Spotlight - EM HIATUS
2 Capítulo 02 - Preço
Notas iniciais
Quando terminei meu banho e voltei para o quarto, vi que Shannon havia deixado uma de suas camisetas e uma calça de pijama cinza sobre a cama, para mim. Sorri, apreciando aquele gesto atencioso, pois eu já estava mesmo preocupada com o que vestiria após o banho, já que as minhas roupas estavam encharcada e eu não tinha nenhuma peça extra comigo.
Passei a toalha que estava enrolada em meu corpo para o meu cabelo e vesti as roupas que Shannon havia me emprestado. Sua camiseta quase me engoliu e não consegui encontrar uma maneira de fazer com que suas calças folgadas parassem em minha cintura estreita, então, decidi tirá-las e permanecer apenas com a camiseta, afinal, ela era comprida o suficiente para passar por um vestido.
Shannon bateu à porta de meu quarto e, quando a abri, ele me estendeu um par de chinelos pretos número quarenta.
— Vão ficar grandes, mas achei que precisaria deles para caminhar aqui dentro. – Ele explicou. – Ocasionalmente, eu quebro um copo ou uma garrafa por aí e, como você já observou, fazer faxina não é um dos meus pontos fortes.
Eu ri e peguei os chinelos de suas mãos.
— Obrigada, Shannon.
— Não por isso. – O olhar dele desceu do meu rosto para as minhas pernas nuas e ele franziu as sobrancelhas. – Pensei que eu tinha te emprestado calças também.
— Ficaram grandes. – Dei de ombros, mas corei porque era meio constrangedor tê-lo avaliando a minha falta de roupas daquele jeito.
— Desculpe, não tenho nada menor que aquilo.
— Tudo bem. A camiseta é suficiente por uma noite.
— Eu pedi pizza. – Shannon mudou de assunto e eu agradeci, mentalmente, por isso. – Não é a melhor pizza da cidade, mas era o único lugar aberto a essa hora.
— Pizza está ótimo. – Concordei. Para alguém que, há algumas horas, nem sabia quando teria uma próxima refeição, qualquer coisa era um luxo.
— Tá bom. – Shannon girou nos calcanhares e seguiu para o banheiro e eu terminei de secar meu cabelo com a toalha e voltei para a sala.
A visão daquela bagunça ainda me aterrorizava e eu não era nenhuma maníaca por limpeza, mas me senti na obrigação de dar um jeito naquilo. Comecei a recolher todas as peças de roupa sujas que encontrei espalhadas e as levei para a pequena área de serviço do apartamento, jogando-as dentro do cesto que, ironicamente, estava quase vazio. Depois, passei na cozinha e peguei um saco plástico para colocar as garrafas de bebida e outro para colocar as embalagens vazias de comida. Quando terminei, foi a vez de recolher os copos sujos e levá-los para a pia, onde já havia uma verdadeira montanha de louças sujas. Eu não sabia como Shannon conseguia viver no meio daquilo.
Procurei por uma nova esponja com a qual pudesse lavar as louças, pois a que havia sobre a pia estava um nojo, mas, assim que a encontrei, alguém bateu à porta do apartamento e tive que largar minha tarefa para atendê-la.
— Foi aqui que pediram uma pizza do Joe’s? – O entregador perguntou, segurando uma caixa de pizza numa das mãos e um recibo na outra. Assenti e ele me entregou a caixa. – São US$ 12,95.
Olhei ao redor, na esperança de que Shannon tivesse deixado o dinheiro da pizza por ali, mas não encontrei nada, então, depositei a pizza sobre a mesinha de centro da sala e ergui um dedo para o entregador.
— Vou buscar o seu dinheiro. Espere um minuto. – Fui até o banheiro, já que Shannon ainda estava lá dentro e bati à porta. – Shannon, a pizza chegou. Preciso de US$ 12,95 para pagar o garoto da entrega.
Ouvi a ducha ser desligada e, logo depois, Shannon abriu a porta trajando nada além de uma toalha ao redor da cintura. Meu rosto queimou de vergonha e eu precisei desviar meus olhos para o chão quando ele se inclinou para pegar a calça molhada que havia pendurado no ganchinho atrás da porta. Eu ouvi mais do que vi quando ele abriu a carteira e retirou de lá uma nota de vinte dólares que depositou sobre as minhas mãos.
— Ele pode ficar com o troco. – Me informou e fechou a porta e eu precisei de toda a concentração que tinha para obrigar as minhas pernas a se moverem de volta para sala, porque meu cérebro tinha parado de funcionar.
