Sozinha na Água
1 Sozinha na Água
Notas iniciais
Eu sento e escuto as palavras. Estou entorpecida.
Inoperável. Profundo. Pressão intracraniana. Sinto muito. Opções. Arranjos.
Hadval está sentado ao meu lado, pernas cruzadas. Calmo. "Quanto tempo eu tenho?" É tudo o que ele pergunta.
O neurocirurgião é meu colega de classe da faculdade de medicina de Aefínea. É um bom médico. Ele está olhando para mim com simpatia, presumindo o que todos fazem. Eu não ligo.
“Um mês, com sorte.”
Eu tenho mais perguntas, mas Hadval já está de pé. “Obrigada Doutor. Venha, Lúthien. E ele já saiu da sala. Começo a segui-lo.
“Lúthien – Eu sinto muito”, diz meu colega. “Nós podemos deixá-lo confortável.”
Eu dou risada. Fico surpresa de escutar o som saindo pela minha boca. “Ele nunca ficou confortável em toda a sua vida. Não precisa começar agora.”
—*-
Hadval possui uma mente brilhante. O chefe de Polícia Ulian não gosta de admitir que precise da ajuda dele em certos casos que seriam completamente insolúveis não fosse a ajuda de Hadval.
Eu conheci Hadval há 3 anos. Havia acabado de voltar da guerra entre os Avianos e Gárgulas com uma perfuração no ombro, eu era médica de guerra. Quando voltei minha pensão patética não me pagava nem um apartamento e precisava dividir um apartamento com alguém. Mas quem iria dividir apartamento com uma Soldado com estresse pós-traumático, carregando uma arma e que acorda de noite aos gritos pelos pesadelos.
Então Edmont Hazel, médico e meu amigo de infância que cursou faculdade de medicina comigo, me apresentou Hadval, que disse que também precisava dividir um apartamento e não era a melhor das companhias.
Ele foi um completo lunático para mim no começo, ele sabia o que eu havia comido no café-da-manhã por causa da dobradura da manga da minha blusa. Ele parecia saber o que você pensa e o que vai pensar. Isso na maioria das vezes afastava as pessoas, elas ficavam incomodadas ou constrangidas. Mas eu... Eu fiquei fascinada e isso o assustou também, existir alguém que realmente aprecie suas habilidades e sua inabilidade de convivência, o que o fez relaxar e conseguir conviver comigo.
Desde então moramos na mesma casa, em quartos separados, e Hadval assim que me viu deduziu que eu era uma médica de guerra. Fiquei fascinada com suas habilidades e ele acha as minhas habilidades técnicas úteis, então o sigo para cima e para baixo resolvendo casos que trouxeram a adrenalina de volta para a minha vida.
Mas hoje... Hoje estamos no táxi voltado pra casa em completo silêncio. Estou encarando a janela. Olhe pra isso. Veja o mundo, continua girando. Eu me sinto cair. Os dedos de Hadval tamborilam pelo seu joelho. Ele já está fora do táxi quase antes mesmo que este pare e já entra no apartamento, correndo pelas escadas. Então ele já está afundado nos arquivos. Procurando, tossindo, empilhando. Eu não faço ideia do que ele está fazendo.
Eu apenas fico parada. “Hadval”. Ele não responde. “Hadval!”
“Eu não estou interessado em examinar meu estado emocional agora, Lúthien, o que claramente é seu objetivo.”
“Então que tal o seu estado físico?”
Ele bufa. “Dado o que me foi dito, o que importaria agora?”
“Nós precisamos conversar sobre.”
“Sobre o que?” Ele atira uma pasta para baixo e se vira para me encarar. “Que eu tenho apenas um mês de vida?”.
As palavras me atingem como o baque profundo do tiro de uma arma pesada bem na base da minha coluna. “Eu acho que é você quem precisa falar sobre isso.”
“Sim, tudo bem, eu preciso. Hadval...”
“A minha única preocupação é quanto tempo eu poderei continuar meu trabalho antes de ficar incapacitado.”
Eu estou incrédula. “Seu trabalho?”
Ele para, finalmente, e me olha. “Eu dependo de você de verdade, Lúthien. Então me dê a verdade agora.”
Eu respiro profundamente. Se solte. Flutue como um balão. Acorrente-o a você para poder resgatá-lo depois. “A sua dor de cabeça vai piorar. Você vai começar a ter afasia e dificuldade na fala. O seu equilíbrio será afetado, logo você não poderá andar ou ficar de pé. Seu processo cognitivo estará debilitado e sua visão começará a escurecer. Você terá náuseas, vertigens, dor e fraqueza muscular. Eventualmente perderá a consciência.”
Ele faz que sim com a cabeça. “Você já está ciente que os problemas de equilíbrio e afasia já começaram.” Eu também faço que sim com a cabeça. “Eu não tenho desejo algum de passar por tudo isso, Lúthien.” Nossos olhos se encontram. Ele parece calmo, mas eu o conheço mais que qualquer um, talvez mais do que qualquer um já tenha conhecido. E eu consigo ver agora mesmo que Hadval está assustado.
“E eu não conseguiria assistir você passar por tudo isso.” Pior que o pensamento de perdê-lo é a ideia de assistir sua mente se deteriorar, vagamente ciente de que um dia fora especial e incrível, mas sem poder se lembrar como e por que. Vendo sua energia ilimitada presa em um corpo que não irá mais obedecer aos seus comandos. Prostrado em miséria pelo crescente estrangeiro dentro do seu cérebro.
Eu sei o que ele quer. Jefhar me ajude, é um alívio. “Eu vou cuidar de você.”
Seu rosto se suaviza aos poucos. “Eu sei que irá.” Então sua compostura de granito volta. “Sem injeções.”
Eu estou momentaneamente confusa. “Seria o modo mais simples.”
“Eu não quero que nenhuma suspeita caia sobre você. Eles tem que acreditar que fiz isso sozinho. Há pílulas?”
“Sim, elas terão um efeito mais tardio. Meia hora. Mas será sem dor.”
“Ótimo. Consiga as pílulas e nós passaremos um dia de cada vez. Eu continuarei meu trabalho e você não contará a ninguém sobre a minha condição, entendido?”
Eu entendo. Entendo que não consigo obedecer ao seu pedido e ele sabe disso, mas todos irão preservar a ficção gentil de que ninguém sabe. “Tudo bem.”
“Nós decidiremos juntos a hora certa. Quem quiser me ver, suponho que deveria permitir, mas passarei o último dia sozinho.”
