Spotlight - EM HIATUS

7 Capítulo 07 - Ironia


Notas iniciais
Oláris, Depois de um milênio, eis que estou de volta para atualizar essa fic (sorry pela demora). Dedico esse capítulo à Luisa DM que me mandou uma MP muito motivadora e repleta de carinho. Obrigada, Flor. Agora vamos ao capítulo? Espero que gostem. Boa leitura.

Pouco mais de uma semana após o pequeno confronto entre Shannon e Lexy, as coisas pareciam ter voltado ao normal ou, pelo menos, tão ao normal quanto era possível, já que eu tinha um astro da música como colega de apartamento e metade da mídia tentando descobrir o meu nome por causa da breve aventura que Shannon e eu tivemos naquela feira de rua.

Para mim, ainda era muito estranho ligar a TV e dar de cara com nossas fotos estampadas nas manchetes dos principais programas de fofoca do país, enquanto vários apresentadores faziam especulações ao nosso respeito, mas, depois de quase surtar nos primeiros dias, eu havia começado a me conformar com aquela situação e, de qualquer maneira, nenhuma das imagens divulgadas até o momento havia conseguido capturar o meu rosto direito, então, foi mais fácil me acostumar com aquilo. Os programas de TV, no entanto, pareciam não conseguir aceitar o meu anonimato e era, ao mesmo tempo, cômico e trágico as diversas teorias que eles inventavam sobre meu suposto relacionamento amoroso com Shannon.

— “Uma fonte anônima nos informou que a loira misteriosa que foi flagrada com Shannon Reed no centro de Seattle, não é uma assistente que o astro conheceu nos bastidores de seu ensaio para a revista Rolling Stone, como muitos supunham”.— Disse Bill, um dos apresentadores do programa de fofocas diário que, há mais de uma semana, criava teorias mirabolantes sobre nós. – “Parece que a moça é, na verdade, uma fã com quem Shannon manteve um relacionamento secreto no último ano”.

— “E não foi qualquer relacionamento, Bill. Nossa fonte também afirma que o cantor estava perdidamente apaixonado e que teria até pedido a amada em casamento, mas ela recusou”.— A outra apresentadora, Sally, arregalou os olhos para o público, para acrescentar um pouco mais de drama à matéria enquanto uma foto um tanto quanto cômica de Shannon, com cara de susto, aparecia no canto inferior da tela. – “Parece que, afinal, o que tirou o nosso famoso bad boy dos trilhos foi uma terrível desilusão amorosa”. – Ela concluiu e eu resmunguei um palavrão em voz alta. Era só o que me faltava: ser acusada de partir o coração de Shannon e, consequentemente, de leva-lo à reabilitação.

Desliguei a TV e atirei o controle remoto para longe.

— Você gosta mesmo de se torturar, não é? – Shannon entrou na sala trazendo dois copos de suco de laranja, ornamentados com uma fatia da fruta e um canudo espiral e eu sorri para ele, em agradecimento, quando me inclinei para pegar um copo, mas me assustei um pouco quando ele o afastou de mim e me estendeu o outro. – Esse tem vodca. – Ele me explicou quando lancei a ele um olhar questionador, o que me fez revirar os olhos e suspirar, indignada.

— Você não deveria batizar o seu café da manhã com álcool. – Reclamei e Shannon olhou para seu suco franzindo as sobrancelhas.

— Café da manhã? Isso é apenas um suco, Tove, não conta realmente como uma refeição.

— Conta, se é a primeira coisa que você coloca no seu estômago hoje. – Retruquei e peguei o copo que ele me estendia, afastando-me para um canto do sofá para que ele pudesse se sentar ao meu lado.

— De qualquer forma – Shannon continuou após se acomodar no espaço que eu havia lhe cedido –, eu li em algum artigo, dessas revistas de saúde, que tomar uma dose de álcool antes das refeições é ótimo para abrir o apetite.

— Ah, tá! – Eu o encarei com a uma expressão inconformada e descrente ao mesmo tempo. – Você não está mesmo jogando essa desculpa esfarrapada para cima de mim, está?

— Não é uma desculpa. – Ele se fez de inocente. – Eu juro que li isso em algum lugar.

