Spotlight - EM HIATUS
4 Capítulo 04 - Fundação
Notas iniciais
Pouco antes do fim da manhã precisei admitir, para mim mesma, que meu plano de manter uma distância segura de Shannon vinha se mostrando um verdadeiro desastre. Ele estava acordado mal havia duas horas e, nesse meio tempo, eu já havia me esbarrado, pelo menos, cinco vezes com ele.
A primeira delas foi quando Shannon saiu do quarto. Eu tinha decidido que faria uma faxina geral no apartamento naquela manhã e estava voltando da área de serviço, munida de um balde e vários outros itens de limpeza, quando Shannon simplesmente abriu a porta – trajando menos roupa do que eu consideraria adequado – e deu de cara comigo ali, no corredor. Ele deu uma boa olhada nas coisas em minhas mãos, contorceu os lábios e saiu resmungando algo sobre eu ser uma maníaca por limpeza que precisava de terapia. Consegui não pensar no quanto ele ficava fofo com aquela cara de sono, mas falhei miseravelmente em não dar uma espiadela nele, por cima do ombro, antes dele entrar no banheiro e fechar a porta. Em minha defesa, preciso dizer que Shannon era dono de um corpo difícil de ignorar e, de todo modo, ele também não parecia fazer muita questão de escondê-lo de meus olhos curiosos.
A segunda vez que nos esbarramos foi na cozinha. Shannon queria uma xícara de café da cafeteira às minhas costas, ao passo que eu queria um copo de água da geladeira atrás dele e nós passamos cerca de quinze segundos tentando nos desviar um do outro, pois todas as vezes que eu me desviada para um lado, Shannon também se desviava para ele e vice-versa. Foi preciso que Shannon me segurasse pela cintura e me arrastasse para fora de seu caminho para que, finalmente, encerrássemos aquela “dança” ridícula e foi ainda mais ridículo quando o meu rosto corou por causa do toque quente de suas mãos em minha pele úmida e descoberta.
Depois disso, nós nos esbarramos na sala de estar e na sala de música e, outra vez, no corredor, quando eu estava saindo do banheiro após terminar de limpá-lo. Agora, eu estava parada em frente à porta do quarto de Shannon, me perguntando se deveria bater, pois eu já tinha limpado todo o apartamento e não queria deixar aquele único cômodo sujo, mas também não queria invadir seu santuário privado. Para a minha sorte – ou azar – Shannon abriu a porta e me poupou o trabalho de decidir.
— Me deixa adivinhar – ele cruzou os braços e se recostou ao batente da porta –, meu quarto é o último obstáculo na sua cruzada contra a sujeira?
— Posso deixá-lo sujo, se quiser. – Dei de ombros. – Já percebi que você é muito apegado a toda a sua bagunça.
Os lábios de Shannon se repuxaram para cima em um meio sorriso e ele deu um passo para o lado, liberando minha passagem.
— É todo seu. – Disse e saiu dali direto para a cozinha.
Mais uma vez fiquei surpresa com a capacidade dele de fazer tamanha bagunça. O quarto de Shannon estava uma zona! Havia roupas espalhadas por todos os cantos, bem como algumas garrafas de cerveja e embalagens vazias de biscoitos recheados e batatas fritas. Sobre uma mesinha, mais ao fundo, havia algumas HQ’s e alguns CD’s de bandas e cantores solo que eu não conhecia direito e um caderno surrado com o que pareciam dezenas de rascunhos de letras de músicas, escritas por Shannon em sua caligrafia desleixada. Eu nem sabia por onde começar a limpar, mas imaginei que recolher as roupas sujas e o lixo fosse um bom ponto de partida, muito embora as portas escancaradas de seu closet deixassem claro que separar o que estava limpo do que estava sujo me daria um pouco de trabalho.
— Bem, mãos à obra. – Recitei com um suspiro derrotado.
Logo que entrei no quarto já tropecei em um par de tênis largado, de qualquer jeito, pelo chão e quase deixei cair os produtos de limpeza que segurava. Praguejei baixinho e depositei meus materiais de trabalho em um canto ao lado de uma estante com alguns prêmios de música – que parecia ser a única coisa minimamente arrumada naquele quarto – e, então, comecei a recolher o lixo e a separar as peças de roupas sujas daquelas que eu julgava estarem limpas.