Minha garganta se aperta. “Sozinho?”
“Sim, então eu espero que você possa conseguir uma folga da clínica nesse dia. Será em curto prazo.”
O alívio me invade por completo. “Ah, certamente eles irão compreender.”
Ele escuta algo em minha voz e se aproxima. “Lúthien, quando eu disse ‘sozinho’ o que eu quis dizer foi...” Ele pigarreia. “Bem, espero que isso seja aceitável pra você.”
Aceitável. Meu melhor amigo acaba de me dizer que quer passar o seu último dia na terra sozinho comigo. Em parte alguma isso é aceitável.
Na minha mente ainda não caiu a ficha de que ele está partindo. Eu mal consigo lembrar de como era a minha vida antes dele. Ele maliciosamente se inseriu em todas as minha memórias, como se ele estivesse lá esse tempo todo. Ele está comigo na guerra entre os Gárgulas e os Avianos, sentado no berço ao lado, comentando sobre o outros homens, me incomodando enquanto estou costurando alguém. Ele está em Aefínea, interrompendo meus estudos para me arrastar até o necrotério, roubando meus textos e os marcando com caneta vermelha onde encontra erros. Ele está na universidade comigo, em minha casa, no parquinho que eu brincava quando elfinha.
Eu fico parada na nossa sala de estar enquanto ele vai freneticamente de um arquivo para o outro. Em algum ponto dos 3 anos que passamos, nós nos tornamos um híbrido. Hadval-e-Lúthien. O enxerto se tornou tão completo que até mesmo quando estamos separados, por dias ou semanas como geralmente ocorria, eu ainda sinto a linha invisível que me liga a ele. Por um momento, estou brava. Ele não vai ser o único que terá de cortar metade de si mesmo e voltar a ser uma entidade singular. Lúthie-e-[removido]. A costura irá permanecer, embora. Eu carregarei a cicatriz dentro de mim para me lembrar o que eu perdi.
Nós apresentamos um ao outro como colegas de apartamento. O que queremos dizer na verdade é que somos amigos. As pessoas muitas vezes assumem que somo um casal. Nenhuma dessas são descrições precisas. Eu não tenho certeza se no dicionário há uma palavras capaz de nos descrever. Timothy, meu pai, uma vez nos descreveu como “parceiros gays.” Hadval gostou disso, o fez rir. Eu também não sei se isso é adequado. Nós apenas somos – bem, nós apenas somos nós.
Tudo o que eu sei é que há um poço profundo em meu peito e ele está aumentando, a qualquer momento irá me engolir e eu não posso deixar Hadval ver isso. “ Eu preciso sair um pouco,” Digo. Minha culpa de deixá-lo sozinho é mitigada por saber que é melhor ele estar sozinho do que ter que lidar comigo expressando qualquer emoção.
Ele apenas aceita conciso. “Te vejo depois.”
Eu me viro e desço ruidosamente as escadas. Meu estômago dói. Eu tenho que me segurar na parede por um momento. Eu consigo sair e chamar um táxi.
Me seguro até chegar à casa de Lenyan. Outro relacionamento na minha vida que desafia a categorização. Namorado? Não. Amigo? Sim, mas algo mais. Amigos com benefícios? Ocasionalmente. Esses termos podem ser aplicados, exceto que ele está por mais dentro de tudo que eu passei e sinto por Hadval que qualquer um. Ele sabe sobre a linha. Isso impediu de eu e Lenyan ter o que pretendíamos nos tornar no começo, mas também impossível de voltar para a zona segura da amizade. Então nós pairamos na terra da indefinição. Ele sai com outras garotas. Eu só tenho Hadval.
Ele vê minha expressão e me puxa para dentro. “O que aconteceu?”
Estou tremendo. “Hadval.”
“O que ele fez dessa vez?”
“Ele se contraiu com a merda de um tumor no cérebro.”
—*-
Ele me abraça enquanto eu colapso em choro, um daqueles no qual eu provavelmente estaria constrangida, mas de alguma forma conviver com o destacamento perpétuo de Hadval me deixou notavelmente inconsciente de como me sinto. Eu me tornei um avatar da sua humanidade. Eu devo expressar cada emoção que ele reprime, então eu acabo o fazendo por nós dois.
Eu lhe conto sobre as pílulas que preciso, e sobre o plano de Hadval. Por um lado espero que ele se oponha, mas ele apenas aceita e oferece sua ajuda.
“Quanto tempo você acha que ele – vai aguentar?” Ele pergunta, introvertido.
Eu seguro uma toalhinha gelada sobre o meu rosto inchado. Eu não posso voltar pra casa assim. “Acho que um pouco mais que duas semanas. Vai ser ridiculamente rápido, Lenyan. Eu só percebi que ele estava tendo dores de cabeça apenas semana passada, pelo amor de Jefhar.” Eu escuto minha voz se quebrar.
Lenyan gentilmente retira a franja da minha testa. “Eu sinto tanto, Lúthien.”
“Não é justo. Por que ele?”
“Por que qualquer um?”
“Mas ele é... Nós precisamos dele. As pessoas não sabem o que ele faz, O quanto ele faz.” Eu esfrego o pedaço de pano do meu rosto e deixo minha cabeça cair no encosto do sofá. “Eu tenho que voltar. Eu preciso de um tempo fora do serviço.” Lenyan trabalha comigo na clínica, foi onde o conheci. “Ele não deve ficar sozinho. Ele pode precisar de ajuda médica a qualquer momento.”
Ele balança a cabeça. “Claro, mas isso não é o motivo.” Eu apenas olho pra ele. “Não tem problema admitir.”
“O que?”
“Que você quer passar o tempo que puder com ele antes do fim”
Meu lábio treme novamente. Do fim. Do fim dele. Ellen* isso não pode ser verdade. “Eu pensei que teria todo o tempo do mundo...”
Lenyan me abraça de novo e eu choro mais um pouco. Eu me sinto boba, mas esse é o melhor jeito de expelir isso agora. Eu não posso fazer isso na frente de Hadval.
E ele está certo. Tão logo que eu estiver de volta em casa, eu não vou mais sair do lado dele.
—*-
Ele trabalha. Eu não vou à clinica. Nós pegamos caso atrás de caso. Ele não dorme, nem eu. Eu tiro rápidos cochilos enquanto ele está tomando banho, ou quando ele está ocupado com algo no qual eu não consigo ajudar.
