Spes - Resistência
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Essa fic, já aviso, não é tão fofa quanto a anterior.
Boa leitura.
Parte 1 – A Resistência
Avaliando os dois lados da rua, coberta do branco sujo da neve pisada, com olhos naturalmente apreensivos, e só depois de se certificar que estava realmente deserta e sem perigo iminente de que pudesse ser visto entrando num local que, oficialmente, não existia, foi que Nico empurrou a porta de madeira com a mão enluvada, sentindo aquele ar frio do sempre inverno contornar seu corpo, doendo até o osso como mandíbulas.
A ansiedade guiava seus passos escada a baixo, e o garoto percorria a descida com uma mão apoiada na parede ao lado, guiando-o naquele breu completo lance abaixo, íngreme e incomodamente silencioso.
Mais alguns passos cuidadosos e aquela clássica luz amarelada começava a se tornar aparente a seus olhos agora acostumados à completa escuridão – Will costumava dizer que, como Nico era um ser noturno, permanecer por muito tempo nas sombras não era um grande problema para ele; talvez por isso, em grande parte das vezes, ele era o escolhido pela grande maioria para fazer observações dos homens que guarneciam a muralha.
Agora, além da claridade tênue, sons também alcançavam Nico – como distantes burburinhos de vozes cochichadas sendo ouvidas por detrás de uma camada grossa de concreto -, e o garoto só acelerou o passo quando seus olhos se acostumaram com a claridade quase ofuscante agora.
- Você finalmente chegou, Nico! – Jason exclamou, aliviado e se aproximando do moreno que tinha neve acumulada em seus ombros. Havia, em seus olhos azuis como uma pedra preciosa, um brilho sincero de preocupação. – Eu pensei que... bem, você sabe o que eu pensei.
- Claro que sei – Nico concordou, tirando dos ombros o pesado casaco de couro negro e o pendurando num prego enferrujado na parede ao lado. – Mas não se esqueça que, aqui, ninguém liga pra mim – ele ergueu os olhos escuros para o loiro alto a sua frente, completando com um sorriso irônico em seus lábios pálidos e ressecados. – Eu sou invisível.
Jason sorriu para ele em retribuição, meio sem jeito, fazendo aquela pequena cicatriz no canto de seu lábio tremer. Logo após acenou uma despedida apressada para o garoto e se afastou na direção do balcão de madeira antiga.
Olhando então ao redor, Nico via-se rodeado de pessoas. Todas elas cobertas de panos escuros e pesados para afastar o frio que fustigava a todos lá em cima, na superfície silenciosa, murmurando uns com os outros sobre o plano de Will e Nico, que se aproximava cada vez mais do dia em que entraria em execução. Estava estampado em suas faces diversas o quão esperançosos estavam em relação ao grande objetivo que todos almejavam juntos, mesmo que um pouco de medo revirasse no fundo de seus olhos de diversas cores, como uma leve sombra.
Nico sentia essa sombra mais intensa dentro de si. Era como se uma forma humanóide envolta em densas sombras frias trespasse o seu peito, tendo seu coração rubro ao redor dos finos dedos negros – um frio de morte que o atormentava todas as noites.
Enquanto caminhava pela profusão de pessoas, retribuindo acenos sem ânimo, trocando alguns olhares ou palavras, Nico pensava com sua mente distante que ele não queria ser o culpado pela morte de todas as pessoas que se reuniam ali em busca da rala esperança que Will iluminou para todos eles com suas palavras encorajadoras. Não queria aquele peso em seus ombros.
Os Dominadores nunca foram pessoas piedosas, e algumas figuras encarquilhadas – aqueles idosos de peles enrugadas e ralos cabelos grisalhos que falam sussurrando sobre um passado verde – dizem que, em comparação com os primeiros anos do Domínio, eles estavam até que mais gentis e despreocupados. Nico achava meio difícil, tendo em conta que sua mãe havia morrido há alguns anos por excesso de trabalho e sua irmã cometera suicídio um pouco tempo depois. Gentil e Dominadores eram duas palavras que não deveriam ser pronunciadas juntas.
As mesas de madeira rudimentar e enegrecidas pelo tempo estavam lotadas de pessoas, que riam – ainda que de forma contida – e conversavam deliberadamente, com algum tipo de bebida quente em seus copos rústicos de ferro, que aqueciam seus olhos e corpos maltratados.