Percebi que Shannon tinha uma verdadeira infinidade de camisetas pretas e azul-marinho que beiravam ao preto e que seus sapatos variavam entre botas pretas ou marrons escuras e tênis Converse All Star de cores neutras ou estampados. Um gosto simples considerando o vestuário extravagante e caro que algumas celebridades usavam.
Recolhi todo o lixo que encontrei por ali e separei as roupas em duas pilhas altas, então, guardei todos os sapatos de volta em suas prateleiras no armário e troquei a roupa de cama suja por uma limpa que encontrei no fundo de uma das gavetas. Creio que levei cerca de uma hora para organizar tudo isso, mas quando terminei e pude vislumbrar o quarto que havia por baixo de tudo aquilo, senti que o esforço estava começando a valer a pena. Apesar disso, ainda havia muito trabalho a ser feito. Organizei todas as HQ’s e os CD’s de volta em seus lugares, limpei a poeira dos móveis e as manchas grudentas de bebida haviam ali, aspirei o carpete e espanei cada troféu que havia na estante, me permitindo um momento para ler as informações gravadas neles e saber suas origens.
Shannon não estava brincando quando disse que vencera as seis categorias do Grammy às quais fora indicado no ano anterior, mas acabei descobrindo que ele também havia sido bem sucedido um ano antes disso quando ganhou outros quatro Grammys e, também, no início de sua carreira quando venceu a categoria de artista revelação, totalizando assim a conquista de onze troféus que, agora, estavam orgulhosamente expostos na primeira prateleira da estante. Havia também vários troféus de premiações como o VMA e o AMA e outros que ele ganhara fora de nosso país, em premiações que eu desconhecia e fiquei realmente impressionada com a quantidade de troféus que Shannon ganhava em votações como o Teen Choice Awards e o People Choice Awards. No entanto, foi um troféu pequeno e certamente feito de latão pintado de dourado que chamou minha atenção. Ele parecia tão destoante ali, entre tantos prêmios grandiosos, que não pude me impedir de pegá-lo e analisá-lo mais de perto.
Não havia nenhuma inscrição nele, nenhuma sugestão de que ele pertencia a alguma premiação de música de um país estrangeiro que eu não conhecia. Nada. Era apenas um pedestal vermelho polido com um número 1 no centro de um círculo dourado, no alto, como se intenção fosse imitar uma medalha de primeiro lugar. Me perguntei se Shannon o teria ganhado no colégio, em alguma competição de ciências ou atletismo como as diversas das quais eu participara quando ainda morava com o meu avô, mas Shannon pareceu brotar do inferno para responder a pergunta que, certamente, estava estampada em meu rosto, tão silencioso que quase deixei cair o troféu quando ele apareceu na porta do quarto segurando uma garrafa de Corona com uma fatia de limão.
— Esse é o meu favorito. – Ele apontou para o objeto em minhas mãos com o gargalo da garrafa de cerveja. Quis revirar os olhos e dizer a ele que ainda era muito cedo para beber, mas eu duvidava que Shannon se importaria e, de qualquer forma, eu não era sua mãe, nem sua babá para lhe dizer o que ele podia ou não podia fazer.
— De onde é esse?
— Da prisão. – Shannon respondeu casualmente e eu tentei manter a expressão surpresa longe de meu rosto, mas falhei.
— Você já foi preso?
Shannon caminhou para dentro do quarto, olhando ao redor como se aquela fosse a primeira vez que via o lugar como ele era de verdade e se sentou na beirada da cama, cruzando as pernas na altura dos tornozelos. Ele tomou um gole da cerveja e limpou os lábios com as costas da mão, suspirando audivelmente antes de olhar para mim.
— Você não estava brincando quando disse que não era minha fã, não é? – Comentou com um sorriso jocoso. – Mas, sim, eu já fui preso. Duas vezes para ser mais exato.
— O que você fez? – Aquele troféu em minhas mãos era bem leve se comparado com os outros ali expostos, mas, naquele momento, ele parecia pesar uma tonelada. Eu receava estar segurando algum prêmio de uma competição sangrenta entre presidiários e nem ousava pensar em quais atrocidades Shannon teria feito para consegui-lo. Apesar disso, não permiti que aquele temor se instalasse em meu rosto. Demonstrar medo sempre piorava as coisas.