Eu puxo Ulian, delegado da Yscotland Yard, do lado e silenciosamente explico a situação. Ele parece ferido, mas retoma a compostura rapidamente. Eu prometo avisá-lo quando a decisão for tomada. Faço o mesmo com Lilian Azure, dona do restaurante do lado de casa e nossa amiga. Eu sei que ela vai espalhar a palavra.
Hadval é rígido quanto a não contar para Naved, nosso senhorio. Dessa vez eu concordo. Se contarmos nós nunca conseguíramos tirá-lo da nossa cola. Esperaremos até não podermos esconder mais.
Lenyan me trás as pílulas. Duas... Brancas e suaves. Eu as mantenho comigo a todo o momento. Ele não vai tomá-las sem minha ajuda, e é típico dele ficar frustrado, mandar tudo pro inferno, engoli-las no impulso, e o pensamento de voltar do mercado e encontrá-lo... Bem, eu mantenho as pílulas comigo.
Por alguns dias ele parece não piorar. Então, aquele aperto em seu rosto, o sinal de que a dor de cabeça resiste apesar dos analgésicos que lhe forneço. Ele tropeça de vez em quando. Eu fico sempre bem perto dele quando estamos nos locais dos crimes.
Uma semana depois do seu diagnóstico, eu o encontro vomitando no banheiro. Está pálido e suando frio. Eu lhe dou alguns Proclorperazina e parece ajudar.
Aquele dia ele teve o seu episódio mais significante de afasia. Ele está parado, pronto para demonstrar suas capacidades de observação e de repente as palavras não saem. Eu vejo sua mandíbula tremendo, seus olhos, sua mente pronta para esfregar na nossa cara como as pistas praticamente nos gritavam as respostas, e as palavras não surgem. Ele me olha com o pânico por trás de seus olhos, parcamente visível por trás do véu que sempre cobre o estado emocional de Hadval, o véu que normalmente apenas eu consigo olhar através e mesmo assim raramente. “Lúthien” ele gagueja.
“O que é aquilo?” Eu pergunto apontando para alguma coisa, qualquer coisa que não tem nada a ver com o que ele estava prestes a dizer.
Ele olha para onde estou apontando. “Uma carruagem movida a Deftérium desenvolvida pela Armstrong Disnaty e já entrando em desuso.” Então ele inspira profundamente, solta e está hábil para explicar sua dedução à nós. Violeta, subalterna de Ulian, franze o cenho. Ulian suspira e trocamos um olhar.
Está começando.
Estou voltando do mercado e vejo Devon descendo as escadas. Devon é irmão de Hadval, com um intelecto tão invejável quanto. Ele parece pálido e cansado. “Oh, Lúthien” ele diz suavemente. “Desculpe por vim justo quando você sai.”
“Então não deveria ter esperado eu sair para entrar.” Eu digo irritada. Se Devon acha que eu são tão estúpida, ele deveria ter prestado mais atenção.
“Hadval teve alguns assuntos a discutir comigo.”
Eu aceito. “Eu tenho que subir agora.” Não tenho tempo para ele.
Hadval está sentado na poltrona, suas pernas dobradas por baixo de si. Ele me aponta a outra poltrona de frente a ele. “Sente-se Lúthien. Temos negócios a discutir. Eu detesto perder tempo com certas coisas, mas é necessário.”
Eu me sento. “O que é?”
Ele segura alguns papéis. Eu reconheço. É algum tipo de acordo de poder feito com advogado. “Se os procedimentos do nosso plano der errado... Se eu tiver um colapso ou uma deterioração drástica, você terá o poder de tomar decisões médicas por mim.”
Eu achava que iria sentir alguma coisa sobre isso, mas não senti. É como ele disse, apenas negócios. O Negócio de morrer. Eu assino os papéis. “Pronto.”
Ele franze o cenho. “Eu não esperava você ser tão... Equitativa.”
“Nós não precisaremos disso. Faremos de acordo com os seus termos.”
“Eu espero que você esteja certa.” Ele pigarreia. “Eu atualizei meu testamento. Você herdará tudo, exceto alguns itens de valor sentimental para a minha família que irão para Devon. Sinta-se livre para distribuir qualquer coisa que for minha para os conhecidos que quiser.”
Eu suspiro. “Eu não quero suas coisas, Hadval”
“Então queime tudo.” Ele diz, sua voz se elevando um tom. “Que diferença faz? De qualquer forma tudo o que for meu agora é seu, nada disso importa, e eu não vou saber o que será feito com meus bens, então pegue o que quiser de mim e jogue o resto para o lixeiro.”
Eu apenas o encaro, ele encara de volta. Estou aturdida pelo barulho de tudo que não estamos dizendo.
—*-
Dois dias depois Hadval tropeça duas vezes e quase cai. A segunda vez eu o amparo e o guio até um banco onde nos sentamos. Ele estava muito quieto esse dia.
“Eu estou cego do meu olho direito, Lúthien,” Ele sussurra. Eu consigo escutar um tremor em sua voz. “A visão se foi a mais ou menos meia hora.”
Eu concordo. “Devemos ir pra casa.”
“Este caso está quase terminado. Vamos finalizá-lo.” Ele me olha suplicante.
“Eu queria poder fazer isso parar.” Sussurro.
Ele segura a minha mão e eu aperto firmemente. Eu sinceramente estou pouco me ferrando se alguém tiver a idéia errada.
Nós terminamos o caso. Hadval está debruçado sobre mim enquanto subimos as escadas apara o nosso apartamento. Seu equilíbrio piorou alarmantemente no último dia.
Eu o sento e tiro sua pressão. Está alta. Seu pulso está acelerado. Está com febre. A resposta de suas pupilas são desiguais. Ele consegue ler o resultado no meu rosto. Eu começo a levantar e ele me puxa de volta. “Lúthien,” Ele diz e eu já sei o que vai vim.
“Ainda não.” Murmuro.
“Está na hora.”
Eu encontro seus olhos. “Por favor, Hadval.”
“Hoje é quarta, certo?”
“Sim.”
Ele suspira. “Sexta à noite então.”
Esse é o plano. Apenas dois dias. O primeiro dia vai ser para as pessoas ‘ocasionalmente’ lhe perguntarem algo ou lhe dar alguma coisa. O segundo dia é nosso.
Eu sinto as pílulas pesar em meu bolso.
