Spectrum

2 Capítulo 1 – Mudanças.


Notas iniciais
Origada pelos reviews, foram muito importantes pra mim!
Primeiro capítulo pra vocês ;)



Olhei meu próprio corpo. Minha pele meio cinza, os lábios arroxeados, algumas marcas nas bochechas. Os piercings haviam sido retirados das orelhas e eu já não estava com a roupa daquela noite, e sim com uma bata de um branco impecável. Se tivesse tido tempo de raciocinar, ainda poderia ter reclamado o quão horrível e de péssimo tecido ela era.



E a única coisa que eu pude pensar na hora foi:



“Fodeu, eu estou morto.”



~



Bom, a minha cara naquele momento provavelmente foi muito engraçada, eu chego até rir me lembrando. Mas a verdade é que no momento eu estou melancólico demais pra poder rir.



Naquele momento o desespero foi muito grande, eu saí da sala sem pensar direito, eu achava que meu coração estaria disparado, mas eu não sentia absolutamente nada, era apenas um vazio. Eu era apenas uma carcaça.



Eu tentava falar com as pessoas, mas elas simplesmente não me escutavam, e quanto mais ignorado, mais eu elevava minha voz. Pouco me importava se estava em um hospital ou não, eu só queria ser ouvido. Qualquer coisa que me acalmasse. Mas a situação só piorou quando eu cheguei a uma sala de espera quase vazia, com exceção de apenas uma pessoa, encolhida no canto, olhando pela janela com o rosto molhado em lágrimas.



Reita.



Eu gritei seu nome, corri para seus braços, mas eu simplesmente o atravessei, como se eu fosse um nada. Ou talvez realmente fosse um nada.



Até hoje me lembro do que ele disse naquele momento.



“- Por quê? Por que Ruki? Você não tinha o direito de ir embora, não tão cedo, não sem mim.”



Aquelas palavras me destruíram. Eu não sabia o porquê de ainda estar aqui, se era algum castigo divino por ter feito algo errado ou qualquer outra coisa. Qual o motivo que me mantinha nessa terra, só pra ver o rosto daquele que eu tanto amava contorcido em dor e em lágrimas. Eu devia ter sido uma pessoa muito ruim na vida passada, ou na minha vida, que já era passada a essa altura. Algo extremamente confuso que com o tempo eu simplesmente empurrei para o lado para que não ficasse com problemas mentais.



Um morto com problemas mentais, cômico. Talvez o baque na cabeça que me matou, talvez tenha causado algum tipo de retardamento pós-vida, se é que era possível.



Eu achei que o pior seria ver Reita naquela sala, naquele hospital, com a recém-notícia da minha morte. Ledo engano, o funeral foi ainda pior, porque além de ver Reita chorando ao pé da cova que continha um caixão onde meu corpo estava, meus pais também estavam lá, chorando por mim. Enquanto eu estava sentado na minha lápide, sem saber o que fazer, desejando que cada pedaço de terra que caía naquela cova me levasse pra qualquer outro lugar. Um lugar onde os espíritos fossem, que pudessem descansar. Seja o nirvana, o céu ou até o inferno. Qualquer coisa era melhor do que ver meus parentes, meus amigos, a pessoa que eu tanto amava, chorando por mim. Era uma sensação de impotência que me rasgava.



Depois do funeral, eu segui com Reita para nosso apartamento, o vi se debruçando sobre a cama, os lençóis ainda bagunçados, tudo ainda estava no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido. Ele chorou naquela noite inteira, chamando meu nome baixinho e soluçando fortemente. Colocando pra fora tudo aquilo que havia guardado apenas para o momento que estivesse só. Mas eu estava lá, ao seu lado, vendo cada lágrima escorrer sem poder tirar de seu rosto, ouvindo cada chamado, respondendo e não sendo ouvido. Aquilo foi o fundo. Ele sentia minha falta, e por mais que em outra situação eu gostasse disso, essa era uma falta que eu não podia suprir.



Aquilo deixava meu humor em uma situação crítica. Eu queria poder fazer um escândalo, mas nem mesmo podia ser ouvido. Era como estar mudo, e sem controle sobre meus membros.