— Eu era adolescente e morei nas ruas por um tempo. – Ele explicou. – O meu pai bebia e ele nunca foi um homem muito amável, então, as coisas eram difíceis em casa. – Shannon me encarou. Dava para ver em seus olhos que ele achava que eu conseguia entender a situação e, de fato, eu conseguia. Com Josiah como padrasto, as coisas também eram difíceis em minha casa. – Enquanto estava nas ruas eu me meti com algumas pessoas erradas. Me tornei membro de uma gangue e... bem – ele deu de ombros –, uma coisa foi levando à outra.
— Você matou alguém?
Shannon riu, mas não havia nenhum traço de humor naquela risada. Ela soava triste, quase pesarosa.
— Não sou um assassino, Tove, pode ficar tranquila. Mas eu vi muita gente morrer naquela época, principalmente na cadeia. Perdi um bom amigo dentro daqueles muros.
Shannon remexeu um pouco o pescoço e os ombros, como se tentasse se livrar de algum peso invisível sobre suas costas e suspeitei que, talvez, houvesse mesmo um peso ali. Alguma culpa trazida de sua época nas ruas e com a qual ele ainda não conseguira lidar direito.
— A primeira vez que fui preso foi por furto. Tentei pegar a carteira de um cara numa praça, mas minhas mãos ainda não eram leves o bastante para esse tipo de coisa, então, ele percebeu na hora o que eu estava fazendo. Chamou a polícia e eu fui em cana, mas acho que o juiz teve pena de mim. – Ele riu. – Eu era uma coisa pequena e magra de treze anos de idade e não tinha usado nenhuma arma além das minhas próprias mãos, então, peguei apenas seis meses de detenção e passei outros seis meses em liberdade condicional, recebendo visitas frequentes de uma agente do reformatório. Nesse período, o meu pai tomou o cuidado de não me machucar em nenhum lugar onde ela pudesse ver.
Eu me encolhi diante daquilo. Meu avô jamais levantara a mão para mim e Josiah, apesar do assédio terrível aquele dia, na cozinha, também nunca havia me agredido. Ele me aterrorizava de outras formas, é claro, mas eu não podia imaginar o quanto Shannon devia ter sofrido nas mãos de um pai alcoólatra e agressivo.
— Quando minha condicional terminou, eu voltei para as ruas. – Shannon continuou. – Passava fome e frio, na maior parte do tempo, mas eu preferia isso a aturar as surras do meu pai. Então, um dia, eu conheci o Hunter. Ele era um cara legal que fazia uns serviços não tão legais para um traficante local chamado Svex e, não sei o que ele viu em mim, mas ele me acolheu em casa e, em troca, eu comecei a trabalhar com ele. Primeiro, ajudando a embalar e a entregar algumas mercadorias e, depois, quando fiquei mais velho e ganhei alguns músculos, passei a ajudá-lo a cobrar as dívidas de alguns clientes do Svex. – Ele sacudiu a cabeça. – Não tenho orgulho das coisas que fazíamos naquela época e acho que nem o Hunter tinha, pois ele estava sempre me dizendo que eu deveria buscar um futuro melhor para mim, que eu deveria ficar longe das ruas e do crime, sabe?
Eu assenti, levemente e Shannon suspirou, perdido em alguma lembrança dentro de seu passado.
— Mas eu tinha dezessete anos e havia largado a escola há muito tempo. Não era bom em mais nada além daquele trabalho e da música, mas eu não achava que poderia ter uma carreira de verdade, então, continuei como estava. Daí, o Hunter e eu fomos pegos pela polícia numa noite, enquanto entregávamos uma porção de cocaína para um dos clientes do Svex e o Hunter assumiu toda a culpa, tentando me livrar da cadeia, mas, mesmo assim, eu peguei dois anos de detenção, o que não era nada comparado com a pena que o Hunter recebeu, mas, pelo menos, nós fomos mandados para o mesmo presídio.
— E o que aconteceu com o Hunter? Ele ainda está preso?