—*-
Na manhã seguinte. A dor de cabeça de Hadval está tão forte que ele mal consegue suportar a luz. Eu consigo alguns analgésicos fortes para ele e ajudam. Ele insiste em usar suas roupas normais. Ele vai fingir que não pretendia receber ninguém hoje, mas ele sabe o que está vindo.
Nossa primeira missão é a que adiamos o máximo possível. Está na hora de contar a Naved. Nós descemos ao seu apartamento e o sentamos.
Ele chora e se agarra a ele. Hadval o abraça e o assegura de que não está sentindo dor, que vai ser tudo muito pacífico. Ele me abraça também. Ele quer subir conosco e cuidar de Hadval, mas este é insistente. Nós prometemos chamá-lo de novo amanhã. Ele merece uma explicação para a estipulação de “sozinho” de Hadval.
Nalie é a nossa primeira visitante, ela é médica legista no necrotério onde Hadval regularmente pesquisava e estudava os cadáveres. Sempre teve uma queda por ele.
Ela está fazendo um esforço sobre-humano para parecer alegre e fingir que está totalmente ignorante quanto a tudo que ela não deveria saber. “Eu estive coletando mais algumas tatuagens para você,” ela diz lhe entregando uma pilha de fotografias.
“Obrigado,” Ele diz.
“Eu fiz anotações atrás com as informações que você sempre pega, assim você pode catalogá-las.”
“Quão prestativa. Tenho certeza que serão úteis.”
Nalie morde o lábio. “Então... Eu tenho um indigente. Se ele não for requisitado, você pode ir fazer alguns experimentos nas rótulas dele se quiser.”
“Ótimo. Quando poderei fazer isso?”
“Teremos que esperar uma semana.” Ela sabe o que está dizendo.
Hadval sorri. “Até lá então.”
Seu semblante desmorona por um momento, mas se recupera rápido. “Tenho que ir.” Diz se levantando praticamente num salto. Ela o olha por um momento, se curva e deposita um beijo em sua bochecha. “Adeus Hadval.”
Ele fica tocado. “Tude de melhor, Nalie.”
Ela se vira e sai quase sem olhar pra mim. Eu escuto ela começar a chorar assim que passa a porta. Hadval deixa escapar um suspiro profundo.
“Eu espero que os outros consigam fingir melhor.”
Infelizmente Violeta é nossa próxima visitante, e ela é uma péssima atriz. Ela está alegre demais e não consegue insultá-lo como fazia praticamente toda vez que o via. É enervante. Ela se vai após alguns minutos, parecendo aborrecida consigo mesma. Eu encurralo ela na porta. “Você poderia ter feito um esforço,” digo por baixo da minha respiração.
“Ele não merece isso.”
“Mais motivo ainda. Eu deixei bem específico que todos vocês deveriam tratá-lo normalmente. Aquilo não foi normal.”
“Como eu deveria chamá-lo de ‘aberração’ e insultá-lo quando eu sei que amanhã à noite...” Ela sai da linha. “Eu não sei como você está conseguindo fazer isso.”
“Eu farei o que tiver de fazer.”
Ela bufa. “Certas coisas não mudam. Adeus Lúthien.”
Leir, forense que trabalha com Violeta e também é subalterno de Ulian, assim como Vileta ele e Hadval nunca se deram bem, já que o trabalho de Leir é o trabalho que eu faço por Hadval, mas este sempre disse que Leir era incompetente demais para lhe servir de alguma coisa.
Ele aparece depois do almoço. “Aqui,” ele rosna, atirando uma mochila de papéis em Hadval. “Os exemplos de fibra que você queria. É melhor você trabalhar em algum milagre da dedução neles também, afinal é tudo que temos.”
Hadval dá um sorriso de lado. “Eu tenho certeza que será evidência mais que suficiente, até mesmo pra você, Leir.”
“É inconcebível que você está permitido a ter qualquer acesso à um inquérito oficial.”
“Você tirou as palavras da minha boca.”
“Eu não vou ficar aqui parado pra ser insultado por você!” Leir retruca.
“Então sente-se, você vai se sentir mais confortável.” Hadval retruca de volta parecendo quase contente.
“Eu não tenho tempo pra isso.” Ele praticamente perfura suas luvas ao calçá-las. “Você é um bastardo insuportável.”
“E você é a redefinição ambulante da ignorância.”
“Tenha uma boa vida.” Leir avança pra fora da sala. Eu o sigo até a porta.
“Obrigada.” Murmuro.
Ele me olha e posso jurar que ele quase parece arrependido. “Cuide dele.”
“Eu irei.”
Nós mal tivemos um momento de paz aquele dia. Hadval está feliz por isso, eu nem tanto. Estou com inveja do tempo que ele tem restando, cada precioso minuto que se vai é um minuto que não pude gastar com ele, não enquanto há pessoas aparecendo a cada momento, um após o outro. Alguma pessoas que ele ajudou apareceram, apenas para lhe trazer alguns doces de abóbora, “sem razão, apenas achei que você gostaria,” “ah, eu estava passando por uma floricultura e vi esse lindo buquê, achei que talvez alegrasse as coisas por aqui.” “Ah, esses chocolates bobos, eu estava levando eles para a minha irmã, por acaso eles não são seus chocolates favoritos, são?”
A noite cai. Hadval não saiu muito da poltrona hoje. Eu preciso verificar seu equilíbrio, então durante um intervalo eu o levanto e o assisto caminhar. Ele parece mais ou menos firme. Faço-lhe um chá.
Ulian aparece depois das oito. Com ele nós não podemos manter o fingimento, afinal há um certo nível de negócios oficiais a serem tratados.
“Eu vou fazer o que posso para não transformar isso num inquérito.”
“Eu vou tomar as pílulas eu mesmo, de vontade própria. Mas Lúthien ainda pode ser acusada por não me impedir. Ela é uma médica profissional, tem uma obrigação de prevenir que outros se auto flagelem.”
“Tudo o que ela tem de fazer é dizer que havia saído da sala por um momento e não sabia que você havia tomado algo até que fosse tarde demais.”
Hadval aceita. “Acho que isso vai dar.”
“Eu aceitarei o risco, Hadval.” Por Jefhar, eu me atiraria na frente de bombas, espadas, tiros, ataques mágicos e Leoninos furiosos por esse homem e agora ele está preocupado com o risco que eu corro?
“Não,” Ele diz cortante. “Eu não deixarei você correr risco nenhum.”
