Spooky Days

1 Capítulo 1 - Você Não Quer Brincar Comigo?


Notas iniciais
Então eu resolvi escrever uma shortfic de Halloween, não sei se ficou boa, é a primeira vez que tento escrever algo assim. E, como sempre, estou de volta ao meu casal favorito.

Serão dois capítulos.

Espero que gostem!

Jenny Shepard nunca foi uma pessoa que acreditasse em maldições, voodoos, fantasmas, espelhos quebrados, que passar debaixo da escada trazia má sorte e todas as outras superstições que a grande maioria acreditava. Para falar bem da verdade, ela já tinha visto de tudo, literalmente tudo, para saber que a verdadeira assombração do mundo era o próprio ser humano.

Ou assim ela pensava.

Como Diretora da CIA, Jenny não tinha uma rotina diária, toda a sua vida era condicionada ao que estava acontecendo no país e no mundo. Às vezes ela dava sorte e podia se levantar e se deitar junto com Gibbs, e ambos ficavam escutando a quietude da casa onde moravam. Outras, ela passava dias sem poder encostar sua cabeça em seu travesseiro favorito – seu marido -, ora porque ela nunca podia voltar para casa ou ora porque ele não podia voltar para casa.

Por falar em casa, estava difícil aturar aquele lugar... o silêncio, a quietude... tão diferente de dois meses atrás quando a filha ainda morava ali e virava e mexia estava ou ouvindo música em uma altura que fazia seus tímpanos estourarem e lhe causaria uma bela dor de cabeça, ou talvez estaria de ponta cabeça no sofá procurando algo para ver na TV, seja o que Elizabeth estivesse fazendo, sempre trazia uma sensação de que a casa era habitada, tinha vida nela.

Agora, todas as vezes que Jenny chegava em casa, tudo o que ela ouvia era silêncio. Não tinha música alta, não tinha TV ligada, não tinha a filha com a cara enfiada na geladeira ou nos armários da cozinha reclamando que estava com fome de algo que ela não sabia o que era.

E esse era um desses dias, talvez ainda mais difícil, afinal, era antevéspera do halloween e a essa altura, ela sabia, a filha já estaria desesperada por conta da fantasia e da festa que iria.

Jenny, assim que abriu a porta, tirou os amados saltos, dependurou o casaco, já que chovia cântaros, fez um carinho entre as orelhas de Ice que, por milagre, escutou-a chegar e chamou pelo único habitante daquela casa além dela.

— Jethro? Cheguei! – Ela não tinha certeza do motivo de fazer isso, mas ela fazia todos os dias, mesmo sabendo que ele já tinha escutado a porta sendo aberta e seus saltos ecoando no hall silencioso.

— No porão, Jen. – Veio a resposta.

— Já vou! – Ela respondeu e olhou para pasta que tinha em suas mãos. Ali tinha o trabalho que ela ainda tinha que fazer hoje. Decidiu que passar um tempo com o marido nos confins de seu porão não lhe faria mal, ela estava querendo companhia hoje e mesmo a presença silenciosa de Jethro lhe faria bem. Assim, pegou a pasta e o par de sapatos e rumou para o segundo andar, parando em seu escritório para deixar seus documentos e depois indo direto para o quarto, deixar os sapatos e colocar uma roupa mais confortável.

Jenny cantarolava uma canção qualquer enquanto procurava por uma calça e moletons específicos quando ouviu o seguinte som:

— Olá! – Uma voz de criança a chamou.

Na mesma hora ela levantou a cabeça e olhou ao redor, não viu nada.

— Lizzy? É você? – Perguntou mesmo sabendo que a filha só chegaria mais para o final de semana, afinal, ela tinha prometido que não se enfiaria em nenhuma festa de fraternidade na noite do halloween.

Não ouve resposta, pelo menos não com a voz da filha.

— Olá! – Veio novamente o chamado.

E Jenny, com muito cuidado, caminhou até o criado-mudo que ficava do lado da cama e pegou a arma reserva que Gibbs sempre deixava ali.

— Quem está aí? – Ela perguntou, segurando a arma com firmeza.

Não houve resposta alguma.

A ruiva, ainda desconfiada do que tinha ouvido, se é que tinha ouvido algo, acabou de trocar de roupa, colocando o moletom do marido, guardou a arma e desceu as escadas pensativa. Estava no meio de um degrau quando escutou novamente:

— Olá!