— Não. Nós ficamos detidos no mesmo pavimento em que alguns dos integrantes do círculo de um traficante rival do Svex estavam e, como era de se esperar, naquele pavimento acontecia uma guerra por semana por causa disso e, às vezes, nem todos os envolvidos saíam delas com vida. – Shannon se virou um pouco para o lado e apontou, não apenas para uma, mas para três pequenas cicatrizes que despontavam sob as tatuagens desenhadas na lateral de seu torso. – Em uma dessas brigas, eu fui atacado com um canivete por um cara e estaria morto agora se o Hunter não tivesse corrido para me defender. Infelizmente, para nós dois, os guardas sempre faziam questão de chegarem muito atrasados naquelas situações e, no meio da confusão, o Hunter acabou levando boa parte dos golpes que era para mim. A última coisa que ele me disse antes de morrer é que queria que eu largasse aquela vida no crime e que começasse a ganhar dinheiro com a minha música, com aquilo em que eu realmente era bom e que amava. Então, quando sai da cadeia, alguns meses depois, comecei a tocar em bares e em outros lugares assim e foi aí que eu conheci a Lexy. – Shannon concluiu.
Eu me lembrava que Lexy dissera que o havia conhecido durante a despedida de solteira de sua irmã, em um bar de música ao vivo, mas não imaginava que Shannon possuía uma história de vida tão conturbada antes daquilo.
Senti minha garganta se fechar e olhei, mais uma vez, para o pequeno troféu em minhas mãos, que agora estavam frias e, talvez, um pouco trêmulas.
— Foi nesse tempo que você o ganhou? – Indiquei o troféu com um aceno de cabeça. – Nos meses em que permaneceu na prisão após a morte do seu amigo?
— Não. – Shannon tomou outro gole de sua cerveja e vi que seus olhos estavam longe, perdidos em algum lugar fora daquele quarto, fora daquele momento. – Eu o ganhei muito tempo depois disso. Pouco mais de um ano após terminar a minha primeira turnê mundial.
— Mas você disse que o ganhou na prisão. – Eu franzi a testa e Shannon se colocou de pé para se aproximar de mim e pegar uma fotografia que, eu não tinha reparado, estava caída logo atrás do troféu.
Ele deu uma breve olhada na imagem ali e, depois, a entregou para mim.
— Assim que terminei a turnê, usei parte do dinheiro que ganhei com os shows para criar uma fundação de apoio a crianças e adolescentes que vivem nas ruas ou que sofrem maus tratos em casa e que, também, atua dentro de alguns reformatórios do país, trabalhando com jovens que estão cumprindo pena. – Shannon explicou – Para esses jovens, a fundação oferece oficinas de música, teatro e alguns cursos técnicos e, assim, mostramos a eles que há outras coisas os esperando aqui fora, além de uma vida no crime. O índice de reincidência com esses garotos baixou bastante desde que começamos esse trabalho e foi com a primeira turma desse projeto que ganhei esse troféu. – Ele apontou para o objeto. – Foi a forma que eles encontraram de agradecer.
Eu não sabia o que falar. De fato, a fotografia em minhas mãos, mostrava Shannon segurando aquele mesmo troféu, cercado por garotos que aparentavam ter pouco mais de quinze ou quatorze anos e que pareciam radiantes ali, no meio de um pátio que só poderia pertencer a um reformatório por causa de seus muros altos e das cercas elétricas. O banner acima deles havia sido confeccionado em um azul cobalto e as palavras “Fundação Miles Hunter” estavam gravadas ali com letras brancas e fortes, logo abaixo da logo da fundação.
A Fundação Miles Hunter. Porque Shannon dera o nome do amigo que salvara sua vida nas ruas e na prisão àquele projeto.
Eu estava encantada. Mais que isso: estava emocionada por saber que Shannon não só tinha superado seu passado ruim, como tinha usado parte do dinheiro que ganhara em seu primeiro ano de carreira para ajudar outros jovens a fazerem o mesmo.
Minha garganta estava apertada com alguma emoção que passeava entre o pesar e orgulho por saber que ele havia enfrentado tudo aquilo e que vencera.
— Porque diabos as revistas nunca publicam isso? – Eu perguntei com pouco além de um fio de voz.