- Procurando alguém em particular, belezura? – uma voz familiar soou atrás de Nico, um sussurro próximo de seu ouvido e estranhamente rouco, como se forçado. Girando os calcanhares rapidamente, deu de cara com os olhos azuis como um céu perfeito e inexistente, e longos fios de cabelo dourados que brilhavam e reluziam como ouro, e um belo rosto de feições sutis e gentis pontilhado com sardas minúsculas. – Posso não ser ele, mas lhe garanto uma grande aventura.
Nico riu do garoto, e se inclinou para lhe plantar um beijo nos lábios, rápido e sutil, mas mesmo assim maravilhoso em todas as proporções.
- Já estamos numa grande aventura, Will – a voz do menor se tornou propositalmente séria, assim como seu olhar. – Grande e perigosa. Grandemente perigosa.
Will usou as mãos para tirar a neve que pontilhava o cabelo escuro de Nico, sem a permissão do menor, com um olhar firme e inabalável encarando o do moreno.
- Estamos todos cientes das consequências – ele afirmou, pousando as mãos quentes sobre os ombros de Nico. Aquele toque suave fazia Nico querer sentir Will por completo, não apenas os lábios. Forçou-se a afastar o pensamento impróprio para o momento de tensão que se aproximava. – E por isso estão tão focados e cheios de entusiasmo. – ele colou os lábios quentes contra a orelha de Nico e sussurrou, com aquela voz baixa e, ele sabia, provocante que fazia as pernas do menor tremerem. – Podemos dizer que eu estou mais excitado que qualquer um aqui com tudo isso.
Nico afastou-se um passo para trás ao sentir os dentes de Will morderem levemente a ponta de sua orelha, sentindo o peito, assim como o rosto pálido, serem invadidos por um calor intenso.
- Ótimo, agora pelo menos você está com uma cor mais viva no rosto – o loiro falou, sorrindo radiante e apertando o nariz do menor entre o polegar e o indicador. – Venha aqui – ele saiu andando, puxando o pulso do moreno atrás de si, magro e coberto por uma fina e pálida camada de pele.
Nico deixou-se ser puxado atrás de Will sem lutar. Gostava de vê-lo assim, de costas. Acrescentava mais imponência à sua postura, mesmo que ela fosse fraca e quase inexistente.
Will nunca fora uma pessoa da voz firme ou mãos de aço. Nico tinha total conhecimento disso, e não achava de forma alguma um ponto negativo. Enquanto ele era o indiferente e calado em quase tudo, Will era o mais falante e alegre, afetando a todos com suas palavras gentis e seu riso contagiante. Como um imenso e fulgente sol que ilumina um campo coberto de gelo com seus longos e calorosos feixes de luz veraneia.
Era por isso que Jason, o loiro alto e de feições duras, que era respeitado e também um pouco temido por todos ali, era o responsável em ser aquele que tinha o “pulso firme e palavras duras” naquela resistência. Não que ele fosse arrogante – ele nunca era -, apenas exigente quando tinha de ser.
E parecia estar totalmente apaixonado por Piper, a morena exuberante que atende os clientes naquele balcão alto de madeira. O loiro se derretia diante daqueles olhos castanhos. Era bom vê-lo assim. Amando. Sorridente. Se comparado à forma desolada em que ele havia chegado até eles, de forma indireta, era algo horrível de se recordar — ensanguentado após fugir de uma tortura, olhar desolado e medo cada vez que um rosto aparecia diante de si, ou uma palavra era proferida juntamente de seu nome. Agora ele era como o braço direito da Resistência.
Will o levou para uma mesa maior que as outras – eram, na verdade, quatro das grandes mesas de madeira juntadas uma na outra, formando uma imensa, onde um grande mapa estava estendido, e aquela loira de olhos prateados explicava, talvez pela quinta vez no mesmo dia, qual seria o plano para a missão daqui a dois dias.
Todos os nervos estavam à flor da pele. Todos os olhos forçavam a se concentrar naquilo que sabiam ser extremamente importante – ninguém queria ser pego, por mais que, lá no fundo, todos tinham o conhecimento pesado de que um grande número deles seriam pegos e mortos, ou coisa até pior do que isso.
