por do sol demorou dar as caras entre os arranha-céus. As pontas do cabelo ruivo, antes molhados e pingando, agora estavam levemente queimadas e cheirando à manteiga quente. Anna não sabia que na cozinha usavam outro tipo de toucas e nem que alumínio podia esquentar tão rápido. E nem que odiava manjericão.

Perto das nove se sentou no último balcão do bar, sentindo sua coluna doer. Queria tirar o avental, mas não tinha forças suficientes. Observou a tela apagada do Nokia e logo começou a digitar.

— hey kris, nao vai rolar.
enviada, 21h01.

— aaa jura?
recebida, 21h02.

— neh. só quis avisar. idiota.
enviada, 21h03.

— estou no show agora. eles nem são tão bons assim anna.
recebida, 21h04.

— que bom pra mim ne?
enviada, 21h05.

— você tá bem?
recebida, 21h07.

— cansada.
enviada, 21h07.

— ela não te mandou msg?
recebida, 21h08.

— não posso cobrar nada dela, kris. você sabe.
enviada, 21h15.

Anna suspirou, retornando o aparelho para o bolso. Deixou a cabeça tombar devagar, encostando a testa sob o balcão que cheirava a cerveja.

Não posso cobrar nada dela... Estamos vivendo só um lance! Mas Deus sabe como eu gostaria de lhe perguntar, se estamos saindo de verdade, se vamos viver uma amizade colorida, se vamos... Todos precisam de alguém, Elsa... Será que você foge a regra? Ah, o que eu esperava de tudo isso? Ela pode querer só minha amiga. Não posso ter a esperança de que todos com quem vou pra cama vão pedir minha mão. Como se eu já tivesse ido pra cama de muitos...

A garota fez uma careta para o pensamento. Seu primeiro namorado, com quem havia perdido a virgindade, era um babaca de primeira categoria.

Tenho que parar de ouvir Guns n’ Roses...

“Hey”.

C9H13NO3 era a fórmula química da adrenalina.

Adrenalina essa que fez Anna dar um salto do banco giratório, com uma mão no peito, os olhos arregalados e uma expressão de pavor, um tanto quanto exagerada.

“ELSA” gritou exasperada “Você quase tomou um murro! Não faça isso, loira”, amansou o tom, sentando novamente. Agarrou o cinto de couro da loira, puxando esta para si e encostando a cabeleira ruiva na barriga da mulher. A loira não pôde evitar sorrir.

“Seu turno já terminou?” Elsa questionou, olhando para baixo, sem contato direto com os olhos levemente irritados de Anna.

A ruiva balançou a cabeça de forma positiva.

“Tem compromisso?”.

Balançou em forma negativa.

“Ótimo”.

Havia alguma química que seu corpo reproduzia que causava em Anna a estranha sensação de sempre ser a primeira vez. Já havia saído com Elsa algumas vezes e em todas se sentia tão nervosa quanto deveria ter se sentido na primeira vez. Claro que o fato de Elsa nunca ser previsível e sempre pegar Anna desprevenida também somavam ao fato.

Maldita Afrodite. Quem ela pensa que é pra jogar uma mulher dessas na minha vida? Por mais que ela seja extremamente sexy com aquelas curvas, aquele pescoço fácil de marcar e aquela postura arrogante que se desfaz na cama... Elsa, você me transformou numa taradaaa.

Elsa havia estacionando sua BMW do outro lado da rua, em um beco mal iluminado. A ruiva pôde encarar o carro de longe, reparando no quanto sua boca estava ficando seca e um sorriso brotava devagar, sem sua autorização. A loira usava uma gola role sem mangas, o cabelo solto e uma maquiagem de tons fracos, provavelmente por conta de alguma reunião chata.

Ela não é um anjo. É um demônio me levando direto pro caminho da perdição. E estou indo feito um patinho risonho.

E Anna nem era religiosa.

Quando a ruiva finalmente alcançou o carro, buscou os lábios da loira de forma automática. Ficou feliz ao ser correspondida com carinho pela outra.