— Eu aposto que você leu, mas tenho certeza que a pessoa não se referia a batizar o seu suco de laranja matinal com vodca.

— Bem, eu vi as palavras “refeição”, “álcool” e “apetite” escritas no artigo. Para mim, foi o suficiente.

— Você sempre tem uma resposta quentinha na ponta da língua, não é?

Os olhos azuis-esverdeados de Shannon relancearam para mim e um sorrisinho travesso surgiu em seus lábios, mas seja lá qual era a resposta malcriada que ele estava preparando dessa vez, preferiu não verbalizar.

— Não sei por que você ainda perde o seu tempo assistindo a esses programas. – Ele retomou o assunto anterior, acenando com a cabeça em direção à TV que eu havia acabado de desligar. – Sabe que essa gente só fala merda, não sabe?

— Eu sei, mas não consigo evitar. – Suspirei desanimada. – Sempre fico curiosa para saber o que eles vão dizer e, depois, fico com raiva das coisas ridículas que inventam. Isso é como uma praga! – Resmunguei e tomei um gole do meu suco, apreciando o gosto adocicado e cítrico da bebida. Diferente de mim, Shannon era tão bom em atividades culinárias quanto era com a música e, agora que eu tinha descoberto seu talento secreto, eu praticamente implorava a ele que cozinhasse todos os dias, mas nem sempre ele estava disposto a fazer essa boa ação. – Não sei como você aguenta isso – apontei para a TV –, ter toda a sua vida exposta dessa maneira. Tudo o que você faz vira notícia e, aí, milhares de pessoas, que nem te conhecem de verdade, se sentem no direito de te julgar e de te atacar por isso. Sinceramente, eu teria surtado em uma semana se estivesse no seu lugar.

— É por isso que eu bebo. – Shannon brincou, mas o suco de laranja batizado em suas mãos me deixava um tanto preocupada. Ele havia diminuído, consideravelmente, seu consumo de álcool na última semana, mas ainda usava a bebida como válvula de escape sempre que ficava muito agitado ou frustrado e eu não sabia dizer se ele estava passando por algum problema do tipo agora. No entanto, se eu tivesse que lidar com a mídia a cada maldito dia da minha vida, como Shannon lidava, acho que eu também precisaria de algumas doses de álcool para manter a minha sanidade intacta. Ou quase isso, no caso de Shannon.

— Eles nunca vão se cansar, vão? – Afundei um pouco mais no sofá e voltei a bebericar meu suco. – Faz mais de uma semana que fomos vistos juntos naquela feira e eles sequer conseguiram descobrir o meu nome, mas todos os dias inventam um absurdo novo sobre nós.

Shannon também bebeu um gole de seu suco e passou a língua pelos lábios, para limpar dali os resquícios da bebida, o que fez os meus olhos errantes vagarem até sua boca bem-feita, sem a minha permissão. Era realmente uma droga que ele tivesse tamanha boa aparência e ainda fosse tão talentoso, isso tornava as coisas muito difíceis para mim, mas talvez fosse por isso que ele tinha um emocional de merda também. Não seria realmente justo com o resto do mundo se Shannon não tivesse algum defeito para balancear todas as suas qualidades.

— Eventualmente alguém vai se envolver em um escândalo ou, sei lá, vai levar um tiro, então, esses idiotas terão outra coisa para comentar. – Ele respondeu e os meus olhos voaram de sua boca bonita até os seus olhos igualmente bonitos como um raio.

— Credo, Shannon! – Encarei-o com uma expressão de completo desagrado por causa de seu comentário maldoso, mas ele apenas tomou mais um gole de seu suco de laranja alcoólico e deu de ombros.

— Não me julgue por ser sincero. Você sabe que é exatamente assim que as coisas funcionam com essa gente.

Fiz careta ante aquela declaração, mas eu sabia que ele estava certo. Era terrível, mas era assim mesmo que a mídia trabalhava – substituindo um escândalo por outro à medida que eles iam acontecendo –, então, só nos restava esperar até que os tabloides encontrassem sua próxima vítima e dessem continuidade às suas reportagens estúpidas.

— Está ocupada agora? – Shannon perguntou e eu ri.

