Sozinha
1 One
Notas iniciais
A campainha toca e eu acordo.
Mal sustento minhas pálpebras, arrisco algumas vezes tornando a fecha-las na sequência, a cortina aberta permite a iluminação agredir meus olhos fracos pelas horas de sono.
A campainha toca novamente e eu levanto.
Minha cabeça dói, meus olhos custam a permanecerem abertos sem piscar seguidamente, dedico minhas mãos em um nó no roupão florido que esconde minha nudez.
Abro a porta e me encontro de pé no lado de fora da casa.
— Finalmente!
Jogo meus braços ao redor do meu pescoço com uma saudade imensa. Sinto meu corpo tenso e fico triste, porém conformada, havia feito por merecer aquele tratamento.
— Por favor, entre! — Peço extasiada quando solto meu próprio corpo magro.
Meus olhos desconfiados me fitam e meus pés dão um pequeno passo tímido para dentro da minha casa. Sem deixar me abater, pelo menos não demonstrar que me abati, fecho a porta e volto minha atenção para a mulher, que sou eu, parada na sala de estar.
— Você quer um chá? Um café? — Não gosto de café, penso.
— Não quero incomodar. — Respondo como uma estranha em um ninho estranho lidando com uma pessoa desconhecida.
— Não é incômodo. — Respondo passiva e noto um lapso de desacordo com o que eu disse como se ela me lê-se e deduzisse que menti.
Suspiro e me vejo na defensiva. Me sinto um incômodo para mim mesma.
Frustrada sigo para a cozinha.
— Você não vem? — Pergunto no caminho.
Logo as duas eus estão na cozinha. Me convido a sentar e sento na única cadeira vazia acoplada na pequena mesa redonda. Sentadas, uma de cada lado da mesa, se encarando a espera de um acordo... Quem estou enganando? Quero meu perdão. Antes que eu possa falar sobre o clima me interrompo:
— Me perdoa.
Me desarmo no ato e vejo a outra eu desconfortável. O mesmo olhar de quando disse não ser um incômodo.
— Não posso.
Compartilhamos um olhar sofrido.
Eu fiz besteira.
— Eu nunca mais vou me apaixonar. — Pareço firme. Pareço.
Ela sorri complacente.
— A gente falou isso da última vez.
De fato, falei. De fato, tentei. De fato... falhei e me machuquei. E não foi a primeira vez assim como não é a primeira vez que me encaro e juro nunca mais fazer de novo.
— Ele parecia diferente.
— A gente falou isso da última vez. — Repito.
As mesmas promessas quebradas. Se eu pudesse choraria nesse momento, mas sinto que meu corpo produziu e esgotou todas as lágrimas que podia para mais uma história sobre amor sem amor. Fico em silêncio.
— Você ainda não entendeu.
Olho meu outro eu pegar em minhas mãos feridas, suas mãos também estão machucadas, marcadas por mais um óbito amoroso.
— Amar a outro não machuca tanto quanto não amar a si mesma. — Uma pausa dramática aflige meus lábios e eu apenas fito minha outra eu engasgando com a mesma dor. — Me ame. — Um lágrima silenciosa desce por nossas bochechas. — Se ame.
— Eu amo! — Sorrio em meio a lágrima simulando a mentira que a ninguém convence. — Eu me amo! — Suplico.
Meu outro eu sorri me dando esperança. Repentina esperança. Uma dose que se espalha instantaneamente nas minhas veias. Me sinto bem, diferente da hora em que me levantei e de como fui me deitar nas noites anteriores. O vazio de outro desamor foi preenchido pelo amor próprio e enfim tudo ficaria bem.
Me engano. O sorriso na outra eu se esvai levando com ele a droga da esperança.
A campanhia toca novamente e eu levanto. É automático.
Levanto de supetão soltando as mãos, as minhas mãos, que me passavam conforto.
Abro a porta e encontro um homem bonito de cabelos encaracolados. Ele me beija os lábios levemente e caminha para dentro da minha casa sem pedir licença.
— Tem chá? Tem café? — A voz firme pergunta entrando na cozinha e eu corro atrás a tempo de vê-lo tirar uma xícara de café pronto de uma das prateleiras. Uma trilha de fumaça se faz acima da xícara simulando uma água que nunca foi fervida. — Sinta-se em casa. — Me ouço falando sem a boca ter aberto enquanto a outra eu permanece de cabeça baixa no mesmo lugar de antes.
— Senta. — Ele me ordena a sentar na cadeira vazia e empurra minha outra eu para o chão sentando na cadeira que antes estava ocupada.
A outra eu fica no chão, estática sem resquícios de força e eu me levanto chocada.
— Por que fez isso?!
Ele levanta e caminha até meu lado ignorando a parte de mim que está no chão, a tornando invisível.
— Eu sinto muito...Eu não quis fazer isso... Eu te amo. — Seus braços fortes me enlaçam, mas não sinto a sensação de bem estar que senti momentos antes com minhas próprias mãos me tocando.
E mesmo assim concordo com ele.
Ele sela nossos lábios e novamente senta na cadeira tomando um gole de seu café. Me sento agora cansada como se não tivesse acabado de acordar.
A voz grossa preenche a cozinha sem parar. Ele fala, fala, fala tão rápido que não entendo. Desconcertada escuto um choro baixinho, o meu choro com lágrimas que achei estarem esgotadas e me ajoelho ao lado de meu corpo sofrido. O homem sentado continua a falar sem parecer notar que não estou mais na sua frente.
— Ele não fez por mal.
Falo num fio de voz tentando perdoar a atitude do homem.
— A gente falou isso da última vez. — Seu rosto está molhado com lágrimas salgadas. — A gente falou isso da última vez. A gente falou isso da última vez. A gente falou isso da última vez… — Seu tom de voz aumenta, o tom de voz do homem a acompanha. As falas repetidas agora são gritos que competem para ver que é o mais alto. Caio de bunda no chão e coloco minhas mãos em meus ouvidos não querendo escutar nenhum dos dois. De repente o som abafado se transforma em silêncio e, ao abrir os olhos que nem percebi ter fechado, encontro a solidão na cozinha branca.
Sozinha.
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