Mas eles simplesmente abraçavam aquele ideal com tudo o que ainda tinham – tudo o que aquelas figuras não-presentes que possuem uma aura forte tomaram de cada um ali -, como se para cada um deles aqui representasse uma pessoa amada que há muito já partira. Era algo tocante pensar dessa forma. Porém ainda continuava sendo algo perigoso e estúpido.
Lá fora – do outro lado daquelas muralhas escuras e gigantescas -, o mundo era desconhecido e o destino era incerto. Pelo menos aqui dentro, por mais que as proibições fossem estritas e radicais e as punições severas, havia uma cama para se deitar, trabalho para adquirir alimento e rostos familiares a sua volta.
- Espero que você não esteja pensando sobre isso de novo, Nico – Will o repreendeu, tocando o ponto entre as sobrancelhas do menor, os paralelos de pele plissada, como sempre ficava quando ele começava a pensar muito. – Porque agora é hora de se preparar.
Nico engoliu em seco, sentindo subitamente um frio que revolvia no estômago como um verme congelado – ou uma colônia deles – ao ouvir isso, e logo em seguida uma animação estranha que lhe enchia de uma vontade gritante de rir rumo à liberdade. Ou à morte. Ou ambas as opções.
Aí percebeu, como um incômodo nos lábios, que sorria. Forçou-se a relaxar os músculos dos lábios e olhar para todos os rostos, desejando com todas as suas forças que ninguém o tivesse visto.
Mas que merda que deu em mim?, ele se perguntou, encostando-se na parede atrás de si, olhar erguido para Will a sua frente, que erguia a voz para todos os presentes – mas ele próprio tinha o pensamento turbulento. Sentia no âmago do seu ser que não deveriam tentar isso. Mas de nada adiantava tentar mudar o pensamento de Will a cerca disso. Eram namorados há quase um ano agora, mas havia limites que nem mesmo Nico ousava cruzar.
Will se calou, e ergueu o punho para o ar, na direção das lâmpadas que derramava sua luminosidade sobre todos os rostos ali. Punhos fechados e firmes, rostos duros e convictos.
Está prestes a começar, Nico percebeu, dando um passo para próximo de Will e tomando as mãos frias e trêmulas do garoto nas suas. Os olhos do loiro, profundamente azulados e cheios de medo, se cravaram nos olhos escuros de Nico. Seja um início ou um fim, estaremos juntos nisso.
Parte 2 – O Outro Lado
Todos os corpos vestidos em mantas quentes e grossas de frio se acumularam como animais para um abate no centro daquele amplo espaço vazio, que antes era conhecido por Empire State Building. As respirações subiam em névoas pálidas diante dos lábios quase sem cor das pessoas ali, e se erguiam acima de suas cabeças, formando uma espécie de amontoado disforme de nuvens acinzentadas que logo desvanecia, dando lugar a outra nova.
O sangue fluía com ferocidade pelo corpo de Nico, e mesmo ali — rodeado de corpos que mais pareciam blocos de gelo — um suor quente começava a se formar em pequenas gotículas em sua testa, empapando a ponta de seu cabelo negro e desgrenhado.
Will estava ao seu lado, com o olhar compenetrado no pequeno palanque de ferro em que uma enorme tela brilhante estava colocada – exibindo, por enquanto, apenas o símbolo da área em que viviam, num fundo vermelho-escuro.
Apenas com um vislumbre rápido de seus olhos escuros, Nico conseguia constatar o quão tenso o loiro estava. A rigidez intensa que tomava as feições usualmente delicadas e sorridentes do loiro deixa isso explícito e claro como cristal sobre um feixe intenso de luz.
Nico sabia que, em algum lugar atrás de si, no meio daquele amontoado de corpos que tremiam de frio dentro de suas grossas camadas de tecidos em fiapos, estava Jason. Apenas a lembrança da presença do loiro enchia Nico de um quente conforto, e uma estranha segurança. A missão de Jason ali não era menos importante. Seria responsabilidade dele, inicialmente, encorajar cada pessoa ali a erguer a voz e dar força ao discurso que seria daqui a alguns minutos – estes que ainda permaneciam congelados como a água de um pequeno lago — recitado por Will; logo em seguida ele iria guiar todos que conseguissem na direção da tão vislumbrada e esperada saída para um novo mundo.
Olhando para os olhos de Will — azuis como o mar do outro lado deveria ser com o brilho prateado da luz do sol cintilando em círculos sobre o mais puro azul -, Nico viu ali a determinação brilhando como uma chama. Só depois veio o sinal de cabeça que indicava que já era hora do movimento de ambos.