— Estou tomando suco de laranja e reclamando de programas de fofoca. Acho que tenho bastante tempo livre.

— Então, será que você poderia me ajudar em uma coisa? – Ele pediu e eu praticamente pulei do sofá, com os olhos brilhando de entusiasmo.

— É sobre a sua música nova? Você finalmente terminou? – Perguntei animada.

Fazia alguns dias que Shannon estava trabalhando em uma nova composição, mas ele sempre me expulsava da sala de instrumentos enquanto compunha, então, eu ainda não tinha ideia de como a música era, mas estive ansiando pelo momento em que ele pediria a minha opinião a respeito e parecia que esse momento finalmente havia chegado.

— Não. Não tem nada a ver com música. – Shannon riu de minha animação desmedida e o sorriso de orelha a orelha que eu mantinha, rapidamente, caiu dos meus lábios.

— Então, você precisa da minha ajuda com o quê? – Questionei, sem me preocupar em disfarçar a minha decepção. Eu havia me tornado uma espécie de viciada nas músicas dele, tanto que ele decidiu me doar seu Tablet já que eu estava sempre o sequestrando para assistir às suas apresentações na internet e, a essa altura, eu já havia decorado praticamente todas as músicas de seus antigos álbuns, mas – provavelmente para me torturar –, Shannon parecia estar trabalhando nas músicas novas em um ritmo mais lento a cada dia.

— Preciso comprar um presente de aniversário para a minha mãe.

— E você quer que eu te ajude com isso?

Shannon assentiu.

— Eu sempre peço para a Lexy comprar alguma coisa em meu nome e enviar para ela, já que eu sou horrível para esse tipo de coisa. É sério – ele me encarou –, você me disse que seu aniversário seria em dois meses, então, não se surpreenda se eu te der um vale presente ou um desses cartões com mensagens prontas, que a gente compra nos supermercados. Eu sou realmente péssimo para escolher presentes, mas... dessa vez, eu queria escolher alguma coisa eu mesmo para enviar a ela.

— Isso é ótimo, Shannon, mas... – Pensei um pouco a respeito. – Da última vez que saímos desse apartamento, nós fomos perseguidos por um paparazzi e eu não acho que a Lexy nos deixaria viver se fôssemos flagrados em um shopping.

— E quem disse que precisamos sair. – Ele depositou seu copo sobre a mesinha de centro da sala e se esticou para pegar o Tablet que eu havia largado sobre a estante. – Temos o maior shopping do mundo bem aqui, na internet e, às vezes, eles nem cobram o frete.

Eu sorri com aquilo. Se não precisaríamos nos arriscar no mundo lá fora, então, eu poderia ajudá-lo a escolher alguma coisa legal para sua mãe, embora eu não soubesse muito a respeito dela.

— De que tipo de coisas a sua mãe gosta? – Perguntei e Shannon me olhou como se eu devesse saber a resposta. – O que? A mãe é sua, vai me dizer que você não sabe?

— Bem, eu estava esperando que você, sendo mulher, pudesse me dar algumas dicas de presentes, porque eu realmente não sei de que tipo de coisas a minha mãe gosta.

— Como é que você pode não saber, Shannon?

— Eu saí de casa aos treze anos, Tove. E não é como se nós tivéssemos convivido muito como mãe e filho desde então. – Ele me respondeu um pouco irritado. Dava para ver que Shannon amava sua mãe, apesar de ter saído de casa tão novo, mas a difícil convivência com o pai e o rumo que sua vida tomou desde então, tornaram o seu relacionamento com ela um pouco conturbado e distante. Ainda assim, eu tinha certeza que a relação dos dois era mais próxima que a relação que eu tinha com a minha própria mãe que, aliás, não parecia nem um pouco preocupada com o fato de sua filha estar morando nas ruas há semanas, após ter sido assediada pelo homem a quem ela chamava de marido.