Algo dentro dela se alarmou. Ela tinha duas explicações possíveis para a tal voz. Ou ela tinha endoidado de vez ou alguém queria pregar uma peça nela.

— Jethro, isso não tem graça! – Ela disse alto e saiu a passos rápidos para o porão. No alto da escada, fuzilou o marido com o olhar e cruzando os braços disse: — Pode ir parando com isso!

Leroy Jethro Gibbs, o ex-Marine, o agente federal linha dura que estava para se aposentar, não entendeu nada do que a esposa estava dizendo. A única coisa que ele notou foi:

— Você está vestindo o meu moletom!

— Eu disse para parar! – Ela retrucou, ignorando o olhar que o marido lhe lançava, Jethro, por sua vez, apesar de não gostar de ver sua esposa – e filha diga-se de passagem – usando os seus moletons, teve que dar o braço a torcer e aceitar que o moletom vermelho combinava bem com a esposa e seu cabelo vermelho e seus olhos furiosos.

— O que eu fiz dessa vez? – Ele perguntou assim que Jenny parou bem na sua frente e o encarava como se fosse castrá-lo.

— Pare com essa brincadeira de ficar me chamando! – Ela disse entredentes.

— Eu não te chamei, Jen!

— Claro que chamou! E esses irritantes “olás” que eu estou ouvindo?

— Olás? – Perguntou o Marine sem entender nada.

— Não se faça de desentendido, Jethro! – Ela lançou as mãos para o alto. – Eu sei que foi você que armou tudo isso para me assustar!

Gibbs simplesmente encarou Jenny. Onde ela queria chegar com isso?

— Jen, eu não te chamei. Hora nenhuma. Ouvi você subir a escada e andar no nosso quarto, mas não te chamei.

— Porém algo disse olá! – Ela bateu o pé.

Gibbs encarou a ruiva na sua frente, e notou duas coisas: ela continuava nervosa com o que quer que tenha escutado, e estava começando a ficar com medo.

— O que você realmente escutou? – Ele quis saber.

Jenny, por sua vez, ficou receosa de dizer, e se ela estivesse ficando maluca? Ouvir vozes não é normal... Assim, ao invés de respondê-lo, apenas meneou a cabeça e disse:

— Não é nada, Jethro. – E focou no esqueleto do mais novo projeto de Gibbs. – O que é isso, agora?

— Jen... não troque de assunto! – Ele falou se virando para a ruiva que agora prestava atenção no posicionamento da madeira. – Diga, o que você ouviu?

— Alguém dizendo “Olá”. Três vezes.

— Onde?

— No nosso quarto, estava dentro do closet procurando por esse moletom quando ouvi a primeira vez.

— Pode ter sido lá fora, você sabe que o corredor lateral dá eco. – Ele confortou a esposa.

— Sim... tinha me esquecido disso. – Ela concordou. – Então... o que vai ser agora?

— Uma casa na árvore. – Ele cedeu ao pedido dela.

— Para quem?

— John.

— Ele não cansou de ficar preso dentro de um apartamento? – Jenny perguntou com um sorriso.

— Ao que parece ele quer ficar longe da irmã.

— Uma hora os dois não seriam tão inseparáveis assim... Então, como sua ajudante oficial está fora do jogo, precisa de uma mãozinha?

E Gibbs pegou as ferramentas que precisava e explicou para Jenny o que ela teria que fazer, com as mãos ocupadas e as mentes concentradas no trabalho, ambos esqueceram o que tinha acontecido e caíram em um silêncio confortável, só quebrado de quando em quando, por Jenny para ter certeza se ela estava fazendo tudo direito ou para fazer uma piada com a concentração total do marido, Gibbs, por sua vez, apenas encarava a esposa e voltava à sua tarefa.

Horas se passaram e os dois continuavam a trabalhar no pedido do pequeno John, até que Gibbs, sabendo que a esposa teria que estar cedo em Langley e ele próprio no Estaleiro a guiou escada acima. Sem nem saber o motivo, Jenny contraiu os músculos ao passar pelas três janelas da sala de TV.

— O que foi agora?

— Você por acaso não acha que estamos sendo observados? – Ela se virou para as ditas janelas e tentou vasculhar a escuridão. Não achou nada, mas a sensação de que alguém a estava vendo, não passou.