Paguei ao entregador e voltei para a cozinha disposta a terminar meu trabalho com as louças, porque Shannon já tinha me oferecido um lugar para passar a noite, um banho quente e uma refeição e eu sentia que a única coisa que eu poderia oferecer a ele, em retribuição, era a minha experiência com a faxina, porque eu não tinha dinheiro nem qualquer outro talento que lhe pudesse ser útil.
Fitei a montanha de louças sujas que me aguardava e decidi que era melhor vasculhar todas as gavetas da despensa à procura de um par de luvas, porque eu não era fresca nem nada, mas não tinha coragem de enfrentar aquela bagunça sem alguma proteção. Parecia que, há qualquer momento, um bicho pularia dali direto para o meu rosto e eu não queria me arriscar.
— O que está fazendo? – Shannon parou à porta da cozinha, já devidamente vestido e com seus cabelos castanhos-arruivados ainda úmidos por causa do banho. Dizer que ele estava sexy como o inferno não seria uma descrição fiel ao que eu estava vendo, mas me obriguei a manter o foco. Desenvolver uma paixonite pelo cara que me dera um abrigo estava fora de cogitação, principalmente porque eu só ficaria ali por uma noite e ele era Shannon Reed, caramba! Metade das garotas do país devia ser apaixonada por ele.
— Eu estava me preparando para lavar as louças. – Apontei para a pia abarrotada e, depois, mostrei a ele o par de luvas amarelas que havia encontrado.
Shannon venceu toda a distância entre nós com dois passos e arrancou as luvas de minhas mãos, puxando-me de volta para a sala, mas, quando chegamos lá, ele parou e olhou ao redor, um tanto confuso por não encontrar nenhuma garrafa, copo ou roupa suja largada pelos cantos.
Seus olhos se voltaram para mim no mesmo instante.
— Você sabe que eu não te ofereci um quarto para que você se tornasse minha empregada, não sabe? – Ele disse parecendo meio ofendido e eu não tive como não achar graça daquilo.
— Eu sei. Só achei que eu poderia ajudar já que você me deixou ficar aqui.
— Nah. – Shannon dispensou minha ajuda com um aceno de mão. – A Lexy sempre dá um jeito de sumir com tudo isso depois.
Eu franzi a testa, perguntando-me quem era Lexy, mas Shannon, literalmente, me empurrou para o sofá e se jogou no assento ao meu lado.
— Gosta de pizza Havaiana?
— Bem... não é o meu sabor favorito, mas...
— Ótimo. – Ele nem esperou que eu terminasse de falar e já foi abrindo a caixa de pizza e pegando uma fatia para si, assim, com as mãos mesmo, antes de me estender a caixa.
Eu olhei para ele por um segundo, mas depois dei de ombros e segui sua deixa, saboreando o contraste do gosto cítrico do abacaxi em conjunto com o presunto e o queijo. Shannon pareceu satisfeito com aquilo e ligou a TV, zapeando um pouco pelos canais antes de parar em um documentário sobre o Egito. Nós comemos em silêncio, nos revezando para pegar fatias na caixa e eu me permiti analisar toda aquela situação, concluindo que era muito estranho estar ali com ele – vivenciando algo tão comum quanto comer assistindo à televisão –, quando pouco mais de uma hora antes eu o havia rotulado como um criminoso e possível maníaco sexual, embora descobrir que, na verdade, ele era um astro da música não havia tornado as coisas mais normais.
Aliás, nada em Shannon se encaixava no que eu chamaria de “normal”. Ele não tinha aquela pegada de “por favor, não me toque” que eu imaginava que os artistas como ele teriam, nem vivia em uma mansão, cercado de assistentes para atender a todas as suas vontades e, bem, talvez eu tivesse uma visão um pouco distorcida sobre a realidade dos famosos, mas eu não tinha culpa: era assim que as revistas os apresentavam para o mundo.
A questão é que Shannon não era assim Ele era desleixado e bagunceiro e também era gentil ao ponto de ajudar uma garota qualquer, que estava largada na calçada suja de uma loja de conveniência e aquele não era o tipo de atitude que eu esperaria dele, principalmente se eu levasse em conta tudo que os tabloides diziam sobre sua personalidade.