— Tudo bem, que tal um perfume? – Sugeri, pegando o Tablet das mãos de Shannon e desbloqueando a tela para começarmos nossas compras. – Ou, sei lá, uma bolsa. Você sabe qual a cor favorita dela? – Shannon balançou a cabeça, negando e eu ri. – Você ao menos sabe o nome da sua mãe? – Brinquei e ele franziu as sobrancelhas, fingindo pensar a respeito, o que me fez dar um leve soco em seu ombro. – Talvez devêssemos dar a ela um filho novo porque você é realmente uma lástima.

— Ela gostava de cozinhar. – Shannon respondeu, pensativo. – Quando eu era mais novo, ela estava sempre inventando receitas novas. Houve uma vez, quando eu tinha uns sete ou oito anos, que ela criou uns pães recheados com doce de leite para o meu aniversário e eles ficaram tão bons que ela passou a fazê-los todos os domingos. Era a minha parte favorita do fim de semana quando eu era criança.

Eu engoli em seco. Shannon tinha um talento para me deixar sem palavras e com vontade de chorar, mesmo quando o assunto envolvia uma lembrança feliz. A verdade é que era difícil, para mim, não me colocar no lugar daquele garotinho de sete ou oito anos, curtindo seu aniversário e pensar que, algum tempo depois, ele estaria morando nas ruas, se envolvendo com o crime e, até mesmo, presenciando a morte de seu melhor amigo na cadeia. Era em momentos como esse que eu me sentia ainda mais grata por todo o amor e carinho que recebi do meu avô. Minha vida, com certeza, teria sido muito diferente sem ele.

— Acha que a sua mãe ainda se lembra? Da receita dos pães, eu quero dizer. – Perguntei, por fim. Uma ideia tinha começado a surgir em minha cabeça e eu ainda não sabia se ela era boa ou não, mas achei que valia a pena arriscar.

— Acho. Se eu me lembro disso, então, ela deve se lembrar da receita.

Assenti e busquei na internet por máquinas de fazer pães enquanto Shannon me observava, curioso. Após alguns instantes, encontrei uma máquina vermelha com um design meio retrô que achei muito charmosa e a mostrei para Shannon.

— Quer presenteá-la com isso? – Ele sorriu, um tanto inseguro com minha escolha. – Acho que minha mãe já deve ter um forno elétrico em casa e, de certa forma, isso faz quase a mesma coisa que um forno, não é?

— Provavelmente, mas a questão aqui não é o presente em si e, sim, o significado por trás dele.

— Que é... um pão doce? – Shannon me encarou sem entender.

— Não qualquer pão doce, Shannon. O pão que ela fez para o seu aniversário e que, depois, virou uma espécie de tradição de domingo entre vocês. É o sentimento e as boas lembranças que esse pão de desperta, não o pão em si.

Shannon pareceu pensar um pouco a respeito, pesando, silenciosamente, os prós e os contras daquela escolha, mas, por fim, pareceu gostar da ideia e acenou positivamente para mim.

— Talvez eu devesse enviar um cartão junto.

— Ou uma carta de duas páginas, bem sentimental, relembrando os velhos tempos.

— Acho que um cartão tá bom. – Ele riu de minha sugestão e eu concordei. Um cartão bonito, com uma mensagem breve sobre aquelas lembranças de infância, também serviria ao propósito.

— Então, estamos decididos. Vamos às compras?

Antes que Shannon pudesse responder, a porta de entrada do apartamento se abriu e Lexy passou por ali, carregando mais sacolas do que eu achava humanamente possível e fez um verdadeiro malabarismo para equilibrar todas elas enquanto empurrava a porta, com um dos saltos extremamente altos de seus sapatos, para fechá-la.

— Eu tenho novidades! – Ela exclamou por trás de tudo aquilo e eu me apressei para ajudá-la, ainda que ela não tivesse solicitado qualquer ajuda. – Ah, muito obrigada, Tove. Estava com medo de estragar minhas unhas, acabei de sair do salão. – Ela me mostrou suas unhas longas e perfeitamente coloridas com um esmalte da cor vinho e se dirigiu, com passos elegantes, para a cozinha.

— O que é tudo isso? – Shannon questionou, enquanto nos seguia até lá.

— Eu passei no supermercado a caminho daqui. Trouxe comida.

— Porque? – Ele estreitou os olhos para Lexy, como se desconfiasse de tal atitude. – Você sempre pede para alguém da agência fazer isso.