Nico se lançou para frente, serpenteando entre corpos que abriam caminho para si – pois já tinham o conhecimento do movimento que ele faria – e outros que teve que, com seus olhos ágeis, encontrar pontos vazios onde podia, com a velocidade de uma forma envolta em sombra, esgueirar seu corpo vazia rumo às escadas de metal até o palanque.
E lá chegando, já encontrou Will derrubando a consideravelmente grande tela brilhante que exibia o símbolo da área conquista nos primórdios da Era Cinza numa chuva de faíscas e o som ecoante de várias gargantas gelando em surpresa.
Só nesse simples ato de rebeldia, Will já quebrara mais de dez leis, sendo assim, poderia ganhar sobre si sete penas de morte das mais variadas e insensíveis formas.
- Se for pra morrer por algo assim, eu realmente não me importaria – Nico recordou a voz entrecortada e suave de Will dizer próximo ao seu ouvido há algumas semanas atrás. Pareciam meses, entretanto. Esse dia ainda estava gravado na mente de Nico como escrituras são gravadas à ferro quente sobre a pele machucada dos escravos que são enviados anualmente à morada dos Conquistadores. Ainda recordava do calor da pele nua de Will de encontro a sua; do sabor de seus doces lábios e da sensação que tivera quando conectaram seus corpos enfim. Era tudo doce e quente. E novo. Bom de uma forma inesquecível, embora um tanto quanto doloroso.
Nico se deteve numa ponta do palanque, enquanto Will estava no meio, com todos os olhares sobre si após arrancar a tela brilhante de seu pilar de fios e a jogar contra uma parede localizada atrás do palanque. O moreno, com seus olhos escuros nos rostos pasmos e alguns outros rígidos com a idéia do que viria a seguir, tentava conter o impulso de olhar na direção das muralhas e averiguar se os outros também conseguiam sucesso em suas respectivas missões.
Mas, se Nico e Will estavam vivos e inteiros até agora, sem sequer um projétil de bala em seus crânios ou em seus corações, isso significava então que eles estavam sim tendo sucesso.
Agora era a vez de Will erguer a bandeira de revolução com suas palavras inspiradoras. Nico realmente esperava que seus raios de esperança conseguissem irradiar sobre a mente de todos que se amontoavam ali como vermes, mas sabia que pensar dessa forma era ingênuo. Alguns eram covardes e não ousariam correr o mínimo de risco sequer – assim como Nico ainda era, de alguma forma. O garoto parecia não transparecer com sua postura um tanto quanto frágil, mas ousada, porém, em seu interior, tudo que ele queria era agarrar a mão de Will e voar para fora dali – mesmo que fosse algo absurdamente impossível.
Então a voz de Will rugiu para a multidão, que instantaneamente se calou, como se uma ordem tivesse sido gritada diretamente dos lábios rançosos de um ditador.
Enquanto o discurso fluía como as águas de uma cachoeira pelos lábios vermelhos de Will, Nico avaliava os rostos, demorando-se em cada expressão como se sua vida dependesse disso. No brilho dos olhos; no tremor de cada lábio frio; na forma como a língua passava ansiosamente pelos lábios de Jason; e no rosto de Annabeth, que tinha os olhos inquietos que sempre voltavam para os próprios pés, como se ela se culpasse por algo, e esse algo a envergonhasse grandemente.
Com um estalo no fundo da garganta, Nico viu que a garota loira de olhos acinzentados como uma tempestade não era a única que agia dessa estranha forma. Vários rostos conhecidos evitavam um olhar direto para Will, que andava sobre o palanque enquanto sentenciava seu discurso com entusiasmo e impactante emoção.
Mas Nico, novamente, sentia aquele medo se apoderar de si como uma fera selvagem rodeia um pequeno animal que está prestes a devorar. Lentamente, cada segundo uma tortura psicológica.
- Tem algo errado – Nico murmurou consigo mesmo, com os olhos varrendo todos os rostos abaixo enquanto erguia a cabeça para a muralha com aquele frio medo revolvendo dentro de si como uma serpente em solo enlameado. E lá viu os soldados. Parados. Imóveis como estátuas armadas e cobertas por estranhas armaduras. Mas lá. Olhando diretamente para Nico e Will sobre o palanque de ferro.