“Olhe...” Diz Ulian, “Eu tenho 98% de certeza que posso anular qualquer tipo de investigação. É ilegal? Sim, mas para caso como esses... Muitos de nós logo iremos apenas olhar para o outro lado, de qualquer forma.”
Hadval não parece satisfeito com isso. “Eu quero sua garantia que Lúthien não cairá sobre qualquer suspeita.”
Ulian aceita. “Você a tem, terá o melhor da minha habilidade.” Ele nos dá um sorriso de esguelha. “Se importa se eu repassar algumas coisas com você?”
Hadval permite. “O que quiser.”
Ulian passa a próxima meia hora delineando pistas, circunstâncias, situações e anotando as idéias de Hadval. Eu me sento no braço da poltrona de Hadval, opinando quando sou questionada, a maior parte do tempo apenas ouvindo o som da sua voz. Certo ponto eu olho pra baixo e vejo que Hadval está segurando na minha jaqueta, apenas um leve belisco na minha manga entre dois dedos da sua mão direita, como se ele estive se ressegurando de que eu estava ali... Ou talvez de que ele estava aqui.
Eu percebo pelas pistas contextuais de que muitos dos casos que Ulian está mencionando são casos bem antigos. De anos atrás, talves décadas. Eu percebo que essa é a sua última chance... Também é a ultima chance de Hadval. Eu me pergunto se é mais difícil pra ele abandonar a vida ou seu trabalho. Há alguma distinção dos dois em sua mente?
—*-
Estamos esperando Devon às dez. Lenyan aparece às nove e meia. Estou surpresa por vê-lo. “Você não sabia?” ele pergunta. “Ele me mandou uma mensagem. Pediu para eu vim.”
Estou confusa. A relação entre ele e Hadval não eram das mais amigáveis. Teve momentos em que senti que eu era a bandeira no meio de um cabo de guerra. Meus poucos conhecidos homens sempre eram um pouco rancorosos comigo porque Hadval ganhava inevitavelmente. Eles não entendiam. Hadval sempre ganhava. Ele é como um corpo celestial com seu próprio campo gravitacional, me prendendo em sua órbita.
Lenyan sobe as escadas comigo. Hadval se ilumina ao vê-lo e acena para que ele se sente junto dele. Ele me olha significantemente. “Lúthien, eu gostaria de ter um pouco de chá, por favor.”
Eu concordo. Ele quer conversar com Lenyan sozinho.
Eu me demoro na cozinha, tentando espreitá-los, suas cabeças estão perto, conversando atentamente. Eles não conversam por muito tempo, no entanto. Ele se levanta e os vejo apertarem as mãos. Eu entrego a Hadval seu chá e levo Lenyan até a porta.
Quando ele se vira há lágrimas em seus olhos. Ele me abraça apertado. “O que ele queria?” Pergunto.
“O que você acha?” Ele desfaz o abraço. “Ele quer que eu cuide de você. Ele disse ‘Será difícil pra Lúthien.´ Queria que eu verificasse se você vai comer e dormir. Logo depois, você sabe.”
“Hmm. Alguém certamente está seguro de sua importância.” Eu tento ser um tanto leviana, mas soa totalmente falso.
“Eu acho que é mais para alguém que não tem mais tempo para pretensões.” Ele diz. Nossos olhos se encontram. “Lúthien, você deve fazer o que acha que é certo. Eu não posso te dizer como se sentir. Eu não posso te dizer o que é verdade. Eu posso te dizer que ele está morrendo e a única coisa que ele pensa é em você.”
Estou sem palavras.
Lenyan se vai e por alguns minutos estamos a sós. “Está cansado?” Pergunto sentando a sua frente, nossos joelhos quase se tocando.
“Eu estou bem.”
Eu inspiro profundamente. “Hadval, eu tenho que perguntar mais uma vez. Tem certeza sobre sua mãe?”
Seus olhos me encontram. “Tenho certeza.”
Ele e Devon decidiram que não deveriam contar a ela até que estivesse acabado. Hadval acha que isso será menos cruel, menos doloroso para ela não saber nada até que estivesse feito. Pra mim é mais cruel negar a ela a chance de dizer adeus. Mas neste ponto eles concordam firmemente, o que é raro para eles. Eu faço um esforço de última hora. Eu gosto muito da mãe de Hadval e eu sinto que ela nunca vai me perdoar por isso. Não apenas por não contar, mas por ter um dia inteiro com ele enquanto ela não teve nada. “Ela deveria ter a chance que todas essas pessoas tiveram”.
“Mamãe detesta despedidas, é péssima nisso. Ela não saberia o que fazer. Não, é melhor assim. E isso não é apenas por ela...” Hadval finalmente diz. Sua cabeça está pesando um pouco. Analgésicos. Ele prende meu olhar. “Eu não posso, Lúthien. Eu não consigo fazer isso. Não consigo olhá-la nos olhos e fazer isso.”
Em um impulso alcanço a sua mão e a aperto. Seus dedos longos se enlaçam entre os meus se apertando, gratamente. “Eu entendo.” Entendo mesmo, de certa maneira. Hadval tem duas opções igualmente horríveis. Eu suponho que ele tem o direito de escolher o que lhe causar menos angústias em suas últimas horas.
Então Devon chega, eu me levanto para lhe ceder o espaço. Pelo olhar de Hadval percebo que ele está me pedindo para ficar, então eu volto para o meu “poleiro” no braço de sua poltrona.
Eu sinto aquele pequeno puxão na minha jaqueta de novo. Segurado pela ponta dos seus dedos.
—*-
Devon pareceu um tanto quebrado quando vai embora. Tenho certeza que Hadval percebeu. Na verdade ele até abraça seu irmão antes deste partir. Ele não é totalmente fóbico de contato assim. Ele abraça Naved o tempo todo, e me abraça até que regularmente. Mas ele e Devon não são assim.
Devon me puxa para o hall. “Eu espero que saiba o que estou confiando a você.”
Eu faço que sim com a cabeça. “Não precisa se preocupar.”
“Estranhamente, nunca precisei. Não que você tenha notado. Hmm. Interessante, até.
Quando eu volto a subir as escadas Hadval está de pé, ele aparenta relativa firmeza. “Acho que vou dormir.” Ele diz.
Eu dou um meio sorriso. “Isso é algo que eu nunca achei que você iria dizer.”
Ele dá um sorriso pequeno. “O que mais faz um homem quando o seu trabalho está acabado?”
Meu sorriso desaparece. Acabado.