— Eu tento manter esse projeto em segredo. – Shannon deu de ombros. – Coloquei a fundação no nome da minha mãe e gerencio tudo dos bastidores. Não quero usá-la para promover a minha imagem e, de qualquer forma, acho que a mídia prefere as fotos em que estou vomitando depois de uma noite de bebedeira a fotos como essa aí. – Ele indicou a imagem que eu segurava. – Notícias ruins costumam vender mais que notícias boas.
Eu assenti, concordando, mas aquilo também me deixou enfurecida. Eu sabia que Shannon tinha razão, é claro, pois a mídia realmente ganhava mais publicando notícias polêmicas e tragédias que mostrando projetos de filantropia como aquele, mas eu não podia descrever a raiva que eu sentia ao pensar que, enquanto Shannon fazia todas aquelas coisas maravilhosas para aqueles garotos, a mídia só se preocupava em rotulá-lo com um viciado brigão e autodestrutivo.
Mais uma vez, não consegui me impedir de invadir seu espaço pessoal, quando passei os braços por seu pescoço e, simplesmente, o abracei. Acho que eu estava transformando aquelas demonstrações de afeto em um péssimo hábito.
— O seu trabalho com esses meninos é muito lindo, Shannon! Tenho certeza que o seu amigo, Hunter, deve estar muito orgulhoso de você. – Eu o parabenizei, apertando-o com força. – Queria que as pessoas pudessem conhecer um pouco mais desse seu lado, mais do Shannon Reed que a mídia não mostra.
— Eu não ligo que eles não o vejam. – O corpo de Shannon se retraiu como se eu tivesse acabado de espetá-lo com um alfinete e ele tentou se livrar de meu abraço de maneira sutil, mas eu percebi que ele queria se afastar, então, deixei que o fizesse. – Essa é a única parte da minha vida que ainda é minha, Tove. A única parte que ninguém, além de mim, pode controlar. É a única parte que ainda está inteira. – Shannon disse com uma nota de tristeza tão pungente que me fez engolir em seco.
Eu abri a boca para dizer alguma coisa a respeito daquilo, qualquer coisa que pudesse acabar com aquela expressão triste e sombria que havia tomado conta de seu rosto após o meu comentário, mas Shannon não me deu tempo para pensar em nada. Ele simplesmente pegou o troféu e a foto de minhas mãos e os recolocou em seu lugar na estante, antes de se encaminhar para a porta.
— Se quiser comprar algo para almoçar, tem algumas notas de vinte ali dentro. – Ele apontou para a primeira gaveta do armário. – Estarei na sala de música, tentando terminar uma composição que comecei há algum tempo. Não precisa comprar nada para mim. Eu me viro com o que tiver na geladeira.
Então, ele saiu do quarto e eu notei que ele passou na cozinha, para pegar mais uma cerveja, antes de se trancar na sala de música e começar a tocar.
Alguma coisa se partiu dentro de meu peito ao ouvir o início de uma melodia triste ecoar pelas paredes do apartamento e eu peguei os produtos de limpeza que havia usado e a pilha de roupas sujas que estavam sobre a cama e segui para a área de serviço, esperando o que barulho da máquina de lavar abafasse aquele som, porque me entristecia perceber o quanto Shannon estava ferido.
Havia algo dentro dele que sangrava e transbordava em cada uma de suas músicas e melodias e, cada nota que ele tocava, deixava meu coração tão apertado que era quase como se ele estivesse compartilhando aquela dor comigo, transferindo sua essência para mim através de músicas que se infiltravam por minha pele e se alojavam no recanto mais profundo de meu peito e aquilo me machucava de uma forma que eu não conseguia explicar. Meu avô sempre dissera que eu tinha uma alma sensível, que era capaz de absorver tudo que os outros transmitiam, fosse alegria ou tristeza e eu começava a concordar com ele, mas, no caso de Shannon, o que eu estava recebendo era um vazio tão grande, mas tão grande, que me sufocava.