Jethro foi até o cofre e pegou a arma, colocando-a na cintura, abriu a porta, e pediu que Jenny ficasse onde estava.

— Nem por decreto do presidente! – Ela falou e pegou a própria arma, seguindo o marido.

Ambos vasculharam o redor da casa, os carros, até mesmo o outro lado da rua – que, coincidentemente ou não, era a casa de seu genro – não encontraram nada. Já de volta ao pórtico, Jethro encarou a esposa e disse:

— Acho que você anda trabalhando demais, Jen. Desde que Liz foi para a universidade, você tem trabalhado até altas horas.

— Não é isso Jethro... não estou assim tão cansada eu só....

— Olá! – A mesma voz de criança os interrompeu e, ao mesmo tempo, como se ativando uma memória antiga, os dois tiraram as armas da cintura e apontaram para a escuridão.

— Você ainda acha que eu estou trabalhando demais, Jethro? – Jenny perguntou sarcasticamente.

— Entre. – Foi o que ele disse.

Ao contrário de todos os dias, os dois não retornaram as armas para o cofre do primeiro andar, muito pelo contrário, verificaram as janelas e as portas e, juntos, subiram para o quarto, onde soltaram as armas, ele a colocou no criado-mudo, ela debaixo do travesseiro.

— Eu vou tomar um banho. – Jenny anunciou para nada, ou apenas para ter certeza de que Jethro não sairia dali. E, por todo o tempo ela tentou relaxar, sabia que não tinha enlouquecido, afinal Jethro também ouvira a voz, agora tinham que descobrir o que era aquilo. Será uma boneca quebrada? Uma criança... mas a essa hora? Não, não era uma criança... Mais provável que seja uma boneca! Tentou se convencer.

— Falando sozinha, Jen? – Gibbs estava parado na porta do banheiro, escutando as hipóteses que ela levantava.

— Procurando uma opinião profissional sobre um certo assunto. – Foi a tirada que ela encontrou para dar.

Gibbs só riu do humor ácido que ele já estava tão acostumado.

— Creio que possa ser uma boneca... hoje em dia esses brinquedos andam, falam, parecem pequenos robôs. Muito provavelmente algum cachorro pegou alguma e ao mordê-la, deve ter entrado em curto. – Jethro falou.

— É uma ótima hipótese. Amanhã veremos se não tem nada no lixo. – Jenny disse passando por Gibbs e começando a secar o cabelo, enquanto ele ia para o banho. – Só tem um porém, Jethro. Não tem criança na vizinhança.

Gibbs preferiu não pensar nisso. Apesar de saber ser verdade, a “criança” mais nova daquela rua era Elizabeth.

— Liz não tem nenhuma boneca guardada que possa estar entrando em curto? – Jenny seguiu a linha de raciocínio.

— Creio que ela doou todas as bonecas para um Lar de Menores quando fez quinze anos, Jen. Só restaram os bichinhos de pelúcia. – Gibbs que já tinha acabado o banho falou e os dois se encararam.

— Algum deles fala? – Perguntaram ao mesmo tempo e, quase imediatamente saíram trombando um no outro até o quarto da filha, assim que abriram a porta – essa passou a ficar fechada para que a saudade não fosse demais, e também para que Jenny não cismasse de dormir na cama de filha, achando que a garota ainda precisava dela para cair no sono – vasculharam todo o cômodo, das prateleiras às gavetas e o closet – que ficou com Jenny, já que Gibbs se recusava permanentemente a entrar ali! E não acharam nada, dos bichinhos de pelúcia, nenhum tinha uma bateria ou qualquer mecanismo que o fizesse falar. E olha que Gibbs desejou que um certo ursinho com um enorme coração tivesse isso, assim ele poderia ficar livre daquele imenso urso que Sean havia dado para a filha em um dia dos namorados.

— Nada. – Jenny exclamou. – Nenhum deles fala. E você, Jethro, por favor, nada de rasgar esse urso. Se ele aparecer com uma pelúcia a menos você sabe que Lizzy vai dar um chilique! – Avisou ao marido e tirou as mãos dele de cima do dito urso com um enorme coração escrito “I love you!”

— Vamos para a cama, Jen. Amanhã descobriremos o que é isso. – Jethro pegou a esposa pelo braço e a levou para o quarto, fechando a porta e se certificando de que a arma estivesse realmente carregada.