A mídia o descrevia como um artista problemático, dono de um comportamento explosivo e inadequado, que ficava ainda pior por causa de todos os seus vícios. Eu me lembrava de uma reportagem, em particular, na qual Shannon destruíra o carro de um paparazzi que o seguia, dando socos nos vidros e chutando os faróis e a lataria do veículo até que tudo estivesse amassado ou em cacos e até que seus dedos estivessem sangrando por causa dos cortes. Ele pareceu assustador naquela filmagem, descontrolado e furioso, mas fora sua negligência com a faxina e a quantidade absurda de álcool que ele parecia ingerir, eu não via nada de errado em Shannon agora.
— É verdade que você não gosta das minhas músicas? – Ele perguntou, arrancando-me meus devaneios e eu me virei para ele um tanto envergonhada.
— Eu não quis te ofender. – Respondi. – Não é que eu não goste das suas músicas, é que eu cresci com o meu avô e ele era um verdadeiro amante da música clássica e do Soul, então, eu meio que herdei os gostos musicais dele, mas as suas músicas são bacanas.
— Você, pelo menos, já ouviu alguma?
Eu ri.
— É um pouco difícil não ouvi-las, Shannon. As suas músicas tocam em todos os lugares. Você é, tipo, o artista do ano... todos os anos. – Brinquei, mas Shannon não riu. Ele parecia verdadeiramente incomodado com aquilo.
— Sabe, quando assinei contrato com a minha gravadora, a ultima coisa que eu queria era que a minha música se tornasse mais uma coisa comercial descartável e sem profundidade. – Ele explicou. – Atualmente, as músicas são esquecidas com a mesma velocidade com as quais são lançadas e eu não queria ser apenas mais um artista relâmpago que surge e some sem deixar nenhum legado.
— Mas você não é assim. – Eu o encarei tentando lhe transmitir toda a minha certeza. Eu não conhecia muito sobre a carreira de Shannon, mas tinha ouvido o suficiente sobre ele por aí, para saber que apesar de ser jovem, ele já era um artista consagrado no mundo da música. – Você já tem o quê, três ou quatro anos de carreira?
— Três.
— E quantos prêmios você já ganhou nesse meio tempo? – Questionei. – Não acompanho muito dessas coisas, mas li em algum lugar que você foi indicado ao Grammy nos últimos dois anos e tenho certeza de que deve ter ganhado em pelo menos um deles.
— Na verdade, eu ganhei nos dois anos em que concorri e, no primeiro deles, eu venci nas seis categorias as quais fui indicado. – Ele me corrigiu, mas não parecia arrogante, apenas estava esclarecendo o fato.
— Caramba, nas seis? – Tentei não ficar muito impressionada com aquilo, mas falhei miseravelmente. – E você ainda acha que a sua música não é boa?
— É difícil de explicar.
— Não sou uma especialista em música, mas talvez eu consiga entender. – Sorri. – Porque você não tenta?
Shannon olhou para mim e inclinou um pouco a cabeça, como se estivesse pesando os prós e os contras e eu aguardei enquanto ele se decidia.
— Porque não falamos sobre você? – Ele disse por fim. – O que te levou a fugir de casa?
Eu fiz careta. Realmente precisávamos falar sobre aquilo? Confessar que eu havia sofrido assédio de meu padrasto não seria nada confortável para mim, mas, embora aquele assunto não fosse agradável, senti que eu devia isso a Shannon. Ele havia me tirado das ruas e me dado um abrigo, merecia saber a verdade sobre a pessoa que havia colocado dentro de seu apartamento.
— Eu morava no Minnesota, em uma pequena cidade chamada Preston. – Contei. – Morei lá com o meu avô desde que era um bebê e, há quatro meses, quando ele faleceu, os assistentes do serviço social encontraram a minha mãe aqui em Seattle e eu tive que me mudar para cá.
— Então, você ainda está naquela fase complicada da adaptação em que sente que precisa fugir da sua nova casa porque quer a sua antiga vida de volta?
Eu suspirei.
— Antes fosse. Quer dizer, é claro que, se eu pudesse ter a minha antiga vida de volta, eu não pensaria duas vezes, mas não é isso. É que a minha mãe está casada com um cara e ele é... argh! Ele é nojento, sabe? – Olhei para Shannon, envergonhada. – Ele bate na minha mãe e me apavora e essa noite ele tentou... tentou... – Não consegui terminar a frase, mas Shannon me entendeu.
— Ele tentou se aproveitar de você. – Ele concluiu, compreensivo.