Como se eles fossem uma atração. Como se eles fossem os animais que estavam prestes a serem abatidos.
- Quem está do lado da Esperança? – Will ruge para a multidão, com suas palavras ecoando sobre o silêncio que cobre a todos ali como uma nuvem de fumaça branca e gélida de respiração. Ele ergue o punho acima da cabeça, diretamente na direção daquele céu cinza e sem vida. Era o apelo final que teria de convencer a multidão. Todas as palavras foram ditas, e só o gesto que representava toda uma resistência estava erguido como o símbolo de rebeldia que era.
Nico olhou desesperado para Jason, na vã esperança de vê-lo erguer o punho para o céu como o seu líder assim o fazia. Ele seria o estopim para a arma da Resistência. A última gota d’água que encheria o copo da esperança, transbordando-o rumo à liberdade.
Mas o que ele levantou, não foi um punho. Nem fora erguida na direção do céu. Jason apontava, com um estranho e cínico sorriso no rosto branco, uma espécie de arma diretamente na direção de Will – que ainda mantinha o punho erguido para o céu e os olhos esperançosos sobre os diversos rostos que o encaravam de volta, pasmos e partilhando muito pouco de suas esperançosas idéias.
Nico virou na direção de Will, já se jogando na direção do seu tão querido sol, temendo no âmago de seu ser que perdesse a luz que iluminara toda a sua vida. Você não pode morrer.
O estampido grave ecoou por todos os cantos daquele espaço rodeado de prédios colossais em vidro e concreto, ressoando nas paredes e atingindo como um sinal de perda nos ouvidos de Nico. E logo em seguida os murmúrios das pessoas pegas de surpresa pelo som de um tiro.
Nico pousou no chão com uma explosão de dor no ombro. Mas a ignorou por completo. Rastejou desesperadamente na direção de Will, sentindo a respiração mesclar-se com o choro na garganta. Sentindo e não sentindo os joelhos arrastarem sobre o ferro frio e coberto de neve na direção do garoto que derretera com suas palavras quentes e reconfortantes o gelo que envolvia como uma coroa o coração de Nico.
Apenas para o encontrar ajoelhado sobre o palanque, com a mão na garganta e os olhos vidrados em Nico enquanto o sangue que fluía em cascata de sua garganta empapava sua roupa. Gotas rubras e gordas manchavam o chão à sua frente.
A risada de Jason soava distante, parecendo aproximar-se aos poucos, enquanto dizia algo que Nico não se focava em ouvir. Focava-se apenas nos olhos azuis de Will, que tremeluziam com as palavras que não se formavam em sua garganta danificada.
- Isso, meus amigos, é o que acontece com pessoas com complexo de superioridade que precisam de atenção e da necessidade de salvar alguém, para aumentar os seus minúsculos egos... – Jason dizia, tão próximo agora.
Will pendeu para frente, com o sangue fluindo da garganta. Cada respiração era um espirro de sangue pelo buraco rubro em sua garganta. Nico tomou cuidadosamente a cabeça de Will, repousando-a em seu colo com mãos trêmulas.
- Will, n-não tente falar... Não... – Nico soluçava entre lágrimas, que pingavam dolorosamente de seus olhos sobre o rosto de Will, pontilhado com aquelas sardas cor de ferrugem que o garoto pálido tanto amava. Nico se sentia fraco e impotente enquanto seu coração se despedaçava com a visão de Will engasgando-se com o próprio sangue em seu colo. – Will... Meu... Will...
- Espero que, todos vocês, sinceramente, tenham aprendido a grande lição que foi aqui apresentada a vocês – Jason ecoou enquanto circundava Nico e um Will agonizante com passos demorados, analisando-os com aparente divertimento. – Não se enganem. Não sou tão misericordioso assim. Os poucos que me conhecem, o sabem, ao contrário, ainda teriam dedos nos pés para pensarem em sequer erguer as mãos em apoio a um ato tão libidinoso e fraco de rebelião.
Os olhos de Will começavam a se tornar leitosos, o brilho cintilante abandonando suas íris azuis como um sonho de futuro despedaçado. A cor de vida abandonava seu rosto conforme o sangue fluía numa cascata rubra sobre sua garganta, onde o projétil de chumbo trespassara-o. O aperto de seus dedos, que antes era firme e gentil em todos os momentos, se tornava débil e mole.