Os dias passavam e eu andava atrás do meu namorado, ou ex-namorado, como uma sombra. Era como uma criança na primeira ida ao shopping com os pais que, assustado com tantas pessoas e tantas coisas, ficava grudado nas pernas da mãe. A única coisa em meio ao desconhecido na qual podia se agarrar com todas as forças, um mínimo de compreensão.



Era basicamente essa situação que eu me encontrava.



Akira tirou uns dois dias de recesso no trabalho. Creio que pra colocar os pensamentos em ordem, ou pelo menos tentar. Ele não fez quase nada durante esses dois dias, e isso me deixava desesperado. Ele não comia, não dormia direito, quando tomava banho, ficava horas debaixo da água quente, pensativo. Eu não podia simplesmente enfiar comidas na boca dele, já que era incapaz de tocar ou mover qualquer coisa. Não o podia abraçar, não podia reconfortá-lo. O que aumentava minha irritação.



Depois daquele estado de torpor, o recesso acabou e por consequência, Reita começou a se mover. Ia para a empresa onde trabalhava comigo em seu encalço, não suportava deixá-lo sozinho. O via tratar a todos com indiferença, e com certa brutalidade, tenho que acrescentar. Aquela pessoa gentil e carinhosa já não estava mais ali. Foi colocada atrás de uma máscara de tristeza e uma carcaça de indiferença.



E mais uma vez, eu estava ficando insano com aquilo tudo, cheguei ao ponto de gritar para qualquer lugar que talvez me ouvisse.



– POR QUE NÃO ME LEVAM DE UMA VEZ!? POR QUE EU TENHO QUE FICAR AQUI!?



É. Eu estava louco.



Com o tempo acabei me conformando com a situação. Não sabia o que fazer, então só “vivi” um dia de cada vez, esperando que em algum momento eu o deixasse. Mas ao mesmo tempo não queria. Complexo. Complexo demais.



Mas voltando para o presente. O meu presente.



No exato momento estou sentando na ponta da cama onde Reita dorme pesadamente. Faltavam apenas alguns segundos para que o despertador tocasse estridente, o tirando dos sonhos que talvez estivesse tendo. Eu tentava, como todas as vezes, acariciar sua perna que sempre ficava para fora do lençol. Falhava todas as tentativas. Frustrante.



Então ele tocou, como todas as outras vezes, fazendo com que o loiro que dormia soltasse um suspiro irritado e batendo a mão em cima da caixa preta, que ficava na cabeceira, mostrando as horas. Ele sentou na cama lentamente, piscando os olhos para se adaptar com a pouca claridade que adentrava pelas persianas. Olhou para o lado vazio da cama, o lugar que eu ocupava quando ainda estava vivo, suspirando pesadamente. Seus olhos então foram para o porta-retratos que havia colocado ali com uma foto de nós dois, juntos.



– Bom dia, Ruki. – E passou o dedo indicador, fazendo o contorno do meu rosto no papel.



– Bom dia, Rei. – Eu sempre respondia, mas ele infelizmente não poderia escutar. Não mais.



Ele se levantou, se direcionando ao banheiro pra fazer sua higiene matinal, e depois entrou no banho.



Olhar aquele corpo na sua frente e não poder fazer nada era torturante. A silhueta perfeita, os braços com os músculos definidos, o abdômen e suas curvas, os ombros largos... Era de fazer qualquer defunto ficar duro. Literalmente.



Ele saiu do banho enrolando uma toalha na cintura, escolhendo as roupas que usaria naquele dia de trabalho.



– Ah Rei... Mesmo tendo emagrecido durante esse tempo, você continua lindo. – Comentei.



Parecia uma garotinha no colegial, quem se importa? Era lindo mesmo.



Ele escolheu uma blusa social azul escura, e uma calça preta. Pegando o blazer igualmente preto, que sempre jogava por cima de qualquer roupa que usava. E de dentro da gaveta, puxou a faixa que sempre cobria seu nariz. Era seu charme, até a empresa já tinha se acostumado com isso.



– Um dia esse blazer ainda vai furar, ‘tá na hora de comprar um novo, não acha? – Comentei. – Mas não deixe de usar essa faixa.