— É. – Assenti. – Eu não vi outra opção além de me mandar daquela casa. Sabe, a minha mãe está pouco se lixando para mim mesmo, tanto faz se eu estou viva ou morta. Ela me abandonou com o meu avô quando era um bebê e nunca mais deu notícias. Não que eu me importe com isso. – Esclareci. – Meu avô sempre foi muito bom para mim e, sinceramente, acho que a minha vida estava melhor sem aquela mulher nela.
Shannon apenas me encarou. Eu podia ver que havia dezenas de coisas passando por trás de seus olhos naquele momento, mas sua expressão neutra não revelava nada. Eu não sabia se ele estava arrependido de ter me oferecido um quarto ou se estava com pena de mim e cogitando ligar para a polícia novamente, dessa vez, por causa do que lhe contei sobre Josiah, então, apenas esperei até que ele dissesse algo.
— Qual a sua idade, Tove? – Ele perguntou depois do que me pareceu uma vida. – A sua verdadeira idade.
Outra careta retorceu o meu rosto. Droga! Ele acabaria chamando a polícia.
— Dezessete – confessei –, mas farei dezoito daqui dois meses, então, se você pensar bem, eu não menti tanto assim. – Tentei minimizar meu erro, mas Shannon se colocou de pé e, como consequência, eu também me levantei com um salto – Por favor, não chame a polícia. – Praticamente implorei. – Eles vão me levar de volta e...
Shannon me olhou como se eu fosse louca.
— Te mandar de volta para as garras do seu padrasto estuprador? – Ele me perguntou como se para se certificar de que eu realmente tinha pensado aquilo.
— Bem, é que eu...
— Olha – Shannon passou as mãos pelo rosto, parecendo irritado –, há poucas coisas que eu despreze mais nesse mundo que homens como o seu padrasto e eu realmente acho que você deveria denunciá-lo, mas eu entendo que a lei não funciona tão bem quanto deveria, ok? Se você não quer voltar para casa é porque tem medo de que ele fique impune e possa te atacar de novo e eu jamais te mandaria de volta para um lugar onde você não se sente segura.
— Sério?
Ele fechou a cara para mim.
— Que tipo de pessoa eu pareço, Tove?
— Não é isso. – Sacudi a cabeça, tentando organizar meus pensamentos. – Me desculpe, é que eu acabei de te dizer que ainda sou menor de idade e eu sei que você pode se meter numa encrenca por me acolher na sua casa assim, então, eu só pensei que... pensei que talvez você não quisesse se arriscar, entende?
A expressão ofendida de Shannon se dissipou e um sorrisinho rebelde surgiu nos lábios dele.
— Você sabe quem eu sou? – Ele perguntou de forma retórica. – Sou Shannon Reed, garota. Encrenca é o meu nome do meio.
— Então, porque você se levantou assim? – Questionei confusa. – Achei que estava indo até o seu quarto telefonar para a polícia.
Shannon se espreguiçou.
— Eu só ia pegar uma cerveja. – Então, ele saiu da sala e, logo depois, ouvi o conhecido tilintar da garrafa sendo colocada sobre o balcão de granito da cozinha. Ele iria mesmo beber às quatro da manhã?
O chiado característico da garrafa sendo aberta me deu toda a resposta de que eu precisava e revirei os olhos. O que eu esperava, que ele estivesse brincando? Por acaso todas as garrafas de cerveja vazias que eu recolhera mais cedo não eram indicação suficiente de seus péssimos hábitos?
— Quer uma? – Ele ofereceu ao voltar para a sala com uma garrafa de Corona nas mãos.
Eu o encarei, descrente.
— Por acaso você já se esqueceu de que eu só tenho dezessete anos?
Shannon riu.
— Devo te oferecer um copo de leite, então, bebê?
Eu bufei e me desviei dele.
— Vou dormir.
— Não sei nenhuma canção de ninar.
— O que? – Parei e olhei para ele. – Você realmente se acha engraçado? – Então, fui para meu quarto e me joguei na cama.
Achei que dormiria quase imediatamente por causa do cansaço, mas, na verdade, fique me revirando na cama durante horas. Imagens de Josiah me tocando com aquelas mãos imundas ficavam se repetindo por trás dos meus olhos fechados e, quando acordei na manhã seguinte, senti como se mal tivesse pregado os olhos. Apesar disso, não quis ficar na cama. Shannon, provavelmente, já estava de pé àquela altura e eu não queria que ele pensasse que eu era uma preguiçosa.