Ele se afastava, para longe do alcance dos lábios, do abraço e do toque de Nico.
- Devolva-o! Devolva-o para mim! – Nico começara a gritar, agarrando o tecido escuro e frio da roupa de Will com os dedos finos e a garra de um amante egoísta injustiçado pela morte. Podia ver a figura envolta em fiapos de tecidos negros e um rosto vazio como o nada, levando em seus braços sem forma o corpo imóvel de Will.
- Ele está louco – a voz de Jason divertiu-se ao notar isso, com um riso de deboche em seus lábios. – Vocês enxergam isso? O final da rebeldia é a loucura e a morte. Como filho de um Dominador, quero deixar claro que o próximo que sequer pensar numa rebelião, terá todos os familiares e amigos executados, bem aqui nesse palanque... sujo de sangue. – o riso de Jason explodiu novamente no silêncio sepulcral após acrescentar aquele mórbido detalhe.
Nico beijava os lábios frios e sem cor de Will, tentando com todas as forças que ainda se prendiam a ele como sujeira em tecido branco, fazer com que a manta de morte se afastasse dos brilhosos olhos azuis do loiro. O sangue metálico que sujava seus lábios – o sangue já frio de Will – a cada toque fazia Nico se distanciar dali, como que se mergulhando num mar frio e escuro que sugava sua vida.
Em dado momento braços fortes surgiram de algum lugar e agarram Nico, e antes que ele percebesse, estava sendo levado aos arrastões para algum lugar desconhecido.
Não que ele se importasse, afinal. Não parecia, em seu semblante manchado por lágrimas e sujo de sangue, que seus olhos negros como a noite que se conheceram naquele ambiente secreto e cheio de som, estavam tão sem vidas quanto o corpo de seu amante.
Nico não lutou um momento sequer. Nem quando foi jogado dentro de um cubículo escuro e úmido que tinha espaço suficiente para ele se deitar encolhido. O ar ali tinha cheiro de mofo e urina, e o solo era áspero ao toque.
Mas as paredes acinzentadas eram belas, pois o arrebataram para os doces momentos envoltos pelos braços de Will em locais cheios de luz e uma música ao fundo, tão suave e baixa quanto os rápidos batimentos cardíacos em seus peitos.
- Will, eu senti saudade desse lugar – Nico murmurou ao loiro a sua frente, que o encarava com olhos azuis e um imenso sorriso cheio de saudade quando as paredes que o cercavam caíram por terra e as sombras foram varridas pela luz ofuscante de seus cabelos dourados dançando frenéticos ao vento da primavera. O ar estava transbordante de doces odores, e o frescor era arrebatador. – Senti saudade de você mais que tudo.
Logo o moreno era arrebatado novamente para o passado num turbilhão colorido e tão suave quanto um supro de prazer, e se via coberto pelos braços de Will logo após a primeira transe prazerosa que tiveram juntos. Um lençol puído estava sobre os corpos quentes e suspirantes de ambos, que dormiam com os corpos colados e os corações batendo de forma rítmica, como em sintonia.
E o garoto envolto em trapos escuros e pesados acordara na cobertura de um prédio, com as estrelas a brilharem lá fora na noite majestosa, onde a luz magnífica brilhava sobre os prédios escuros como azeviche. Andando sem rumo naquela moradia mobilhada e desconhecida, examinando com olhos admirados cada singular peça ou moldura nas paredes, Nico encontrou o portador de seu carinho, afeto e amor na cozinha, preparando um algo que dali exalava um cheiro doce que fazia a barriga do moreno roncar. Quando o loiro se aproximou para beijar os lábios de Nico, um vento impiedosamente frio rasgou aquela realidade, e o garoto sentiu um sangue escuro empapando as pontas de seus dedos finos como galhos manchados com líquidos rubros.
Uma fina fresta se abriu, e naquela abertura, um rosto conhecido imergiu para a realidade que Nico se recusava a voltar. Jason estava ali na sua frente, emoldurado como uma figura de poder contra a luz que irradiava atrás de si. Sua sombra cobria o rosto de Nico como um fantasma que assombra uma moradia abandonada.
- Sentiu saudades? – ele perguntou de forma irônica, dirigindo-se à casca que era Nico. – Não precisa responder. Eu sei que sim.