Eu o ajudo a deitá-lo na cama depois de se trocar. “Lúthien, eu...” Ele para, sua boca abre, e então balança a cabeça negativamente.
“Não, o que é?”
Ele suspira. “Eu não quero ficar sozinho.”
Eu aceito. “Voltarei logo, ok?” Ele apenas me olha com os olhos bem abertos. Sua doença e suas medicações estão derrubando suas defesas. É impressionante o quanto ele reteu de si mesmo. Tudo o que ele tem passado, muitas pessoas são reduzidas a sombras balbuciantes do que eles realmente eram.
Eu coloco um pijama e volto para o seu quarto. Subo na cama com ele. Apesar de tudo não parece estranho. Ele se aconchega do meu lado para descansar sua cabeça em meu ombro. Nós ficamos deitados lá por um tempo, sem dormir. Eventualmente, Hadval cai no sono. Eu encaro seu rosto negligente. Não é como se eu conseguisse olhar para outra coisa. Eu não consigo para de pensar no fato de que em vinte e quatro horas eu nunca mais verei esse rosto de novo. São estranho ângulos, olheiras e palidez, acentuadas pela sua condição.
Eu não durmo, apenas o observo. Eu observo o descer e subir do seu peito e não consigo para de imaginar o momento que logo irei testemunhar, e sinto o mero lampejar da dor que estará me aguardando neste momento. Eu não posso me permitir sentir isso agora. Eu tenho que ficar firme por ele, por essas últimas horas, eu tenho que empurrar pra longe de mim até que esteja acabado, mas eu sei. Eu sei o que estará me esperando.
Eu odeio o universo. Eu odeio a força que o governa, seja quem for, divindades ou destinos ou os laços da casualidade. Quem ou o que quer que sejam, eu as odeio por me trazerem para a orbita dele. Eu odeio Edmont Hazel por ter nos apresentado. Eu odeio quem quer que tenha me perfurado me fazendo ir embora da Guerra entre Gárgulas e Avianos. Eu odeio Aefínia pela pobre pensão que me fez precisar ir atrás de um colega de apartamento. Eu odeio este apartamento por ser charmoso o suficiente pra me impedir de me virar e ir embora na primeira vez que o vi. Eu odeio ele por ser tão interessante e me afetar tão profundamente que eu não o mandei para o inferno e procurei um colega de apartamento chato.
Um colega de apartamento chato. Isso existe? Eu conseguiria ter um? Como teria sido minha vida durante esses três anos se fosse assim? Eu não sei se conseguiria trocar a vida que tive com Hadval por qualquer outra coisa.
Mesmo que isso significasse que meu coração não estaria se quebrando agora.
—*-
Ele parece melhor de manhã. Uma melhora temporária, mas em boa hora. Nós não nos apressamos. Hoje é o dia. O último dia.
“O que você quer fazer?” Eu pergunto. A idéia de escolher como gastar um último dia na terra é tão horrivelmente complexa que certamente me paralisaria, mas igualmente estou certa de que ele tem um plano.
Ele está olhando pela janela, totalmente vestido, e por um momento, é como se nada estivesse acontecendo. Tudo está bem.
Eu odeio tudo.
“Eu gostaria de sair.” Ele diz.
“Sair? Onde?” Eu sinto o ciúme me cutucar de novo. Eu preciso desse tempo, dane-se tudo. Onde ele quer ir?
“Fora, pela cidade”
Oh, acho que isso tudo bem. “Fazer um passeio? Os lugares favoritos?”
“Isso.” Ele sai da janela. “Tem três coisas no mundo que eu realmente me importo, então eu gostaria de usar esse tempo pra dizer adeus para cada uma delas. A primeira o meu trabalho. Tomei conta disso noite passada. A segunda essa cidade. Então vamos fazer isso agora.”
Eu sei a resposta, mas eu tenho que perguntar. Maldita insegurança. “O que é a terceira?”
Ele me olha com uma vaga repreensão. “Lúthien. Certamente você não precisa de mim para te dizer isso.”
Nós saímos. Pegamos táxis para que ele não fique cansado. Nós passamos pela universidade, os parques, as escassas tabernas. Caminhamos em silêncio. O equilíbrio de Hadval está tolerável, mas ele se apóia em meu braço. Ele olha em volta absorvendo tudo.
Nós paramos para descansar em um banco aos pés do mar, vou até a grade e observo a movimentação da água. “Nós vamos conversar sobre isso?” Eu digo finamente.
“Sobre o que?”
Dou uma risada, irrisória. Como se tivesse outro tópico a ser discutido. “Sobre o fato de você morrer esta noite.”
“O que dizer?”
“Muita coisa! Hadval... Eu... Eu não...”
Ele segura a minha manga e me puxa de volta para o banco. “Eu fiz minha paz sobre isso.” Seus olhos me encontram. “Eu nunca experei viver por muito tempo, Lúthien. Sempre imaginei que encontraria meu fim cedo. Apesar de nunca imaginar que seria assim. Achava que eu levaria um tiro ou seria explodido. Ainda achava que pelo menos levaria alguém comigo, alguém que o mundo precisaria morto. A idéia nunca me incomodou. Foi apenas recentemente que a idéia de deixar essa vida começou a ser... aflitiva.”
“Por que?”
“Eu nunca tive alguém que eu deixaria para trás. Alguém que iria sentir a minha falta.” Ele me olha de novo e há alguma coisa crua por detrás de seu olhar. “Você irá sentir minha falta, Lúthien?”
Minha garganta parece cheia de cacos de vidro. Eu engulo com dificuldade. “Até o final dos meus dias, Hadval.”
—*-
O apartamento está quieto. Nós paramos para ver Naved. Ele está mantendo a compostura. Ele abraça Hadval novamente e depois me abraça.
Nós subimos as escadas. Fecho a porta atrás de nós. A noite caiu e eu estou à deriva. Não sei o que fazer, ou se há algum plano. Ele se senta em sua poltrona. Eu perambulo pela sala. Ele ergue o rosto pra mim. “Você pegará as pílulas, Lúthien?”
Meu cérebro se congela e meu estômago despenca. “Agora? Por que?”
A sua voz é gentil. “Qual o ponto em enrolar?”
“O ponto? Eu não sei, eu só... Tem mesmo que ser agora?”
“Apenas pegue as pílulas. Então estaremos prontos.”