— Se isso for uma assombração, Jethro, uma bala não irá pará-la. – Jenny murmurou.

— Acredita em fantasmas agora, Jen?

— Conheço quem acredita.

— Ziver... mas o Mossad a treinou para isso.

— Que outra explicação você tem? – Jenny perguntou e o silêncio foi a sua resposta.

Gibbs apagou a luz e se deitou do lado da esposa, a trazendo de encontro ao seu peito. E foi os dois se ajeitarem na cama para ouvirem:

— Olá!

Jenny praticamente se encolheu ao ouvir a voz novamente e agarrou a camisa do marido com mais força, Gibbs permaneceu quieto, tentando descobrir de onde veio o som, não descobriu nada e mais uma vez ouviram:

— Olá! Não tem ninguém para brincar comigo?

Neste momento um raio cruzou os céus e a luz do poste em frente à casa se apagou.

— Onde você está indo? – Jenny perguntou desesperada para o marido quando ele fez menção de se levantar.

— Ver o que realmente está acontecendo!

— Mas não vai mesmo! Vai ficar aqui! A casa está fechada e eu não quero ficar sozinha neste quarto e muito menos sair daqui por enquanto. – Ela se encolheu do lado de Jethro, se agarrando na camisa dele, torcendo para que a noite acabasse rápido e quando ela acordasse, tudo isso não passasse de um pesadelo.

Acontece que querer não é poder, o dia raiou, mas os acontecimentos da noite anterior eram reais, bem reais, pois assim que o casal abriu os olhos e tentaram desvendar se tudo não tinha passada de um sonho, eis que:

— Olá!

Jethro não se aguentou e apesar dos protestos de Jenny para que ele não fosse atrás da tal “voz”, ele saiu do quarto e tentou descobrir de onde vinha o som.

À princípio ele achou que era do escritório da esposa, entrou no cômodo como se entrasse na casa de um suspeito, revirou todos os cantos, para desespero de Jenny, e nada encontrou, acontece que o som não parou e novamente eles ouviram:

— Não tem ninguém para brincar comigo?

— Acho que veio do quarto de Liz. – Jenny disse a meia voz e relutantemente seguiu Jethro.

A porta foi aberta e a luz da manhã clareava o quarto que pertencia à filha do casal, nada havia ali a não ser os poucos objetos que ela não tinha carregado consigo para a universidade.

— Não tem nada aqui, Jethro. Vamos nos arrumar e ir para o trabalho.

— Vá se arrumando, eu vou dar uma outra olhada. – Jethro respondeu e saiu olhando pela casa.

Quando Jenny desceu as escadas, sapatos em mãos, encontrou o café pronto e o marido pensativo, sentado à mesa da cozinha.

— Não achei nada.

— Vamos trocar de assunto, por favor. – Ela pediu com um murmúrio. – Nem consegui dormir e o meu dia já começa com uma enxaqueca daquelas.

Jethro concordou com a cabeça, e ele estava só esperando que a esposa fechasse a porta da casa para revirar aquele lugar de ponta cabeça.

E foi dito e feito, Jenny se despediu dele, pegou a chave do carro e suas coisas e foi trabalhar, tentando a todo custo se esquecer da noite de terror que tinha passado. Enquanto ela dirigia concentrada até Langley, Gibbs revistou toda a casa, fazendo questão de conferir cada bichinho de pelúcia da filha duas vezes. Não encontrou nada.

Ainda desconfiado, saiu para trabalhar e antes de fechar a porta, escutou:

— Você não quer brincar comigo?

Jethro bateu a porta da casa e foi para o seu carro, pensando se não seria melhor alugarem um quarto de hotel para passarem a próxima noite.

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O dia que tinha prometido ser bonito tinha se tornado um típico dia de outono, frio e escuro e para piorar, a previsão do tempo anunciava outra tempestade, um resquício de algum furacão categoria 4 que atingiria a cidade.

— Era só o que me faltava! – Pensou Jenny olhando pelas janelas e vendo as nuvens escuras se aproximando.

Se possível, fiquem em casa. A tempestade será forte e poderá causar quedas de árvore, falta de luz e congestionar o trânsito. E você, se tem a oportunidade, saia do trabalho mais cedo e vá para a casa, os próximos dois dias não serão nada fáceis...— Dizia a voz da meteorologista da ZNN.