— Bem, hoje eu quis fazer as compras eu mesma. Não posso?

Shannon olhou para mim, como se buscasse uma resposta e eu dei de ombros. Lexy comprando mantimentos também era novidade para mim. Havia pouco mais de duas semanas que eu estava morando com Shannon, mas eu também nunca havia presenciado tal atitude por parte dela. Geralmente, algum estagiário da agência nos fazia essa gentileza ou, então, eu mesma me dirigia até o supermercado na quadra debaixo e comprava o essencial.

— Que diabos é isso? – Shannon perguntou, retirando um pacote de carne, de um tipo que eu nunca tinha visto, de dentro das sacolas.

— Ah, é carne de Wagyu. – Lexy respondeu entusiasmada. – É uma raça de gado japonesa. Aliás, sabia que esses animais ouvem Mozart e recebem massagem diariamente? Dizem que é por isso que a carne deles é tão saborosa.

Shannon largou o pacote de bifes de volta na sacola, olhando para Lexy como se ela tivesse algum problema mental.

— Eu vou querer saber quanto isso custa?

— Aproximadamente US$ 200 dólares o quilo, mas vale cada centavo. Pode acreditar em mim.

— E isso aqui? – Shannon apanhou outro pacote e deu uma boa olhada na embalagem. – Que idioma é esse? Aliás, o que isso? É queijo?

— Queijo de leite de alce. Fabricado na Suécia. Saborosíssimo.

— Ah. – Shannon riu de nervoso. – Me deixe adivinhar: esses alces ouvem Tchaikovsky lá na Suécia? – Ele perguntou, com ironia, recebendo um olhar nada amigável de Lexy em resposta.

— Você deveria era me agradecer por te apresentar às coisas boas que há nesse mundo.

— Só que eu não preciso de um bife de duzentos dólares de uma vaca que ouve música clássica. Isso é comida de gente fresca.

— É comida de boa qualidade, Shannon.

— Ah, pelo amor de Deus, Lexy! O gado ouve Mozart. Nem eu ouço Mozart.

— A Tove ouve Mozart. – Lexy retrucou, apontando para mim, já que todos sabiam do meu amor pela música clássica.

— Tá e daí? Você vai transformá-la em um bife também?

— Olha – Lexy respirou fundo, tentando manter a calma –, porque você não come as coisas que eu trouxe e, depois, me diz o que acha, hein?

— Ah, pode ter certeza de que eu vou comer. Você gastou o meu dinheiro comprando isso! – Shannon apanhou uma fatia do bacon que Lexy estava separando em uma bandeja e a colocou na boca. – Tá vendo? Tem o mesmo gosto do bacon que eu comprava no mercadinho da esquina quando era moleque. – Ele se inclinou para pegar mais uma fatia, mas Lexy puxou a bandeja para longe dele, fingindo que espetaria sua mão com o garfo caso ele tentasse roubar mais comida dali.

— Vou fazer sanduíches para nós. Você pode esperar até eu terminar.

Eu apenas ri daquela pequena guerra entre os dois. Depois que Shannon se desculpou por seu ataque de fúria durante sua última discussão e que eu, voluntariamente, decidi contar minha história a Lexy, nós três tínhamos chegado a uma espécie de acordo de paz naquele apartamento. Ela não tentava mais me expulsar dali e, em retribuição, eu fazia o possível para manter Shannon na linha e nós dois fora de confusões.

Com o tempo, eu até consegui conversar numa boa com ela e convencê-la de que, talvez, Shannon precisasse de alguma coisa na qual trabalhar e manter seu foco, já que ficar trancado naquele apartamento, longe de tudo e de todos, não parecia estar ajudando muito em sua recuperação e, depois de muito relutar, Lexy finalmente concordou comigo. Eu só não sabia como ela tornaria aquilo possível, já que levar Shannon de volta para os holofotes da mídia ainda não era uma opção viável dada a instabilidade dele.

— O aniversário da sua mãe está chegando. – Lexy voltou a falar depois de um instante concentrada em sua tarefa de desempacotar aquilo que ela usaria para fazer os sanduíches. – Pensei em encomendar um vestido na Akris e enviar para ela na sexta. Tem algumas estampas maravilhosas na nova coleção.