Eu não sabia como Lexy conseguia deixá-lo sozinho naquele apartamento e confiar que ele estaria bem quando ela voltasse. Eu estava ali havia apenas dois dias e, o pouco que tinha visto de Shannon, me dava a impressão de que ele estava se partindo aos poucos, de que estava se agarrando ao que ainda tinha com nada mais que um frágil fio de esperança e eu não tinha certeza se o melhor lugar para ele era trancado naquele apartamento, entornando uma garrafa de cerveja atrás da outra até perder a consciência, pois eu sabia que era exatamente assim que ele passava as suas noites ali. Não era possível que Lexy não soubesse também, que não se importasse ou que achasse que estava tudo bem! Se aquele era o “melhor” que ela havia mencionado para mim quando me deixara na porta do prédio, após nossa tarde de compras, eu não sabia como Shannon devia estar antes daquilo. Destruído talvez. Pouco mais que uma sombra do músico talentoso que a mídia vendia para os fãs.
Mal notei que tinha começado a chorar, até que uma lágrima solitária escorreu por minha bochecha e molhou o tecido da camiseta que eu segurava, com força, entre os meus dedos.
Eu tinha certeza de que Shannon não queria companhia agora. Sabia que ele havia se fechado naquela sala em busca da paz que tinha perdido em algum momento de nossa conversa, mas eu começava a achar que o destino me queria ali, com ele, naquele apartamento por alguma razão.
Eu não era muito de acreditar nessas coisas, mas eu havia fugido de casa e entrado no primeiro ônibus que encontrei, justamente, para aquela parte de Seattle. Dentre todos os outros lugares para onde eu poderia ter ido, eu decidi ir para aquele, onde encontrei ninguém menos que Shannon Reed, um músico famoso que, contra todas as possibilidades, me ofereceu um lugar para ficar. Então, quais as chances disso acontecer com alguém? Quais as chances de alguém fugir de um padrasto como Josiah e ir parar sob o teto de alguém como Shannon? Eu não era muito boa com estatísticas, mas apostava que as chances eram de uma em um milhão – talvez um bilhão –, e eu nunca fui uma pessoa de muita sorte.
Portanto, só me restava acreditar em algum destino, acreditar que alguém lá em cima tinha mexido os pauzinhos para me guiar até ali e eu duvidava que havia sido apenas para que eu limpasse aquela zona que Shannon chamava de apartamento. Eu acreditava, fielmente, que cada pessoa que cruzava o nosso caminho tinha um propósito a cumprir e, se o propósito de Shannon tinha sido me tirar das ruas, o meu só podia ser ajudá-lo a lidar com seja lá o que ele estava passando que o obrigou a se afastar dos palcos. Shannon era talentoso demais para desperdiçar isso em dias de reclusão e noites de embriaguez. Hunter percebera isso, naquela época. Seu sacrifício dera uma direção a Shannon e, agora, eu me sentia no dever de colocá-lo de volta nessa direção, de fazê-lo reencontrar aquela parte de si que havia se perdido.
Larguei a camiseta de volta na pilha e segui para a sala de música, sem me preocupar em bater, quando abri as portas de madeira que havia ali e entrei. Shannon parou de tocar no mesmo instante. Seus olhos azuis-esverdeados se voltaram para mim, confusos, talvez porque os meus próprios olhos ainda estivessem um pouco avermelhados por causa do choro que eu não conseguira evitar na área de serviço, mas não lhe dei tempo para fazer qualquer comentário. Simplesmente peguei um banquinho alto de madeira que havia ali e o coloquei ao lado do dele, diante do piano.
— Cante para mim. – Pedi e Shannon continuou me encarando, como se não tivesse escutado direito ou como se achasse que eu era louca, por causa da forma como entrei ali. – Essa música que você estava tocando. – Especifiquei, pressionando uma tecla qualquer do piano cujo som ressoou pelo lugar. – Quero ouvir a letra também. Ou pelo menos a parte que você já escreveu.
— Porque?
— Sei lá. Talvez porque eu esteja começando a gostar das suas músicas e porque a sua voz é ótima, mas, principalmente, é porque eu acho muito injusto que você se tranque aqui dentro e que eu tenha que ficar ouvindo tudo isso por trás das portas fechadas, como uma maldita curiosa. – Peguei uma de suas mãos e a coloquei sobre as teclas marfim do piano. – Toque, Shannon.
E, para a minha surpresa, ele obedeceu.