“Quais os planos da noite?” indagou, afivelando o cinto “Aliás, Elsa... Senti saudades”.

A mulher mais velha deixou os olhos azuis alcançarem os de Anna por um curto período de tempo. Anna reparou como estes pareciam um mar tempestuoso. Sentiu seu rosto arder, cogitando a possibilidade de retirar o que disse de forma que evitasse aquele constrangimento entre elas. Elsa parecia ter entrado em conflito consigo mesma.

“Também senti Anna... Não sabe o quanto” respondeu com peso na voz, que Anna não soube identificar se era mágoa ou qualquer outro sentimento que esgotava cada pedacinho da alma e do âmago “Lamento não ter entrando em contato os últimos dias. Muitos relatórios e problemas para resolver”.

A loira ligou o carro e deu partida.

Anna não sabia se sentia felicidade ou raiva.

“Acredito que ainda não tenha jantado” Elsa afirmou de repente, parando em um sinal vermelho. Parecia pensativa.

“Não, ainda não” suspirou, baixando o olhar para a mão da loira parada sob o câmbio do carro. Sentia a necessidade de lhe segurar entre os dedos e confessar o quanto prezava por tudo aquilo elas tinham.

Mas o que nós temos?

Conteve-se.

Deveria ser desligar dos 220V e ignorar que era a Mister Fahrenheit.

Notou que o caminho que Elsa havia tomado não iria dar no Brooklyn. Pouco depois, a loira estacionou em frente ao um prédio de mais de trinta andares, na vaga demarcada A29.

“Hã...” a garota coçou a nuca, olhando para o céu negro.

Sentiu a mão gelada de Elsa sob a sua e então foi puxada para dentro da recepção. O elevador não demorou a responder e logo estavam passando do primeiro, do segundo e também do vigésimo terceiro. O vigésimo oitavo andar dava direto na porta de número 29. Ouviu a loira falar algo, mas não prestou atenção.

O piso da sala era cinza, com um extenso sofá branco sob o carpete bege. A parede de vidro permitia que Anna observasse todos os outros prédios e arranha-céus, como luzes de natal penduradas, que se apagavam de vez em quando. As estrelas sumiam entre a forte iluminação, mas a lua era grandiosa o suficiente para se manter firme. Diversos quadros cobriam as paredes, mas nenhuma fotografia de Elsa ou familiares. A lareira de tijolos vermelhos, aparentando desgasto, estava devidamente limpa. Do outro lado, a sala de estar, com lâmpadas embutidas no teto de madeira.

“A cozinha é por aqui” chamou.

Não tão diferente do resto, a cozinha era montada de forma elegante e simplificada. Os eletrodomésticos combinavam com os detalhes de aço inox da adega de vinho, prateleiras e facas com cabo de metal.

“Anna, você parece estar cansada. Tome um banho e pegue qualquer roupa que quiser. Irei fazer algo para jantarmos, que tal?”.

Estou sonhando?

Anna concordou, enquanto Elsa prendia os fios loiros na costumeira trança e tirava o salto alto e lavou as mãos devagar. Algo dentro de Anna doeu. Felizmente ou infelizmente, era uma dor gostosa. Do tipo que sua mente sabe o quanto aquele momento é perfeito, mas sabe que ele irá acabar. Saiba aproveitar. Saiba viver.

Alcançou Elsa e abraçou por trás, dando a volta na mulher loira com suas mãos, que se encontraram e entrelaçaram na barriga de Elsa. Encostou a cabeça ruiva no ombro alto da mulher.

“Não quer vir junto?”, sussurrou.

Elsa demorou.

“Acho que devemos jantar” a loira se virou para encarar Anna “Vá você e aproveite a água quente. Quando sair nós iremos jantar”.