Ele lançou algo aos pés de Nico, que retiniu contra o solo áspero com um som metálico. O garoto demorou alguns segundos para desgrudar os olhos escuros dos de Jason, cheios de uma estranha eletricidade doentia, e fitar a estranha peça que rolara até de frente a seus joelhos prostrados contra o solo frio e úmido daquela cela sem luz ou vida.
A arma que Jason usara para acertar Will no dia da rebelião.
Nico a tomou nas mãos, e ficou a fitá-la longamente, com as lembranças daquele dia e de momentos anteriores àquele a voarem em sua mente como pássaros para fora de uma gaiola.
- Você tem em suas mãos uma arma carregada – o loiro erguido a sua frente começou a enunciar, olhando para Nico sem nem sequer piscar seus olhos brilhantes. A cicatriz em seu lábio era escrota quando ele sorria daquela forma, por mais que a beleza nem agora o abandonasse. – A mesma arma que eu usei para matar o amor da sua vida. Você pode me matar com ela, sabe? E com isso você pode conseguir a sua liberdade.
Nico refletia com sua mente distante enquanto revirava lentamente a arma rústica em seus dedos. Era antiga, mas ainda bem eficaz, como ele vira por si mesmo algum tempo atrás. Quanto tempo, afinal? Nico não conseguia manter uma boa relação com o tempo desde que vira a luz abandonar os olhos de Will, assim como o calor em seus lábios adocicados. Sempre que Nico se pegava a pensar no tempo que estava ali, começava a distanciar sua mente para prováveis cenários que poderiam — ele e Will — ter vislumbrado se a missão tivesse tido sucesso e agora estivessem do outro lado da grande muralha de ferro escura, na verde liberdade. E isso doía mais do que quando um acesso de raiva se abatia sobre o garoto e seus punhos sedentos por esmagar o rosto leitoso de Jason sofriam contra a parede rígida e úmida que o rodeava. O tempo não importava, mas sim quando ele iria acabar.
- Termine isso, Nico. Termine logo. Eu estou bem aqui na sua frente, desarmado e de braços abertos. E você tem a arma. Você tem o dedo no gatilho e a bala no pente. Mire na minha cabeça, ou no pescoço, como eu fiz ao seu querido Will Solace, o iludido que sonhava com uma liberdade inalcançável – ou você pode me acertar bem aqui, no coração. Poético, não?
As palavras faziam as mãos de Nico tremer, e um aperto de raiva começava a tomar o coração do garoto. Segurou a arma, apontando-o para o chão, ainda tremendo. O metal era frio, mas a raiva era latente e quente. Engatilhou a arma e colocou o dedo fino e cheio de cortes no gatilho, sentindo as lágrimas de raiva borbulhar nos olhos.
- Isso é... – Nico balbuciava com seus lábios secos e cheios de feridas. A garganta doía, sedenta por água fresca. O garoto mirou o cano da arma e sentenciou a frase que tanto esperara por sentenciar: — Isso é pelo Will.
Nico colocou o cano da arma na própria boca, e antes de apertar o gatilho, viu, pelo sorriso que esticou os lábios de Jason, que dera a vitória por desistência aos Dominadores e seus poderes de sugar e destruir a felicidade de todos os vivos sobre seus domínios. Mas isso não fazia mais sentido. Continuar a lutar.
Muito menos viver.
A última lágrima desceu juntamente com um estranho sorriso quando Nico pensou estar prestes a se juntar ao seu amado do outro lado da muralha que separava os vivos dos mortos.
Apertou o gatilho, e a bala explodiu a parte de trás do crânio de Nico de Ângelo como se fosse um pedaço de madeira oca, espirrando sangue escuro e massa cinzenta sobre a parede num leque rubro e quente, pintando aquela superfície cinza com uma estampa de um vermelho natural e profundo como carmim. O corpo do garoto caiu para frente num baque surdo, o rosto chocando-se com força naquele solo áspero, convulsionando involuntariamente antes de finalmente se tornar tão imóvel quanto uma pedra envolta numa poça de sangue fétido.
Notas finais
Espero que tenham gostado, seriamente. Agradeceria imensamente se pudessem comentar, dizendo o que gostaram, o que não gostaram, e até mesmo para me xingarem se isso os fizerem se sentirem um pouco melhores u_u'
Até a próxima fanfic, pessoal o/
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