Eu vou até a cozinha atordoada e pego um copo de água. As pílulas estão em meu bolso. Eu as coloco em um pires e volto para a sala de estar. Ele está me observando. Eu me abaixo na frente de sua poltrona, me ajoelhando entre os seus pés. Estou segurando o copo e o pires, mas não faço movimento algum para entregá-los a ele.
Ele me alcança e pega as louças de mim, mas as coloca na mesinha ao lado. Ele se inclina para frente, as mãos dobradas a sua frente. “Não, eu não deveria me importar de morrer, Lúthien. É o que todos nós merecemos. E estou feliz por poder escolher como.” Ele pausa e espera até eu levantar meu olhar pra ele. “Eu não me importo, exceto...” Ele engole com dificuldade. “Exceto por você. Eu lamento por toda a dor que isso irá lhe causar. Eu não tenho a pretensão de saber a natureza disso. Eu só sei que passei algum tempo imaginando como eu me sentiria se os nossos lugares estivessem trocados.”
Eu estou tentando memorizar o seu rosto. Eu não sei o que vou dizer até que eu escuto emergir. “Eu realmente achei que passaria o resto da minha vida com você.” Eu disse...
Ele sorri um pouquinho. “Isso é tudo o que planejou? Um tanto limitado, não?”
“Não, quero dizer... não importa o que acontecesse, quem eu conhecesse, ou o que quer eu fosse, antes de qualquer coisa eu seria... Isso.” Eu digo, fazendo um movimento vago no ar entre nós.
Ele aceita. “Eu suponho que de alguma forma, eu sou afortunado.”
“Afortunado? Como?”
“Eu irei passar o resto da minha vida com você.”
Eu estou destruída.
Eu sinto a sua mão acariciar meu cabelo enquanto eu choro, minha testa apoiada em seus joelhos. Eu estou desamparada. Falhei. “Eu deveria te proteger.” Digo entre lágrimas. “Eu não consigo impedir isso. Eu sinto tanto não poder consertar isso.”
“Você consertou, Lúthien. É por sua causa que eu posso ir assim, do jeito que eu quero.” Ele desliza sua mão para o meu queixo e levanta meu rosto. Segura meu rosto entre suas mãos e toca sua testa na minha. Eu seguro seus pulsos porque preciso me segurar em algo. “Eu não sou o tipo de homem de fazer pronunciamentos ou confissões,” ele diz baixinho.
“Não preciso de nada disso.”
“Ótimo. Espero que minhas ações falem por mim.”
Eu aceito. Ele me solta e se encosta na poltrona. Pega o pires e o copo. Eu pego meu celular e envio duas mensagens. Um para Ulian e outro para Lenyan. Esse é o combinado. Eu mando as mensagens e ele toma as pílulas. Cada um deles virá ao apartamento dentro de uma hora. Ulian virá por Hadval. Lenyan virá por mim.
Hadval encontra meus olhos mais uma vez, então ele engole a pílula com um gole de água. Ele pousa as louças ao lado com um ar de finalidade.
Está feito. Pelos próximos trinta minutos ele irá perder a consciência.
Eu me levanto e seus olhos me seguem. Seguro a sua mão e o faço se levantar. Ele me olha confuso. Eu o guio para o sofá me sentando no canto. Ele entende e se senta ao meu lado. Continuo segurando a sua mão.
Ele está respirando devagar, deliberadamente. Quero conversar, mas não sei o que dizer, ou se irá ajudar algum de nós. Ele me olha. “Lúthien...” Ele começa e eu vejo o medo em seus olhos. “Eu achei que estava pronto pra isso.” Sua voz treme.
“Estou aqui, Hadval.”
“Estou com medo, Lúthien.” Eu nunca escutei sua voz tão frágil.
Nada que eu fizer terá essa importância novamente.
Eu o puxo para os meus braços e aconchego sua cabeça em meu ombro. Ele é tão magro. Ele ocupa incrivelmente pouco espaço, encaixado em meu colo. Meus braços o circulam por completo. Ele agarra minha jaqueta com força e solta o ar tremendo. “Apenas relaxe.” Sussurro.
“Eu não quero te deixar.”
“Eu não quero que vá”
Nós estamos no limite. O horror maçante me preenche. Eu desesperadamente não quero escutar. Tão desesperadamente, eu não quero dizer. Exatamente agora, eu estou perdendo meu melhor amigo e isso é ruim o suficiente. Eu não sei se consigo perder mais. Eu não posso olhar para o futuro que estamos sendo negados e admitir que poderíamos ter tido algo além da amizade que eu já conheço. Se eu olhar por esse caminho, que agora está fechado, e ver algo lá, sempre vislumbrando, mas nunca alcançando, nunca conhecido, isso poderia me quebrar por completo.
Mas agora não é sobre mim. Se ele precisar, então que seja dito. E Jefhar me ajude.
Eu sinto seus membros relaxando. “Lúthien” ele diz, a voz arrastada. “Eu preciso te ver.”
Eu o levanto em meus braços até que nossos rostos estão de frente um do outro. Suas pálpebras estão pesadas. Ele está tremendo. “Hadval, apenas olhe para mim. Não pense. Não tente se segurar. Apenas olhe para mim, ok?”
Ele faz isso. Seus olhos se prendem em mim como se tentasse fazer o que eu estava fazendo antes, me memorizar. Eu sei que não serei poupada, porque ele não foi.
Eu beijo seus lábios gentilmente. Sinto a tensão ser afastada e sua mão está em meu rosto. Eu o abraço apertado, nossas testas juntas novamente. Suas pálpebras estão vacilantes agora. Ele me beija de volta, o esforço parece tirar as suas últimas forças. Sua mãos se cerram em minha jaqueta enquanto seus olhos brilham quando olha pra mim. “E quero que você seja a última coisa que vou ver.”
Eu mantenho seu olhar. Eu sinto cada segundo como uma faca em minha pele, mas ainda assim mantenho. Eu não vou desviar o olhar, pois isso é sagrado e eu já passei do ponto sem volta, de qualquer maneira. Ele suspira algumas vezes e afunda. Seus olhos fecham.
Ele está dormindo agora. Não vai demorar.
Eu o mantenho perto, me agarro nele. Eu beijo sua face várias e várias vezes. Eu consigo perceber que estou conversando com ele, mas não sei o que estou dizendo. Talvez estou dizendo que o amo. Talvez estou dizendo que nunca amei mais ninguém e que nunca irei. Posso estar amaldiçoando-o por me deixar. Realmente não faço idéia. Não importa. Tudo isso é verdade, mesmo se eu estou dizendo ou não.