Anna se aventurou pela casa, tomando cuidado com as portas fechadas. O quarto de Elsa era maravilhoso. No centro, um box king size com lençóis e travesseiros perfeitamente arrumados e alinhados. O carpete do chão era preto e em cima do criado mudo, um porta-retratos. Relativamente antiga, a foto tinha uma baixa qualidade e eram tons de sépia, como costumeiras fotos de câmeras baratas antigas. Elsa aparentava pelo menos seis anos de idade, com o cabelo loiro envolto em um coque trançado; seu longo vestido provavelmente azul e brilhante. Estava sentada no colo de um jovem homem de cabelos e bigode marrom e logo ao seu lado, uma mulher que tinha os mesmo olhos rígidos de Elsa.

Sua atenção foi desviada para a mesa num canto do cômodo, com uma quantidade significativa de papéis acumulados e uma luminária apagada direcionada a estes.

Ela traz serviço para casa, isso explica o porquê de parecer sempre tão cansada.

Acima da mesa havia ainda uma prateleira com diversos livros de direito e administração, organizamos em ordem alfabética.

Que chatice.

A garota se questionou se deveria estar ali. Olhou para além das pesadas cortinas verde-musgo; uma porta de vidro dava em uma extensa varanda coberta com iluminação própria, além de alguns vasos de planta. Seria um ótimo lugar de descanso se não fosse a poluição sonora e a poeira suja da cidade. Anna pensou em diversas formas de usar aquele pedacinho de paraíso. A vista ia além do rio East e o vento era gélido, com cheiro de ar puro.

O banho demorou mais que Anna pôde imaginar. A pressão da água era perfeita e os sabonetes tinham aromas exóticos.

O closet de Elsa era do tipo ‘só trabalho, não saio para além de reuniões e festas com comida chique’. Anna perguntava-se onde estavam as camisetas velhas e folgadas e os shortinhos de algodão. Por sorte conseguiu uma manga longa de tecido fino e uma calça de moletom cinza, que a obrigou a dobrar a barra. Ao voltar para cozinha, sentia-se renovada.

Elsa trabalhava com uma colher de pau, mexendo devagar um espesso molho de tomate. Na mesa, uma jarra de suco de laranja natural aromatizava o ambiente de forma agradável.

“Experimente” Elsa se manifestou com uma colher. Anna abriu a boca para receber o molho que estava mais quente que imaginara. Sentiu o gosto levemente agridoce desmanchar na língua.

“Já pensou em abrir um restaurante?” Anna levantou as sobrancelhas. Apoiou o cotovelo na mesa e o rosto na palma da mão “Eu trabalharia de graça pra você, sabe?”.

“Hmm” Elsa riu baixinho. Virou-se, apoiando as mãos no balcão, fingindo pensar na proposta. Caminhou até Anna, que a encarava desconfiada. Elsa pendeu o tronco para frente, tomando o espaço pessoal de Anna e a fazendo recuar e se apoiar melhor no encosto da cadeira “Posso pagar de forma diferente, se assim quiser...” sibilou de forma prolongada na orelha da garota, antes de mordiscar o pescoço que cheirava a amoras.

“Que horror Elsa!” Anna fez cara de ofendida, empurrando à loira. Levantou-se rapidamente e apoiou ambos os cotovelos nos ombros de Elsa, que mantinha uma só sobrancelha levantada, em forma de dúvida “Eu aceito”, sussurrou de volta, deixando sua boca escorregar nos lábios entreabertos da loira.

O jantar rendeu, além de um espaguete com especiarias desconhecidas por Anna, duas taças de vinho tinto e dois copos de uma mistura de champgne e suco de laranja.

“Então... Srta Arendell tem mais que livros chatos em sua prateleira?” indagou Anna, com uma má imitação de Sherlock Holmes “Tem até uns DVDs perdidos. Nunca pensei que fosse realmente um CD. A tecnologia é um negócio sinistro, né?”.

“Fui obrigada a comprar um leitor de DVD depois de 98. Precisava de documentários que já não iam ser mais distribuídos em fitas”.

Anna concordou como se soubesse de alguma coisa.

“Hey, Els. Que tal vermos algum desses filmes?”.