— Cynthia? – Jenny chamou a fiel assistente.

— Sim, senhora?

— Vá para casa, tente chegar antes que aquilo caia. – Apontou para as nuvens roxas.

— Mas ainda tenho...

— Eu também, Cynthia, mas se não formos agora, talvez nem consigamos chegar. Trabalho tem todo dia e em diversas quantidades.

— Muito obrigada. – Agradeceu a moça indo para a sua sala.

Jenny se jogou na sua cadeira e ponderou o que iria fazer. Na verdade, ela estava tentando decidir se valia ou não a pena ir para casa. E, por mais que ela detestasse admitir, estava com medo de entrar dentro daquele lugar e ouvir a tão estranha voz.

— Será que aquele lugar é assombrado? – Se pegou pensando. – Mas por quem?

Jenny sabia que a única pessoa que poderia responder àquela questão era Jethro, porém, tinha um empecilho, assim que ela abrisse a boca e perguntasse sobre isso, ela já sabia onde os pensamentos dele iriam cair, e, de todas as hipóteses do mundo, a ruiva sabia que nenhuma das duas ex-ocupantes daquela casa seriam as responsáveis por assombrar o local.

A previsão para o início da chuva é de sessenta minutos. Ventos de até 80 km/h irão assolar Washington e toda a região. Se protejam.— Vinha o aviso da TV.

Jenny suspirou, não tinha como adiar mais, até porque, por medida de segurança, todo o prédio estava sendo esvaziado, assim, ela desligou os computadores de sua mesa, fechou sua pasta, pôs seu casaco e pegou a bolsa, se encaminhando sem muito ânimo para a garagem.

Depois de conferir se não havia nada de estranho perto ou dentro do carro, Jenny entrou e antes mesmo que pudesse virar a chave, seu telefone tocou. Na tela de bloqueio ela viu a foto:

Jethro.

— Sim, Jethro?

— Já está vindo para casa?

— Sim. Estou saindo do prédio. Você já está aí?

— Saindo do NCIS. E...

— Você procurou por toda a casa depois que saí, não procurou? – Ela sabia que o marido faria isso.

— Sim, não achei nada.

— Ainda estou na esperança de que seja alguma boneca no lixo. Te vejo em casa. – Terminou e encerrou a chamada, prestando atenção dobrada na estrada, já que o vento tinha aumentado de intensidade e jogava galhos de árvores pelo caminho.

— Por que não saí mais cedo?! – Jenny praguejou depois de ter que desviar em cima da hora de um galho e quase bater no carro que vinha na contramão.

Levou quase o dobro de tempo, mas ela chegou sã e salva em casa. Parou o carro na garagem — milagrosamente Jethro tinha deixado espaço para o carro dela, deixando a velha pick up no tempo – e fez hora para descer, tanta hora que Gibbs, acompanhando de Ice, veio saber o motivo da demora dela de entrar mesmo com o vento rugindo e uma chuva daquelas prestes a cair.

— Eu já ia entrar, só estava conferindo se trouxe tudo. – Foi a desculpa que ela deu.

Claro que Gibbs não acreditou e ela sabia disso, porém ele não disse nada, apenas a seguiu até a porta da cozinha e depois carregou as pastas que ela tinha nos braços para o segundo andar.

— Você ouviu alguma coisa? – Jenny perguntou incerta.

— Até agora nada.

— E de manhã?

Jethro demorou para responder.

— Quando?

— Um pouco antes de fechar a porta.

— O mesmo “olá”?

— Não.

Jenny se assustou.

— O que a coisa falou?

— “Você não quer brincar comigo?” – Ele disse.

Os pelos da nuca de Jenny se arrepiaram. E ela começava a considerar a hipótese de aquela ser uma casa mal-assombrada muito possível.

A chuva e o vendaval tão prometidos pelos meteorologistas chegaram um pouco antes das nove da noite. Gibbs estava em seu porão trabalhando na casa da árvore de John e Jenny, não querendo ficar sozinha, estava lá, trabalhando também, tinha jogado uma manta no chão e espalhado os arquivos que precisava ler. Ice, o velho husky siberiano da família, estava deitado ao seu lado e ela de vez em quando acariciava a cabeça do cachorro. Ambos estavam tão concentrados no que faziam que nem o uivar do vento que passava pelas frestas das janelas os incomodava.