— Na verdade – Shannon olhou para mim e sorriu –, Tove e eu já escolhemos um presente.

Lexy largou os talheres que segurava e nos encarou.

— Juro por Deus que, se eu tiver que lidar com mais uma aparição pública, vou jogá-los daquela janela.

— Não houve aparições públicas dessa vez. – Shannon garantiu.

— Escolhemos o presente pela internet. – Fui até a sala e peguei o Tablet, depois voltei correndo para a cozinha para mostrar nossa escolha para Lexy, que encarou a imagem como se estivesse olhando para um extraterrestre.

— O que exatamente é essa coisa?

— Uma máquina de fazer pão.

Ela riu alto.

— Desde quando uma máquina de fazer pão é um presente melhor que um vestido da Akris?

— Tem toda uma história por trás disso. – Shannon explicou e, dessa vez fui eu quem olhei para ele e sorri. Eu estava tão orgulhosa da nossa escolha que queria que alguém filmasse o momento em que a mãe dele receberia o presente só para que eu pudesse ver sua reação.

— Bem, se é o que você quer, eu posso encomendar uma dessas, então.

— Também preciso de um cartão. Preciso escrever uma coisa para ela e enviar junto com a máquina ou o presente não fará muito sentido.

Lexy olhou de Shannon para mim, tentando adivinhar o que estávamos planejando, mas, por fim, desistiu e apenas deu de ombros.

— Vou pedir ao Randy para compra um cartão bonito e trazer para você amanhã.

— Valeu, escrava. – Shannon roubou outro pedaço de bacon da bandeja de Lexy e saiu da cozinha, rindo de sua própria ousadia.

— Às vezes eu queria poder bater nele, mas o nosso contrato não permite. – Lexy resmungou e me estendeu a bandeja com bacon, me incentivando a pegar uma fatia também, o que achei muito gentil da parte dela.

— Realmente existe uma cláusula que te proíbe de bater nele? – Eu ri enquanto aproveitava o sabor daquela carne que, realmente, era tão saborosa quanto ela havia afirmado.

— Não exatamente. Existe uma cláusula sobre agressões verbais e físicas, bem generalista, mas, de todo modo, o protege de levar a bela surra que ele merece. Juro que um dia descobrirei uma forma de quebra-la sem sofrer um processo e aí ele vai se ver comigo. – Ela piscou para mim. – Ah, e eu consegui aquela coisa sobre a qual conversamos. – Avisou.

— Sério? – Eu praticamente sorri de orelha a orelha, animada com a notícia.

— Uhum. Vou explicar tudo para vocês, assim que eu terminar isso aqui. Espero que ele aceite a proposta, mas, se conheço em o Shannon, ela será praticamente irrecusável.

— Também espero. – Cruzei os dedos e fiquei esperando Lexy terminar seu trabalho.

***

Conforme Lexy havia previsto enquanto preparava os sanduíches, Shannon comeu o equivalente 70% de toda a comida e nós duas dividimos os 30% restantes. Apesar disso, ele permaneceu com sua opinião de que tudo aquilo era comida de gente fresca e, por mais que eu também tivesse amado o sabor dos alimentos, fui obrigada a concordar com ele. Tudo era muito caro para eu achar que o custo-benefício valia apena.

Quando já estávamos todos cheios e sem mais argumentos para discutir as razões do queijo de leite de alce ser ou não melhor que a nossa boa e velha mussarela, Lexy se levantou e assumiu um lugar no centro da sala, clamando toda a atenção.

— Como eu disse ao passar por aquela porta mais cedo, tenho novidades! – Ela cantarolou entusiasmada e eu fiquei um pouco inquieta em meu assento porque estava curiosa para saber tudo o que ela havia organizado. – Primeiro, a gravadora amou aquela demo que você enviou para eles. – Lexy disse para Shannon que assentiu levemente, parecendo nenhum pouco surpreso. – Eles acham que a música daria um ótimo single e gostaram dessa versão acústica, eu acho que vão mantê-la assim para o próximo álbum.