A música que – segundo constava no alto da partitura que estava fixada no piano – chamava-se “Recuperação¹” tinha uma melodia um pouco mais alegre que a última que Shannon tocara para mim, mas, ainda assim, era uma melodia triste. Eu observei os dedos dele se moverem por um conjunto de teclas à esquerda do piano, passando das teclas brancas para as teclas pretas menores com uma habilidade que eu invejava e, dessa vez, quando ele começou a cantar, o tom forte, harmônico e um tanto rouco de sua voz, não me pegou de surpresa como na primeira vez, mas não me deixou menos encantada.
Eu não quero mais jogar esse jogo, eu não quero mais jogá-lo.
Eu não quero mais ficar por aqui, eu não quero ficar aqui.
Como a chuva em uma manhã de segunda...
Como a dor que apenas mantém seu curso...
Olhe para todo o ódio que eles continuam mostrando, eu não quero ver isso.
Olhe para todas as pedras que eles continuam jogando, eu não quero sentir isso.
Como o Sol que apenas continua queimando...
Eu costumava ser tão perspicaz...
E em minha recuperação, eu sou um soldado na guerra.
Eu derrubei muros, eu defini, eu projetei.
Em minha recuperação, no sal do mar, nos oceanos em mim.
Eu defini, eu projetei... minha recuperação.
Desviei meu olhar das mãos rítmicas de Shannon e me concentrei em seu rosto, nos olhos que ele mantinha fechados, perdido dentro de sua própria composição. Aquela letra era forte. Dava para sentir o que ele tentava transmitir em cada palavra. As feridas abertas pelas pessoas que se sentiam no direito de criticá-lo e odiá-lo apenas por ele ser quem era, a luta diária para se manter de pé e para recuperar aquela parte brilhante de si que os holofotes da mídia e da própria carreira haviam apagado. Eu conseguia compreender o quanto ele se sentia perdido dentro da própria vida.
Eu posso ouvir os corais que continuam cantando, me conte o que eles estão dizendo.
Eu posso ouvir o telefone que continua tocando, mas eu não quero atender.
Eu sei que eu costumava escutar...
E eu sei que eu me tornei arrogante.
E em minha recuperação, eu sou um soldado na guerra.
Eu derrubei muros, eu defini, eu projetei.
Em minha recuperação, no sal do mar, nos oceanos em mim.
Eu defini, eu projetei... minha recuperação.
Shannon repetiu o refrão uma última vez e fez alguns floreios na letra, que percebi se tratarem de um improviso, já que ela ainda não estava finalizada, então, ele tocou as últimas notas e, quando finalmente encerrou a música, permaneceu com os dedos apoiados debilmente sobre as teclas e não olhou para mim, apenas para a partitura fixada um pouco acima, como se tentasse ver, além dela, a parte que ainda faltava na melodia e na letra. Então, como se o espírito da inspiração tivesse, repentinamente, descido sobre ele, Shannon pegou o lápis e começou a rabiscar aqui e ali, acrescentando metade de palavras e notas musicais que eu não estava nem perto de compreender.
Sorri diante daquilo, da concentração que ele empregava enquanto compunha aquelas canções, maravilhada com a forma como ele parecia ouvir toda a música em sua cabeça antes de escrevê-la, como um pintor que visualizava todas as cores e contornos de sua obra, antes mesmo que o pincel tocasse a tela em branco. Eu jamais conseguiria fazer algo assim. Apanhava até mesmo para fazer um simples poema nas aulas de literatura do colégio, mas Shannon não.
Então, sem querer atrapalhar seu processo criativo, me coloquei de pé e arrastei meu banco de volta para seu lugar no canto da sala.
— Essa será uma ótima música para colocar no seu próximo álbum. – Falei já me encaminhando para a porta. – Talvez você possa até transformá-la em um single.
Shannon não assentiu, nem negou. Na verdade, eu suspeitava que, talvez, ele sequer tivesse me escutado, tamanha era a sua concentração com a música, mas, interiormente, eu disse a mim mesma que haveria, sim, um próximo álbum e que eu faria tudo que pudesse para ajudá-lo a alcançar isto, para levá-lo de volta para aquilo que ele amava, que era estar nos palcos, compartilhando suas músicas com o mundo.
E eu começaria por pedir comida para nós dois, afinal, Shannon também precisava comer.
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