Sempre falava como se ele pudesse me ouvir, na esperança de que um dia, ele realmente pudesse. Não seria uma má ideia se Reita virasse um médium que poderia conversar com o além. Nunca creditei nesse tipo de coisa, tampouco acreditei que um dia poderia virar um espírito. Vivendo e aprendendo. Ou melhor, morrendo e aprendendo. Piadas infames.



– Vai ser mais um longo dia, Koron. – Ele dizia para o chihuahua que havíamos comprado alguns meses antes de toda aquela reviravolta acontecer.



Koron, por sua vez, simplesmente virou a cabeça para o lado.



Se eu estava louco por falar sozinho, Reita estava louco por falar com um cachorro. Estávamos no mesmo barco.



Ele tomou o café da manhã, ou melhor, o engoliu. E depois saiu de casa apressado como sempre. Não gostava de ficar naquele apartamento que tinha várias memórias nossas, por sorte ele não havia se mudado, aquilo me quebraria. Era egoísta o suficiente pra pedir a todas as forças que o mantivessem ali. Amava aquele apartamento.



Eu corria pra tentar acompanhá-lo, minhas pernas mais curtas que as dele me deixavam em desvantagem. Pelo menos eu não perdia o fôlego. Entramos no carro, ele abrindo a porta e eu simplesmente a atravessando, era legal fazer aquilo, tinha que admitir.



Então ele partiu, correndo como sempre.



– Vai acabar matando alguém desse jeito. – E ri do meu próprio comentário.



Somente em nível de curiosidade, os que me mataram eram apenas adolescentes que estavam embriagados naquele momento e acabaram encobertos pelos pais. Ouvi isso vindo de uma conversa após o funeral. Reita ficou imensamente vingativo por isso, mas não podia fazer muita coisa. Pessoas com dinheiro sempre passariam por cima daquele tipo de situação.



Não demorou muito e já estávamos em nosso destino, ele estacionando na sua vaga reservada no subsolo do enorme edifício envidraçado da “Yamato & Co.”, a empresa de eletrônicos em que trabalhava. Estaria orgulhoso por aí dizendo que meu namorado era diretor do setor econômico, mas minha atual situação me impedia disso. Talvez compartilhasse com uma árvore qualquer. Estava ficando cada vez mais sem-noção.



Assim que saímos do veículo, Reita deu de cara com nosso amigo de longa data, Shiroyama Yuu, ou Aoi. Um moreno alto, que tinha um sotaque engraçado do interior. Sempre foi o piadista e a pessoa mais alegre do nosso grupo. Foi o ombro que Reita precisou para chorar, quando o meu havia se tornado simplesmente inútil.



– Bom dia, Reita. – Aoi sorriu o cumprimentando.



– Bom dia, Aoi. – Reita sorriu fracamente. Depois que eu me “fui”, ele nunca mais pode fazer esse ato de forma espontânea e aberta.



– Ah, vamos melhore essa cara! – O moreno tentou animá-lo. – Hoje nós teremos algo para nos animar um pouco, pelo o que estou sabendo.



– O que foi? – Reita perguntou sem muita vontade.



– Não ficou sabendo?! – Aoi sorriu ainda mais aberto. – Teremos um novo colega de setor! Ainda não descobri seu nome, mas logo saberemos.



– E daí?



– Daí que pelo o que fiquei sabendo, o homem foi esculpido pelos deuses. E você o vai ter todinho pra ensinar o que ele precisa. – Retrucou. – Quem sabe isso não vá agitar um pouco as coisas dentro da sua cabeça? – Completou sorrindo malicioso.



Aquilo não era bom, não era nada bom.



~

Notas finais
Bom, obrigada de novo pelos reviews. E graças a eles eu resolvi desenrolar mais essa história e no momento estou escrevendo o terceiro cap. o/
Bom, o capítulo foi cheio de altos e baixos e antes que pergunte ou comentem sobre isso: Sim, essa história é bem bipolar assim como sua escritora q
Esse cap, originalmente, não terminava por aí, mas resolvi deixar um gostinho pra que dê vontade de ler o próximo. Não deve ser mistério pra ninguém quem é esse novo empregado certo? ;)
Reviews, por favor? Beijos!