— Espera aí, single? Próximo álbum? – Olhei para Shannon, pedindo maiores detalhes. – Você já está trabalhando nisso?

— Estou sempre trabalhando nisso, Tove. Sou músico, é o que eu faço.

— Eu sei que é o seu trabalho, mas não imaginei que você já tivesse músicas suficientes para criar um álbum inteiro. Quero dizer, é preciso ter uma certa quantidade de material pronto para começar a fazer isso, não é?

— O Shannon nunca te mostrou o “arquivo morto” dele? – Lexy questionou e eu neguei com a cabeça. – Ele tem dezenas de músicas prontas. Algumas foram descartadas dos álbuns antigos, outras ele compôs para outros artistas e, algumas, ele diz que compôs por esporte e que não pretende gravá-las... mas, de qualquer forma, ele tem muito material pronto, se quisesse, poderia lançar um álbum por mês.

— É exagero dela. – Shannon se defendeu. – Muitas das composições que eu guardo não servem para o mercado. São material pessoal, passatempo, não de trabalho.

— E porque eu só estou sabendo disso agora? – Eu o encarei. – Sabe que gosto das suas composições, seja material de trabalho ou não. Eu quero ouvir todas essas músicas.

— Talvez um dia eu te mostre algumas.

— Qual música você mandou para a gravadora? – Perguntei curiosa. – É uma daquelas que você me mostrou?

Shannon negou com a cabeça.

— É coisa nova?! Ah, meu Deus, Shannon, porque não me deixou ouvir?

Ele deu de ombros, sorrindo para mim um tanto envergonhado e, mesmo não tendo respondido à minha pergunta, achei sua reação adorável, pois eu tinha um verdadeiro fraco por seus sorrisos bonitos e pela forma como seus olhos se fechavam quando ele sorria assim.

— A segunda novidade do dia – Lexy continuou quando achou que o assunto anterior havia acabado –, é que o Rudimental¹ nos ofereceu um feat.

— O que?! – Shannon arregalou os olhos e eu só pude olhar de Lexy para ele, esperando que um dos dois fosse começar a me explicar o que aquilo significava porque, para mim, eles estavam falando grego.

— O agente deles entrou em contato com a nossa gravadora há algumas semanas. Nosso pessoal analisou a oferta e estão dispostos a assinar um contrato se você aceite gravar com eles.

— Tá brincando?!

— Eu trouxe a demo para você analisar. Mas eu já ouvi parte da música e achei genial. – Lexy confessou.

— Caramba! Onde está? – Shannon se colocou de pé, de repente muito animado com aquilo e eu ergui a minha mão, como uma boa estudante pedindo permissão para falar.

— Alguém pode me explicar quem é Rudimental e o que, exatamente, seria um feat? – Perguntei, torcendo para não parecer uma idiota completa por não saber tais coisas.

— Rudimental é um grupo britânico, de música eletrônica, do qual o Shannon é meio fã. – Lexy explicou, mas Shannon fez que não com a cabeça.

— Eu não sou meio fã deles. – Ele a corrigiu. – Sou muito fã, os caras são verdadeiros gênios da música. Trabalhar com eles seria uma honra.

— Pois bem, eles estão apenas esperando a sua resposta.

— Então, em outras palavras, isso significa que o Shannon e esse grupo vão compor uma música juntos, é isso?

— Não exatamente. Na verdade, a música já está pronta. O Shannon apenas vai emprestar a voz dele para a melodia e para a letra que o Rudimental já criou.

— Entendi. Tipo a Sia e o David Guetta, não é?

— É isso aí. Você tá aprendendo. – Shannon me felicitou.

— Me dê mais algumas semanas e serei capaz de dominar o mundo da música. – Brinquei. – Mas esse tipo de trabalho em conjunto parece divertido.

— É bastante interessante realmente. – Lexy assentiu e a animação quase incontrolável de Shannon só evidenciava o fato.

— Você deveria aceitar. – Falei para ele que olhou para Lexy.

— Acha que posso fazer isso?

— Daremos um jeito de funcionar. – Ela assegurou.

— Quero ouvir a demo!