Para a minha surpresa, no entanto, ele ainda não tinha se levantado e quando cheguei à sala e vi a quantidade de garrafas vazias que ele tinha deixado por lá, entendi o porquê. Recolhi as garrafas e as coloquei junto das outras no saco plástico, depois, fui até banheiro e cuidei das minhas necessidades matinais, esperando que Shannon não se importasse por eu ter usado uma das escovas de dente que ele mantinha guardadas ali.
Decidi que, antes de fazer qualquer coisa para o café da manhã, eu lavaria todas as louças que estavam amontoadas na cozinha e esperava que Shannon não acordasse até lá, pois sabia que ele me impediria de lavá-las caso isso acontecesse.
Amarrei o cabelo em um rabo de cavalo, coloquei as luvas de plástico amarelas e, para a minha total satisfação, consegui arrumar toda a cozinha antes dele acordar. No entanto, quase deixei cair a cafeteira que estava segurando, quando uma morena de 1,70m entrou no apartamento e me flagrou na cozinha, fazendo o café.
Ela parou, a cerca de um metro de mim e me olhou como se não confiasse no que seus olhos estavam vendo, depois, deu meia volta e entrou tempestivamente no quarto de Shannon.
— Será que eu não posso confiar em você nem por um instante?! – Gritou e eu o ouvi resmungar, enquanto ela parecia sacudi-lo na cama. – Shannon, mas que droga! Levanta essa sua bunda daí!
— Me deixa, Lexy.
— Levanta!
Houve uma espécie de batalha no quarto de Shannon, seguida por um barulho alto de um corpo caindo no chão e, logo depois, ele entrou na cozinha proferindo uma enxurrada de palavrões para Lexy que apareceu logo atrás dele.
— Quantas vezes eu te disse que você não pode trazer as suas aventuras para cá? – Ela apontou para mim e Shannon seguiu seu gesto. – Quem é essa garota, Shannon?
— Essa é a Tove. – Ele disse despreocupado, depois, indicou Lexy para mim. – E essa é Alexandra Martinez, minha empresária, também conhecida como a pedra no meu sapato. – Apresentou.
— Pedra? – Lexy parecia indignada. – Eu gostaria de ver o que você faria se eu não estivesse aqui para salvar esse seu rabo todas as vezes que você se mete em uma enrascada.
— Blá, blá, blá! – Shannon retrucou sentando-se no banco alto ao meu lado e pegando minha xícara de café, sem nem se importar em pedir.
— Por acaso você sabe quem ela é? – Lexy voltou a apontar para mim. – Sabe se ela não é uma repórter?
Shannon revirou os olhos.
— Olha bem para ela, Lexy. Ela parece uma repórter para você?
— Não, mas quem garante que ela não vai vender informações suas para eles?
Shannon se virou para mim.
— Tove, você pretende vender informações minhas para algum repórter?
— Eu...
— Ah, sim, Shannon. É claro que ela vai te dizer caso pretenda fazer isso. – Lexy bufou. Então, sua atenção se concentrou em mim e ela se aproximou do balcão, inclinando-se para ficar cara a cara comigo. – Quanto você quer?
Franzi a testa. Por acaso ela estava tentando comprar o meu silêncio?
— Eu não quero nada. Eu só... – Comecei a me explicar, mas Alexandra revirou os olhos para mim e retirou um talão de cheques da bolsa.
— Você não me engana, lindinha. Todas vocês querem a mesma coisa e não é o coração desse idiota. – Ela fez um gesto na direção de Shannon e colocou a caneta a postos. – Pode dizer o seu preço. São quinze mil dólares? Vinte?
— Chega, Lexy. – Shannon tomou o talão de cheques dela e o atirou do outro lado da cozinha. – Nós não estamos transando e ela não vai vender informações minhas para a mídia.
— É verdade. – Falei antes que Lexy pudesse rebater aquilo. – Eu precisava de um lugar para ficar e o Shannon me ofereceu um quarto. Ele me ajudou muito ontem a noite, foi muito gentil. Eu não diria nada sobre ele a ninguém.
Lexy cravou seus olhos negros em mim e pude ver as engrenagens em seu cérebro trabalhando à procura de qualquer coisa suspeita em meu discurso. Ela me dava um pouco de medo, na verdade, mas acho que ela precisava ser assim, intimidante, para gerenciar a carreira de Shannon. Não devia ser nada fácil lidar com todas as pessoas que tentavam se aproveitar da fama dele só para conseguir os seus próprios quinze minutinhos sob os holofotes.
— Ela simplesmente apareceu na sua porta? – Lexy perguntou a Shannon, parecendo não ter acreditado muito em mim.