A loira tirou uma almofada do sofá e se jogou, suspirando de alívio por alguns minutos, antes de mostrar um semblante perdido.

Não me olhe como se fosse a coisa mais sinistra do mundo ver um filme. Porra Elsa.

“Pode escolher Anna”.

De forma veloz Anna pegou todos os DVDs e VHS, se dedicando a ler a sinopse de cada um.

“Não parece teu tipo de filme, Elsa” Anna disse de forma despreocupada “Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é?”.

“Não sou eu quem compro. Esmeralda compra, assiste e deixa comigo. Acho que já não tem tanto espaço no seu apartamento”.

A ruiva parou um instante, pensando se Elsa já havia tocado naquele nome, alguma vez antes. Se havia tocado, Anna não tinha prestado atenção.

“Minha secretária” Elsa percebeu a aparente confusão da ruiva.

A loira havia lavado o rosto e removido a maquiagem que restara do dia de trabalho. Anna concordava consigo própria que os olhos de Elsa ficavam mais destacados quando esta estava de rosto limpo.

“Hmm” A garota arquejou, se sentando no chão “Temos O Sexto Sentindo, com Bruce Wills, que é um ótimo filme. Naufrago, com Tom Hanks, muito longo... Premonição... Ah! E tem também lançamento desse ano que eu ainda não vi”.

“Qual?”.

“Monstros SA”, Anna respondeu empolgada.

“Será que conta a história da Komplett?” Elsa riu sozinha da própria piada.

“É um desenho na verdade. Olha, vamos assistir Premonição. Kristoff me disse que é um bom suspense”. Elsa só concordou balançando a cabeça.

Anna conferiu se a fita estava devidamente rebobinada. Ligou tanto a TV no canal 4 quanto o Vídeo Cassete, que de forma automática começou a reproduzir a fita esquecida dentro dele.

Top Gun? Pensei que Elsa era mais do tipo de ver Titanic do que um filme de romance. Céus, se ela passar um batom vermelho, cortar o cabelo e usar uma jaqueta de couro marrom, será a Kelly McGillis em 86! E eu seria o Tom Cruise? Preciso de uma moto...

A longa metragem havia sido abandonada e pausada nos exatos 53min37s. O ponto alto do romance do filme, que alguém, senão Elsa, havia ignorado e desligado a televisão. O tema de fundo era Berlin.

Watching every motion.
Observando cada movimento.

In this foolish lover's game.
Neste tolo jogo de amantes.

Take my breath away, my love.
Tire meu fôlego, meu amor.

Anna sentiu algo preso em sua garganta conforme assistia as cenas de sexo que o filme oferecia diante de si. Lembrou-se do gosto de álcool nos lábios de Elsa, quando se beijaram pela primeira vez. Lembrou-se de seu toque e de como era macia sua pele alva e quente.

Lembrou-se de seus gritos.

Anna pigarreou e pausou novamente o filme, removendo a fita e evitando olhar na direção de Elsa.

Não sei do que te chamar Elsa. De amante ou de...

Com as luzes apagadas e com o susto certeiro, Anna se encolhia nos braços de Elsa, escondendo o rosto na discreta linha do longo pescoço. O barulho de morte e sangue espirrando até que era tranquilo para si, mas as cenas que mostravam como o destino era um animal sem consciência a deixava nervosa. Apertava vez ou outra o braço da loira que ria baixinho, trazendo a ruiva mais pra si a cada momento.

Eu quero viver com você para sempre, Elsa. Mesmo que seja vendo filme de terror e passando frio no sofá da sala.

A garota inspirou o cheiro de Elsa lentamente, se embriagando, como uma viciosa droga. Fechou os olhos quando sentiu Elsa se esticar para alcançar o controle remoto e desligar ambos os aparelhos eletrônicos. Aconchegou-se melhor e sentiu os olhos arderem.

Eu te amo, Elsa.

29 de julho de 2017

Notas finais
Música título do capítulo: Take My Breath Away - Berlin