— Já te mostro, mas, antes, tenho mais uma novidade para anunciar. – Ela olhou para mim e eu fiquei um tanto apreensiva com isso. Achei que as novidades já tinham terminado. – A Universidade de Washington respondeu à minha carta e concordou em te dar uma nova chance. Você só precisa apresentar os documentos que a secretaria solicitou em um prazo de sete dias e aí será oficialmente uma aluna deles.

— O que? – Eu demorei um tempo para absorver a informação e, depois, senti o meu coração disparar. – Como é que é?!

— Universidade de Washington. Documentos. Secretaria. Em até sete dias. – Lexy repetiu e eu a encarei em choque.

Eu estava ouvindo as palavras, mas não conseguia interioriza-las. Como assim a Universidade de Washington iria me dar outra chance de efetivar minha matrícula? Eu tinha perdido o prazo e eles já haviam me informado que não havia segundas chances. Aliás, como Lexy soube que eu estava tentando me matricular na universidade? Eu não me lembrava de ter mencionado o assunto com ela...

Então, a minha ficha caiu.

— Oh, meu Deus, o que você fez com a minha lista? – Olhei para Shannon e nem precisei de uma confirmação verbal para saber que ele era o responsável por aquele milagre.

— O que precisava ser feito. Não achei justo você perder a sua vaga por causa do seu padrasto. Então, pedi a Lexy para mexer uns pauzinhos.

— Acredite ou não, eu sou uma pessoa muito influente. – Lexy abriu um sorriso que seria capaz de iluminar o mundo, mas eu mal reparei nisso enquanto me jogava nos braços de Shannon para abraça-lo como se quisesse parti-lo ao meio.

— Oh, meu Deus, muito obrigada, Shannon! Obrigada, obrigada, obrigada!

— Não precisa agradecer por isso. Eu só consegui um novo prazo para você se matricular, ser aceita foi um mérito exclusivamente seu. – Ele acariciou minhas costas e eu só consegui apertá-lo ainda mais entre meus braços.

— Na verdade, eu consegui um novo prazo. – Lexy retificou. – Não que alguém aqui se importe com isso, né?

— Obrigada, Lexy! – Eu sorri para ela, mas continuei abraçando Shannon que, felizmente, não tentou se soltar de mim, como era um costume seu sempre que eu invadia seu espaço pessoal dessa forma.

Eu estava tão contente que poderia até dançar pela sala, provavelmente com Shannon, como havíamos feito em seu quarto, ao som de Renegades, algumas noites antes, mas eu achava que seria estranho repetir a cena com Lexy ali nos observando. No entanto, foi apenas depois que minha euforia com a notícia diminuiu um pouco, que percebi o grande problema em tudo aquilo: eu havia deixado todos os meus documentos em casa quando fugi.

— Merda! – Resmunguei e Shannon me afastou de seu corpo para poder me olhar direito.

— Algum problema?

— Meus documentos. – Olhei para ele e, depois, para Lexy. – Estão todos na casa da minha mãe. Eu precisaria ir lá busca-los para poder efetivar a minha matrícula.

— Bem, isso é realmente uma droga. – Lexy concluiu e eu apenas sacudi a cabeça, concordando.

Não podia acreditar que eu teria que voltar àquela casa se quisesse ter um futuro longe dela. Era quase uma ironia do destino.

Notas finais
NOTAS EXPLICATIVAS: 1) Rudimental: é uma banda inglesa de música eletrônica formada em 2010. O quarteto é composto pelos compositores, DJs e produtores Piers Agget, Amir Amor, Kesi Dryden e DJ Locksmith. O grupo chegou à fama em 2012, quando seu single "Feel the Love", com o cantor John Newman, chegou ao topo na UK Singles Chart e, desde então, eles ganharam vários prêmios, incluindo o Brit Award e o MOBO Awards de Melhor Álbum. Com o cantor James Arthur, Rudimental lançou a música "Sun Comes Up", em 2017. *** Bem, espero que tenham gostado do capítulo e que ele tenha valido a espera. Estou totalmente sem inspiração para escrever uma nota final decente (rsrs), então, comentem aí o que acharam do capitulo e se estão ansiosos pelos próximos. Críticas construtivas são sempre bem vindas. Bjokas e até breve.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.