— Eu a encontrei numa loja de conveniência a algumas quadras daqui.
— Algumas quadras? – Ela o encarou, possessa. – Você está me dizendo que saiu desfilando pela cidade, Shannon? E se alguém te reconhecesse, o que você faria, hein?
Shannon pensou um pouco a respeito.
— Correria? – Respondeu sem muita certeza.
Quase dava para ver a fumaça saindo das orelhas de Lexy. Ela parecia tão brava com ele.
— É oficial, você é um caso perdido. Eu nem sei porque eu ainda tento te manter em segurança.
— Você quis dizer me manter preso, certo? – Shannon retrucou, fitando-a com algo que também parecia raiva.
Eu já estava me sentindo desconfortável ali no meio daquela discussão, então, tentei me levantar e sair da cozinha discretamente, mas nem consegui dar um passo para longe antes de Shannon segurar o meu braço.
— Aonde você vai?
Olhei para ele, desconcertada.
— Você só me ofereceu uma noite aqui, lembra? Acho que preciso encontrar outro lugar para ficar agora.
Não sei como era possível, mas ele pareceu ainda mais bravo depois daquilo.
— Porra nenhuma. Você pode ficar aqui o quanto quiser.
— É sério? – Lexy cravou seus olhos nele. – Você vai dividir o seu apartamento com uma adolescente, é isso? Olha só para ela, Shannon! Se algum repórter descobrir que estão morando juntos, a próxima manchete que escreverão sobre você será te acusando de pedofilia!
— A Tove tem dezoito anos. – Shannon rebateu e eu o fitei com uma cara de paisagem, sabendo muito bem que ele estava mentindo para Lexy. Eu teria dezoito anos dali dois meses, mas naquele momento eu ainda não tinha.
— Então, você tem dezoito? – Ela questionou mais para si mesma que para mim. – Bem, é melhor que nada. – Seus olhos se voltaram para Shannon novamente e ela franziu os lábios. – Você tem certeza de que é isso que você quer?
Ele assentiu.
— Tenho.
— Que Deus me ajude, então. – Lexy caminhou até o outro lado da cozinha para buscar seu talão de cheques e, depois, seus olhos de águia repousaram sobre o meu corpo precariamente coberto pela camiseta preta de Shannon e pelo corpo dele, que estava coberto por nada mais que uma cueca boxer da mesma cor. – Tem certeza que vocês não estão transando?
Meu rosto corou de vergonha, mas Shannon apenas revirou os olhos.
— Acho que eu saberia se estivesse transando com alguém, não é?
Lexy ergueu as mãos.
— Só estou checando. Não quero ser surpreendida por um processo de reconhecimento de paternidade daqui alguns meses.
— Foi só a chuva, Lexy! As roupas dela estavam molhadas e eu emprestei a ela uma camiseta. Ninguém está transando com ninguém aqui.
— Ótimo. – Lexy pareceu mais relaxada, mas eu ainda podia sentir o meu rosto queimando de vergonha. – Então, você precisa de roupas? Podemos sair para comprar algumas coisas.
Eu ergui os olhos para ela sem acreditar que ela realmente queria me levar para fazer compras. Nem dez minutos atrás, ela queria me dar um chute na bunda e me despachar para o mais longe possível de Shannon e de seu apartamento.
— Você me faria esse favor? – Shannon perguntou a ela, parecendo ter esquecido que há menos dez minutos ele também queria dar um chute na bunda de Lexy e despachá-la para longe.
— E não é para isso que você me paga?
— Na verdade, é você quem se paga. Eu nem sei quanto você ganha.
Lexy sorriu.
— Ganho o suficiente para levar sua amiga para fazer compras.
— Nesse caso... – Ele deu de ombros e terminou de tomar o meu café, antes de se levantar e apertar minhas bochechas. – Não deixe ela te comprar nada rosa – me advertiu –, vou ficar decepcionado se você chegar aqui parecida com a Barbie. – Então, ele me soltou e voltou para o quarto, sem dizer mais nada.
Eu fiquei parada ali, no meio da cozinha, tentando entender se Shannon era louco ou se ele ainda estava bêbado e, apenas quando Lexy cutucou meu ombro, foi que sai do transe.
— Que tal você colocar uma roupa para que a gente possa ir ao shopping? – Ela sorriu para mim e, de repente, a ideia de que eu estava presa num filme de adolescente não me pareceu mais tão absurda.
Na verdade, talvez o filme fizesse até mais sentido do que a minha vida fazia naquele momento.
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