Ele dá seu último suspiro poucos minutos depois. Exala e então... Nada.
Eu encaro seu rosto. Não é real.
Ele não pode me escutar agora. Então eu digo tudo de novo e dessa vez eu sei que estou fazendo. Eu converso com ele até minha voz sumir.
Ulian e Lenyan estão lá. Quando chegaram? Eles estão se debruçando sobre nós, seus rostos estão tristes. Lenyan está chorando. Ulian veio com os homens da funerária que irão levá-lo. Eu não deixo. Lenyan está me segurando e finalmente ele e Ulian me persuadem a soltá-lo. Eu não consigo olhar. Eu vou para a janela e Lenyan me abraça por trás. Escuto o farfalhar e rodas na escada e o ranger da maca, eles estão quase partindo quando os impeço.
“Esperem. Um momento.” Eu deveria soar calma o suficiente para eles pararem quando eu peço. Ele está coberto por um lençol. Eu vou até a maca e retiro o lençol.
Eu apenas observo. Talvez eu tivesse algo pra dizer, mas agora já se foi. É tarde demais. O homem que eu perdi não era apenas meu melhor amigo, não mais.
Eles o levam. Ulian me abraça, e é um tanto alarmante, mas eu preciso. Ele se vai e Lenyan me observa como um falcão.
Eu atravesso a sala até o sofá. Eu faço apenas metade do caminho. Minhas pernas se afivelam lentamente e eu estou sentada no chão, encarando o vazio. Ele se junta a mim e segura minha mão.
Eu não sinto nada.
—*-
O funeral é bem planejado. O que não me surpreende. Muitas pessoas admiravam Hadval. Muitos mais não o suportavam. Mas ninguém que chegou a ter contato com ele o esqueceu e parece que todos eles foram compelidos a aparecer aqui.
Eu estou sendo tratada como a viúva em luto. Na verdade deveria ser a sua mãe, mas todos pensam que essa suposição é apropriada, incluindo a própria mãe dele.
Apesar dos meus medos, ela não me culpa. Devon diz que ela odeia despedidas e não saberia como lidar com a despedida de Hadval, então está bem. Ela parece entender. Ela me abraça e diz que está feliz por ele ter ficado comigo em suas horas finais.
Eu me levanto para fazer o discurso. Eu apenas faço porque não consigo imaginar outra pessoa o fazendo. Eu falo sobre sua mente brilhante, a dedicação pelo seu trabalho. Sobre as pessoas que ele ajudou e os criminosos que trouxe para a justiça. Eu não falo sobre como ele fazia me sentir viva, ou como seus olhos brilhavam quando o pôr-do-sol deslizava por trás dele.
Eu digo para os que estão de luto que ele era meu amigo e que estou honrada por ter conhecido e trabalhado com ele. Eu não digo para eles que o amo, e que ainda amo, e que se eu tivesse um pedido no mundo seria que fizesse isso parar.
—*-
Hadval me deixou tudo. Ele tinha a fortuna que eu suspeitava. Ele com certeza nunca precisou de um colega de apartamento. Mas eu já sabia por algum tempo que minha presença serviu a muitos propósitos, o mínimo era financeiro. Eu me sinto distante por um tempo. Eu tiro umas férias da clínica. Gasto o tempo reorganizando o apartamento.
Uma noite eu abro seu bloco de notas. Coleções de crimes, deduções, amostras. Suas notas estão rabiscadas por todo o lugar com sua caligrafia aranhesca. Eu me sento e o escuto conversando comigo pelas notas. Eu leio o bloco todo. Então eu leio o próximo e o próximo.
Dentro de um mês eu li tudo que era dele naquele apartamento. Eu trouxe armários para organizar seus papéis bagunçados. Eu posso colocar minha mão em qualquer pedaço de referência que eu precisar em segundos. Eu não sei porque eu sinto que preciso dessa habilidade, mas eu deixo tudo pronto.
Ulian me liga seis semanas depois do funeral. “Caso estranho,” ele diz. “Um homem foi encontrado morto, nenhuma marca nele. Quarto trancado, sem janelas.”
“E?” Estou confusa.
“Você vai vim?”
“Eu?”
Ele suspira. “Você é a melhor opção, Lúthien.”
Então eu vou. Todos me encaram. Eu devo parecer completamente deslocada sem uma figura alta usando um sobretudo preto ao meu lado. Eu fecho meus olhos antes de entrar no quarto, quando eu os abro novamente, ele está ali comigo.
Eu observo, vejo coisas que eu não conseguiria ver antes. Eu não me engano achando que vejo tudo o que ele veria. Mas vejo muita coisa. E acontece que vejo o suficiente.
Eu me viro para Ulian enquanto estou indo embora. “Eu não sou como ele, Ulian. Estou feliz por ajudar se puder. Mas irei cobrar por isso.”
Ele sorri. “Como quiser, Doutora Lúthien.”
Da próxima vez, sou mais rápida. A vez depois daquela, estou mais completa.
Eu me sento em minha casa com os casos no meu colo e conversamos sobre. “O que você acha da carteira?” Ele me pergunta.
“Ele estava na academia na noite anterior.”
“Como deduziu isso?” Ele duvida. Hadval nunca acreditou em rotas tradicionais de inquérito. Carteiras, diários, ligações de celular. Óbvio demais.
“Ele tinha uma pilha de cartões bem grossa ali. Cartões de crédito, cartões de membro, cartões de banco. O cartão de verificação é o segundo cartão de trás. É onde fica o cartão que as pessoas usam mais regularmente, então ele devia ter o hábito de usar aquele cartão o colocando por detrás da pilha. O cartão da academia é o último, então ele deve ter usado logo depois do cartão de verificação da última vez. Muitas pessoas não vão longe sem o seu cartão de verificação, então ele provavelmente estava na academia na noite antes de morrer.”
“Hmm. Estou impressionado.”
Eu dou um sorriso. “Você nunca diria isso se realmente estivesse aqui.”
“Estou ofendido por essa acusação, Lúthien.”
Algumas vezes eu quase consigo vê-lo. Eu fecho meus olhos e sua imagem vem a minha mente. “Eu te amo.”
Ele não responde. Ele nunca responde quando digo isso.
Seis meses depois, eu me demito da clínica. Tenho um novo cartão de visita. Lúthien Hunter, M.D. Detetive de Consulta.
Ainda a única no mundo.
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