O uivar do vento poderia não os incomodar, mas, uma voz de criança sim.

— Olá! Não tem ninguém para brincar comigo? – Veio o chamado do alto da escada.

No mesmo momento, Jenny se encolheu no canto e soltou o relatório e a caneta que tinha em mãos. Jethro parou de lixar a madeira e em um movimento reflexo, pegou a pistola que tinha deixado separada na gaveta de sua estação de trabalho. E até Ice começou a rosnar.

— Olá! – A voz ficou mais alta e Jenny deu um pulo de onde estava, indo parar ao lado do marido.

— Jethro, por favor... o que é isso?! – Ela suplicou.

— Você quer ficar aqui? – Ele olhou para a esposa e pela primeira vez a viu completamente apavorada.

— Nem pensar, se você ficar eu fico, se você subir eu subo com você! – Ela disse agarrando a manga do moletom dele.

Jethro pôs uma mão em cima da mão dela e os dois subiram a escada. Não era como se eles pudessem simplesmente atirar no que quer fosse, a essa altura os dois já tinham começado a acreditar no sobrenatural.

Passaram pela cozinha, pelas salas de visita e TV, no hall de entrada notaram que tinha algo estranho, era possível ver algumas gotas de água, porém ninguém tinha aberto aquela porta, ou os dois teriam escutado e Ice, mesmo quase surdo, teria dado o alarme.

— Eu só queria brincar com alguém... – A voz disse.

— Veio do segundo andar... – Jenny murmurou.

Os dois pararam ao pé da escada e tentaram decidir o que iriam fazer. Subiriam? Deixariam para lá?

— Olá!

Jenny se encolheu, praticamente se escondendo atrás do marido, tudo aquilo já estava acabando com a sua mente. Jethro, por sua vez, se decidiu e começou a subir as escadas, e a cada passo que dava, o som ecoava no andar de cima.

— Você vai brincar comigo agora? – Veio a pergunta.

E por mais que o Marine não quisesse admitir, ele teve que engolir em seco e subir os demais degraus, um tanto receoso, pois a coisa parecia que sabia que ele estava ali. E, assim que olhou de relance para baixo, viu que Jenny estava pálida, a ponto de desmaiar.

— Jen? – Perguntou preocupado.

— Eu acho melhor chamarmos um padre para exorcizar essa casa, Jethro. Tem uma menina querendo conversar com gente. – Ela sussurrou.

Um raio iluminou o corredor no exato instante em que os dois chegaram no segundo patamar.

— Vocês vão brincar comigo?

A vontade de Jenny era de sair correndo e se esconder dentro de uma igreja, Jethro se manteve firme, mas no fundo, bem no fundo, começou a pensar se alguém já tinha morrido dentro daquela casa.

— Olá! – Disse a voz.

— Está dentro do meu escritório. – Jenny gemeu e se encolheu atrás do marido, ela já nem ligava se aquela era uma atitude de criança.

Os dois caminharam devagar até o final do corredor e assim que pararam na porta notaram duas coisas: a primeira, a porta estava totalmente aberta e a cadeira de Jenny, que sempre ficava virada para a mesa, estava virada para a direção da janela.

— Você esteve aqui? – Gibbs perguntou.

— Não... deixei tudo meu lá embaixo, e quando eu desci, depois de trocar de roupa, a porta estava fechada, Jethro.

Gibbs deu um passo para poder acender a lâmpada e, assim que tentou acendê-la, notou que ali, dentro daquele cômodo, não tinha luz. Teimoso como é, tentou mais uma vez, ouviu-se o clique do apagador, mas nada da luz acender.

Jenny, por sua vez, estava mais apavorada do que nunca, e ainda praguejava por conta do mal tempo. Maldita véspera de Halloween, maldito furacão.

Gibbs tentou mais uma vez acender a luz, e quando o apagador fez o som de “clique”, um raio caiu bem próximo da casa, iluminando o cômodo e, no exato momento, a cadeira girou, revelando o que a ocupava.

— Olá. Vocês vieram brincar comigo? – Disse a menina loira de cabelos cacheados e enormes olhos castanhos.

Jenny deu um grito e saiu puxando Jethro pelo moletom, Gibbs tinha simplesmente congelado no lugar. Ele não reconhecia aquela menina de lugar nenhum.

Outro raio caiu, o cômodo foi iluminado mais uma vez e dessa vez, Jenny poderia jurar, a criança mexeu.

— Jethro, pelo amor de Deus, vamos sair dessa casa! – Ela disse, se encolhendo no abraço do marido e fechando os olhos, apavorada demais para sequer, se mexer.

Gibbs ainda encarava a menina desconhecida, tentando discernir o que realmente estava acontecendo, foi quando a luz do cômodo acendeu, sem que ele fizesse o movimento para tal e, como uma assombração, uma garota de cabelos ruivos e olhos verdes divertidos gritou:

— Gostosuras ou Travessuras!!! Feliz Halloween para vocês!!

— Você?! – Foi tudo o que Jenny pode dizer antes de desmaiar.

— Mãe!! Mamãe?!! Eita! Não era para isso ter acontecido!! – Lizzy se desesperou, ajudando o pai a levar a mãe para o quarto.

Gibbs apenas encarou a filha.

— Era para ter sido uma brincadeira, nunca achei que a poderosa Jennifer Shepard desmaiaria de medo!! Mamãe sempre foi forte! – Liz tentou se defender da encarada do pai.

Cinco minutos depois, Jenny começava a acordar, para o alívio da filha que estava completamente desorientada ajoelhada ao lado da cama, já que o pai não permitiu que ela subisse na cama, ainda verdadeiramente furioso com a filha por conta da pegadinha de halloween.

— Mamãe... – Liz chamou.

— Lizzy? Jethro? O que aconteceu?

Gibbs olhou para a filha e somente disse:

— Você explica, Elizabeth Shepard-Gibbs.

Jenny ainda sem entender o motivo do marido ter dito o nome completo da filha, encarou os dois.

— A voz... a boneca... era tudo uma pegadinha de halloween... – Ela disse sem graça.

Foi quando o temperamento nada dócil da Diretora da CIA explodiu.

— VOCÊ FEZ ISSO?? QUER NOS MATAR DO CORAÇÃO? ELIZABETH, DESDE QUANDO VOCÊ PLANEJA FICAR ÓRFÃ? ONDE JÁ SE VIU... – E aqui ela parou, encarou a filha, depois encarou o marido e tornou a encarar a filha. – Quando foi que você chegou na cidade?— O tom de voz baixo e perigoso.

E foi aqui que Lizzy soube que estava encrencada de vez.

— Ontem de tarde. As aulas foram suspensas por conta da ameaça do furacão... vim de trem, já que tinham fechado os aeroportos preventivamente. – Ela se explicou.

— E ajeitou essa brincadeira ontem?

— Na verdade, eu já vim com ela pronta de Harvard...

— Onde a mocinha ficou? — Jethro perguntou.

Liz engoliu em seco.

— Não me diga que você estava do outro lado da rua!! Você por acaso não dormiu na casa do Sean, não é mocinha?

— NÃO!! NÃO!! PAI!!! Eu não fiquei ali não... posso ter almoçado com a minha sogra e ele, mas não fiquei ali...

— E onde você ficou? – Jenny perguntou, agora completamente refeita do susto.

— Com a Abby, mas eu juro, ela não sabe de nada, não contei para ela porque ela não saberia esconder isso do senhor!

— E por que ela não me contou que você dormiu na casa dela?

— Porque eu disse para ela que o senhor sabia...

Jenny pegou um travesseiro e arremessou na filha.

— Ai! Doeu!

— Nunca mais brinque assim comigo! Eu já estou velha, Elizabeth!! Eu quase infartei parada na porta daquele escritório!

Liz tentou conter o sorriso, mas não conseguiu.

— A cara da senhora quando a boneca disse: “Olá, vocês vieram brincar comigo?” foi hilária, nunca achei que a senhora acreditasse em fantasmas...

Outro travesseiro foi jogado na ruiva #02, mas esse ela agarrou de primeira.

— Qual é... onde está o espírito do halloween de vocês?? Um dia, há muito tempo, vocês devem ter aprontado algo mais ou menos assim...

Jenny deu de ombros e olhou para a porta, Gibbs encarou a filha e deu um meio sorriso.

— Eu sabia!!! Eu sabia!! Vocês não eram esses santinhos que pintam!!!

Não eles não eram...

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Ficou bom? Ficou um lixo?? Podem dizer!

A história não termina aqui!

Até o próximo capítulo.